St. Pauli: um clube de bairro que marca a História alemã

João FreitasJunho 16, 20194min0

St. Pauli: um clube de bairro que marca a História alemã

João FreitasJunho 16, 20194min0
É talvez dos clubes mais icónicos da Europa apesar de não ter grandes títulos e troféus no seu Museu. Um clube nascido de um bairro que tem uma marca forte na Alemanha, conheces o St. Pauli?

O St. Pauli é mundialmente conhecido por seus ideais políticos, embora as origens dos mesmos sejam muitas vezes desconhecidos da maioria do público. As principais razões estão umbilicalmente ligadas à cidade, ao porto e aos trabalhadores de Hamburgo.

Esta cidade portuária situada no norte da Alemanha esteve presente em todos os movimentos sociais e emancipatórios da história germânica. A título de curiosidade, foi la que no século XIX que se fundou a empresa Hamburg-America, que transportou milhões de emigrantes da Europa do Centro e Leste para a América do Sul durante todo século XIX e XX.

O St. Pauli fundou-se em 1910, no ainda Império Alemão (1871-1918), precisamente no bairro portuário com o mesmo nome. Esta simbiose entre os trabalhadores e a gente do bairro com o clube explica uma parte do fenómeno.

Foi no bairro de St. Pauli que nasceu uma figura que marcou todo o período entre guerras (1918-1939) alemão. Ernst Thalmann era um trabalhador portuário – que começou a trabalhar aos 10 anos de idade – que se tornou secretário geral do KPD (Kommunistiche Partei Deutschlands – Partido Comunista Alemão), após a execução de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht na revolta Espartaquista de 1918.

Hamburgo talvez tenha sido a cidade alemã que mais greves realizou no período da crise no pós-guerra, sendo precisamente a zona portuária da cidade o grande motor desses protestos. Tanto que em 1923, o bairro de St. Pauli tenta lançar uma revolução na cidade. Mas não teria sucesso, morrendo 24 militantes comunistas e 61 pessoas do bairro. Thalmann teria que passar à clandestinidade e fugir para a União Soviética, de onde regressaria em 1925 para ser o candidato do KPD as eleições alemãs, candidato no qual o bairro de St. Pauli votou em massa.

Em 1933, Thalmann seria preso pela GESTAPO e seria enviado para o campo de concentração de Buchenwald. Mas como bom filho do seu bairro, Thalmann organiza um motim com outros prisioneiros socialistas, anarquistas e comunistas no campo de Buchenwald. Como repressão, Thalmann e outros amotinados seria fuzilados e os seus corpos queimados.

Mas não se fica por aqui a ligação do bairro aos movimentos sociais, no final da década de 60, o movimento anti guerra do Vietname conheceu em Hamburgo um dos seus mais dinâmicos centros. Altura em que surge o primeiro jogador negro na Alemanha Ocidental, Guy Acolaste do St. Pauli.

Guy Acolaste (Foto: Getty Images)

Na década de 80, os trabalhadores portuários sairiam à rua para protestar contra a privatização do Porto. O clube se juntou a estes protestos e, inclusivamente, vemos o seu guarda-redes, o mítico Volker Ippig que morava numa casa ocupada na Hafenstrasse (rua do Porto), a participar ativamente nos protestos.

Ippig estreou-se na equipa principal da formação de Hamburgo com apenas 18 anos, na época 1980/1981.

Jogou regularmente até 1983, altura em que fez um interregno de 3 anos para se deslocar para a Nicarágua durante a Revolução Sandinista. Nesses 3 anos trabalhou numa comuna agrícola, projetos de construção de habitações sociais e num hospital de crianças. Voltou aos relvados, pelo seu St. Pauli em 1986, onde terminaria carreira em 1992.

O atual diretor desportivo, Edwald Lienen “The Lenin”, permitiu que as instalações do clube fossem utilizadas pelos manifestantes anti G-20, aquando da cimeira realizada a 7 e 8 de Julho de 2017. Lienen iniciou a sua carreira profissional no Arminia Bielefeld na 2.Bundesliga (Época 1974-75). Após três boas épocas foi contratado para o Borussia de Mönchengladbach, onde adquiriu alguma notoriedade.

Este centro campista trabalhador ficou mais conhecido pelas suas posições políticas. Lienen recusava-se a dar autógrafos, pois não se considerava “mais do que o comum dos cidadãos”. Participou ativamente no movimento anti-nuclear, ecológico, pacifista e era um vegetariano convicto. Mas a cereja no topo do bolo, foi o facto de ele ser um dos principais fundadores e mobilizadores da criação do sindicato de jogadores profissionais de futebol.

Devido a sua entrega em campo, o treinador do BMG decidiu entregar lhe a braçadeira de capitão, e um grupo de sócios do clube e membros da CDU (União Democrata Cristã – partido da atual chanceler alemã Angela Merkel) devolveu os bilhetes de época, dizendo que não queria um “Comunista como capitão da sua equipa”.

Infelizmente, Lienen é conhecido mais pela sua arrepiante lesão – apenas aconselho aqueles com mais estômago a vê-la – do que pela sua dimensão social e política

A história do St Pauli está vinculada com a história do bairro, da cidade e da Alemanha. O bairro da Hafenstrasse e da Repperbahn, com a sua irreverencia, dinamismo social e consciência da sua realidade marcou indelevelmente o clube e a sua torcida.

Os adeptos revolucionários (Foto: Getty Images)

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