Fabrizio Romano e os (falsos) jornalistas do século XXI
De anunciar transferências antes da sua conclusão até ao dia em que decidiu ser porta-voz do regime da Arábia Saudita, Fabrizio Romano está apostado em ser líder das piores causas possíveis, naquilo que começa a ser uma queda vertiginosa de uma carreira construída nas e para as redes sociais. Para quem não conhece o sujeito em questão, Fabrizio Romano começou por tentar praticar jornalismo, conseguindo mesmo chegar à Sky News Italia mas rapidamente perdeu a corrida para os seus colegas de profissão. Porém, durante esse arranque de carreira foi capaz de estabelecer boas relações com empresários de jogadores, o que lhe permitiu construir uma plataforma nas redes sociais de anúncio de transferências antes que essas se realizassem. Esta legítima artimanha garantiu que Romano se tornasse uma sumidade no tema, conquistando espaço de opinião em diversos jornais e canais de televisão em Itália e no estrangeiro. Contudo, com o tempo, começou a surgir a ideia que o influencer italiano estava a ser pago por empresários e clubes para fazer uma série de tweets/posts informativos de transferências de forma a agitar o mercado e criar instabilidade, uma imagem que nunca descolou completamente, especialmente a partir de 2020.
Com o surgimento de outros influencers similares a si, o italiano foi perdendo impacto e apesar de ainda ser o principal ‘informador’ de transferências, a verdade é que uma parte considerável desses anúncios são roubados de outras fontes, tendo sido já apanhado em flagrante delito e forçado a remover esses posts. Contudo, o pico da loucura de Fabrizio Romano aconteceu há duas semanas, quando fez um vídeo a promover a Arábia Saudita, dizendo ser um país seguro, democrático e que trata todos os seus cidadãos da mesma forma.
Bem, começando pelo óbvio que a Arábia Saudita é uma monarquia absolutista e não uma democracia, e seguindo para o facto que pelo menos um jornalista foi assassinado por membros sauditas, este país do Médio Oriente ainda faz uso de escravos (de forma não oficial), sendo um país carregado de atentados contra os direitos humanos. Porém, Fabrizio Romano como um boneco de trapos movido pelos fios de dólares, decidiu gravar um vídeo a anunciar o seu amor e paixão pela Arábia Saudita sem ter qualquer respeito pela sua pretensa profissão ou pelos direitos humanos. Total propaganda, são estas as duas palavras que ajudam a explicar o objectivo deste sujeito.
Mas para quem possa pensar que isto é um artigo movido por inveja e ciúme, está enganado, uma vez que o que aqui se pretende é demonstrar que personagens como Fabrizio Romano ajudaram a tornar o ramo do jornalismo desportivo numa feira de vaidades e nada mais. Ninguém está aqui a pedir que o italiano passe fome ou não exerça o seu poder de fazer o que quer com as redes sociais; o que se está a exigir é que se quer ser chamado de jornalista e que exige que as pessoas o ouçam, então tem de ser verdadeiro e justo perante os factos reais e não com as invenções promovidas por euros ou dólares. Ter uma opinião não sustentada em qualquer facto, não é opinião, é uma verborreia mental sem nexo e com o fim de semear o caos.
Numa era em que a democracia está a ser alvo de um ataque por diferentes forças, é possível dizer que o jornalismo é parte da razão da ascensão destas novas forças fascistas e movidades a falsidades, com personagens como este influencer italiano a serem um exemplo de que como ao inundar as redes sociais e imprensa com uma série de inverdades e factos distorcidos pode ganhar tanta força como a verdadeira verdade.
Caso tenham interesse em mergulhar mais afundo nesta questão, sugiro que leiam a seguinte matéria analítica de Nick Harris que demonstra como a figura de Fabrizio Romano está a ajudar a enlamear quem tenta fazer verdadeiro jornalismo desportivo.



