As aventuras de Chris Wilder

Guilherme CatarinoAgosto 30, 20205min0

As aventuras de Chris Wilder

Guilherme CatarinoAgosto 30, 20205min0
Um treinador emotivo, apaixonado, inteligente e ardiloso que tem encantado o público inglês e, especialmente, o do Sheffield United! Guilherme Catarino analisa a vida de Chris Wilder ao serviço dos "Blades"

Foi com enorme espanto (e prazer!) que vislumbrámos no passado ano desportivo, verdadeiros underdogs por esse mundo fora exibirem-se a alto rendimento. Falamos, a título de exemplo nacional, do Rio Ave de Carlos Carvalhal que alcançou o maior número de pontos de sempre feitos pelo clube para a Liga Portuguesa, com um futebol atrativo que lhes valeu um bravo quinto lugar e consequente presença na Liga Europa que aí vem; ou da “lufada de ar fresco” famalicense trazida até nós pelo génio de João Pedro Sousa que, apesar de falhar a presença nas competições europeias da próxima temporada, encantou todo um país pela competitividade e magia que exibia nos campos por onde jogava.

Em Inglaterra, de tal tarefa encarregou-se o “desconhecido” Sheffield United. Aproveito, desde já e antes de entrar pela crónica fora, para deixar sucintamente um agradecimento especial ao meu amigo Francisco Regal pela ajuda e apoio na análise requerida para a feitura deste texto.

Liderados por um antigo lateral-direito do clube – Chris Wilder – os blades fizeram a vida negra aos tubarões ingleses e, na sua primeira presença em 13 anos na Premier League, obtiveram um ousado 9º lugar, fruto de 54 pontos conquistados ao longo do ano e que, refira-se, até pareceram saber a pouco perante o cenário europeu que pairou sobre o clube na maior parte da época. Com um futebol inovador e audaz, foi a bravura de Chris Wilder e da sua armada em bater-se perante plantéis de (vastos) milhões que caracterizam uma das maiores ligas do mundo, com uma equipa cujo plantel transitou quase todo do Championship, que marcou a sua presença na transata edição da Liga inglesa.

Com um onze muito rotinado, era na baliza que começava o jogo dos Blades. Com um forte jogo de pés, Dean Henderson destacou-se ao longo das duas temporadas emprestado pelo Manchester United – quer no Championship quer na Premier League – com jogos a alto nível que certamente lhe reservaram um lugar no plantel do reds na próxima temporada e com hipóteses de se mostrar (ainda mais!) na Champions League. Com uma defesa a três, normalmente habitada por O´Connell, Egan e Basham, respetivamente à esquerda, no centro e na direita, a mão de Wilder aparece ao vermos Egan jogar quase como um líbero no processo ofensivo e O´Connell e Basham atuarem quase como laterais, face a uma mobilidade que os permite muitas vezes participar nos movimento atacantes e, ao mesmo tempo, prevenirem-se taticamente perante possíveis contra-ataques adversários.

Num esquema de 3-5-2 que, para termos uma comparação a nível interno, caracteriza o jogo de Rúben Amorim quer em Braga quer recentemente no Sporting, os laterais Stevens e Baldock executam um papel muito parecido ao de Acuña que, pelas facilidades em entrar em áreas de finalização e, igualmente, em defender fazem todo o corredor.

Do meio-campo para a frente registaram-se maiores alterações. Com um início de época notório, eram Lundstram, John Fleck – médio mais defensivo – e Norwood que compunham a espinha dorsal do conjunto de Sheffield. Esperava-se mais de Besic, a “grande” contratação dos blades mas a verdade é que o bósnio nunca se assumiu verdadeiramente e até foi o jovem Osborn que apareceu quando os três habituais titulares não podiam jogar.

Em janeiro, o mercado de transferências trouxe aos ingleses uma pérola: Sander Berge rapidamente se tornou estrela e muito acarinhado pelos adeptos locais. A promessa norueguesa foi contratada ao Genk, por uma verba a rondar os 25 milhões de euros após duas épocas a grande nível, com um campeonato nacional conquistado e estatuto europeu face à presença na Liga dos Campeões dos belgas, tornando-se a transferência mais cara do clube de Yorkshire. Rapidamente agarrou a titularidade no lugar mais defensivo do meio-campo e poucos poderão dizer que a aposta dos dirigentes do Sheffield não foi acertada, pelo menos, a curto-médio prazo.

O ataque dos blades fora talvez o setor mais “animado” ao longo da temporada passada. À exceção de Oliver McBurnie, titular indiscutível nos 40 jogos que alinhou e confirmando que os 24 golos em Swansea há duas épocas não foram fruto do acaso, a segunda vaga para o papel de ponta-de-lança seria mais discutida pelos homens de Chris Wilder tinha à sua disposição. Billy Sharp – o homem da casa – apareceu com rótulo de craque após ter sido considerado por muitos o melhor jogador dos blades no Championship em 2018/19 resultado dos 24 golos obtido em 42 aparições, mas a concorrência rapidamente apareceu sobre as vestes do ex-Bournemouth Lys Mousset e do experiente McGoldrick, com este último a somar o maior número de minutos na época de entre os três, somando contudo apenas 4 golos.

Não foi pela veia goleadora que este Sheffield United se caracterizou na época transata. Veja-se que os homens de Chris Wilder somaram tantos golos marcados quanto os sofridos na Liga Inglesa, e apenas marcaram mais três do que aqueles que sofreram, conjugadas todas as competições internas em que estiveram inseridos. Para os mais “estatísticos”, o Sheffield aparece como uma equipa perfeitamente mediana e pouco parece exaltar o que mais belo caracteriza o seu jogo, porém todos os mais despertos e apaixonados perceberão que o estilo único que Chris Wilder transportou para o seu clube de nascença ultrapassa as barreiras do óbvio e enaltece em muito o trabalho feito, desde cedo e até algo recente, nos clubes de menor dimensão.

Acabo esta rubrica como a comecei: observando com espanto e prazer estes underdogs que por aí surgem e que, espero, se mantenham nos principais escalões por muitos anos, pela modalidade.


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