A Fábrica de Sonhos da Margem Sul

Francisco da SilvaNovembro 15, 20204min0

A Fábrica de Sonhos da Margem Sul

Francisco da SilvaNovembro 15, 20204min0
Movido por um império económico que influenciou grandemente a economia portuguesa, o Grupo Desportivo da CUF alimentou os sonhos de uma alma fabril, humilde e trabalhadora que ousava desafiar os limites da sua própria existência.

A margem sul do Tejo possui há várias décadas uma essência muito própria que está umbilicalmente ligada aos seus pergaminhos sociais e industriais. Se a fama, a fortuna e a riqueza são atributos que desde cedo não se fixaram nesta região, o mesmo não se pode dizer do orgulho, da superação e do dom de pertencer à margem sul.

A margem sul do Rio Tejo acolheu desde os primórdios da industrialização em Portugal variadíssimas empresas que procuravam desenvolver um país sistematicamente rural, atrasado e pobre. À boleia da audácia, do empreendedorismo, da visão, mas também das relações políticas de Alfredo da Silva, a Companhia União Fabril (CUF), fundada na segunda metade do Século XIX e que se fundiu posteriormente com a sua concorrente Companhia Aliança Fabril (CAF), tornou-se um colosso económico com presença na indústria química, têxtil, da reparação naval, metalomecânica, minas, petróleos, tabaco, banca e seguros, assumindo-se como o principal motor económico da região e um dos mais importantes de Portugal.

Numa altura em que várias empresas procuravam alargar a sua vasta influência económica e industrial para os domínios sociais, culturais e desportivos, a empresa liderada por Alfredo da Silva decidiu fundar o Grupo Desportivo da CUF em janeiro de 1937.

O primeiro convívio com os “Grandes” do futebol português ocorreu na temporada 1942/1943 e culminou com 11 pontos conquistados em 18 encontros e o 9º posto na classificação geral, somente à frente do Leixões SC. Após mais de uma década sem pisar os principais terrenos do campeonato nacional, o emblema da CUF marcou presença com regularidade no principal escalão a partir de 1954, destacando-se um brilhante 5º lugar em 1959/1960.

A década de 60 foi gloriosa para o Estado Novo, fruto de um crescimento económico robusto alicerçado no turismo e nas remessas dos emigrantes, mas foi também gloriosa para o GD da CUF que, aproveitando a pujança económica do conglomerado, reuniu equipas bastante competitivas e bem preparadas que permitiram à formação barreirense marcar presença em todas as edições do campeonato nacional dessa mesma década. Para a história ficou o 4º lugar em 1961/1962, mas fundamentalmente o 3º posto em 1964/1965 que levou o clube pela primeira vez à Taça das Cidades com Feiras onde encontrou o talentoso AC Milan de Cesare Maldini, Giovanni Trapattoni e Gianni Rivera.

Estádio Alfredo da Silva inaugurado em 1965 (Fonte: Wikipedia)

Para acomodar o entusiasmo das gentes da margem sul e para consolidar o crescimento da “onda fabril” no Desporto Rei, o obsoleto Estádio de Santa Bárbara deu lugar ao moderno Alfredo da Silva, em memória do principal impulsionador da instituição e falecido em 1942, com capacidade para 22 mil espectadores e inaugurado em junho de 1965 frente ao SL Benfica.

O entusiasmo da alma fabril, sempre presente em cada encontro caseiro no Estádio Alfredo da Silva, não contagiou na mesma proporção os diferentes plantéis que defendiam as cores do GD da CUF, o que se traduziu em classificações mais modestas e discretas desde então (exceção só mesmo o 4º lugar em 1971/1972).

Se a CUF se confundia com Alfredo da Silva, se a CUF se confundia com o Barreiro, também a empresa se confundia com o clube. Eram indissociáveis, umbilicais na génese, diretamente proporcionais no sucesso e eternamente recíprocos na existência.

A Revolução dos Cravos de 1974 ditou a nacionalização e o desmembramento progressivo do império da CUF. O fim da vitalidade e da importância económica da CUF implicou também a queda abrupta e irrecuperável do emblema barreirense, outrora um dos principais porta-estandartes desta região proletária, trabalhadora e humilde. Em 1975/1976, o GD da CUF terminou o campeonato como “lanterna vermelha” e viu-se relegado para os escalões secundários do futebol português. A instabilidade económica e institucional jamais permitiu ao histórico clube do Barreiro recuperar a sua grandeza desportiva, tendo inclusive alterado a sua designação, primeiro para GD da Quimical e, a partir de 2000, para GD Fabril do Barreiro.

No próximo sábado, dia 21 de novembro de 2020, o mítico Estádio Alfredo da Silva volta a receber no seu relvado um dos principais emblemas do futebol português, o FC Porto.

Infelizmente, o contexto pandémico em que hoje vive Portugal e o Mundo, não permite encher as bancadas do Alfredo da Silva de verde e branco. O silêncio ensurdecedor da bola e dos jogadores, contrasta com os gritos e os berros apaixonados de uma região que há muito não se faz ouvir no panorama futebolístico português. Se a riqueza se desvaneceu, a paixão e o amor fabril mantêm-se intactos, preservados pelas memórias a preto e branco e pelas histórias de um império que se ergueu com as lágrimas e o suor da alma barreirense.


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