“Cromos” da Saudade: João Manuel e Diego Maradona

Pedro PereiraAgosto 15, 20194min1

“Cromos” da Saudade: João Manuel e Diego Maradona

Pedro PereiraAgosto 15, 20194min1
Alguns cromos trazem uma saudade imensa à Caderneta dos Cromos e hoje relembramos dois deles... João Manuel e Diego Maradona!

A Caderneta dos Cromos abre uma página mais pessoal da sua colecção dos cromos, com uma viagem a anos em que reverenciava (e que ainda o reverencia) jogadores lendários do futebol português e mundial. Dois cromos especiais, cada um com o seu pedaço de história!

O “meu” número 13.

Este é dos cromos que mais brilho tem na caderneta da minha vida. Meio campista, trabalhador, nascido e criado na região centro do país, com uma carreira invejável na primeira liga portuguesa. Começou em 86 no Académico de Viseu, em 92 representou a Académica, e foi no União de Leiria que se tornou um elemento histórico daquele clube. Capitão, exemplo, titular absoluto, só saiu em 2004 quando Vitor Pontes lhe informou que não contava com ele. Rumou ao Moreirense.

É brilhante por isso? Também, mas não é o essencial. João era a minha referência futebolística enquanto eu ainda era um menino a dar os primeiros passos no futebol. Sempre que via o João a jogar na TV não tirava os olhos daquele craque. O meu pai jogou com o João e os dois criaram uma boa amizade. João tinha uma casa em Coimbra, a minha cidade, e sempre que la ficava, os dois combinavam um café. Lá ia eu atrás, para poder estar com o craque. No meio das conversas de adultos, ele lá perguntava como eu me estava a sair nos treinos e jogos.

A resposta durante alguns anos era sempre a mesma: eu ansiava demais com os jogos e isso limitava-me. Eu não saboreava o jogo como era suposto. Coisas de garoto. Com a sua paciência, passava-me alguns conselhos que ainda ecoam na minha cabeça passados tantos anos. Aquela humildade do craque da liga profissional, na minha cabeça de criança, valiam ouro. E olhando para trás, valem mesmo. João era um jogador distinto. Em vez de títulos, colecionava amigos.

Em toda a sua carreira, nunca teve uma lesão. Tinha uma capacidade de trabalho ímpar. Não era um portento técnico mas era difícil encontrar um erro técnico no seu jogo. Em 2002, Mourinho quis levar João para o FC Porto. Acabou por não se concretizar por causa dos seus já 33 anos. Mourinho acabou por levar Tiago, outro centro campista do Leiria.
Em 2004, já a representar o Moreirense, João Manoel cai no relvado durante um treino. Caiu de uma forma estranha, como nenhum jogador cai. Desamparado, sem reflexos de amparo ou proteção. Após alguns exames, diagnosticam João com esclerose múltipla. Foi a sua última época. A doença venceu-o em 2005.

Diego Mardona… a paixão num pé tamanho 39

Hoje faz anos o maior de sempre (conta a minha humilde opinião). Hoje a bola salta e rebola de alegria, embriagada pelo prazer de ter sido tocada com tanto carinho por aquele mago baixinho que calçava o 39.

Os relvados que tiverem o prazer de te serem pisados choram hoje de saudade; os relvados que nunca te serviram como palco de espectáculo, choram de tristeza. A essência do que é o futebol está nele: se virem como ele transporta a bola naquele golo a Inglaterra, reparem: à medida que transporta a bola e a empurra em direcção à baliza contrária, a bola, sentindo-se confortada por cada toque, faz questão de desacelerar, na esperança de voltar a ser tocada pelos pés de veludo.

Conta-se que em Nápoles, a cada jogo no San Paolo, os adeptos lamentavam-se nos cemitérios, junto dos seus entes queridos que outrora foram apaixonados pelo clube da cidade, dizendo: “não sabem o que perdem”. O seu pé esquerdo foi abençoado com o dom de dominar a bola, aquele ser que os intelectuais dizem ser apenas um objecto sem vida, destinado a controlar massas e classes. Enganam-se. Está cheia de sonhos, de vontades, de sorrisos ou de choros.

Está cheia de catarse para aqueles que a vida decidiu colocar 30 mil adversários ao mesmo tempo. Maradona foi um deles. Driblou-os a todos e chegou ao topo. Errou, pecou, fumou, bebeu, cheirou. “pero…. la pelota no se mancha”, diz ele no coração da Bombonera de mãos abraçadas ao seu próprio corpo, como que abraçando aquela consciência colectiva que diante dele lhe prestava homenagem. E arrepio-me ao lembrar-me desse momento. Assim como me arrepio a lembrar-me do aquecimento alucinante ao som de Life is Life em Munique, do campeonato italiano pelo Nápoles, do Campeonato do Mundo de 86, do regresso a casa no Boca ou de ele dar toques no chão, colocar-se em pé e colocar a bola em cima da cabeça com a mesma facilidade de quem se veste de manhã.

Foi isso que Maradona me passou. Arrepiar quando falo do jogo. Sensações. Sentir o jogo de forma apaixonada. Obrigado por isso.


One comment

  • Nuno salvador

    Novembro 16, 2019 at 8:53 pm

    Bom artigo o João era natural de Moimenta da Beira.

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