O grande desafio de Marcel Keizer está a começar

José DuarteNovembro 19, 20186min0

O grande desafio de Marcel Keizer está a começar

José DuarteNovembro 19, 20186min0
O primeiro desafio do novo treinador do Sporting Clube de Portugal está para chegar e os adeptos aguardam mudanças. Conseguirá Marcel Keizer trazer estabilidade a Alvalade?

Se o despedimento de Peseiro não pode ser considerado uma grande surpresa, talvez o momento escolhido para o realizar o tenha sido. Mas a grande surpresa seria a revelação do nome escolhido para a liderança da equipa técnica da equipa principal do futebol do Sporting: Marcel Keiser. O grande desafio que tem pela frente está prestes a começar, com o primeiro jogo oficial.

Numa altura em que a nova administração ainda procura a afirmação em circunstâncias difíceis, a escolha natural e esperada seria um nome consagrado, de curriculum recheado de vitórias. Dessa forma a direcção comprava algum tempo da tolerância que normalmente é concedida aos nomes mais conhecidos e titulados. Ou talvez um nome nacional ou já conhecedor das especificidades do nosso campeonato.

O TRABALHO NA NOVA GERAÇÃO DE CAMPEÕES DO AJAX

A preferência por uma escola de treinadores – a holandesa – mergulhada no ocaso, depois de ter liderado uma profunda revolução no futebol mundial parecia, de todo improvável. As lições deixadas pelo mestre Rinus Michels e bem aproveitadas pelos seus inúmeros discípulos foram cristalizando no tempo e conhecendo antídotos mais ou menos eficazes. Com o tempo não sofreram actualizações  no seu país de origem, e desde que Johan Cruijff se aposentou, são de outra nacionalidade aqueles que aperfeiçoaram o seu rico legado, mantendo-o como vencedor.

Refeitos da surpresa, há que perceber a decisão. Gostando-se ou não do nome escolhido, há pelo menos que reconhecer que a escolha não pode ter sido casual, há ali muito de objectivo e intencional. Há que reconhecer também a coragem em tomá-la porque, como foi já dito acima, se não foi o brilho do curriculum, a escolha de Marcelo Keizer configura pelo menos a busca por um potencial que se crê que possua.

Desse potencial há um que está claramente identificado: a atenção dada à formação. Se há alguma coisa que ressalta do curriculum de Keizer é precisamente o seu trabalho no Ajax Jong, a equipa B que pontua no escalão secundário da liga holandesa. Foi sob a sua batuta que o clube de Amsterdão ofereceu ao futebol mais um lote notável de jogadores como Onana, de Ligt, de Jong, ou Justin Kluivert.

Um outro nome que fazia parte desse lote – Abdelhak Nouri – já não é jogador de futebol e a forma trágica como esse desaparecimento sucede acabou por ser determinante para a rápida saída de Keizer do comando da equipa principal do Ajax, quando se esperava a continuidade do trabalho efectuado na segunda equipa. Como Frederico Varandas seguiu daí ao seu trajecto até ao Al-Jazira é seguramente uma das grandes interrogações desta contratação.

Mas por mais proveitoso que venha a ser o trabalho do treinador holandês no aproveitamento da Academia e por mais que sejam os jogadores que venha a revelar, serão os resultados que servirão de barómetro e determinarão a longevidade da sua presença em Alvalade. Questões de ordem pessoal, como as da sua personalidade e respectiva adaptação a Portugal, ou do seu relacionamento com o plantel ou mesmo profissionais como o modelo de jogo e a operacionalização das suas ideias e aplicação ao treino são certamente importantes.

Há que reconhecer que Keizer não estará sozinho na sua tarefa. Há um trabalho de fundo que tem vindo a ser realizado no sentido reestruturar o futebol leonino, dotando-o de recursos humanos que permitam a realização de um trabalho sustentado e não apenas uma aposta do tipo “all in”, como a realizada nas épocas de Jorge Jesus. Uma regeneração há muito necessária até por comparação de estruturas dos “Três Grandes”.

O DESAFIO DO HOLANDÊS EM ALVALADE

Mas num clube como o Sporting os resultados são quase sempre o mais importante. Quase porque, como se viu com Peseiro, os resultados nem foram o pior, se compararmos com a pobreza das exibições. A tentativa de passar a ideia de que “ainda estamos em todas as frentes” não vingou nem poderia vingar, porque a ausência do grau mínimo de “nota artística” não era compaginável com  o estatuto de grande e inclusive retirava a esperança (ou até a ilusão…) de manter a luta por um lugar no pódio sequer.

Este discurso de “todas as frentes” só foi possível pelo começo anormal dos principais rivais, ao perderem pontos de forma pouco esperada. Em condições normais, a frente do campeonato estaria ainda mais longe do que já está a da Taça da Liga, onde o Sporting defende o título.

É aqui que começa o primeiro grande trabalho de Marcel Keizer: colocar a equipa principal do Sporting a jogar de forma mais atractiva, não apenas para devolver a esperança, mas também o gosto pelo jogo. Grande mas também complexo.

Não apenas porque o tempo e as condições estão longe de ser as ideais, mas também pelas circunstâncias em que recebe a equipa das mãos de Tiago Fernandes. O segundo lugar herdado funcionará como uma medida de comparação e avaliação do trabalho do treinador holandês.

Em condições normais Marcel Keizer teria a época em curso para lançar as bases do seu trabalho e das suas ideias para abordar a próxima época num plano mais próximo da concorrência. Mas condições normais é tudo quanto está longe de se verificar num Sporting ainda a viver na agitação permanente que as réplicas do profundo abalo sofrido na época transacta provocam.

Se se espera que apoio não lhe falte a nível da estrutura directiva – pela clara aposta pessoal do seu líder, Frederico Varandas – sobram muitas dúvidas pelo lado externo. São tão vastos os problemas e as divisões, que só um percurso imaculado permitirá a estabilidade necessária para as grandes conquistas. O desafio de Marcel Keizer é de facto enorme. Mas não é apenas dele, é de toda uma instituição que pela enésima vez volta a lançar os dados à procura da sorte.

A pequena herança de Tiago Fernandes (Foto: Lusa)

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