A Depressão no Futebol Profissional – Um Fardo Incompreendido

Pedro AfonsoMarço 23, 201810min0

A Depressão no Futebol Profissional – Um Fardo Incompreendido

Pedro AfonsoMarço 23, 201810min0
A Depressão é uma realidade entre os praticantes de Desporto, incluindo os do Desporto Rei. As declarações de André Gomes vieram trazer a público uma realidade ainda inconveniente.

No início deste mês de Março, André Gomes deu uma entrevista à revista Panenka onde revelou o seu estado de espírito enquanto jogador do Barcelona: descontente com a condição de jogador de futebol; deprimido; com medo de errar. O seu gesto foi munido de uma coragem louvável, sendo que expôr os seus sentimentos mais íntimos para todo o Mundo do Futebol, pouco conhecido pela sua compreensão de problemas mentais, só está ao alcance das pessoas verdadeiramente nobres. A resposta dos adeptos culès e do Mundo do Futebol em geral foi surpreendente: ovações, ondas de compreensão e apoio, empatia para com alguém que, apesar de estar no “topo do Mundo”, não está bem.


Por mais do que uma vez pensei em não sair de casa, tinha medo de sair por vergonha. Guardo para mim toda a frustração e não falo com ninguém. É como se me sentisse envergonhado. Sofro por pensar demasiado. (André Gomes)


Contudo, uma rápida passagem pelas redes sociais portuguesas e pelas caixas de comentários dos jornais onde a notícia fora lançada permitiu perceber que estamos longe de ser um País compreensivo quanto a doenças mentais, com um sem fim de comentários a “recriminar” o jogador português por se sentir desanimado apesar do seu enorme privilégio de jogar futebol ao mais alto nível, num dos melhores e maiores clubes do Mundo. Desengane-se quem pensa que André Gomes é caso único: a lista de suicídios e de reformas antecipadas devido a uma perda de “amor ao Futebol” é maior do que se pensa.

Quando o Futebol não chega

O Futebol é um poço de emoções, de paixões. E os grandes veículos desses sentimentos são os adeptos, que vibram e vivem o clube de uma forma quase doentia, totalmente obcecados com as vitórias e o prestígio das cores que defendem. No entanto, ser futebolista não é só uma paixão, é também um emprego. É, sem dúvida, um emprego altamente remunerado, com inúmeras benesses que o comum dos mortais não poderá sequer almejar e um sentimento de endeusamento que pode subir à cabeça de qualquer um. A frase “Quem corre por gosto não cansa” parece aplicar-se, na mente da grande maioria dos adeptos de futebol, a esta profissão.

Mas mesmo que se ame o futebol e se tenha prazer a jogar perante estádios cheios, ser jogador não se resume aos 90 minutos dentro do relvado. As obrigações do jogador profissional de futebol, desde compromissos publicitários, regimes de treino exigentes, dietas restritas e restrições de atividades fora do âmbito profissional, não podem ser descuradas e será lírico achar que o trabalho de um jogador começa e acaba quando entra nos relvados dos estádios e dos campos de treino.

São inúmeros os casos de jogadores que, pura e simplesmente, decidiram a viver a sua vida de uma forma diferente e, não obstante o seu talento, descurar o “chamamento” para o Desporto Rei e perseguir novas experiências.

Hidetoshi Nakata, uma lenda do futebol nipónico e o maior catalisador do futebol asiático e japonês, retirou-se com apenas 29 anos do futebol profissional, após passagens por Roma, Parma, Bolonha e Fiorentina, para se dedicar a uma carreira de Modelo. Tido como o David Beckham japonês, o seu estatuto social permitiu-lhe seguir novos caminhos completamente distintos do futebol.

Uma lenda dentro e fora do campo (Fonte: Football365)

Por terras de Sua Majestade, surge o caso de David Bentley. O antigo jogador de Arsenal e Tottenham, internacional inglês, decidiu abandonar o futebol com apenas 29 anos. A sua razão? “Perda do amor ao futebol”. Será difícil para um adepto perceber esta decisão, mas Bentley é o caso perfeito de um jogador que nasceu na época errada. Um verdadeiro bad-boy, com um amor enorme por festas e pela vida extra-futebol, simplesmente achou que o Desporto Rei não lhe poderia dar a liberdade e alegria de viver de uma forma livre. Consciente disso, decidiu abdicar de um privilégio, quase de uma forma incompreensível para o comum adepto do futebol.

Mas não é preciso andar tantos quilómetros para encontrar casos destes. Quem não se recorda de Dani Osvaldo, o avançado italo-argentino que teve uma curta passagem pelo FC Porto? Um talentoso avançado, com carreira em Itália (Roma) e Inglaterra (Southampton), Osvaldo decidiu esquecer o futebol para seguir a sua paixão: a Música. Em Setembro de 2016, recusou uma proposta do Chievo Verona (isto após ter sido despedido do Boca Juniores por ter sido encontrado a fumar no balneário da equipa, após uma derrota na Copa Libertadores) para se concentrar na sua banda de rock.

Quando o corpo não deixa

A reforma do futebol não é, muitas vezes, uma escolha. Por vezes, apesar de a cabeça querer continuar, o corpo dá de si e não permite o concretizar de um sonho. São inúmeros os casos de jogadores forçados a abandonar o futebol profissional cedo demais e, muitas vezes, as sequelas físicas transformam-se em sequelas psicológicas, com uma incapacidade do jogador em lidar com o sucedido e a entrar, muitas vezes, em depressão.

Em Portugal, não será necessário recuar muito para encontrar um jogador incapaz de atingir voos mais altos devido a lesões constantes. Pedro Mantorras foi sempre um amado dos adeptos encarnados e ganhou o estatuto de ídolo com o seu estilo de jogo trapalhão, mas eficaz. As suas constantes lesões no joelho impediram a sua completa informação no futebol português e, quem sabe, a sua saída para clubes de maiores dimensões.

Jogadores como Emanuelle Petit, Marco Van Basten, Jamie Redknapp, Pierluigi Casiraghi e Just Fontaine foram forçados a abandonar após longas batalhas com lesões. Um outro caso que permite compreender o impacto do corpo na vida de um futebolista é o de Batistuta que, após inúmeras lesões que levaram à perda de cartilagem na perna, viveu dores excruciantes que o fizeram pedir aos seus médicos para lhe amputarem as pernas.

Enorme talento que se perdeu às mãos da Saúde Mental (Fonte: Manchester City)

Um caso que combina a componente psicológica com a componente física é a de Michael Johnson, uma das maiores promessas a sair da cantera do Manchester City. Inúmeros treinadores criticaram a postura de Johnson ao longo dos seus anos no clube de Manchester, contudo, após a sua saída do clube inglês, foi revelado que foi sujeito a tratamento para problemas de saúde mental por vários anos durante o período em que esteve lesionado. Retirou-se do futebol aos 24 anos, em 2012, após 36 jogos na Premier League com idade de júnior!

Quando a vida não chega

Por vezes, a paixão pelo futebol não torna a vida mais suportável ou mais fácil. São inúmeros os casos de suicídios de jogadores de futebol e não se trata apenas de um fenómeno recente. De acordo com um artigo publicado pelo Journal of Novel Physiotherapies e da autoria de Ricard Pruna, médico do FC Barcelona e do FIFA Excellence Centre em Barcelona, são inúmeros os fatores que podem contribuir para o suicídio de jogadores de futebol, como a idade, a reforma, excesso de treino e lesões. Um estudo piloto em 2013 conduzido pela FIFpro, baseado em jogadores profissionais de 5 países, concluiu que 38% dos jogadores em atividade incluídos no estudo sofriam de sintomas de depressão e/ou ansiedade, mostrando que a depressão é mais prevalente em futebolistas profissionais do que na população geral.

Contudo, a depressão não é uma doença nova, uma “moda”. Em 1982, Dave Clement, jogador profissional inglês e 5 vezes internacional, cometeu suicídio devido a depressão. Em Julho de 2014, Andreas Biermann, ex-jogador do St. Pauli, cometeu suicídio após luta contra a depressão e uma tentativa de suicídio prévia. Em Abril de 2017, Rajtoral, jogador do Gaziantepspor, cometeu suicídio após ter terminado uma relação de longa duração e após a saída do clube do seu colega Daniel Kolar, em Fevereiro de 2017.

O caso mais mediático e próximo do público português será, no entanto, o de Robert Enke. A notícia da sua morte, em 2009, apanhou o público português de surpresa, que recordou as três épocas a que foram brindados com o talento do alemão ao serviço do SL Benfica. A sua carreira teve altos e baixos, com uma estadia no clube espanhol marcada por más exibições e críticas de colegas de equipa e um empréstimo ao Fenerbahçe que terminou com uma derrota por 0-3 contra o Istanbulspor, no único jogo em que Enke participou, tendo sido “agraciado” pelos adeptos turcos com garrafas e isqueiros durante o jogo, tendo recuperado a sua relevância e boa forma no Hannover 96. A sua morte surge após 6 anos de luta contra a depressão e eventos traumáticos como a morte da sua filha Lara.

Demasiado cedo. (Fonte: Daily Mail)

Mas a empatia que todos sentem aquando da morte de um jogador às mãos desta terrível doença não apaga que o Futebol ainda é um Mundo retrógrado e que a Depressão é vista como uma doença irrelevante. As revelações de David Cox, jogador da Segunda Divisão Escocesa, a 2 de Fevereiro de 2018, demonstram a insensibilidade de um desporto que não compreende ainda a total relevância da psique para o rendimento desportivo. De acordo com o jogador de 28 anos, vários dos seus colegas de profissão e adeptos fizeram inúmeras provocações com a sua saúde mental como alvo, gritando ao jogador para “cortar os pulsos” e para “se enforcar, mas fazê-lo bem desta vez”.

A depressão é um flagelo da sociedade moderna e não apenas um “capricho”. Se acha que sofre de depressão ou conhece alguém que sofra de depressão, por favor procure apoio especializado! Poderá contactar inúmeras linhas de apoio psicológico e emocional especializadas, como o Conversa Amiga, que poderá contactar através do 808 237 327!


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