28 Mai, 2018

Caderneta de Cromos e o Mágico González, o Rei de Cádiz

Pedro PereiraDezembro 29, 20178min0

Caderneta de Cromos e o Mágico González, o Rei de Cádiz

Pedro PereiraDezembro 29, 20178min0
O Fair Play traz um "cromo" que deliciou as ruas de Cádiz, assustou Barcelona e mexeu com o El Salvador. A Caderneta de Cromos e o Mágico Gonzalez.

Texto escrito pelo Instagram caderneta.de.cromos 

Foi um dos maiores românticos do futebol mundial. Uma alma humilde, com um coração tão grande quanto o seu talento. Apaixonado pela vida e pelos prazeres que ela oferece. Um boémio irreverente que se tornou no melhor jogador salvadorenho de todos os tempos. Foi Deus, mas preferiu não subir até ao olimpo do Futebol. Cromo Único.

 

Foto: Pinterest

EL SALVADOR

Foi onde ele nasceu. Mais precisamente, na cidade de San Salvador, no dia 13 de Março de 1958. Conheceu cedo a sua melhor amiga, a bola. Nas ruas, claro, onde a maioria das crianças daquele país passa o seu tempo. Rapidamente, mais precisamente em 1975, Jorge foi descoberto pelo ANTEL, passando depois pelo Independiente F.C. e pelo C.D. Fas . O seu futebol trazia magia e luz aos estádios da sua terra.

Desde cedo, o seu espírito se revelava rebelde. Um treinador seu, dos tempos do ANTEL, colocou uma regra na equipa de que era proibido tomar banho antes dos jogos. No jogo seguinte, antes do aquecimento, tomou banho e saiu perfumado para dentro de campo. Foi o principal responsável pela classificação da seleção salvadorenha para o Campeonato do Mundo da Espanha de 1982 (que golo antológico foi aquele contra o México…), sendo esta a segunda participação do país em Campeonatos do Mundo. El Salvador perdeu todos os jogos (frente à Hungria, em que perdeu por 10-1, é até hoje a maior goleada da história dos Mundiais). Foi com González, na caderneta de cromos deste mundial, que a Panini cometeu uma das maiores injustiças das suas cadernetas: colocar um craque tão grande como Jorge González num cromo dividido com outro jogador. Mal eles sabiam que Jorge viria a ser um dos cromos mais preciosos da história das suas cadernetas. Ainda assim, o perfume de Mago González (como o povo salvadorenho já lhe chamava) despertou o interesse de alguns clubes europeus, como PSG, Atlético de Madrid e Cádiz.

Foto: Old School Panini

 

O CONTRACTO

No fim da participação da seleção salvadorenha no Mundial da Espanha, a seleção carregou as suas malas e os seus jogadores para o seu país. Menos Jaime Rodriguez (internacional salvadorenho) e o Mago. Ficaram um mês de férias em Espanha. A vontade dos clubes Europeus em contratar Mago Gonzalez era tão grande como a quantidade de festas que aqueles dois salvadorenhos frequentaram naquele mês de 82. Jaime conta que “depois de três noites sem dormir, numa praia em Málaga, chegaram perto de nós três homens de negro que o queriam contratar. Fomos até Cádiz e o presidente Irigoyen contratou-o num hotel. Disseram-lhe para ir ao estádio, para formalizar a apresentação. Nós dissemos que íamos, saímos do hotel e imediatamente viajamos para Sevilha para conhecer as discotecas de lá”. E assim, no final das férias loucas, Gonzalez estava em Cadiz para cumprir o seu contrato. A Europa começava a conhecer uma das almas mais irreverentes que iriam passar seus campos de futebol.

FUTEBOL E A VIDA EM CÁDIZ

Uma velocidade desenfreada num corpo franzino onde a bola era uma extensão de si mesmo. A cada jogo que passava, o povo de Cádiz ia ficando cada vez mais surpreendido com as maravilhas que Jorge fazia dentro de campo. Na sua primeira época, a disputar a segunda divisão espanhola, o Mágico Gonzalez, alcunha com que o povo de Cádiz o havia baptizado, fez 15 golos em 33 jogos e foi o protagonista da equipa na subida de divisão. David Vidal, o seu treinador da época, estava apaixonado: “Nunca vi um jogador com tal qualidade técnica. Um dia, ele começou a fazer malabarismos com um maço de cigarros. Uma laranja é redonda, mas um pacote de cigarros é retangular! A sensualidade que Deus nos deu nas mãos, Deus colocou nos pés de Jorge. Ele coloca a bola onde ele quer”.

Fora de campo, o Magico também era um ser distinto. Jorge experimentou todas as bebidas que havia disponíveis na cidade. Dormia nas horas que coincidiam com os treinos. Umas vezes chegava atrasado, outras já não valia a pena sair de casa. Se encontrasse um grupo de crianças a jogar nas ruas, juntava-se a elas. Dizem até que houve uma vez que se lesionou num destes jogos de rua. Muitas das pesetas que Jorge ganhava eram dadas aos mais necessitados da cidade. Cadiz amava o Magico e o Magico amava Cadiz. Já na sua segunda época, num jogo contra o Atlético Madrid, chega bêbedo ao estádio, minutos antes do apito inicial. Durante outro jogo, num canto a seu favor, Jorge adormeceu no ombro de um adversário enquanto esperava pela bola. Mas apesar destas atribulações todas, o desempenho do Mágico era sempre o mesmo, ou seja, brilhante. E no meio de tanta magia, tudo lhe era perdoado.

Tem exibições extraordinárias contra o Real Madrid e contra o Barcelona. Reza a lenda que, em Cadiz, ainda hoje é comemorado o golo que Gonzalez fez contra o Barcelona, onde todos os defesas do Barça pareciam simples meninos a tentar tirar a bola de um gigante imparável. Apesar das excelentes exibições do cromo, Cádiz acabou mesmo por descer de divisão naquele ano.

Foto: Taringa

BARCELONA

Maradona disse: Mágico é um dos dez melhores jogadores que já vi jogar. Posto isto, o Barcelona, sob o comando de Menotti, estava determinado em contratar a estrela de Cádiz. O objetivo era juntar Maradona e Mágico na mesma caderneta. Em 1984, o salvadorenho chegou a ir, numa turnê do Barcelona, aos Estados Unidos. Nesse verão, em jogos contra o Fluminense e New York Cosmos, o futebol assistiu a uma das melhores uniões de sempre. Maradona e Mágico Gonzalez a tocarem a bola um para o outro. De truque de magia atrás de truque de magia, o futebol ia sorrindo só de imaginar que aqueles dois poderiam jogar durante uma ou mais época juntos. Mas não jogaram. Durante o estágio, Gonzalez quebrou as regras do clube e foi encontrado na cama com uma camareira do hotel. Conhecendo a sua fama, não lhe deram uma segunda oportunidade.

Foto: Pinterest

O RETORNO À SUA CADIZ

Depois de uma experiência frustrada em Valladolid e numa fase complicada da sua carreira, só havia uma casa capaz de recebê-lo de braços abertos: Cadiz. Nesta segunda passagem por Cádiz, Gonzalez viveu a sua melhor fase na carreira. Alguns clubes de Itália chamaram por ele, mas González estava onde queria, junto da sua Cadiz e do seu povo. O Mágico só sairia de Cádiz em 1991, com 33 anos, para jogar na terra onde nasceu, no clube que o criou, o CD FAS. Essa jornada só terminaria em 2000, quando o corpo de Mágico, já com 42 anos, lhe disse que era melhor parar.

FILOSOFIA COM A BOLA NOS PÉS

“Eu admito, não sou nenhum santo. Adoro sair à noite e ir para festas, nem mesmo a minha mãe me consegue demover. Eu não gosto de ver o futebol como um trabalho. Se eu fizesse isso, não estaria a ser eu. Eu só jogo para me divertir”.

O Mágico, com a sua carreira, não nos ofereceu simplesmente momentos mágicos dentro de campo. Ensinou-nos que não existe pouca ambição. Existe sim um pleno autoconhecimento, capaz de tornar claro o que realmente é necessário para a felicidade de um mágico. Poderia ter ido para o Barcelona, ter ganho muito mais dinheiro do que ganhou na sua carreira, ser muito mais famoso do que hoje é. Teria sido feliz? Possivelmente não. Gonzalez diz que cumpriu todos os sonhos que tinha enquanto jogador. Hoje, Mágico Gonzalez é taxista no seu país. Nesse mesmo país, o maior estádio tem o nome de Estádio Mágico Gonzalez. Um cromo genial, no futebol e na vida.

Foto: diario1

 

 


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