Grupos empresariais em Portugal e Espanha: o que esperar

Ricardo João LopesFevereiro 27, 20256min0

Grupos empresariais em Portugal e Espanha: o que esperar

Ricardo João LopesFevereiro 27, 20256min0
Os grupos empresariais estão a ganhar força no futebol e Portugal não escapa à atenção desta nova moda que já chegou a alguns clubes por cá

Os conglomerados de equipas, geralmente liderados por uma empresa, estão cada vez a ter mais força no futebol, nomeadamente no panorama internacional. A Red Bull criou o seu próprio império, com equipas por vários continentes, sendo que certos projetos não resultaram como previsto e viram as suas portas serem fechadas, como o Red Bull Brasil e o Red Bull Ghana.

O City Group é o grande rival neste aspeto da marca de bebidas energéticas. Neste caso existe menos intransigência do que no primeiro exemplo, já que as equipas aparentam ter um pouco mais de independência entre si, especialmente o Girona e o Bahia. Existem centenas de outros exemplos de grupos menores ou de empresários que possuem partes de instituições, que criam ligações improváveis.

Em Portugal, o Casa Pia conta com Robert Platek como grande investidor do seu projeto (que aparenta ser bem sustentável e de longo prazo), é um clube irmão do Spezia, por exemplo. Porém, não é uma ligação tão clara e evidente como as anteriormente referidas, onde existem empréstimos e compras entre conjuntos de maneira recorrente, algo que inclusivamente já chamou a atenção da FIFA e da UEFA, especialmente no que diz respeito à participação de turmas do mesmo grupo empresarial nas mesmas provas europeias ao mesmo tempo.

Existem dois casos que podem levar Portugal a ingressar com mais força neste mundo de grupos empresariais de uma forma muito mais clara do que no exemplo do Casa Pia. Tondela e Casa Pia podem passar em breve para mãos de espanhóis (a SAD do conjunto da Beira Alta já pertence a um castelhano), que já contam com outras equipas.

No caso do Tondela, a Élite Gestión y Administración está muito interessada em investir oito milhões de euros para garantir a gestão de futebol da equipa da Segunda Liga. Já no exemplo do Chaves ainda não existem valores, mas é a família Mouriño que está atenta (tal como já esteve de olho no Paços de Ferreira), reafirmando o desejo de contar com uma equipa do norte de Portugal em sua posse. Temos aqui dois exemplos de modelo totalmente distintos.

A Élite Gestión y Adminitración possui a SAD do Ferrol, equipa da La Liga Hypermotion, que se encontra na zona de despromoção, já com poucas chances de se salvar. A empresa teve o mérito de trazer os galegos de regresso ao futebol profissional e em 2023/24 a equipa montada tinha qualidade, com nomes como Iker Losada ou Carlos Vicente, nomes de La Liga e com créditos firmados. O décimo lugar da última temporada reflete bem a segurança que o projeto demonstrava, imagem que em 2024/25 não está a conseguir passar.

É altamente improvável que o Tondela venha para ser uma equipa secundária neste grupo. O Ferrol estará no terceiro escalão do futebol espanhol em 2025/26, enquanto que os beirões correm o risco de serem promovidos e atuarem na Primeira Liga. Não deverá existir um protagonista, algo claro no City Group ou no Red Bull Group. Não está fechada uma porta para um intercâmbio de jogadores entre as duas instituições, mas não haverá a relação clube mãe e clube satélite.

 

No exemplo do Chaves a situação é distinta. A família Mouriño é a proprietária do Celta de Vigo e seguramente quer que a sua atual equipa se mantenha no centro do projeto, continuando confortável na La Liga. Os flavienses estariam muito mais próximos dos galegos e podiam ser o seu ‘Red Bull Salzburg’, permitindo que alguns jogadores deixassem os Balaídos por empréstimo ou até mesmo em definitivo, caso não consigam vingar no país vizinho.

O Celta de Vigo possui uma equipa B, que está no terceiro escalão, mas o Chaves funcionaria para alguns como um espaço intermediário, de forma a que alguns jogadores chegassem aos A’s com mais rodagem e experiência. A proximidade geográfica permitiria um melhor controlo do clube, inclusivamente. Neste exemplo, a relação seria mais notória, com um protagonista óbvio e uma dependência clara.

O Chaves teria as chaces de receber jogadores com uma boa margem de crescimento ou até mesmo elementos com rodagem de La Liga, mas sabendo de antemão que poderia vê-los sair de regresso à base, em caso de sucesso. São as duas faces desta moeda. Todos até podem sair beneficiados com este estilo de negócio, mas para o Chaves ficará apenas o mérito desportivo que consiga obter com os jogadores, já que o financeiro irá para a família Mouriño.

O futebol português e o espanhol estão cada vez mais ligados. Existem cada vez mais jogadores castelhanos a rumarem à Primeira e Segunda Ligas, com esperança de vingar no profissional e os resultados têm sido francamente positivos. Nomes como Mário González, Iván Jaime, Toni Martínez entre dezenas de outros chegaram ao solo luso praticamente como desconhecidos e hoje em dia são atletas com créditos firmados. As equipas portuguesas começaram a investir nos jogadores espanhóis sem grandes receios, roçando em alguns casos o exagero e possivelmente o baixo critério.

Os empresários também notaram o crescimento desta relação e cada vez mais os jogadores são oferecidos para atuarem por cá. O futebol português não está ao nível do praticado no país vizinho, mas é uma ótima plataforma de crescimento e os grupos empresariais já repararam nisso e contar com uma equipa fora das Big 5, mas num patamar de competição elevada, pode trazer resultados muito positivos para o futuro, onde todos saem beneficiados, embora a independência seja perdida, pelo menos no aspeto negocial.

Nestes dois casos, Chaves e Tondela, especialmente os transmontanos, terão que avaliar bem a sua situação. Contar com um grupo empresarial por detrás levará a um outro poderio financeiro que nenhuma das equipas detém, mas a identidade e os valores são assuntos inegociáveis para os associados. As direções, e volto a reforçar o exemplo do Chaves, terão que ser intransigentes neste ponto, que é mais importante para os adeptos que os resultados.

Este é o último grande passo entre a ligação futebolística de Portugal e Espanha. Primeiro, o intercâmbio recorrente de jogadores, com resultados para as duas partes. A partir de 2025/26, se tudo decorrer naturalmente, a mistura de clubes que passam a ter ligações improváveis. A Liga Ibérica parece ser um passo impossível neste momento, porém daqui a 50 anos quiçá não digamos o mesmo.


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