22 Mai, 2018

Osama Rashid: O futebolista iraquiano que brilha nos Açores

António Pereira RibeiroOutubro 10, 20177min0

Osama Rashid: O futebolista iraquiano que brilha nos Açores

António Pereira RibeiroOutubro 10, 20177min0
Entrevista exclusiva ao Fair Play.

O começo de temporada promissor do Santa Clara tem sido uma das principais narrativas da presente edição da Ledman Liga Pro. Entre os maiores responsáveis por este arranque fulgurante, podemos encontrar o médio iraquiano Osama Rashid. Descobre tudo sobre a sua história, desde a fuga em criança para a Holanda, até à aventura falhada no Werder Bremen, através desta entrevista exclusiva.

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Conta-nos a história da tua mudança forçada para a Holanda.

OR. Tinha 3 anos quando a guerra que se instalou no Iraque, e deixou de ser seguro para nós. Viajei para a Holanda com a minha mãe e com os meus irmãos. O meu pai ficou no Iraque porque ele tinha de lutar, todos os homens eram obrigados a participar na guerra, mesmo o meu irmão de 12 anos, que só viajou mais tarde para a Holanda. O meu avô tinha alguns conhecimentos no país, e era a nossa melhor opção para obter o estatuto de refugiado.

 

Como foram os teus primeiros contactos com o futebol? Em que momento percebeste que uma carreira profissional poderia ser uma opção viável?

OR. Aos 4 anos, o meu irmão levou-me a um clube amador, perto da nossa casa, e comecei lá a jogar futebol. Eles viram que tinha talento, eu jogava contra miúdos de 6, 7 anos.

Entretanto mudámo-nos para Roterdão, e o meu irmão levou-me novamente, desta vez para um teste no Feyenoord. O teste correu muito bem, aceitaram-me, e comecei a jogar pelo Feyenoord aos 7 anos. Percebi rapidamente que uma carreira como futebolista profissional poderia ser uma opção viável, porque o Feyenoord tinha uma boa academia, com infraestruturas de grande qualidade. Era tudo o que eu queria. O primeiro grande sinal foi quando o Feyenoord ofereceu-me um contrato profissional aos 16 anos. Aí foi o início de tudo.

 

Tinhas experiência nas selecções jovens holandesas, onde eras um dos talentos mais promissores. Isso não chegou para ficares no Feyenoord?

OR. Sim, joguei pelas selecções jovens da Holanda, e esse foi um período muito bom para mim. Depois do Campeonato da Europa Sub-17 em 2009, sofri uma lesão grave na virilha. Joguei toda a competição sob o efeito de analgésicos para lutar contra as dores que sentia, e isso só veio agravar a situação. O meu contrato no Feyenoord estava a terminar, e era suposto colocarem-me noutra equipa por empréstimo, mas no último momento, decidiram não renovar, por causa da minha lesão. Tive de encontrar outro clube, e acabei por assinar pelo Den Bosch, só que demorei muito tempo a recuperar. Jogava sempre com dores, e demorou cerca de três anos até conseguir sentir-me a 100%.

 

Depois de algumas temporadas no futebol holandês, tiveste a tua grande oportunidade no Werder Bremen. O que é que aconteceu?

OR. Na altura em que decidi representar a selecção do Iraque, o treinador era o alemão Wolfgang Sidka, antigo jogador e treinador do Werder Bremen, e ele quis ajudar-me. Trouxe-me ao clube para fazer um teste, que se foi prolongando na primeira equipa por algumas semanas, e tudo correu muito bem. Ofereceram-me um contrato, e estava prestes a assiná-lo, mas depois o Feyenoord recusou-se a ceder gratuitamente um documento que autorizava a minha mudança. E eles nem direito a qualquer compensação financeira, porque nem tinham renovado o meu contrato. Depois das negociações falhadas entre os dois clubes, o tão esperado contrato não apareceu, o que foi muito desapontante para mim. Passei um mau bocado, um contrato no Werder Bremen era como um sonho para mim.

 

A aposta pessoal nos estudos foi o que te levou a jogar em divisões secundárias na Holanda?

OR. Decidi fazer o meu Mestrado e Marketing e Gestão Desportiva, e por isso fui jogar em divisões inferiores, porque não conseguiria conciliar os estudos com o futebol profissional. Depois joguei no Alphense Boys, e voltei a receber um convite da selecção iraquiana, para jogar a Taça Asiática. Aí percebi que, com as minhas qualidades, deveria estar a um nível competitivo superior, e poderia alcançar outro tipo de objectivos.

 

Representar a selecção iraquiana foi uma escolha natural para ti?

OR. Aos 19 anos, tive de escolher entre a selecção iraquiana e a holandesa, e com a história da lesão a ressoar na minha cabeça, acabei por seguir o coração e optar pelo Iraque. Estreei-me aos 19, com o tal treinador alemão, o Wolfgang Sidka num jogo não oficial. O meu primeiro jogo oficial foi mais tarde, já sob a orientação da lenda brasileira, Zico. Não me arrependo da decisão, joguei partidas fantásticas perante 60, 70 mil adeptos, a Taça Asiática, etc.

 

Fala-nos sobre a tua primeira temporada em Portugal, ao serviço do Farense.

OR. O meu agente colocou-me no Farense, o que acabou por ser uma boa oportunidade. Fiz uma boa época, com muitos jogos, onde fui importante para a equipa. Infelizmente o Farense terminou despromovido. Até hoje ainda não consigo perceber por que razão descemos de divisão, tendo em consideração a qualidade dos jogadores que tínhamos no plantel. Algo não estava bem na organização do clube, isso revelou-se fatal no caso em que o clube perdeu 2 pontos pela utilização irregular de um jogador. Este tipo de situações não nos ajudou. Passámos por cinco treinadores, salários em atraso, por vezes treinávamos em sintético a semana toda, para jogar em relvado natural. As condições não eram boas.

 

Trocaste Portugal pela Bulgária, mas por lá as coisas também não correram bem.

OR. Gostei bastante do país, e a época no Farense foi boa em termos individuais, mas a experiência geral, falando da própria competição, não me satisfez. Quis sair de Portugal, apesar de ter recebido vários convites para ficar. Acabei por escolher o Lokomotiv Plovdiv, mas assinei já depois da pré-época, e não me senti preparado fisicamente para jogar no imediato. Eles esperavam que eu já estivesse pronto logo no primeiro jogo. Quanto ao país em si, a experiência foi totalmente o oposto do que havia encontrado, os búlgaros são mais frios. Passei tempos difíceis, não tive muita sorte. O treinador que me levou, o Ilian Iliev saiu entretanto, e decidi rescindir o contrato e voltar para a Holanda. Na mesma altura, recebi uma proposta boa de um clube tailandês, só que optei pelo Santa Clara.

 

Do que é que gostas mais em Portugal? Como está o teu português?

OR. Adoro Portugal, é um país incrível. Pessoas muito boas e acolhedoras, e desde o primeiro dia em Faro, senti-me em casa neste país. Gosto de tudo. O meu português é bastante bom, percebo quase tudo, e consigo fazer-me entender. O que mais gosto na cultura portuguesa é a mentalidade relaxada. Não existe pressão. Por exemplo, em Faro, vês pessoas durante a noite nos cafés, descontraídas, até tarde. Na Holanda todos ficam em casa, e só saem para trabalhar. Aqui não vivem para trabalhar.

 

Como explicas o sucesso do Santa Clara no início desta temporada?

OR. O sucesso do Santa Clara começa na nossa direcção, uma estrutura organizada que tenta fazer tudo o que pode pela equipa, para nos providenciar as melhores condições de trabalho possíveis. Temos uma óptima equipa técnica. A equipa tem muita qualidade, e somos como uma grande família. Da maneira que trabalhamos, de certeza que temos grandes possibilidades de alcançar a promoção.


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