Bodø/Glimt: leões vão enfrentar uma autêntica máquina de guerra

Ricardo João LopesMarço 7, 20266min0

Bodø/Glimt: leões vão enfrentar uma autêntica máquina de guerra

Ricardo João LopesMarço 7, 20266min0
Sorte... ou falta dela no sorteio da Champions League para o Sporting CP? Ricardo João Lopes avalia o Bodø/Glimt neste artigo para o Fair Play

O Sporting conseguiu o mérito de se apurar diretamente para os oitavos de final da Champions League, o primeiro emblema português a conseguir o feito neste formato atual. Um sistema que foi criticado inicialmente, quiçá pela habituação à fase de grupos, mas que já convenceu a crítica, devido à loucura que é a última jornada. Os leões fizeram uma fase de liga exemplar, com vitórias históricas, vergando inclusivamente o campeão europeu ainda em voga, o PSG. O apuramento direto foi justo.

Os leões acompanharam o sorteio da última sexta-feira com muita atenção. Real Madrid e Bodo/Glimt seriam os adversários possíveis. A reação normal é uma preferência pelos noruegueses serem o oponente do Sporting, já que os espanhóis são um conjunto mundialmente conhecido e, com dúvidas para poucos, o ‘dono’ da Champions League. Na ótica de quem pensa assim, a sorte sorriu-lhes, com os escandinavos a serem o rival nos oitavos de final. Alguns já pensam numa qualificação para os quartos de final, onde a eliminatória cruza com o Arsenal x Bayer Leverkusen. Porém, a missão não é tão fácil como parece.

O Bodo/Glimt transformou-se no clube dominador da Noruega e da Escandinávia no seu todo, impondo o seu estilo perante os rivais, descobrindo pérolas no mercado de transferências e trazendo de volta ao país natal nomes interessantes e com experiência nas Big 5. Kjetil Knutsen lidera o projeto desde 2018 e os resultados estão à vista: são quatro campeonatos e um crescimento ao nível europeu, que faz com que o Bodo/Glimt seja o segundo emblema de vários aficionados na prova. Em 2026, quatro vitórias na Champions League: uma frente ao Manchester City, outra contra o Atlético Madrid e um duplo triunfo que atirou o Inter Milão para fora de competição, no playoff de acesso aos oitavos de final. Já abordaremos o estilo que Kjetil Knutsen coloca na sua equipa. Primeiro, é obrigatório fazer uma referência a Bjorn Mannsverk. Quem é? O psicólogo do Bodo/Glimt.

Quem foi? Um ex-piloto de caças da Força Aérea da Noruega. Alguém que já viveu cenários pouco simpáticos, que sabe que as suas funções são vitais para a conclusão de um objetivo. O ex-militar não tem qualquer formação na área da psicologia, mas conseguiu introduzir no balneário do clube uma mentalidade pouco antes vista, com os jogadores a serem autênticas ‘máquinas de guerra’, sem qualquer medo de ir ao choque e de disputar o jogo em todo o terreno, independentemente do adversário.

O futebol total de Kjetil Knutsen é uma das consequências do trabalho mental. Uma equipa que se apresenta em 4-4-2, em 4-1-2-1-2, mas que no papel se desenha num 4-3-3. A missão do Bodo/Glimt sem bola é simples: pressionar alto, marcando em cima o organizador de jogo, levando a que o oponente ou bata longo ou jogue para os lados, envolvendo o rival numa teia em que certamente perderá a bola. A melhor forma de travar a equipa? Aceitar o estilo, mas procurar cruzamentos, já que a defesa dos noruegueses está longe de ser uma especialista na defesa dos mesmos, como se viu frente ao Inter Milão. Olhando para o Sporting. Maxi Araújo será assim fundamental, dada a sua propensão ofensiva, contrariamente a Iván Fresneda, um elemento com maior capacidade defensiva, mas que provavelmente terá o maior quebra cabeças do Bodo/Glimt à sua frente.

Jens Petter Hauge regressou ao Bodo/Glimt em 2024, depois de passar por AC Milan, Frankfurt e Gent, estando a viver um grande momento. Apresenta-se originalmente como extremo esquerdo, mas a sua capacidade de aparecer em zonas interiores é bem acima da média. Geralmente, é que vai pressionar o número 6 do adversário (neste caso, Morten Hjulmand), levando a que o oponente se ponha a construir para os lados. Porém, também é que aparece no posto de falso 9, aproveitando a movimentação de Kasper Hogh, que ao invés de ir buscar jogo, se afasta para outras zonas, arrastando com ele pelo menos um defesa. Quem também é um elemento fundamental é Fredrik Sjovold, um dos jogadores mais híbridos da atualidade. Tal como Hauge, aparece numa zona no papel, mas pisa outros terrenos. Neste caso, o jovem de 22 anos deixa a linha para Ole Blomberg, um lateral de origem, mas que atua como extremo direito (e que pressiona como um ponta de lança na primeira fase de construção do oponente).

Não é uma novidade ver um lateral direito aparecer pelo meio. Mas Fredrik Sjovold faz mais do que isso, surgindo ao longo do encontro no último terço, como se tratasse de um médio ofensivo, sendo outro nome capaz de aproveitar o tal espaço deixado por Hogh. O lateral é um todo o terreno que funciona como peça surpresa, já que é mais um elemento a surgir no ataque, em espaço interior, vindo da linha.

Rui Borges terá assim que preparar a sua equipa para este autêntico carrossel, muito difícil de desmontar. Além disso, o frio e o sintético também prometem ser rivais na partida na Noruega, com os leões habituados a um relvado natural e a uma temperatura amena. O Bodo/Glimt joga a roçar no Ártico, onde as temperaturas negativas são mais do que habituais.

O Real Madrid no papel seria um adversário complexo, possivelmente na prática também o seria. Mas os espanhóis não vivem o seu melhor momento e passaram por algumas dificuldades frente ao Benfica, numa eliminatória em que passaram sem brilho. Um Sporting num bom dia poderia causar bastantes problemas a um conjunto que está sem a sua principal estrela (Kylian Mbappé) e vive uma crise de médios, com o departamento médico bem recheado.

O Bodo/Glimt também está numa fase diferente da época. Até ao momento, contou apenas com os jogos da Champions League, já que o campeonato arranca no começo de março, entrando somente agora na rotina de dois jogos por semana. Nisto, o Sporting é um especialista, o que pode fazer a diferença, para o bem (ritmo competitivo) ou para o mal (frescura física do oponente).

Será fundamental para o Sporting a primeira-mão, procurando trazer da Noruega o melhor resultado possível, procurando resolver estes oitavos de final em casa. Isto claro, sem esquecer que o Bodo/Glimt venceu no Metropolitano e no Giuseppe Meazza.


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