A Justiça de um Resultado

João NegreiraJulho 19, 20204min0

A Justiça de um Resultado

João NegreiraJulho 19, 20204min0
O que consideras um resultado justo? A equipa que ataca mais tem que ser sempre a vencedora? Ou a equipa que só defendeu, mas marcou mais golos, pode ser uma justa vencedora?

O presente artigo é de opinião, tentando – ao mesmo tempo – mostrar as duas faces da moeda do tema referido

A pergunta habitual em todas as flash interview e conferências de imprensa é se o treinador em questão acha que o resultado foi justo. Normalmente, a resposta depende do que lhe convém e do resultado final. Raramente há coerência entre respostas passadas e os treinadores respondem o que lhes dá jeito.

Quando ganham, foi justo; quando perdem, foi injusto.

“Acho o resultado injusto. Criámos oportunidades. Não merecíamos ter perdido”

Começamos pelo que é mais normal. O treinador tem um resultado que não lhe é favorável e até criou bastantes oportunidades para ganhar. Pode ter sido claramente superior ao adversário e não ter conseguido marcar qualquer golo ou o adversário ter marcado mais golos que ele.

No final, pelo domínio que teve sobre o adversário ou só porque atacou mais ou teve mais oportunidades, está em crer que merecia ter ganho.

Este é o discurso habitual de quem perde, mas atacou mais. Para este lado da fação, a justiça está no controlo do jogo e no domínio do adversário.

O exemplo remete à conferência de imprensa do jogo entre CF Belenenses e Sporting CP, no dia 15 de abril de 2018, com o resultado final a fixar-se em 4-3 para os leões. Silas, ainda treinador da equipa de Belém, ao ser questionado sobre a justiça do resultado, considerou-o injusto. Refere que criaram oportunidades suficientes para não serem derrotados e que o empate era o resultado que mais se adequava.

Note-se que não é Silas o único a ter este discurso, nem o artigo quer culpabilizar ou diminuir Silas. O timoneiro português é um de muitos exemplos.

“Os resultados são sempre justos”

O outro lado da moeda é completamente diferente e muito raro de acontecer. O treinador teve um resultado que não lhe é favorável e até disputou o jogo com a equipa que ganhou, mas acaba por ver a justiça do resultado apenas e só apenas pelo resultado em si.

É uma análise muito superficial e objetiva, que acaba por assumir que pode ter perdido o jogo, mas como o adversário fez mais golos que a sua equipa, o resultado foi justo.

Para este lado da fação, a justiça está no resultado, sempre.

Este segundo exemplo remete para a flash interview de Vítor Oliveira do jogo entre Sporting CP e Gil Vicente, no dia 1 de julho de 2020, com a resultado a sair favorável para os leões por 2-1. O timoneiro dos gilistas afirmou que os resultados são sempre justos e que traduzem a diferença entre golos marcados e golos sofridos.

E recorde-se que o Gil não esteve muito abaixo do Sporting. O próprio Vítor Oliveira refere que o jogo foi dividido e que a sua equipa esteve por cima em certas alturas do jogo.

O que é, então, um resultado justo?

Tentemos, então, perceber o que é um resultado justo. É quando a equipa que atacou mais, ganhou? Ou o resultado final é sempre justo?

Por um lado, tenta-se justificar o resultado com a qualidade exibicional da equipa. Isto é, a equipa atacou muito, criou mais oportunidades que o adversário, então merece vencer o jogo, mas será que é mesmo assim?

Por outro lado, olha-se para o resultado de forma fria e concisa, sendo que a justiça do mesmo está na diferença de golos marcados e sofridos. Se esta equipa marcou 1 golo e a outra não marcou nenhum, então o resultado é justo, mas será mesmo assim?

Entramos num paradigma de Análise Profunda vs Análise Superficial. É sem dúvida um assunto complexo, mas que passa muitas vezes ao lado.

Ora se recordarmos, mais uma vez, as palavras de Vítor Oliveira, percebemos que isso vai de encontro ao que realmente importa no futebol: os golos. O objetivo de um jogo de futebol é marcar golos, não atacar mais, ou fazer mais remates. Esta é a análise que tem que ser feita de um resultado, só depois podemos passar à tal análise profunda e analisar realmente o jogo e destacar quem dominou ou não o jogo.

E o timoneiro de 66 anos fez isso muito bem. Não teve dúvidas em afirmar que o resultado foi justo porque o Sporting marcou mais golos que o Gil Vicente e depois analisou a exibição da equipa, a nível qualitativo.

É muitas vezes isto que passa despercebido. Não podemos pensar que o jogo é de quem ataca mais ou que só há uma maneira de jogá-lo. A justiça de um resultado está no próprio resultado.


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