Futebol Feminino Português – Onde e como apostar

Margarida BartolomeuOutubro 20, 20218min0

Futebol Feminino Português – Onde e como apostar

Margarida BartolomeuOutubro 20, 20218min0
Mudanças, melhorias e objectivos fortes, é isto que se pede ao futebol feminino português e a quem dirige. Será possível atingir outro patamar?

Numa altura em que muito se fala da evolução que o Futebol Feminino Português tem vindo a registar nos últimos anos, evolução essa comprovada pelos cada vez mais positivos resultados alcançados, quer pela nossa Seleção Nacional (permitam-me discordar dos críticos que dizem que a evolução não tem sido significativa, por não se ter traduzido numa subida no ranking, e por termos falhado o apuramento para o último Europeu), quer pelo facto de termos uma equipa (SL Benfica) presente na recém criada fase de grupos da UWCL (UEFA Women’s Champions League).

Não só os resultados coletivos têm sido muito positivos, como também a própria jogadora portuguesa tem vindo a ser cada vez mais valorizada “lá fora”, com diversas jogadoras a marcar presença em equipas que se encontram a disputar campeonatos profissionais, muito competitivos, com presenças regulares na UWCL e aspirações altas. Exemplos disso são Cláudia Neto (Fiorentina – Liga Italiana), Jéssica Silva (atualmente no Kansas City dos EUA, anteriormente no histórico Lyon), Tatiana Pinto (Levante – Liga Espanhola), Ana Dias (Zenit – Liga Russa), Inês Pereira e Mónica Mendes (Servette – Liga Suiça), e Catarina Realista e Mariana Jaleca (Åland United – Liga Finlandesa).

No entanto, estes resultados não podem ser interpretados de forma isolada para afirmar que “o futebol feminino português tem evoluído imenso”. Sim, essa afirmação é verdadeira, contudo ainda existe um (muito) longo caminho a percorrer para que se possa afirmar que o Futebol Feminino Português se encontra em claro crescimento, em clara afirmação, e próximo de se estabelecer como uma profissão sustentada para as jovens portuguesas.

Porque o crescimento de que tanto se fala não se pode apenas traduzir pelo simples facto de existirem mais jogadoras federadas, nem pelo simples facto de existirem algumas equipas e jogadoras profissionalizadas na Liga BPI. Sim, estas questões são, sem dúvida, relevantes, mas existe muito ainda por onde crescer, e muitas bases que devem ser criadas e estabelecidas, para que o crescimento que tanto se apregoa seja sustentado e duradouro. Um exemplo disso, acerca do qual não me vou alongar, passa pelos ordenados auferidos pelas jogadoras portuguesas (ou a jogar em Portugal).

Convido-vos a ler o artigo escrito pela Isaura Almeida, e publicado no Diário de Notícias no passado dia 17 de outubro ), que tão bem explica o fosso ainda existente entre o futebol masculino e o futebol feminino. A título de exemplo, e para vos deixar curiosos, a jogadora mais bem paga da Liga BPI recebe 8 mil euros mensais… e quanto recebe o jogador mais bem pago da Primeira Liga? Se calhar é melhor nem mencionar o valor, para não dar ainda mais ênfase à diferença abismal existente entre os ordenados auferidos pelos atletas de ambas as ligas.

Mas a verdade é que os problemas sentidos pelo Futebol Feminino em Portugal vão muito além dos ordenados auferidos pelas jogadoras da Liga BPI (onde as jogadoras profissionais estão em larga minoria, e as restantes talvez apenas recebam ajudas de custo), muito além dos relvados inadequados para a prática da modalidade, muito além da qualidade das equipas de arbitragem, que não tem acompanhado este crescimento.

Quando falamos em Futebol Feminino, não nos podemos esquecer que este não se restringe à Liga BPI ou às ligas nacionais (II e III divisões). O Futebol Feminino é praticado por milhares de jovens raparigas e mulheres por todo o país, mas muitas vezes as condições em que o fazem ainda são muito precárias. Relvados sintéticos (também utilizados pela larga maioria dos clubes da Liga BPI), jogadoras a “pagar para jogar”, pois os clubes não têm possibilidade (ou vontade) de as financiar, nem com uma simples ajuda para o gasóleo, treinos muito tardios, pois têm que ser agendados em horários pós-laborais, longas distâncias percorridas pelas jogadoras para poder treinar o jogar (há jogadoras a percorrer mais de 100km por treino), estádios com poucas condições, dificuldade de contratação de equipas técnicas, etc.

A verdade é que os obstáculos são imensos, mas a vontade das jovens e mulheres portuguesas tem conseguido superiorizar-se, e tem sido essa a principal razão para que o futebol feminino ainda seja praticado um pouco por todo o país.

Focando-me um pouco mais na realidade a sul (Alentejo e Algarve), pois é esta a que melhor conheço, existem apenas 2 equipas seniores de futebol em competição nacional, uma no Algarve – Guia F.C., que disputa a II Divisão Nacional, e uma no Alentejo, no distrito de Évora – GDR Canaviais, que foi formada na presente época, e disputa a III Divisão Nacional.

Enquanto que o campeonato de Futsal Feminino da Associação de Futebol do Algarve conta com 10 equipas, os campeonatos de Futsal Feminino das Associações de Futebol de Beja e de Évora contam, respetivamente, com 0 (!) equipas (embora existam 2 na AF Beja, mas apenas 1 tenha, neste momento, condições para se inscrever num campeonato/taça). Mencionei esta questão do futsal para enquadrar um pouco aquilo que vou desenvolver de seguida.

Para que o Futebol Feminino evolua em Portugal é preciso, na minha modesta opinião, que os clubes apostem nas jovens portuguesas sem medo, que as integrem nas suas equipas masculinas enquanto estas têm idade para tal, e não têm a possibilidade de integrar equipas femininas, que desenvolvam projetos para criarem uma rede de formação também no feminino, e que invistam nas equipas seniores. Sim, investimento é a palavra chave. E esse investimento não pode partir apenas dos clubes, pois muitos deles não têm dinheiro para suportar várias equipas seniores e, infelizmente, dão primazia às equipas masculinas.

Num Alentejo com uma área total de 31.551 km², existe apenas 1 equipa sénior de Futebol Feminino (Évora), 2 equipas de sub-19 (Évora e Beja), 1 equipa de sub-15 (Évora), uma equipa de Iniciadas (Beja), que também engloba algumas jogadoras sub-15 no seu plantel, uma equipa de sub-12 (Évora) e uma equipa de Benjamins (Évora). Isto deve-se, não só à mentalidade da população e dos dirigentes dos clubes, mas também ao facto de, no Alentejo, a capacidade de investimento de grande parte dos clubes ser bastante limitada, com pouco acesso a patrocínios que, quando existem, se encontram direcionados apenas para as equipas e projetos masculinos. E as despesas são grandes, pois com a escassez de patrocinadores, as longas distâncias que têm que ser percorridas pelas jogadoras, e a constante monopolização dos recursos do clube (entenda-se, carrinhas) para as equipas masculinas, a fatia do bolo disponível para as jogadoras não sustenta qualquer tipo de projeto, muito menos um que se queira fixar a longo prazo.

Desta forma, penso que é essencial que a Federação Portuguesa de Futebol continue a trabalhar para desenvolver e fazer crescer o Futebol Feminino em Portugal, mas é muito importante que deixe de se focar tanto naquilo que são as competições nacionais, no nicho que são as grandes cidades pois, a meu ver, mais importante do que profissionalizar a Liga BPI a médio prazo, será trabalhar para proporcionar as condições que vão permitir sustentar essa Liga e a sua profissionalização, ou seja, trabalhar em conjunto com as Associações de Futebol (trabalho que eu sei que já tem vindo a ser desenvolvido e que foi bastante afetado pela pandemia), principalmente com associações “problemáticas”, como é o caso da AF Beja, para que estas possam ajudar os seus clubes a crescer no que ao Futebol Feminino diz respeito, a desenvolver o carinho e paixão pelo desporto no feminino, a criar e cimentar os seus projetos, formando jogadoras para que estas possam ambicionar alcançar a principal Liga nacional.

Para isso, será preciso mudar mentalidades, criar medidas de incentivo ligadas ao Futebol Feminino, apelativas para os clubes, que os incentivem a direcionar meios humanos e financeiros para as suas jovens atletas (e adultas, pois a existência de uma equipa sénior também torna a prática da modalidade mais apelativa para qualquer menina).

O talento e o amor pela modalidade existem por todo o país. É só uma questão de lhe proporcionar as mesmas oportunidades para se desenvolver. É, assim, imperativo agir, a curto prazo, e de forma assertiva, a nível das Associações de Futebol, para ser possível exponenciar o crescimento do Futebol Feminino Português, que tem um potencial tremendo, e uma qualidade reconhecida, inerente às suas jogadoras.

“O Futebol Feminino é luta, é amor, é talento e é raça!” Marianna Moreno


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