A Fortuna e o Futebol

Francisco da SilvaNovembro 22, 20186min0

A Fortuna e o Futebol

Francisco da SilvaNovembro 22, 20186min0
Ao longo das últimas décadas, inúmeras individualidades do mundo dos negócios abdicaram de parte das suas fortunas para investir nos seus clubes do coração. Recordamos os casos mais emblemáticos.

Durante o século XX, a relação entre os detentores de capital (vulgo, dinheiro ou fortuna) e o futebol sempre foi extremamente irracional, quer pela ambição desmedida quer pela paixão desproporcional. Somente com a globalização do futebol e das suas receitas esta ligação começou a aprofundar-se mais, pois o que antes era passional e financeiramente insustentável, tornou-se atrativo e gerador de lucros.

Nesse âmbito, a chegada em massa de investidores americanos e asiáticos à Premier League e o advento de investidores russos e da Europa Central corrobora esta mudança de paradigma no futebol moderno. Contudo, existem alguns bons exemplos de paixão clubística genuína que contagiaram vários campeonatos europeus, alguns dos quais ainda hoje permanecem.

Em Itália, o caso mais emblemático é o de Sílvio Berlusconi. Nascido e criado na cidade de Milão, Berlusconi começou a sua carreira empresarial no mundo da construção civil. De seguida, após um início auspicioso decidiu enveredar pelo mundo da publicidade e comunicação. Ao fim de 10 anos, Sílvio Berlusconi já acumulava um império na área da comunicação social e, com o intuito de revitalizar o histórico AC Milan, adquiriu o clube em 1986. Ao longo de 30 frutuosos anos, a equipa milanesa conquistou 28 troféus, incluindo 5 Liga dos Campeões, e encantou o mundo do futebol com as suas belíssimas squadras. Após uma dinastia vitoriosa mas igualmente polémica de Sílvio Berlusconi, o empresário e político italiano foi forçado a vender o emblema milanês, contudo, a sua marca na sociedade política e desportiva é incomensurável.  Também na península itálica encontramos o exemplo de Aurelio de Laurentiis. O atual presidente do SSC Nápoles é uma personalidade ligada à sétima arte e originária de Roma, porém, nem isso impediu que fosse “socorrer” um dos emblemas históricos do futebol transalpino. Em 2004, Aurelio de Laurentiis assumiu o carismático Nápoles na Série C1 (terceiro escalão) e com imensos problemas financeiros. Após uma transformação às fundações do clube, que permitiu a reorganização do futebol profissional e o saneamento das contas do clube, a formação napolitana começou a reerguer-se paulatinamente. Hoje, o Nápoles é um dos clubes mais respeitados e bem geridos do futebol europeu capaz de atrair jogadores de elevada craveira e de disputar títulos internos e internacionais.

Em França, não há como fugir aos legados de Bernard Tapie e Jean-Michel Aulas. O primeiro é o principal responsável pelo tetracampeonato do Marselha entre 1989 e 1992 e pela conquista da Liga dos Campeões em 1992/1993, após um longo período de fortíssimos investimentos no clube francês. Este hábil parisiense ganhou nome no mundo empresarial como “salvador” de empresas insolventes e em risco de desaparecer, entre as suas maiores façanhas está a compra da marca desportiva Adidas. Adicionalmente, o percurso profissional de Tapie inclui também cargos políticos na presidência de François Mitterrand e passagens pelo mundo da comunicação social e representação. Quanto a Jean-Michel Aulas, este discreto mas inteligentíssimo homem de negócios criou um império na área das tecnologias de informação e, envolvido pelo amor ao seu Lyon, adquiriu o clube em 1987. Desde então, Aulas tem utilizado a sua astúcia empresarial para fazer crescer organicamente o emblema lyonnais. Para além de ter conquistado um inédito heptacampeonato na Ligue 1, Lyon assumiu-se como uma das principais academias no continente europeu bastante fértil em talentos futebolísticos.

Bernard Tapie a celebrar a conquista da Champions | Fonte: LaProvence

Do outro lado do Canal da Mancha, a família Coates enriqueceu à custa de um negócio bem sucedido de casas de apostas, primeiramente na cidade de Stoke-on-Trent e posteriormente no resto do país. Com recurso à fortuna familiar, o patriarca Peter Coates tomou as rédeas do clube da sua cidade e do seu coração no final da década de 80 e, paulatinamente, retirou o clube dos escalões secundários. Em 2008, após um interregno de mais de 20 anos, o Stoke City regressou finalmente à Premier League, onde esteve durante os últimos 10 anos até ser relegado para o Championship em 2017/2018. Uma história longa de amor é também aquela que liga Rolf Königs e o Borussia de Mönchengladbach. CEO e chairman da AUNDE, empresa referência na produção de revestimentos interiores para automóveis, desde 1978, Königs teve vários cargos de direção no clube da cidade onde nasceu e foi um dos principais responsáveis pela recuperação financeira e desportiva do emblema encetada na primeira década do século XXI. Desde que assumiu o cargo de presidente do Borussia de Mönchengladbach em 2004, o alemão de 77 anos não recebe qualquer cêntimo pelo exercício da sua função.

De nuestros hermanos chegam dois belíssimos exemplos de amor à cidade e ao clube da região. Situada na comunidade autónoma de Valência, a acolhedora cidade de Villareal é dominada pela gigante da cerâmica Pamesa. Liderada por Fernando Roig Alfonso, esta multinacional é um dos principais patrocinadores do submarino amarelo, clube também liderado pelo bilionário espanhol. À frente dos destinos do Villareal desde a temporada 1997/1998, o investimento financeiro e pessoal de Fernando Roig Alfonso tem sido fundamental para o crescimento sustentado do submarino amarelo no panorama futebolístico espanhol e europeu. Por fim, a história mágica de María Victoria Pavón que, conjuntamente com o seu marido, adquiriu em finais de 2008 o modesto Léganes, formação humilde da área metropolitana de Madrid. Desde que assumiu o clube, María Victoria Pavón resolveu inúmeros problemas financeiros e burocráticos, oferecendo estabilidade e rumo estratégico a uma agremiação austera, familiar e trabalhadora. Em 2017/2018, o Léganes estreou-se pela primeira vez no principal escalão do futebol espanhol, tendo assegurando com alguma tranquilidade a manutenção (desportiva) deste conto de fadas.

A mulher forte do Léganes, María Victoria Pavón | Fonte: AS

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