25 Jun, 2018

Estilo colchonero

Pedro NunesDezembro 9, 20174min0

Estilo colchonero

Pedro NunesDezembro 9, 20174min0
O Atlético começou a época de forma intermitente, mas não é equipa de baixar os braços em nenhuma ocasião. Uma análise ao estilo colchonero de El Cholo.

Durante os últimos anos, houve ocasiões em que assistir a um jogo colchonero se equiparava a um combate de boxe. Chegava-se ao fim a pensar que aquilo tinha sido uma maçada, especialmente se não se entendesse o que os intervenientes estavam para ali a fazer. Quem não aprecia boxe, quando vê Mayweather apenas a esquivar-se do seu oponente sente o mesmo que quem não entende de futebol e pergunta o que faz o Atlético de Madrid com os onze jogadores dentro da sua área. Sabe-se que em nenhuma das situações se vai ver grande aparato ofensivo mas, quem entende do assunto, vê que há ali estratégia, que é preciso saber aguentar os ataques adversários, ser mais combativo e mostrar resistência mental. É um outro tipo de espetáculo, reservado a apreciadores mais fiéis. A adrenalina, por vezes, está em saber se eles vão aguentar e aguardar pelo momento certo para fazer o contra-ataque mortífero. E vencer.

Já esta temporada, a passagem do Vicente Calderón para o Wanda Metropolitano não tem sido fácil. O novo estádio acabou por provocar mais ansiedade do que excitação. A estreia a perder contra o Chelsea deixou as aspirações da Champions comprometidas, assim como o empate seguinte na receção ao modesto Qarabag. Isso não os faz baixar os braços. As mais recentes vitórias frente à Roma e Real Sociedade vieram dar um novo alento. Mesmo sem ter podido contratar no Verão, continuam invictos na liga, a 6 pontos do líder Barcelona, e os problemas ofensivos devem ter a solução em Janeiro, quando chegarem os reforços Vitolo e Diego Costa.

São uma equipa feita de líderes, à imagem do treinador. Os capitães de agora, como Gabi, Godin e Filipe Luís, e os capitães do futuro como Koke e Saúl Niguez, todos jogadores que sabem, apoiam e gostam do tipo de jogo que o treinador quer. Aplicam a velha máxima que para vencer um jogo é preciso marcar mais um golo que o adversário. Começam a cumpri-la desde a própria baliza onde sustentam a ideia que mantê-la a zeros é uma vantagem muito grande para quem quer ganhar uma partida. Um bom exemplo disso é que ainda há pouco tempo, o portero Oblak registava mais jogos sem sofrer do que com golos consentidos.

É outro estilo de competição, onde se usa e abusa do pragmatismo. Diego Pablo Simeone é daqueles treinadores que faz cara feia ao jogo bonito. Sabe que foi assim que conquistou o que conquistou. Que foi muito. Em apenas sete épocas, já tem um legado. Logo que chegou, em Dezembro da época 2011/2012, venceu uma Liga Europa e avançou para a Liga dos Campeões. Por lá, o emblema colchonero chegou às finais de 2014 e 2016, caiu nos quartos de 2015 e meias de 2017. Eliminou Bayern, Chelsea e Milan, assim como o Barcelona, este último por duas vezes. Pelo meio, foi campeão espanhol em 2014, 18 anos depois, numa competição também disputada pelo Barcelona e pelo Real Madrid, saliente-se. Real esse, que é realmente a besta blanca de todo este projecto. Até nisso, a carga emocional do Atlético tem de ser mais resistente. Este derby extravasa os limites do próprio país e é disputado à escala continental. O arqui-rival eliminou-os já por quatro vezes na Liga dos Campeões, batendo-os inclusivamente em duas finais.

Os colchoneros sempre se mostraram uma equipa fisicamente muito disponível e mentalmente fortíssima. Há anos que quem os acompanha vive com um misto de sentimentos. Primeiro pergunta-se como Simeone foi capaz de fazer tanto com tão pouco, tendo que enfrentar em todas as competições os melhores clubes do mundo da última década. Por outro lado, também há que reconhecer a capacidade de sofrimento, de cobrir a própria baliza como mais ninguém conseguiu fazer. Mas esse passo à frente, no sentido figurado e no sentido literal, é complicado de dar. Quando é preciso ser protagonista, sair para cima do adversário e encostá-los às cordas, a tarefa dificulta. Mesmo assim, goste-se ou odeie-se o estilo, o Atlético de Simeone não vira a cara à luta. Pode não ser chamativo, mas é eficiente. Tem funcionado. É a isto que estão habituados: a estar mais perto da própria baliza, ao invés da do adversário; a estar perto da derrota, mas acabando por vencer. É aquela equipa que se deve pensar e repensar antes de fazer o seu funeral. O seu habitat natural é a sobreviver.

Foto: Maisfutebol


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