O “Patinho Feio” de Barcelona

Bruno DiasSetembro 25, 201810min0

O “Patinho Feio” de Barcelona

Bruno DiasSetembro 25, 201810min0
Um dos clubes mais antigos e carismáticos de Espanha é muitas vezes esquecido por todos. Porquê falar do Espanyol? Nós explicamos neste artigo!

Depois de uma temporada constante e relativamente tranquila, o RCD Espanyol decidiu “abanar” com o seu projecto desportivo, trocando de treinador e deixando sair algumas das suas principais figuras. As primeiras impressões parecem ser positivas. Vamos conhecer um pouco mais sobre essa mudança.

A 20 de Abril, o Espanyol despedia Quique Sánchez Flores, treinador bem conhecido do público português pela sua passagem pelo Benfica. A sua primeira temporada ao comando dos “periquitos” foi bastante positiva, com 57 pontos e um sólido 8º lugar, às portas dos lugares europeus. No entanto, para além da segunda temporada (a transacta) não ter dado seguimento à primeira (um 11º lugar tão tranquilo quanto mediano, com 49 pontos), as divergências entre Quique e a direcção relativas ao desenvolvimento e ao objectivo do projecto desportivo levaram a que ambas as partes se separassem.

A Barcelona chegou então Joan Francesc Ferrer Sicilia ou, como é conhecido no mundo futebolístico, Rubi. Enquanto treinador, o técnico de 48 anos conta já com passagens por Girona, Barcelona (onde fez parte da equipa técnica de Tito Vilanova), Valladolid, Levante, Sporting Gijón e Huesca, clube que conduziu à primeira promoção da sua história. Foi esse bom trabalho, de resto, que levou os responsáveis do Espanyol a apostarem num técnico que, em 2006, também já tinha treinado no clube (foi técnico do Espanyol B, tendo conseguido a promoção ao terceiro escalão espanhol nessa temporada).

Com Rubi, chega também uma nova forma de abordar o jogo. Desde logo, a própria estrutura da equipa, que passa do 4x4x2 ou 4x2x3x1 para um 4x3x3 declarado, com um pivot defensivo, dois interiores de perfis distintos (um médio com um perfil de maior equilíbrio e outro com características mais ofensivas e criativas) e dois avançados móveis que jogam muito por dentro, próximos do avançado.

O “novo” Espanyol procura construir a partir da sua defesa de forma apoiada, procurando no entanto – e sempre que possível – avançar no terreno com passes verticais e capazes de quebrar linhas. A saída de bola é feita a 3, com o médio defensivo a baixar para entre os centrais e a procurar assumir a construção.

Os extremos procuram a bola a partir do corredor central mesmo nas primeiras fases de construção, sendo os laterais os responsáveis pela largura da equipa, apesar de não se projectarem em demasia (provavelmente, Rubi ainda terá algum receio de possíveis perdas de bola no seu próprio meio-campo, que possam apanhar a equipa desequilibrada e em condições desfavoráveis para reagir à perda). O avançado funciona como referência apenas em situações pontuais, sendo variada a forma como é servido (as bolas aéreas alternam com a procura da profundidade, dependendo do contexto).

No momento defensivo, é também notória essa cautela com que o treinador ainda aborda o jogo. A equipa apenas pressiona alto e de forma intensa em acções muito específicas e que variam através do contexto, preferindo antes baixar o bloco e organizar-se no seu 4x3x3 de eleição. A linha defensiva é normalmente média-baixa, procurando cortar a profundidade e obrigando o adversário a ser paciente para chegar à sua baliza. Apesar da organização estar já num nível razoável, é de notar que ainda existem alguns momentos de descoordenação inter e intra-sectores. Aspectos que, certamente, só terão tendência a melhorar com o desenrolar da temporada.

“Rubi” está a realizar os primeiros jogos ao comando do RCD Espanyol (Foto: ​www.mundodeportivo.com​)

As mudanças individuais

Não só de treinador se trocou no Espanyol. Também ao nível do plantel existiram mudanças significativas. No total, do plantel principal saíram 9 jogadores, com destaque para Gerard Moreno e Aarón Martín. O primeiro – um dos melhores avançados espanhóis a actuar na La Ligafoi vendido por cerca de 20M€ para o Villarreal, naquela que terá sido a principal perda em termos desportivos para o clube. Já o promissor lateral esquerdo de 21 anos saiu num negócio por empréstimo para o Mainz, com os alemães a pagarem já 3M€ de início, existindo também a possibilidade futura de adquirirem definitivamente um jogador que, há não muito tempo, entrou nas cogitações de Barcelona ou Manchester City. De referir ainda as saídas do guarda-redes Pau López (para o Betis), do experiente médio Jurado (para o Al-Ahli, clube da Arábia Saudita) – ambas a custo zero -, e do jovem lateral direito Marc Navarro, para o Watford.

Para colmatar estas saídas, a estratégia de mercado dos “blanquiazules” centrou-se, essencialmente, no aproveitamento dos recursos já existentes no clube, complementados com contratações cirúrgicas vindas de fora. Assim, o Espanyol acabou por recrutar apenas, na prática, dois jogadores: o lateral direito venezuelano Roberto Rosales, por empréstimo do Málaga, emblema despromovido à segunda divisão esta temporada, que chegou para ocupar o espaço deixado vago por Navarro; e o ponta-de-lança Borja Iglesias, principal contratação e investimento desta época, que chegou do Celta por cerca de 10M€. Existiu também um investimento avultado (de 8M€) para assegurar a título definitivo Sergi Darder, médio que já tinha representado o clube na época passada, por empréstimo do Lyon. Poucas mexidas, numa tentativa de maximizar o talento que já existia “em casa” e de que vamos falar de seguida.

Na baliza, tal como na temporada passada, o dono continua a ser Diego López, experiente guardião que já defendeu as redes de Villarreal, Real Madrid e AC Milan. A lateral direita é ocupada pelo capitão Javi López, e na lateral esquerda actua Didac Vilà, que na época transacta era o habitual suplente de Aarón Martín. No eixo, a dupla de Rubi tem sido constituída por Mario Hermoso (jogador associado anteriormente ao Sporting CP) e David López. No entanto, com a recente lesão deste último, é expectável que o costa-riquenho Óscar Duarte ou o brasileiro Naldo (central que passou pelo Sporting entre 2015 e 2016) assumam o lugar deixado vago ao lado de Hermoso.

No sector intermédio, falarei do médio defensivo mais abaixo, de forma mais detalhada. Entre os médios interiores, Sergi Darder parece ter lugar assegurado no 11. O médio de 24 anos leva já mais de 100 jogos na La Liga, entre Espanyol e Málaga, e a sua qualidade levou-o a actuar também durante duas temporadas no Lyon, um dos maiores emblemas franceses. Com um grande raio de acção e facilidade em ligar sectores e gerir o ritmo de jogo através do passe, Darder será importantíssimo neste processo, sobretudo nas primeiras semanas, enquanto a equipa se adapta às ideias que Rubi pretende implementar.

A seu lado, e com um perfil mais criativo, o escolhido é Esteban Granero. Apesar da sua condição física criar algum receio, ninguém duvida da qualidade e do talento do espanhol formado no Real Madrid. Como alternativa, Rubi poderá também apostar aqui em Oscar Melendo, jovem da formação do clube e a quem é apontado um potencial muito interessante. Com um baixo centro de gravidade, o drible curto e a qualidade no último passe são as principais forças de Melendo, que também pode actuar a partir de uma ala no ataque, e que terá esta temporada a oportunidade de ganhar o seu espaço na equipa principal.

Por fim, no ataque, as principais opções são o argentino Pablo Piatti, o paraguaio Hernán Pérez (regressado de um empréstimo ao Alavés), o brasileiro Léo Baptistão, o experiente Sergio García (já com 35 anos e mais de 200 jogos pelo clube) e o recém-chegado Borja Iglesias, avançado possante e que oferece maior presença na área e outra capacidade nas disputas individuais e aéreas. Pela amostra deste início de temporada, é expectável que Rubi promova uma rotação constante na frente de ataque entre estas 5 opções (provavelmente integrando também Melendo aqui, em algumas situações), consoante o contexto do jogo e as características dos adversários.

Com a velocidade e capacidade de desequilíbrio de Piatti e Pérez, a qualidade no aproveitamento dos espaços dentro do bloco adversário de Sergio García, a presença na área de Borja e a variabilidade de acções que Baptistão oferece, não será seguramente pelo seu ataque que o Espanyol deixará de atingir os seus objectivos.

Sergi Darder confere segurança à formação comandada por Rubi (Foto: www.futbolbalear.es)

O destaque

Com Rubi, o principal beneficiado a nível individual tem sido, provavelmente, Marc Roca. Aliando como médio-defensivo – vulgo “6” -, o espanhol de 21 anos, que também utiliza o dorsal #21, anteriormente usado pelo eterno Dani Jarque, desempenha um papel fundamental na manobra da equipa. Com bola, é o primeiro ponto de referência para a construção, baixando para o meio dos centrais para facilitar a saída de bola limpa da equipa e servindo sempre como referência para variar o centro do jogo, actuando sempre por fora do bloco adversário. Sem ela, apresenta excelentes competências em termos posicionais, que aliadas a uma leitura de jogo acima da média, lhe permitem conferir ao miolo “blanquiazul” um equilíbrio e uma solidez defensiva apreciáveis e que servem de base à forma como a equipa procura construir e impor o seu jogo. Um talento emergente do futebol espanhol que, de resto, já conta com presenças nas selecções de formação de Espanha, até ao escalão de sub-21.

Com 5 jornadas disputadas, a La Liga ainda está bem no início. Numa liga pautada cada vez mais pelo equilíbrio individual e colectivo das suas equipas, a possibilidade de assistirmos a um grande espectáculo em qualquer jogo é significativa. Motivo mais do que suficiente, portanto, para que esta competição continue a ser acompanhada com o máximo de interesse e atenção.

Marc Roca tem sido um dos principais destaques neste início de temporada (Foto: ​www.eldesmarque.com​)

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