O próximo (grande) teste de Marcel Keizer: a prova do autocarro

José DuarteDezembro 7, 20184min0

O próximo (grande) teste de Marcel Keizer: a prova do autocarro

José DuarteDezembro 7, 20184min0
O CD Aves é o próximo grande adversário do novo Modelo de Marcel Keizer que vai tentar conquistar uma 4ª vitória consecutiva. Mas tem havido evolução de jogo para jogo?

Aqueles lugares comuns que buscamos para falar do futebol são sempre actuais. O futebol desperta paixões é um deles e que a paixão tolda a razão é outro que também se pode usar para nos referirmos à ciclotimia crónica de que enfermam os adeptos e não menos os comentadores do fenómeno desportivo.

Senão vejamos: a 15 de maio o Sporting Clube de Portugal sofria um rude golpe infligido directamente no coração que não apenas lhe poria em causa o seu prestigio como o deixaria depauperado de um parte substancial dos seus melhores valores como o deixaria imerso numa profunda crise cujos contornos e consequências estão anda por apurar.

A época que se avizinhava era aguardada até nas versões mais optimistas como uma penosa travessia do deserto. Impressão que se foi cimentando com um estágio de pré-época digno de uma equipa amadora em excursão, um treinador sem qualquer carisma e de imagem desgastada junto dos adeptos, que só o resgate de Bas Dost e Bruno Fernandes ajudaria a atenuar. Hoje percebe-se ainda melhor o quanto esta acção acabaria por ser determinante para a saúde do actual Sporting.

Mais do que os resultados seriam as paupérrimas exibições a obrigar Frederico Varandas a sair do seu cadeirão de conforto que o desresponsabilizava da escolha do treinador. Isso e um discurso desmotivante e desagregador de Peseiro, incompreensível mesmo à luz das circunstâncias difíceis que encontrou para o desenvolvimento do seu trabalho. Ainda assim a escolha do momento e do nome do treinador acabaria por surpreender toda a gente.

Mas mais do que o nome e o momento está a ser a forma discreta mas eficaz e convincente que Marcel Keizer soube dar a volta a uma equipa sem alma e, porque não dizê-lo, de reduzidissima auto-estima.

Resultados e exibições eloquentes e em crescendo depressa fizeram esquecer o ribombar das criticas e dos receios expressos sobre o acerto da decisão. Na sua maioria por se fixarem no curriculum e outro tanto para esconder a ignorância total.

Faltou perceber que mais do que qualidade o curriculum atesta o passado e as circunstâncias em que ocorre e não tem que significar uma sentença sobre o futuro. A verdade é que só mesmo quem conhecia o treinador e o seu trabalho lhe poderia adivinhar o potencial que agora a rápida e dramática forma como operou a transformação da equipa todos se apressam a reconhecer.

O Sporting de Keizer deve muito da sua subida de auto-estima e de qualidade exibicional à simplicidade de processos como reorganizou o modelo de jogo que se baseia numa maior proximidade de sectores e individual, que permite não só maior posse como uma resposta mais pronta e melhor organizada quando a bola é ganha pelo adversário.

A procura dos cruzamentos constantes, à procura do milagre habitual de Bas Dost, foi substituída por uma maior procura e ocupação do corredor central, sem medo de enfrentar o bloco defensivo do adversário. A forma, o número de elementos que coloca e a qualidade como chega às zonas frontais à baliza adversária definem grande parte do sucesso das finalizações, que aumentaram significativamente.

Claro que os dois encontros iniciais não foram muito convincentes para críticos e adeptos, muito pelo baixo valor facial dos adversários. E nem a goleada, cada vez menos usual, aplicada ao Qarabağ FK, diminuiu a controvérsia sobre a escolha Keizer.

O encontro com o Rio Ave assumiu-se como o derradeiro teste à consistência da equipa verde e branca. Como se sabe hoje, o teste foi passado com distinção, provocando a rendição da critica e dos mais indecisos.

Como é bom dever algum do sucesso imediato se deve, além dos méritos do treinador, ao factor surpresa. Factor que tenderá a desaparecer no imediato, com os técnicos adversários a terem mais tempo para analisar o “modelo Keizer” e a construírem os seus próprios antídotos.

Os próximos quatro jogos do Sporting serão jogados em casa e aí será possível ver como se propõem os adversários a enfrentar os leões. Aí veremos se a proposta de Marcel Keizer também é à prova de dos tradicionais autocarros a que recorrem muitas vezes as equipas de menor recurso.

Além desse há um outro teste a enfrentar pelos homens do holandês até agora tranquilo: a impaciência do tribunal de Alvalade por oposição à serenidade e jogo de aturados equilíbrios que a equipa exibiu em Vila do Conde e onde se fundaram muitas das razões para o sucesso alcançado.


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