Leo Horn, árbitro e resistente do fascismo

João FreitasOutubro 21, 20194min0

Leo Horn, árbitro e resistente do fascismo

João FreitasOutubro 21, 20194min0
Leo Horn foi uma das caras da luta contra o nazismo e foi amado por todos os clubes, sempre visto como um dos grandes árbitros do seu tempo. Um resumo curto de quem foi este juiz de jogo alemão

Este texto ira abordar a vida de alguém que escolheu desempenhar no campo o papel de uma das figuras mais centrais no jogo de futebol, aquele de quem tanto se fala quando se ganha, mas especialmente quando se perde, o árbitro.

Aquele que como Eduardo Galeano maravilhosamente descreve que “sopra os ventos da fatalidade do destino e confirma ou anula os golos. Cartão na mão, levanta as cores da condenação: o amarelo, que castiga o pecador e o obriga ao arrependimento, ou o vermelho, que o manda para o exílio. (..) A única unanimidade do futebol: todos o odeiam. É vaiado sempre, jamais aplaudido. Ninguém corre mais do que ele. É o único a correr o tempo todo.” (O Futebol ao Sol e a Sombra)

Mas a vida de Leo Horn está longe de merecer vaias, mas antes aplausos de todas as tribunas. Leo nasceu na pequena cidade de Sittard a 29 de Agosto de 1916, mudando-se com a sua família para a vibrante cidade de Amsterdão em 1928. O jovem Leo já tinha dentro de si o “bichinho” pelo futebol e desde cedo começou a jogar nos vários clubes da comunidade judaica de Amsterdão, como o Overwinning Door Eenheid e o Eendracht Doet Winnen.

Porém, o azar bate a porta de Leo, com apenas 17 anos lesiona-se gravemente no joelho tendo de deixar a prática do futebol e dedicar-se exclusivamente à sua profissão de empregado dos escritórios da firma Lehmann & Co.

Mas certo dia, ao ver num jornal um anuncio de um curso de árbitros de futebol da AVB ( Amsterdamse Voetbal Bond – Associação de Futebol de Amsterdão), Leo vê uma oportunidade de voltar aos relvados. A nova carreira de Horn torna-se motivo de destaque pela qualidade das arbitragens e logo em 1938, com apenas 22 anos, arbitra a final do campeonato da AVB.

Com a ascensão ao poder de governos fascistas, os tambores de guerra rufavam por toda a europa. A invasão pelas forças nazis dos Países Baixos em 1940 e a perseguição da comunidade judaica neerlandesa obrigou Horn a parar com as suas atividades desportivas. Em 1941, Leo Horn e a sua mulher Catharina Boekbinder tomam a ousada decisão assumir identidades falsas e juntarem-se à resistência armada neerlandesa.

Leo aderiu a STANZ (Stormgroep Amsterdam Nieuw Zuid) onde participou em várias missões de resgate de famílias judaicas e ataques às forças nazis. Curiosamente, Kuki Krol (pai da futura estrela do Ajax e da seleção holandesa Rudi Krol na década de 70) foi salvo e ficou escondido na casa de Leo Horn.

Em 1945, as hostilidades tiveram o seu fim com a derrota do nazi-fascismo e, em 1949, Leo voltou a fazer aquilo que mais gostava, arbitrar partidas.

Durante as décadas seguintes, 1950 e 1960, Leo atinge um patamar de excelência na arbitragem internacional. Arbitrou o “Jogo do Século” (Inglaterra-Hungria, 1953), as finais da Taça dos Campeões Europeus de 1957 (Real Madrid – Fiorentina) e 1962 (Benfica – Real Madrid), a final da Libertadores de 1962 (Penarol – Santos) e ainda esteve no polémico Leeds vs Valencia de 1966 para a Taça das Cidades com Feira.

O jogo entre o Leeds e o Valencia foi marcado pela impetuosidade física com que foi disputado, o Leeds já tinha uma reputação de ser uma equipa bastante aguerrida, mas naqueles oitavos de finais o Valencia também ensinou à equipa do norte de Inglaterra uma e outra coisa no tópico das disputas de bola “à margem da lei de jogo”. Leo Horn era um arbitro que assumia o jogo e fazia-se impor aos jogadores – alguém que foi membro da resistência ao nazismo e enfrentou a GESTAPO teria motivos para ter medo de algum jogador?

Don Revie – o carismático treinador do Leeds – não gostou da arbitragem de Horn e disse “se isto é o futebol europeu, estamos bem melhores sem ele” ao que o holandês ripostou “o que causou tamanha confusão foi o dinheiro, sentia o cheiro no campo”, apontando a ganância de ambos os lados como a causador do distúrbio. O Leeds, após esse empate em casa por uma bola, foi ganhar a Valencia 2-0 e chegou à final da competição, onde caiu aos pés do Dínamo Zagreb.

Leo Horn morreu em 1995, o jornal holandês De Volkstrand classificou-o como “um homem que não tolerava injustiças nem parcialidades. Alguém que desafiava a definição de que bons árbitros são aqueles que não fazem notar”.

Leo Horn entre as lendas Billy Wright e Ferenc Puskas (Foto: Getty Images)

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