Adán ou Max, a dúvida no lugar do morto

José DuarteAgosto 29, 20206min0

Adán ou Max, a dúvida no lugar do morto

José DuarteAgosto 29, 20206min0
Quem vai ser o detentor do lugar de guarda-redes do Sporting CP em 2020/2021? Será o experiente Adán? Ou o jovem Max, que veio da formação, pode continuar a ser titular?

Guarda redes é um tipo que podia muito bem ser mártir, bombo da festa, penitente ou palhaço das bofetadas. Onde pisa a relva nunca mais cresce” “Carrega nas costas o número 1. Primeiro a receber, primeiro a pagar.  O goleiro sempre tem a culpa. E, se não tem, paga do mesmo jeito

Eduardo Galeano, escritor uruguaio e apaixonado pelo futebol 

“Amigos, eis a verdade eterna do futebol: o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes, num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota”.

Nelson Rodrigues, jornalista brasileiro 

Aproveitando o excelente trabalho da @Isabela no estágio do Sporting no Algarve vamos debruçar hoje sobre um dos temas que suscitou mais controvérsia neste defeso: a contratação de Adán.

A baliza do Sporting teria que inevitavelmente estar sob escrutínio nos tempos mais próximos. O protocolo de sucessão do reinado de Rui Patrício está ainda por encerrar, pese o passo em frente dado por Max, a reivindicar a nomeação. Outra coisa dificilmente se poderia esperar, com pouco mais de meia volta realizados como titular (23 jogos), num lugar tão difícil como é o que escolheu para exercer a profissão de futebolista.

Desse período deve ser assinalado que o jovem pretendente à baliza leonina preencheu mais entradas para o curriculum do que para o cadastro. Apesar de um par de golos concedidos da sua exclusiva responsabilidade, no cômputo geral, Max deixou registos de boa impressão. Foi notória sua aptidão para o lugar, seja nos requisitos físicos, nomeadamente a altura, nos reflexos, destreza, agilidade, e segurança entre os postes. Decidido a sair deles quando a bola rola no solo em posse dos avançados, precisa do que qualquer guarda-redes da sua idade reclama: mais minutos de jogo para consolidar as saídas a cruzamentos.

Se alguma característica existe que Max possa reclamar como herança do seu antecessor e modelo é seguramente a confiança. Se é verdade que o futebol, como a generalidade das actividades, é terreno muito difícil de afirmação para jovens pretendentes, o Sporting congrega todas as dificuldades que se possam imaginar e outras que escapam até às observações mais atentas. O campo minado que o clube tem sido para todos quantos assumem responsabilidades – seja elas quais forem  – ganha contornos especiais naqueles 7,32 m de comprimento por 2,40 m de altura delimitados pelos postes e trave. Num dos anos mais difíceis de que há memória Max, ao invés de se afundar no atoleiro, concitou sobre si atenção particular, ganhando o direito a novas voltas no carrossel de Alvalade. É essa a sua casa de partida para a temporada que agora se inicia.

A presença de Renan, apesar das suas actuações decisivas na duas últimas conquistas (Taça da Liga e Taça de Portugal), deixava no ar suspeitas de não ser suficientemente justificativa para obstaculizar a  afirmação de Maximiliano. Colocada na balança a qualidade da actuação de ambos, essa impressão seria confirmada. Era hora de Renan ceder a passagem ao aspirante, decisão que se justificou plenamente quer sob o ponto de vista desportivo quer até mesmo económico-financeiro. Mas a chegada de Adan baralha e dá de novo. Vai ser um novo jogo, o grau de dificuldade é agora mais elevado para Max.

António Adán Garrido, nome de guerra Adán. Cresceu em berço de ouro (Real Madrid), o que certamente lhe terá ajudado a abrir as portas das selecções base do país vizinho, onde acumulou internacionalizações em todos os escalões, desde os sub-16 até aos sub-21. Aí bateu num muro de uma geração notável de guardiões, com Casillas à cabeça, não logrando chegar ao escalão principal. Não seria mais feliz na primeira equipa do clube onde nasceu, tendo efectuado 18 jogos, embora apenas 3 na La Liga. A sua estreia, tal como Silvino, então treinador de guarda-redes da equipa de Mourinho, recentemente explicou, foi marcada por uma actuação entre desastre e o azar (penalty e expulsão), acabando por não mais merecer a confiança do treinador.

Esse facto acabaria por ser determinante na carreira de Adán, pois Manuel Pellegrini, então no Bétis, confiou-lhe a titularidade, momento a partir do qual finalmente se fez luz sobre as qualidades do guarda-redes espanhol, confirmando com exibições seguras aquilo que tanto prometia desde a formação

Apesar de várias vezes apontado a clubes da Premier League, Adán arrisca o regresso a Madrid, desta feita para o seu antigo vizinho e rival Atlético, pensando disputar a titularidade a Jan Oblak. Talvez a confiança renovada nas suas qualidades o tenha traído, uma vez que o esloveno tem merecido figurar no clube exclusivo do top 3 mundial na sua posição. Tal como anteriormente Casillas, Adán só cede a titularidade a um monstro da baliza, facto que em nada belisca a sua qualidade. Mas, com 33 anos, duas épocas na penumbra é tempo demasiado e é busca de nova luz para a sua carreira que Adán chega a Alvalade.

Ao ir na senda de um guarda-redes que dê pontos já e não num futuro qualquer, esta aquisição parece ser uma afirmação de ambição para o campeonato que se avizinha,  Será esse mesmo – o futuro – a validar a qualidade da decisão agora tomada. Mas não é de menos lembrar que ter ou não um grande guarda-redes é apenas uma das muitas incógnitas de uma equação cheia de complexidade, no que diz respeito à formação de equipas vencedoras. Mas, e voltando a Nélson Rodrigues, “quando o goleiro falha, não há vitória possível“. Como se este fosse o lugar do morto.

Tudo indica que Adán venha a ser titular, remetendo Max para o banco na maior parte dos jogos, em particular da Liga NOS. Para o jovem guarda-redes é um enorme desafio e, qualquer que seja a decisão sobre a sua condição – titular ou suplente – um tempo de aprendizagem, crescimento e evolução. Significa também um enorme risco pessoal, se a tal corresponder um ano ou sobretudo mais de penumbra, como pode muito bem acontecer. Não deixa também de ser um momento desafiante para Adán, uma vez que Max não o deixará dormir à sombra do estatuto que detém. Risco que também o clube corre, ao interromper a afirmação de um activo de valor muito promissor, na senda de actos de gestão de carreiras que atiraram para a berma jogadores de enorme talento como Francisco Geraldes, um dos últimos exemplos a deixar a sensação de mau aproveitamento da formação de Alcochete.


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