Stranger Rules: Uma toalha que te faz perder 37mil$

Rui MesquitaAgosto 10, 20196min0

Stranger Rules: Uma toalha que te faz perder 37mil$

Rui MesquitaAgosto 10, 20196min0
Será possível uma toalha fazer um golfista perder 37mil$? Sim, com uma junção de várias regras estranhas! Descobre tudo aqui!

Como em Hawkings de Stranger Things, coisas e regras estranhas existem em todos os desportos e aqui vamos abordar as mais estranhas, confusas e surpreendentes de todas! Não percas nenhuma e diz-nos qual a mais estranha (o verdadeiro Demogorgon) de todas!


Todos sabemos que há artigos de vestuário caros, de marcas conceituadas e que no golfe, desporto em causa nesta história, há a tradição de os jogadores se vestirem bem. Mas daí a uma simples toalha custar a um golfista 37mil$ vai uma grande distância. Vai a distância de não uma, não duas, mas três regras estranhas do golfe. Ou pelo menos interpretações estranhas dessas regras. Vamos à história.

Uma toalha, um adepto e um cartão mal preenchido

Corria o ano de 1987 e o torneio de Shearson Lehman Brothers Andy Williams Open. Craig Stadler bateu uma bola que aterrou debaixo de um pinheiro (Torrey pine, uma árvore comum nos EUA). Os ramos baixos da árvore impediam que Stadler batesse a bola de pé e por isso o jogador teria de se pôr de joelhos.

Problema? O piso estava lamacento e, como vimos acima, há uma reputação a mantar no que diz respeito à roupa neste desporto. Assim, Stadler pegou na sua toalha e ajoelhou-se nela para bater a bola. Aqui entra a primeira interpretação estranha de uma regra. A regra 13.3 do torneio dizia (como diz na maioria dos torneios) que o jogador não pode “construir um suporte que facilite a jogada”.

Craig Stadler, o protagonista da nossa história (Foto: Vancouver Sun)

Ok, estará o leitor a pensar, mas uma toalha não é propriamente um suporte, Stadler não pode ser penalizado por isto. A organização do torneio pensou assim, ou melhor, nem sequer pensou, não ligando ao assunto. Mas aqui entra a regra mais estranha da história. Durante décadas foi possível, no golfe, os espectadores ligarem a partir de casa a denunciarem uma infração que vissem na televisão. Sim, leu bem, um espectador podia ligar para o torneio e denunciar uma infração que visse na TV.

Foi precisamente isto que aconteceu neste torneio em 1987. Um espectador (até hoje anónimo) ligou para o torneio a dizer que Stadler tinha usado a toalha como apoio, violando a regra 13.3. Depois desta denúncia a organização concordou, penalizou Stadler e o jogador acabou desclassificado do torneio.

Espera lá, o jogador foi desclassificado por ter usado uma toalha para não sujar as calças? Mais ou menos. Acontece que (aqui está a terceira regra), os jogadores têm de entregar um registo de pontos do torneio, assinado e que terá de coincidir com o da organização. O problema é que Stadler não sabia da penalização por causa da toalha e, por isso, não a incluiu no seu registo. Pela discrepância observada, Stadler foi desclassificado do torneio.

Stadler foi o espelho do ditado “um azar nunca vem só” (Foto: Toronto Star)

Craig Stadler era, naquele momento, segundo classificado do torneio, o que lhe valeria um prémio de 37mil$. Tudo parecia estar contra o golfista naquele dia. A bola cair debaixo da árvore com ramos baixos, o terreno lamacento, a dúbia regra 13.3, o espectador a denunciá-lo, a intransigência da organização por não ter incluído a penalização que desconhecia. Tudo alinhado para o fazer perder 37mil$ que estavam ali tão perto.

7 anos depois, a vingança

Calma, o subtítulo fala em vingança, mas Stadler não encontrou o fã que o denunciou. Nem tão pouco viu revertida a decisão que lhe fez perder o prémio. A vingança foi contra um elemento pouco falado até aqui, mas que está na origem de todas as complicações: a árvore. Se não fossem os ramos baixos da árvore nada disto teria acontecido. Stadler não teria de se ajoelhar, não teria usado a toalha, o espectador não denunciava nada porque não haveria infração e o golfista ganharia os 37mil$.

Em 1995 o dito pinheiro morreu e iria ser retirado do campo de golfe. Os gestores do campo aperceberam-se que Stadler iria estar em Los Angeles (cidade onde está localizado o campo) naquela altura e, por isso, convidaram-no para cortar a árvore. Recordando o acontecimento de 8 anos antes, pensaram que o golfista poderia querer encerrar esse capítulo com uma nota positiva e descarregar alguma da frustração que pudesse ter daquele momento.

Stadler aceitou o convite e não só cortou os ramos e a árvore como, pelo meio, recriou a tacada que lhe valeu a desclassificação (foto abaixo). Depois disso ainda assinou os pedaços cortados que foram posteriormente vendidos e o dinheiro entregue a instituições de caridade.

Stadler a recriar a tacada que lhe custou o prémio (Foto: Golf Digest)

Quanto às regras, no ano passado (2018) foi abolida a possibilidade de espectadores ligarem a relatarem irregularidades. No que a toalhas diz respeito, continua a ser proibido “construir um suporte” e, por essa razão, o uso de toalhas no chão é desaconselhável.

Craig Stadler, cuja alcunha é “morsa” pelas parecenças óbvias com o animal, já se retirou do golfe. Hoje, apesar de poder relembrar com amargura o episódio que o fez perder 37mil$, deve também viver com a satisfação da vingança que teve contra a árvore e, quem sabe, contra a sua própria toalha, de quem desconhecemos o destino.

O golfista a cortar a árvore que esteve na origem dos problemas (Foto: Golf Digest)

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