Quantos títulos valem uma vida?

João Pedro SundfeldJulho 17, 20214min0

Quantos títulos valem uma vida?

João Pedro SundfeldJulho 17, 20214min0
Durante a maior pandemia do século, a diretoria do Flamengo segue sendo um exemplo de ignorância e ganância

Já é a terceira vez que sento para escrever sobre futebol brasileiro e pandemia. É a segunda que sento para criticar as atitudes do Flamengo durante um dos períodos mais difíceis da história. A cada linha, cada palavra, espero não ter de fazer isso novamente. Torço para poder falar só de futebol. Elogiar o Palmeiras de Abel Ferreira que é líder, analisar a (maravilhosa) escolha por Felipão no Grêmio, ou até falar de times que já falei antes, e continuo gostando, como o Ceará. Mas o futebol brasileiro me obriga a fazer diferente.

Sinceramente, não gostaria de estar aqui. Não para falar disso (de novo!). Não gosto de escrever em primeira pessoa, tampouco de escrever sobre escrever – como fiz nas últimas linhas. Mas algumas situações despertam sentimentos obscuros, que nunca pensamos em sentir. Uma revolta incessante. Uma indignação pulsante. Coração acelerado, de madrugada, colocando palavras no papel para ter um alento.

Todos os times querem a volta do público. Os torcedores querem voltar a assistir um jogo no estádio. Aglomerar na frente, fazendo uma festa que poucos sabem no mundo, cantando sem parar e voltando pra casa emocionado (com vitória ou derrota). Ninguém não sente saudade disso. Mas é preciso ter calma, entender a situação. Vacinação está atrasada em boa parte do país. Casos seguem altos, mortes já foram quase 540 mil. Temos de colocar a saúde pública em primeiro lugar.

Mas não, nem todo mundo pensa assim. Qual time pressionou pela volta do futebol no início da pandemia, realizou treinos sem autorização do governo estadual, demitiu em massa e é o exemplo de como não agir em uma situação de calamidade pública? O Flamengo.

Projeto financeiro (nem esportivo) não pode, e NÃO VAI, apagar ou camuflar as atitudes absurdas da diretoria comandada por Rodolfo Landim. Um time que fez tudo de errado, que nunca demonstrou o menor interesse em garantir a saúde daqueles que torcem por ele, ou daqueles que torcem por um rival. Não importa.

É incrível(mente inacreditável) que essas situações se repetem. Cada vez mais naturais. Cada vez mais relativizadas pela sociedade que é a principal afetada por tudo isso. Pessoas perdem a vergonha de agir de maneira egoísta, nem tentam mais esconder a ganância por trás dos atos imorais que cometem.

E sim, não é só Flamengo. Não é só diretoria. É o país. O Flamengo é apenas a personificação de tudo isso – de um jeito que nenhum outro time nem cogita ser. Times passando dificuldades, como o Corinthians, não forçaram volta do público ou do futebol. O poderoso Rubro Negro, que gasta tantos e tantos milhões em contratações e nomes de peso, precisa disso para sobreviver (???).

O episódio mais recente é o confronto contra o Defensa y Justicia. Ignorando a situação do país, e a vacinação lenta, o clube optou por levar o jogo à capital brasileira, onde poderia causar a maior aglomeração possível (ou colocar público no estádio). O governo liberou 25% da lotação do Mané Garrinha, equivalente a 17 mil pessoas (dezessete MIL pessoas!).

À princípio, era um projeto repudiável. Uma ideia grotesca que visava apenas o favorecimento do ‘Menguinho’, tanto financeiramente, quanto esportivamente. A sociedade só tem a perder. Mas, aparentemente, pouco importa.

(Pasmem, mas sem surpresa)

O projeto mudou. Por pressão do próprio clube, uma mudança no decreto foi realizada. O público presente não precisaria estar vacinado, apenas precisaria apresentar um teste negativo para Covid-19. Deste modo, pessoas que pegariam (ou pegarão?) o vírus mais facilmente – e, também mais facilmente, ficariam (ou ficarão?) em situação crítica – estarão presentes na partida.

Deixou de ser uma partida de futebol. Virou um projeto anti-vida institucionalizado.

Tudo para favorecer um clube. Tudo para ganhar dinheiro e títulos.

Enquanto milhares morrem todos os dias. Enquanto famílias ainda choram a partida de seus entes queridos. Enquanto famílias rezam e clamam aos céus por piedade, por um milagre.

Essa ganância toda vale a vida de quem você ama?


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