Tunha Lam e a Epopeia na Eslovénia

Rafael RaimundoMarço 20, 201816min0

Tunha Lam e a Epopeia na Eslovénia

Rafael RaimundoMarço 20, 201816min0
Tunha Lam. "Em Portugal existe muita qualidade e agora espero que com esta nossa vitória o crescimento do futsal seja mais rápido porque acho que só tem a ganhar".

No dia em que nasceu, uma tia deu-lhe a alcunha de Tunha e até aos dias de hoje a mesma permaneceu. Na verdade, o nome dele é Carlos Vasconcelos, mas na camisola que vestiu ao serviço da seleção portuguesa decidiu colocar “Lam” em homenagem às três mulheres da sua vida. Lia, a mulher, e Alicia e Milene, as filhas.
Sempre jogou futebol até à época em que não conseguiu mudar de equipa.

Uma vez que iria ficar um ano sem jogar decidiu começar a jogar futsal com uns amigos na Academia do Lumiar. De futsal pouco sabia, tirando as noções que adquiria nos ringues, contudo rapidamente a modalidade se tornou a sua primeira paixão.
Sai mais contente dos jogos se assistir um colega para o golo do que se fizer dois golos. Em percentagem, o próprio diz que aponta para 55% e 45% entre assistir e marcar, respetivamente.

Entre passagens pelo SL Olivais, Leões Porto Salvo, Fundão e atualmente no Belenenses, foi um dos jogadores presentes na primeira grande conquista portuguesa no futsal, a nível de seleções.

O Fair Play entrevistou um dos 14 bons rapazes de Rio Maior e em off o próprio disse para que o tratasse por “tu” uma vez que com 33 anos ainda se sente um jovem.

Fotografia: Sara Pinho
Em janeiro numa entrevista à FPF dizias que só irias sentir o que é estar numa fase final quando lá estivesses. Agora que se concretizou, o que é que sentiste?

TL: Quando lá estive nos primeiros jogos estava ansioso. Era um orgulho enorme estar a representar Portugal numa competição tão grande como é o europeu. Mas no decorrer da competição tentei viver todos os momentos ao máximo, desfrutar de todos os jogos e fazer com que saíssemos vitoriosos.

 À partida para a Eslovénia eras um dos menos experientes nestas competições. Como é que os teus colegas ajudaram? Houve algum que se tenha destacado ou com quem te deste melhor?

TLNão consigo dividir isso em grupos porque desde o estágio em Rio Maior fui muito bem ajudado pelos mais velhos, como o João Matos, o Ricardinho, o Cary. Todos me ajudaram e a minha integração foi muito rápida também por isso. A forma como fui recebido deu-me um grande gozo.

 Como viveram os últimos minutos da final?

TL: As minhas canelas estavam a tremer…

A lesão do Ricardinho foi o presságio, recordando o que aconteceu a final do campeonato da Europa de futebol há dois anos.

TLSim, muitas pessoas falaram nisso, mas nós no momento nem nos lembramos disso. Quando o Bruno foi marcar o livre de 10 metros tanto eu como o Márcio, que era quem estava ao meu lado no banco, estávamos bastantes confiantes.

 O que é que o mister Jorge Braz disse na primeira conversa com a equipa após a conquista da prova?

TLNão me recordo bem, mas desde o inicio até ao final o discurso que o mister Braz teve connosco foi sempre um discurso confiante de que iríamos sair de lá vitoriosos. E foi o que aconteceu. Ele bem disse que tinha muita confiança em nós. Dizia que sabia a qualidade que tínhamos e aquilo que íamos alcançar.

Só faltou mesmo marcar um golo…

TLÉ mesmo é mesmo.

Fotografia: UEFA
Nos ¼ final da prova jogaste pouco tempo durante a 2º parte porque estavas em risco de não jogar a eliminatória seguinte caso a equipa passasse. Ficaste chateado?

TLAntes de mais nunca fiquei chateado. Foi uma opção.

Estávamos muito bem no jogo em 4:0. No inicio sofremos o golo, mas conseguimos inverter a situação de uma forma muito eficaz e com muita qualidade. De forma alguma fiquei chateado. Apoiei a equipa do inicio ao fim porque é isso que temos de fazer. Há vezes que vamos jogar mais, há outras em que jogamos menos, mas somos todos importantes. Aliás foi o que o Braz nos disse desde o inicio. Todos soubemos o nosso espaço e a importância que tínhamos.

Quando entravas o sistema de jogo português alterava de 4:0 mais móvel para um 3:1 com Tunha a jogar como pivot posicional. O que é que Jorge Braz pedia antes de entrares?

TL: Desde logo dava-me sempre confiança. Cheguei à equipa com o meu tipo de características e o mister apenas me dava indicações para fazer o meu jogo.

Mas pedia para segurar a bola ou tentar lances de 1×1?

TL: Pedia-me para apaziguar o jogo, para fazer baixar a pressão da outra equipa e para oscilar a defesa adversária.

Qual foi o momento do percurso português em que os jogadores mudaram o chip e pensaram realmente “este europeu é nosso”?

TL: Desde o inicio que queríamos levar o europeu de uma forma construtiva. Não queríamos delinear desde logo objetivos grandiosos como vencer a competição.

O mister Jorge Braz afirmava que queriam uma medalha…

TL: Sim, com a 3º posição no ranking o mister disse que não fazia sentido sair da Eslovénia sem uma medalha, mas obviamente sabíamos qual era a medalha que queríamos. Que é a que temos.

Fomos jogo a jogo. O primeiro objetivo foi passar o grupo e passámos muito bem. Depois foi eliminatória a eliminatória até chegarmos à final. Das meias-finais à final apanhámos dois colossos do futsal, Rússia e Espanha, e conseguimos sair desses dois jogos com a vitória e com uma união incrível.

Fotografia: UEFA
O facto de a seleção juntar jogadores de clubes rivais faz com que a relação dentro do plantel seja afetada por isso?

TL: Antes de ir para Rio Maior fazer o estágio também pensei isso. Questionava-me como seria o ambiente uma vez que ali há tantos rivais, mas dentro do grupo de trabalho nunca houve um único problema. Nunca houve nenhum episódio, nenhuma diferença. Estivemos juntos do inicio ao fim.

 E corrige-se tanto um colega que é companheiro de clube como um que seja rival?

TL: Sempre. A exigência é muito alta. Se eu tivesse algum colega meu lá também faria como se ele fosse meu inimigo. Temos que exigir o máximo tanto de nós como de um colega. É a isso que se chama apoio e espírito de equipa.

 O Márcio foi um dos jogadores que jogou menos tempo. Alguma vez o sentiu desintegrado do grupo por isso?

TL: Não. Ele viveu os momentos tanto quanto nós. Sabíamos que iria calhar sempre a alguém jogar menos e neste caso calhou ao Márcio, mas em situação alguma ele mudou a forma de ser e a ambição que tinha. Estivemos sempre unidos e o Márcio teve sempre uma atitude muito boa nesse sentido. Às vezes há pessoas que podem levar a mal jogar de forma menos regular e nesse capítulo ele esteve muito bem.

 O famoso grupo no WhatsApp ainda permanece?

TL: Sim, claro. Aliás quase todos os dias falamos.

 E antes dos jogos entre vocês há algum tipo de picardia?

TL: Não. Pelo contrário, ainda gozamos.

 Já houve alguma situação caricata entre jogadores?

TL: Sei que houve uma situação em que brincámos por alguma razão da qual não me recordo, mas sempre o fizemos muito. Aliás, estamos sempre a brincar uns com os outros. Quando gozamos é sempre de uma forma saudável e não como uma forma de denegrir seja quem for. Essa é a nossa grande qualidade.

 A chegada a Portugal foi inesquecível. Como é que viveste nesse momento?

TL: Foi único. Nós não estávamos mesmo à espera. Tanto eu como os meus colegas, expeto aqueles cujas famílias viajaram até à Eslovénia, tínhamos a família à espera no aeroporto e foi um sentimento incrível.

 Contudo, não foi só em Portugal que tiveram um grande apoio. Na Eslovénia estava um grupo de portugueses estudantes de Erasmus. Foram um importante apoio?

TL: Sim, sem dúvida. Tenho essa claque no coração. Ainda que só tenhamos falado no pavilhão após os jogos. Creio que nas meias finais ou na final, eles chegaram mesmo a ir até perto hotel onde estávamos para nos dar uma palavra de incentivo e nos desejarem sorte e depois da final voltaram a passar por lá.

Esta claque, contudo, já nos acompanhava desde que fomos para a Eslovénia fazer o teste da arena, para reconhecimento do piso de jogo. Jogo a jogo a claque ia crescendo. No início era um pequeno grupo, mas no final já eram muitos. Acho que quando o Europeu acabou eles também regressaram a Portugal.

Fotografia: UEFA
Esperas estar na próxima competição que é o Mundial?

TL: Vou trabalhar para isso como se nunca tivesse ido à seleção antes e começasse do ínicio o meu percurso para lá chegar.

 Tunha ou Cardinal?

TL: Tunha, claramente.

 Na seleção, e visto o 4:0 ser a “tática base” da forma como Portugal joga, há lugar para dois pivots no plantel?

TL: Claro, por exemplo na equipa do Sporting estão três pivots. Um mais posicional que é o Fortino e depois tens dois mais móveis que são o Dieguinho e o Cardinal. Eu e o Cardinal temos características muito diferentes. Nem eu tiro o lugar ao Cardinal, nem o contrário acontece.

 O que é que que vos difere?

TL: O Cardinal é mais móvel. Sai muito da posição para jogar em 4:0. Eu sou mais posicional. Não me comparo com ele. Acho que podemos estar os dois lá. Em campo ou está um ou está outro.

 E achas que podes desequilibrar tão bem quanto Cardinal?

TL: Sim, claro.

 Depois de treinar e jogar com Ricardinho achas que existe qualquer coisa de especial no capitão português ou é fruto de muito trabalho?

TL: Às vezes as pessoas podem achar que, como já fez o que fez e já é quem é, em termos de treino pode ser relaxado, mas não. É completamente díspar. No treino é igual ao jogo.

Diz-se que os jogos são o reflexo dos treinos…

TL: Ora aí está. Mas há quem consiga às vezes mudar aquele chip de treino para jogo, no entanto ele é igual. Sempre com intensidade e a qualidade nem é preciso dizer nada. Já o conhecia antes, mas depois de partilhar um balneário e conviver com ele em campo posso dizer que é cinco estrelas.

 E como descreves a postura do mister Jorge Braz?

TL: Eu não o conhecia. Sabia quem era, mas nunca tinha convivido com ele. Depois de estar lá consigo dizer que o Braz a nível de motivação nos deixava no topo e taticamente também é muito exigente. Toda a equipa técnica está muito bem construída. Desde o scouting, que nos permitiu entrar nos jogos a conhecer muito bem o adversário, a todos aqueles que nos permitiram ter uma estadia relativamente tranquila. Foi uma organização de sucesso por parte da Federação.

 O que é que o presidente Fernando Gomes vos disse no primeiro discurso após a conquista?

TL: Agradeceu-nos pelo feito.

 Houve choros?

TL: Houve momentos muito intensos. Lembro-me do Pany a dizer que tínhamos conseguido, mas a mim só me apetecia correr para todo o lado. Foi incrível mesmo. Como disse o presidente da República foi genial. Estamos de parabéns desde o Braz até ao último jogador.

 Foi um dos pontos mais altos da tua vida?

TL: Sem dúvida. Não foi o mais alto porque esse foi o nascimento das minhas filhas.

 Numa reportagem televisiva disseste que os teus alunos eram muitos especiais. Não te sentes especial também por ter sido um dos 14 bons rapazes de Rio Maior?

TL: Sinto-me especial por ter partilhado com os meus colegas esta conquista. Pensava que eles não iam acompanhar com tanta emoção, mas eles realmente viveram isto tanto quanto eu.

 As pessoas já te reconhecem na rua?

TL: Sim, e muitas pessoas já agradeceram o que fizemos. Houve uma situação caricata, estava na zona da Amadora e houve um rapaz que me reconheceu e pediu para tirar uma fotografia. Eu disse que sim e antes de me ir embora ele disse “olha um abraço e espero que sejam campeões europeus agora quando forem para a Eslovénia”.

Risos…

TL: Já fomos, respondi eu.

Fotografia: UEFA
O Pedro Cary escreveu sobre os 14 bons rapazes de Rio Maior. O que é tens a dizer aos 13 outros bons rapazes?

TL: Desde logo agradecer por tudo. Os 13 ajudaram-me imenso a integrar o grupo o mais rápido possível. Tivemos um balneário muito coeso, de muita entreajuda, e isso foi-se notando nos jogos.

Houve uma fotografia que eu publiquei na minha página em que aparecia o André Coelho, o Fábio Cecílio e o Pany a fazer um corte a um remate de um jogador espanhol e só aí percebe-se o espirito da equipa. Essa fotografia vai ficar para sempre porque descreve mesmo a nossa união desde o que jogou menos até ao que jogou mais.

 Agora também voltaste aqui ao Belenenses. Quais são os objetivos da equipa?

TL: O objetivo mais próximo é garantir a fase final do campeonato.

Neste momento seria arriscado dizer que o Belenenses pode lutar pela conquista de um campeonato visto serem tão grandes as diferenças face a equipas como Sporting, Benfica e mesmo Braga AAUM e Fundão…

TL: São abismais as diferenças entre Sporting e Benfica para as restantes equipas e até mesmo para o Braga e o Fundão, que são equipas que já têm a “estrutura” montada há imenso tempo e que estão muito bem trabalhadas. O Belenenses está também a trabalhar nesse sentido, mas será um trajeto longo.

Para já o importante é chegar às finais. Depois de lá estarmos uma coisa é certa: vamos jogar para ganhar, seja contra quem for.

 Como te sentes entre o grupo de trabalho depois de fazeres parte da seleção?

TL: Não gosto de me sentir estrela ou vedeta só porque fui campeão europeu. Cheguei aqui ao Belenenses e sou o Tunha. Sou a mesma pessoa, igual a eles. Sou do mesmo patamar que eles.

Nunca fiz nada para que me vissem de outra forma. Fui campeão europeu, mas somos todos iguais. Não há diferenças.

Fotografia: Sara Pinho
Fizeram alguma festa quando voltaste à equipa após a conquista do Europeu?

TL: Os meus colegas de equipa fizeram-me uma festa no meio do pavilhão. Fizeram uma roda e começaram a cantar “o campeão voltou”.

E a medalha fez fama?

TL: Sim, muita. Nós já temos na equipa o Carlos Paulo (guarda-redes) que foi campeão europeu, mas a nível de clubes, pelo Benfica. Ele sabe bem o que é ganhar um troféu importante. Ainda mais a nível de seleções.

Podemos esperar um Tunha a jogar numa equipa com outras ambições?

TL: Todos os jogadores têm o objetivo de chegar a um clube grande e eu não fujo à regra. Trabalho para isso.

Já houve convites?

TL: Não, mas estou bem onde estou e faço questão de frisar isso. Estou muito bem no Belenenses, sinto-me em casa. Obviamente tenho objetivos pessoais e o meu treinador sabe disso desde o inicio. Sempre esteve a par de tudo e ajudou-me a estar hoje na seleção.

Se são objetivos a longo prazo ou a curto não sei. O meu objetivo é trabalhar para chegar a patamares superiores e se o conseguir muito bem, caso não aconteça fica o sentimento de que trabalhei para lá chegar.

Que conselho deixas aos jovens jogadores que querem vingar no futsal?

TL: Para já dedicação ao máximo. Lutar para aquilo que querem. Traçar objetivos tanto diários como mensais ou anuais e depois tentar atingi-los. Nós vivemos de objetivos, queremos superar todos os dias a nossa performance e para isso temos é de trabalhar.

Em Portugal existe muita qualidade e agora espero que com esta nossa vitória o crescimento do futsal seja mais rápido porque acho que só tem a ganhar. É um desporto que tem ganho muitos fãs. Nas competições já se começam a ver pavilhões cheios, por isso só há a ganhar.

O que é que falta conquistar no futsal?

TL: No imediato conquistar algo pelo Belenenses. Uma taça talvez.

Fotografia: Sara Pinho

 


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