Campeonatos do Sporting Clube de Portugal – Afinal são 18 ou 22?

José Nuno QueirósDezembro 18, 202012min0

Campeonatos do Sporting Clube de Portugal – Afinal são 18 ou 22?

José Nuno QueirósDezembro 18, 202012min0
O Sporting voltou a apresentar na FPF um documento que traz de novo à tona as dúvidas no número de títulos. Afinal o Sporting têm 18 ou 22 campeonatos?

Voltou mais uma vez à baila a polémica dos campeonatos do Sporting. Afinal são 18 ou 22? E qual é a dúvida nisto tudo? Quem tem ou não razão? Vamos então esclarecer os factos e acabar com as dúvidas.

Vamos primeiramente olhar para as 3 provas que existiram no nosso país: O campeonato de Portugal, o Campeonato da Liga (vulgarmente descrita como Liga experimental) e a Liga Portuguesa como hoje a conhecemos.

Campeonato de Portugal (1921- 1938)

O Campeonato de Portugal foi a primeira competição criada em Portugal, e logicamente, tinha como objetivo encontrar a melhor equipa do país, que seria, como o próprio nome indica, o campeão de Portugal, quanto mais não seja pela ausência de outra competição.

Numa competição iniciada nos anos 20, e como era norma na Europa a mesma foi realizada num molde de eliminatórias, visto que era absolutamente impossível a nível financeiro e a nível de transportes realizar-se a prova de qualquer outra forma.

A prova começava com torneios regionais que qualificavam as equipas para uma fase final nacional para determinar o vencedor, num registo algo semelhante ao adotado nas séries do atual campeonato de Portugal.

Ao longo dos anos o número de jogos e de equipas qualificadas para a fase final foi se alterando, consoante a evolução dos clubes e do próprio país,

Palmarés na prova: Sporting CP (4); FC Porto (4); SL Benfica (3); Belenenses (3); Carcavelinhos; Marítimo e Olhanense.

Os jornais da época consideraram, naturalmente, o Marítimo como campeão.

Campeonato da Liga (1934-1938)

Depois de uma humilhante derrota com a seleção espanhola a Federação decidiu experimentar uma nova competição, que ficou conhecida como “Liga experimental”, de forma a verificar se era possível adotar o sistema de liga, todos contra todos, como hoje o conhecemos.

Como é natural na altura ficaram dúvidas nos clubes sobre qual seria a prova principal, algo prontamente esclarecido pela FPF e que se pode ler no seu livro de bodas de diamante transcrevendo a ata da época em questão, onde se esclarece que esta se tratava de uma competição experimental:

(…)Ficou resolvido promover a título experimental os campeonatos da Liga, I e II Divisões, sem prejuízo dos campeonatos distritais, nem do campeonato de Portugal(…)

Ficou portanto bem claro para todos qual era a competição principal. Esta decisão foi ainda reforçada pela forma como era realizada esta nova Liga.

Era uma competição que carecia do estatuto de nacional pois só permitia a entrada de clubes da AF Lisboa, Porto, Setúbal e Coimbra, sendo fácil perceber que uma competição tão restritiva do ponto de vista territorial nunca podia ser usada para encontrar um campeão nacional, algo mais uma vez esclarecido pela própria federação:

2 – Ao Campeonato da Liga da 1 Divisão – também em “poule” – houve que limitar a entrada a 8 clubes de um reduzido número de Associações (4) – Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal -, o que o impedia, por restrição territorial de ter o estatuto Nacional.

Este argumento é o mesmo que é utilizado pela UEFA para não considerar a Taça Latina e a Taça Mitropa como troféus continentais (no caso Europeus), uma vez que restringiam os clubes participantes a um reduzido número de federações.

O campeonato da Liga passou depois a servir como fase de qualificação para o próprio campeonato de Portugal durante os 4 anos em que as duas provas coincidiram, com 8 clubes da 1ª divisão a juntarem-se a 6 da 2ª e a 1 representante das ilhas, algo mais uma vez explicado pela própria FPF, onde esclarece que não se pode misturar a contagem dos campeonatos da Liga com a Liga portuguesa que começou depois:

(…)O campeonato da Liga- prova subjacente do Campeonato de Portugal para a qualificação das equipas com direito a disputá-lo- nunca pode ser equiparado aos nacionais, iniciados em 1938/39 (…)

Palmarés na prova: SL Benfica (3) e FC Porto

 

Liga Portuguesa (1938 – dias de hoje)

A partir de 1938/39, o campeonato passou a ser disputado sempre da mesma forma até aos dias de hoje (alterou-se o número de equipas e a vitória deixou de valer 2 pontos para passar a valer 3, mas grosso modo o modelo foi o mesmo).

E, naturalmente, levantou-se nessa altura uma dúvida no país acerca da contagem (porque isto surgiu logo na década de 30 e não apenas no século XXI como muitos acham). A dúvida era se este era o 1º campeonato ou o 18º campeonato, contando as 17 edições do Campeonato de Portugal. Nunca se pôs em causa, sequer, esta ser a 5ª edição, contabilizando com as 4 edições do Campeonato Experimental.

Os jornalistas da época tinham as mesmas dúvidas que surgem agora.

Mais uma vez e por causa das dúvidas a Federação esclareceu quem seriam os campeões, dizendo que seriam os vencedores do Campeonato de Portugal e os novos campeões daí em diante, ignorando a prova experimental da contagem, pelos motivos acima referidos, referindo ainda que no período em que estiveram em vigor as duas competições a “prova máxima” era o campeonato de Portugal:

São campeões de Portugal todos os clubes que ganharam esta prova, propriamente dita, de 1921/22 até 1937/38 e serão campeões nacionais os clubes que vierem a ganhar a competição, organizada em novos moldes, a partir de 1938/39

A questão nunca se levantou pondo em causa os campeonatos da Liga, que foram importantes e tiveram a sua história, mas nunca foram considerados, oficialmente, nacionais. Nas quatro épocas em que se realizaram, a prova número um foi o campeonato de Portugal. E, claro, que não podia de modo algum proclamar-se, na mesma época, um campeão de Portugal e um campeão nacional. Seria um absurdo.

Neste seu livro a FPF diz mesmo que este esclarecimento serviria para acabar com todas as dúvidas, mas pelos vistos nem com as dúvidas da FPF conseguiu acabar, apesar de poder usar o seu site para as tirar.

Na sua própria página a FPF classifica os vencedores do Campeonato de Portugal como “campeões da modalidade em Portugal”.

Palmarés na prova: SL Benfica (34); FC Porto (28); Sporting CP (18); Belenenses e Boavista

O Volte face na contagem

Até 2005 a Federação contabilizava os títulos como tinha esclarecido, mas no final da época 2004/2005, sem qualquer explicação foram contabilizados os títulos da Liga experimental depois de mais de 60 anos em que isso nem foi sequer discutido.

Tudo porque aquando do campeonato ganho pelo Benfica (2004/2005) surgiram 3 versões diferentes nos 3 principais jornais desportivos, quer contabilizando apenas 28 títulos (jornal Record), quer 31, ora contabilizando os 3 do campeonato de Portugal (O Jogo) ora os 3 da Liga experimental (A Bola).

Esta dúvida acabou por recair, sem qualquer fundamento histórico e contrariando tudo o que a FPF havia decidido, pela opção de contabilizar os campeonatos da liga experimental.

 

Vamos agora desfazer alguns mitos que foram criados, como tentativa para contrariar a tese defendida pelo Sporting.

Mito da Taça de Portugal

Muita gente diz que os campeonatos de Portugal são a mesma coisa que a Taça de Portugal. Algo que não podia estar mais errado. Caso assim fosse o Sporting teria na sua contagem 21 taças e não as 17 que são contabilizadas e, diga-se de forma correta.

A prova surge aquando da extinção do Campeonato de Portugal, mas apenas porque o modelo de eliminatórias era apreciado pelos clubes, tendo-se utilizado apenas no formato e não a importância da competição.

Mais uma vez no seu livro a própria FPF esclarece que foi o formato de Liga que veio substituir o Campeonato de Portugal e não foi a Taça de Portugal a substituí-lo:

Era, portanto, bem clara a intenção dos legisladores em darem continuidade ao Campeonato de Portugal, como prova do nosso futebol, substituindo, apenas, o processo dos jogos a eliminar, em vigor desde 1922, pelo maior rigor da “poule” dos nacionais a partir de 1938/39.

Mito do Formato diferente

Outra ideia que se quer passar, é a de que provas com formatos diferentes não podem ser equiparadas.

Mais uma vez as pessoas confundem aquilo que é a forma como a prova é jogada com a importância que a prova tem, vamos a exemplos que provam que formato não muda o valor da prova:

– No Hóquei em Patins o campeão era apurado através de uma liga semelhante à do futebol, no entanto em 2020/2021 vai ser decidido num modelo de playoff. Deveremos ignorar todos os vencedores anteriores a esta época?

– O primeiro Europeu de seleções foi disputado com apenas 4 equipas em meias finais e depois final, sem fase de grupos. Devemos ignorar o título da União Soviética?

– O Mundial de 82, por exemplo, foi disputado com 2 fases de grupos ao invés de apenas uma como atualmente. Devemos retirar o título da Itália?

– Os vencedores da Taças dos Campeões Europeus e da Taça UEFA devem ser descartados porque as provas foram reformuladas e até mudaram de nome?

– Na Serie A o Genoa ganhou o campeonato em 1898, num sistema de eliminatórias e não lhe foram retirados os títulos

As Soluções

1ª – Contabilizar as Ligas experimentais, ignorando o Campeonato de Portugal

Esta parece-me claramente a pior solução de todas, uma vez que é aquela que apaga a história e contradiz tudo aquilo que foi defendido pela FPF relativamente às restrições territoriais e ao facto de esta não ser a prova máxima enquanto existiu. No entanto é a solução em vigor  para contabilizar campeonatos.

Palmarés: SL Benfica (37); FC Porto (29); Sporting CP (18); Belenenses e Boavista

2ª – Contabilizar quer ligas experimentais quer os Campeonatos de Portugal

Apesar de melhor que a 1ª opção esta faz com que em 4 anos existam 2 campeões diferentes, algo que a própria FPF classificou como um “absurdo”, tendo como única vantagem não apagar uma parte da história.

Palmarés: SL Benfica (40); FC Porto (33); Sporting CP (22); Belenenses (4); Olhanense; Carcavelinhos; Marítimo e Boavista

3ª – Contabilizar o Campeonato de Portugal, relegando as Ligas experimentais para uma contagem única

Esta é a hipótese que anda de mãos dadas com a verdade desportiva e que bate certo com as atas e documentos produzidos pela FPF nas épocas em questão, contabilizando-se as ligas experimentais à parte para não nos esquecermos do significado e da importância das mesmas.

Palmarés: SL Benfica (37); FC Porto (32); Sporting CP (22); Belenenses (4); Olhanense; Carcavelinhos; Marítimo e Boavista

Acima de tudo convém não matar a história nem tentar mudá-la ao fim de mais de 60 anos como aconteceu. Há que saber respeitar o passado e as origens, e a tentativa da FPF de branquear e passar uma borracha sobre o que se passou no futebol português no seu início é muito perigosa e desrespeitosa para todos os atletas que se esforçaram para serem considerados os melhores do país. A maioria deles faleceu acreditando que foram campeões e é uma enorme falta de respeito que a FPF tente passar a ideia de que esses atletas afinal andaram a jogar “a feijões” numa competição que não é contabilizada para nada.

Para piorar, é ainda considerada, ao fim de mais de 60 anos, mais importante uma prova que era vista por todos como secundária do que a proclamada “prova máxima”. Como se sentiriam os atletas se daqui a 60 anos a federação optasse por contabilizar os vencedores da Taça da Liga como campeões, uma prova que todos nós hoje tomámos como secundária?

Se agora a Liga Portugal optasse por um sistema de liguilha como na Escócia e na Bélgica devemos passar uma cruz nas épocas todas da Liga até aos dias de hoje e contabilizar do zero outra vez?

Acima de tudo pede-se respeito pelos atletas que dignificaram o futebol numa altura em que eles é que elevavam o futebol e não o contrário porque não se ganhava fama, nem dinheiro, mas ganhava-se reconhecimento de vencer campeonatos, que infelizmente a FPF está a querer tirar.


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