Caderneta de Cromos e Valderrama, o El Pibe colombiano

Pedro PereiraFevereiro 7, 20186min0

Caderneta de Cromos e Valderrama, o El Pibe colombiano

Pedro PereiraFevereiro 7, 20186min0
Carlos Valderrama, um dos melhores jogadores colombianos de sempre que encantou pelo seu estilo, o seu talento e pelo seu altruísmo dentro de campo.

Texto escrito pela caderneta.de.cromos

Um craque cheio de nomes de craques. Carlos Alberto, lateral direito do Brasil de 82, o assinante do golo bandeira do futebol arte; Valderrama, o próprio; e Palacio, o Rodrigo argentino , careca de trança fina na nuca. No final, seria o nome do meio, o Valderrama, a ficar eternizado nos cromos dos anos 80 e 90. Elegante, alto, cabelo afro farto e louro, bigode, brinco na orelha, colares de miçanga no pescoço e pulseiras a descer pelo antebraço.

Cheio de estilo era o seu visual e também o seu jogo. Um cromo que teria dificuldades em sobreviver no futebol dos dias de hoje. Hoje, a camisola tem de estar por dentro dos calções, nenhum adereço pode ser usado pelos jogadores, pois a sobriedade é um item exigido. Normatização, tanto na aparência como no jogo. Mas Valderrama era tudo, menos normal.

Foto: TodoFutbol

O seu amor pelo jogo começou em Santa Marta, na Colômbia, terra de praias estonteantes onde a vibe caribenha toma conta de quem lá vive. Foi lá que Valderrama deu os seus primeiros toques e prometeu à sua terra natal que carregaria o seu estilo tropical para onde o seu futebol o levasse. Foi também nesta cidade que Valderrama foi baptizado com o apelido de El Pibe (expressão argentina que significa jovem ou criança), depois de um argentino o ter visto a brilhar num campo do seu bairro. Coincidência ou não, os colombianos dizem até hoje que Valderrama é o Maradona colombiano.

O seu primeiro treinador foi o seu pai (que, em tempos, também tinha sido também jogador), no clube do colégio onde Valderrama estudava. Desde essa altura que era clara a função daquele menino dentro de um campo de futebol: ser o maestro da orquestra. O seu talento mostrava-se grande demais para caber num clube de colégio. Ainda juvenil ingressou no plantel do melhor clube da cidade, o Union de Magdalena, que acabaria por se tornar o clube que o permitiu estrear-se nas competições profissionais.

Foto: Old School Panini

Num clube onde o objetivo era manter-se a meio da tabela e não descer muito mais do que isso, o talento de El Pibe obrigou-o indirectamente a voar para outros clubes com aspirações superiores, o que o levou a assinar pelo clube Millionarios. Porém, a sua passagem no Millionarios foi tudo, menos positiva. Com vinte jogos e zero golos, Valderrama teve dificuldade em impor-se no clube, que na altura era comandado por Jorge Luis Pinto.

Sim, esse mesmo, o actual treinador da seleção das Honduras que marcará presença no Mundial de 2018. El Pibe sentiu que naquela casa seria difícil singrar e transferiu-se para o Deportivo Cali, clube da capital colombiana.

Foto: TodoFutbol

Esta foi a casa que assistiu ao desabrochar do craque que existia dentro de Valderrama. Foram 134 jogos, 25 golos e imensas assistências. Digo imensas porque se tornaram incontáveis. Na verdade, foi na assistência para golo que Valderrama encontrou a sua verdadeira vocação. Foi o altruísmo que o dominou ao longo da sua carreira. Oferecer a bola ao seu colega mais bem colocado era o seu próprio clímax.

Ele mesmo confessou que, quando em oportunidade clara para fazer golo, preferia esperar por um colega e entregar-lhe a bola mastigada para este consumar o acto, do que fazer ele próprio o golo. Que estranho, devem pensar os leitores. Mas os românticos não são feitos para ser entendidos. Apesar da sua brilhantíssima performance, nestes dois anos que representou o Deportivo de Cali não conseguiu ser campeão pelo clube. Na verdade, a carreira de El Pibe e os títulos nunca tiveram uma relação harmoniosa. Considerando o talento do cromo, os títulos não se mostraram proporcionais.

O primeiro título da carreira de Valderrama aconteceu só em 1987, quando venceu a Copa América pela Colômbia e o segundo, só em 1990, quando venceu a Taça de França, quando representava o Montpellier. O Montpellier foi o primeiro clube europeu que Valderrama representou. Jogador de contratos curtos, dois anos após a sua estreia em França, ruma à Espanha para representar o Real Valladolid, clube que em 1990 decidiu investir num elenco com um toque mais colombiano, contratando o treinador Francisco Maturana, o preparador físico Diego Barragan e os jogadores Huigita, Alvarez e Valderrama.

Foto: Goal.com

Foi precisamente a representar o clube espanhol que aconteceu algo extremamente inusitado, proporcionando uma das fotografias mais caricatas do futebol.

Aconteceu em 1991 na grande área do Real Madrid, com os protagonistas Valderrama, que se preparava para fazer golo, e Michél González, na altura centro campista do clube madrileno e actual treinador do Málaga. Tudo se passa numa área, momentos antes do canto, mas, neste dia, Valderrama sentiu a marcação demasiado apertada, com muitos empurrões e puxões. Em voz alta e um pouco revoltado por isso, vira-se para os defesas do Real e diz: “não me digam que também vão tocar no meus cojones”. Michél aproveitou a deixa e… “Eu toco”.

Foto: Pinterest

Não deu golo. Pelo menos isso.

Foi com a camisola da seleção colombiana que o craque registou os melhores momentos na sua carreira. Para além do titulo de 1987, foi em 1990 que começou uma época promissora e fulgorosa do futebol colombiano. A seleção colombiana chegou ao campeonato do mundo de 1990 na Itália, 28 anos depois da sua ultima participação em campeonatos mundiais.

Apesar de não ter chegado longe nesta edição (ficou nos oitavos de final, aos pés dos Camarões de Roger Milla), ficou claro que o futebol colombiano tinha deixado uma marca evidente do seu perfume no futebol mundial.

Em 1994 e em 1998, apesar da clara qualidade de alguns elementos da seleção colombiana, a seleção não foi capaz de passar a fase seguinte. Já na fase final da sua carreira, Valderrama decidiu experimentar o Soccer, jogando nos Estados Unidos durante oito anos. Terminou a sua carreira aos 41 anos no posto de jogador numero 1 do futebol colombiano, com 111 internacionalizações e 11 golos marcados.

Cromo número 1 do futebol colombiano.

Foto: Pinterest

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