Paulo Meneses e a influência de Manuel Sérgio no futebol pt.1
Quando trabalhei com Javier Miñano na Seleção Espanhola, aprimorei os meus conhecimentos sobre as Ciências Humanas no Futebol, principalmente na parte da Gestão Emocional.
Foi portanto uma grandíssima influência com uma pessoa que foi campeão do Mundo em 2010 e campeão Europeu em 2012 pela Seleção Espanhola, assim como ganhou tudo com o Real Madrid – treinando alguns dos melhores jogadores da história do futebol. Os ensinamentos que tive durante os anos que trabalhei com ele, 1º como seu aluno no INEF Madrid e depois trabalhando com ele na Seleção Espanhola e sendo Professor convidado dele no Inef Madrid, no âmbito da importância de UMA GESTÃO DA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL (decisiva para controlar e gerir as EMOÇÕES DA EQUIPA colectivamente e de cada jogador, individualmente).
Esses e outros temas, estavam ali presentes em cada conversa com o Professor Manuel Sérgio que alicerça a sua teoria nas Ciências Humanas.
Uma liderança visionária muito eficaz BASEADA NUM DISCURSO MOTIVADOR E AMBICIOSO, QUE ELEVA A PERFORMANCE DOS JOGADORES PARA A SUPERAÇÃO INDIVIDUAL E COLETIVA – isto dizia-me muitas vezes o Professor Manuel Sérgio:
“O Desporto só tem sentido numa perspectiva de TRANSCENDÊNCIA.”
Eram portanto, temas pela qual eu me sentia identificado, e foram muitos os ensinamentos que faziam todo o sentido para o meu crescimento e uma continuidade na minha preparação.
COMO CONHECI O PROFESSOR DR MANUEL SÉRGIO
Em 2010, no dia em que lhe foi atribuído a José Mourinho o titulo Doutor Honoris Causa na Faculdade de Motricidade Humana, onde eu fui um dos convidados a estar presente, consegui o contacto do Professor Dr. Manuel Sérgio.
Passaram-se alguns anos sem que eu o contactasse.
Estávamos em Março de 2015.
Terminava uma experiência num clube do Algarve.
Era um domingo, tivemos um jogo no Estádio do Algarve.
Fizemos a viagem de Vila Real de Santo António a Lisboa, eu e o Izan Martin (actualmente na equipa técnica de Arteta no Arsenal), dirigimo-nos à Estação do Oriente. Ofereci ao Izan boleia até Madrid, mas ele recusou-se, dizendo que iria de Comboio.
Saio da Estação e continuava a sentir a necessidade de que tinha que dar uma nova direção à minha carreira e formação enquanto treinador. Queria saber mais / melhor, queria continuar a crescer e aprender com os melhores. Tive a coragem para contactar o Professor Dr. Manuel Sérgio, porque nunca tinha falado com ele, o Professor não me conhecia de lado nenhum.
E foi com uma enorme surpresa que o Professor me respondeu com prontidão, convidando-me para almoçar com ele numa quinta – feira no Hotel Intercontinental, onde ele almoçava todas as quintas feiras.
Tivemos vários encontros nesse hotel, onde tive o privilégio de privar com o Professor várias vezes, onde partilhamos ideias, onde expusemos a nossas perspectivas e onde partilhamos experiências enriquecedoras, muito mais ricas para mim, claro está, sendo eu quem ouvia (muito) mais que falava.
O professor Dr Manuel Sérgio, foi uma pessoa que marcou de forma importante a minha vida e teve um impacto na minha visão sobre o desporto, nomeadamente, o futebol.
Nos últimos tempos, devido à sua condição física e de saúde, esses encontros deixaram de acontecer, fomos perdendo o contacto, embora o Professor Dr Manuel Sérgio, até à distância conseguia criar impacto e surpreender. Uma vez pediu-me a minha morada de Portugal e enviou-me 7 livros das suas obras. Simplesmente notável. Também teve o detalhe de falar do meu nome e um pouco da minha trajetória num dos seus livros.
Era uma pessoa muito fraterna e atenta e muito amável com o outro.
Terminava sempre as suas mensagens: “um abraço fraterno”.
O Professor queria muito expandir a sua teoria para Espanha, então lancei-lhe o desafio de eu escrever um artigo para a Revista AB Fútbol. Trata-se de uma revista com bastante reputação aqui em Espanha, e também conhecida em todos os países de lingua Espanhola (América Central e do Sul).
Foi um artigo com reflexões muito interessante, com o titulo:
“Manuel Sérgio y las ciencias humanas en el fútbol – La base de la excelencia en los labores de un entrenador de fútbol”.
OS ENCONTROS, OS ELOGIOS E A FEDERAÇÃO ESPANHOLA “vs” A FEDERAÇÃO PORTUGUESA
Ele perguntou o que me levou a procurá-lo.
Eu disse que, queria aprender dele, dos ensinamentos dele.
Ele disse que fiz bem, mas que ele não me iria ensinar nada de tática ou técnica do futebol. Eu disse que sabia muito bem que não. E que não era isso que eu queria aprender dele.
Quando ele disse, na 1ª conversa que tivemos, que eu iria ser um grande treinador, fiquei bastante surpreendido, perguntei -lhe porque achava isso, uma vez que não me conhecia.
Ele respondeu, “isso sente-se na sua forma de estar, na sua forma de comunicar, eu vejo em si tudo para vir a ser um bom treinador, noto isso. Tudo o que o Paulo tem que fazer é acreditar em si”.
Outro aspecto que me marcou durante as nossas conversas – que penso ter a ver com o assunto anterior – foi uma questão (que se poderá catalogar algo retórica) inesperada da minha parte – confesso – foi uma pergunta que me colocou demonstrando o seu “elogio”:
“ O meu amigo que trabalhou com a Equipa Técnica do Mister Vicente Del Bosque na Seleção Espanhola, sendo Português, se valia para trabalhar na Seleção Espanhola, julgo eu, também deveria valer para a Federação Portuguesa, não acha?” Ouça, mas isto é uma opinião de um velho de 82 anos!!! Eu sempre disse que eu não entendo nada de futebol !!!
Eu disse-lhe que referente a esse assunto, eu não lhe poderia responder, e que, quem deveria dar essa resposta, teria que ser a Federação Portuguesa de Futebol, uma vez que havia pessoas dentro da FPF que sabiam da minha experiência com a Técnica do Mister Vicente Del Bosque.
REINADORES DE REFERÊNCIA – JOSÉ MOURINHO E JORGE JESUS
Naquela altura em todas as nossas conversas, falava-me muito de José Mourinho e da sua inteligência suprema, dizia-me que ele não era um treinador qualquer, dizia que uma pessoa diferenciada, que era um visionário e que estava 50 anos à frente de todos os treinadores do mundo.
O Professor Dr. Manuel Sérgio fazia questão de deixar claro que foram os ensinamentos na área das Ciências Humanas que mais influenciaram José Mourinho, e reforçava isso mesmo, dizendo ele não ensinou ao José Mourinho nada de tática nem de técnica, mas que lhe ensinou e transmitiu algo muito mais importante.
Quando falava de José Mourinho, o Professor citava muitas vezes esta frase:
“Quem só sabe de Futebol, de Futebol nada sabe”.
Era uma frase que ele gostava de repetir várias vezes, lembrando que o Futebol é, antes de mais, uma expressão do ser humano em toda a sua complexidade.
O Professor contava que o José Mourinho deu conta desde muito cedo que para ser grande treinador, teria que dominar as Ciências Humanas. Dizia que o Futebol deve-se entender desde a Complexidade do ser humano.
Acrescentava que, a nível tático, técnico e estratégico José Mourinho se comparava com os melhores treinadores do mundo, mas o que realmente fazia a diferença no seu trabalho como treinador era na relação que tinha com os jogadores. Que todo o trabalho de José Mourinho era ao nível das Ciências Humanas. E que teria que ser entendido e estudado desde esse nível. Ou seja, antes de entender o Atleta, devemos entender o homem todo, como diz o poema do Fernando Pessoa [Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui].
Dizia-me: “O homem é integralmente corpo quando é integralmente espírito, e é integralmente espírito quando é integralmente corpo. Portanto, a gente não pode separar uma coisa da outra.”
Também me comentava que, o tipo de metodologia e o tipo de exercícios que nós, treinadores, deveríamos aplicar nos nossos treinos. Falava-me muito do “movimento intencional e solidário da transcendência”. Acerca dos trabalhos do Treinador, houve uma frase que me disse e que me criou impacto, que ainda hoje coloco em prática no meu trabalho:
“Que tipo de jogador, (que tipo de pessoa) quero ter no treino que eu organizo?”
E prosseguiu com o seu raciocínio afirmando: “ Todo o treinador deveria fazer essa reflexão, ter isso em conta no momento em que está a organizar o seu treino.”
Temos que conhecer os nossos jogadores na sua plenitude, como seres humanos, como pessoas e a partir de aí conceber o nosso treino, a nossa forma de jogar, etc.
Continuando a falar de Treinadores, Manuel Sérgio tem uma frase muito sua que define muito bem um Treinador como líder exemplar:
“O verdadeiro líder, antes de falar já foi aceite por parte dos jogadores. O líder é um exemplo de vida através dos Valores e dos Princípios.”
Em outras ocasiões dizia sobre José Mourinho “o grande treinador não é aquele que sabe, que tem propriamente uma visão teórica do Futebol, é de facto aquele que na hora da competição é capaz de dizer como se joga, fazer os jogadores acreditarem, e os jogadores serem capazes de fazer tudo só porque o ouvem, este é que é o grande treinador, e Mourinho tem tudo isto, além de ser um grande líder”.
Também me falava do Jorge Jesus, dizia-me que era um auto didata, e que o seu treino era digno de analisar, que era um autentico “doutorado” assistir ao treino dele.
Contava-me que, poderia ainda melhorar ainda mais, se lesse alguns livros, alguns “temas”.
O que Jorge Jesus não se deixava convencer facilmente, mas que um dia perguntou-lhe que livro o Professor lhe recomendaria, e depois do Professor lhe sugerir que livro deveria ler, que o mister ligou à esposa para lhe comprar esse livro. Mas, conta com algum humor à mistura que o mister abandonou a leitura ao 3º dia, dizendo que não tinha paciência para tal.
Inclusive, telefonou ao mister Jorge Jesus enquanto almoçávamos, depois do celebre jogo Real Madrid – Sporting para a Liga de Campeões no Santiago Bernabéu onde a imprensa Espanhola, encheu o mister Jorge Jesus de méritos e elogios pelo “banho tático” que o seu Sporting deu ao Real Madrid.
Começou por lhe dizer ao telefone:
“Parabéns Mister Jesus, o meu amigo teve que preparar muito bem os jogadores enquanto Seres Humanos, com coragem e personalidade, para conseguirem jogar dessa forma em Madrid.”
E acrescenta: “Você, não sendo um Treinador com estudos universitários, é um caso de estudo, porque o meu amigo prepara o homem para a táctica com grande competência, tal como o demonstrou no Bernabéu impressionando a toda a gente.”
E prosseguiu “tem toda a imprensa Espanhola a falar da forma como preparou a equipa, para apresentar o que vimos ontem, estou aqui com um jovem treinador que vive em Espanha que o confirma: toda a gente em Espanha ficou muito surpreendida da forma como o meu amigo preparou o jogo.”
Como vemos, o Professor Dr. Manuel Sérgio, era muito espontâneo, transparente e sincero nas suas observações. E fazia-o de uma forma muito subtil e simples.
Eu achei-o, desde o 1º momento, de uma simplicidade, de uma simpatia e uma humildade notáveis.
A sua humildade era tal, que me dizia: “Pode acolher as minhas ideias e eu posso beneficiar, porque também eu tenho muito que aprender.” “Porque eu não entendo muito de futebol”.
Para além, claro, da sua grande capacidade intelectual, da sua inteligência e capacidade de raciocínio que me faz lembrar os grandes pensadores (na minha opinião), um influenciador nato pela sua capacidade comunicadora muito apurada, que se entranhava (eu ficava horas e horas a ouvi-lo), e claro, dentro dessa capacidade de comunicação, um grande e justificado poder de argumentação, onde tudo aquilo que ele dizia, fazia sentido para mim, tinha uma lógica (a nível do teórico e também do nível prático).
“Quem só teoriza, não sabe. Quem só pratica, repete. O saber nasce da conjugação da teoria e da prática”.
Ele próprio acrescentava que, no futebol a parte prática é muito importante, mas necessita da parte teórica para crescer e evoluir. Dizia que a teoria e a prática necessitam uma da outra.
Na minha opinião, é de uma pertinência lógica que os seus ensinamentos deveriam estar presentes nos cursos de desporto Universitários e cursos de treinadores também.