André Lourenço. “O nível dos intervenientes da Liga Revelação é elevado”

João de MatosJulho 25, 202111min0

André Lourenço. “O nível dos intervenientes da Liga Revelação é elevado”

João de MatosJulho 25, 202111min0
O treinador-adjunto da equipa de sub-23 do GD Estoril falou sobre a vitória na época passada e muito mais nesta entrevista em exclusivo com André Lourenço

Fica a conhecer André Lourenço, treinador-adjunto do GD Estoril sub-23, os campeões em título da Liga e Taça Revelação de 2020/2021, nesta entrevista em exclusivo.

André Lourenço, como e quando é que o futebol começou a ser uma paixão para ti?

Antes de mais deixa me começar por te agradecer a ti individualmente João e ao fairplay.pt pelo interesse e oportunidade de partilhar um pouco da minha experiência no futebol, é um gosto para mim participar neste tipo de projetos.

Indo de encontra a pergunta, o futebol começou a ser uma paixão para mim desde muito cedo, não sei precisar a minha idade quando o meu pai e eu demos uns toques na bola pela primeira vez, mas tinha uns 3/4 anos. O meu pai foi o principal responsável pelo desenvolvimento desta paixão, por ser uma paixão dele também. A partir daí joguei futebol dos 6 aos 18 e aos 18 iniciei o meu percurso como treinador. Ou seja, o futebol é uma paixão para mim desde que me lembro e consigo garantir que sempre será.

Onde é que te vês daqui a 10 anos?

Bem esta pergunta para mim é mais complexa do que parece, respondendo de forma direta vejo me como treinador-adjunto de uma equipa que dispute liga dos campeões, numa boa liga europeia ou a iniciar o meu trajeto como treinador principal em Portugal ou no resto da europa mesmo.

Disse que era complexa porque sou uma pessoa que por norma planeia muito os meus passos e decisões, e estas envolvem estar plenamente consciente dos meus valores e prioridades, porque todas elas são feitas de escolhas. E também porque muitos pormenores no futebol mudam de um dia para o outro, há momentos positivos e negativos e só tendo uma boa capacidade de adaptação conseguimos definir esses objetivos.

Como foi a tua experiência na Finlândia, no Vaasan Palloseura, adaptação, sair de casa para um país totalmente diferente do nosso, etc?

Foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida, foi tudo novo, país, cultura, temperatura, forma de estar e de ver o futebol, comunicação numa língua diferente. Por muito que tivesse estudado o contexto, é sempre diferente quando lidas com ele, porque é claramente uma situação de desconforto. E enquanto pessoa e treinador é nisso que acredito, procurar sair da zona de conforto para evoluir e ver o erro como algo que nos permite ser melhores a cada dia. Por isso disse que foi muito enriquecedor, porque errei muito e por isso aprendi muito, voltei muito melhor pessoa e treinador.

De que forma é que essa experiência na Finlândia, te ajudou a nível profissional como pessoal?

Então a nível pessoal ajudou me imenso a comunicar em inglês neste caso. Ajudou me muito a perceber que tenho de dosear o tempo a que estou dedicado ao futebol e que tenho de ter algum escape, isto porque sou um pouco “workaholic” e como tenho uma paixão enorme pelo que faço nos primeiros meses na Finlândia e vivia futebol 24 horas por dia literalmente. Nós treinadores “sem querer” já passamos grande parte do dia a pensar na nossa equipa e no jogo, por isso ajudou-me a perceber que tenho de criar pausas para ser mais eficiente.

A nível profissional aumentou ainda mais a minha capacidade de adaptação, melhorei as minhas ideias sobre o jogo e treino, por exemplo do ponto de vista táctico as pessoas podem pensar que o jogo na Finlândia está mais atrás em relação a outros países da europa, mas isso não é verdade, faltam é jogadores com maior capacidade técnica, e por isso evoluí nesse ponto também.

Eliminei algumas crenças, mas no fundo foi a confirmação para mim que o mais importante é seres fiel às tuas ideias, à tua forma de ver o jogo e procurares dentro dela melhorar e não tentar mudar a tua ideia só porque não estás a ter os resultados que esperarias. Porque no futebol o ganhar ou perder depende de tantos fatores, que no final do dia o importante é acreditares em como jogas e em como vais treinar para apresentar aquele jogar.

Na Liga Revelação, e mais concretamente no Estoril, podemos observar vários excitantes jovens talentos. Achas que alguns seriam capazes de jogar nas equipas A com regularidade?

Sim creio que sim, a Liga Revelação tem equipas com bastante qualidade, jogadores com muito talento e treinadores muito competentes. Por vezes as pessoas podem olhar para a Liga Revelação como sendo um nível baixo para os jogadores transitarem diretamente para as equipas A, mas eu pessoalmente acho que o nível de todos os intervenientes é elevado e isso eleva o nível dos jogos. A fase final do ano passado provou isso mesmo, onde mesmo com Benfica e Sporting de fora, todos os jogos foram extremamente competitivos e disputados até final com uma qualidade técnico-táctica elevada.

Foi uma época fantástica para os Sub-23 do Estoril Praia. Como é preparar uma época desportiva?

Preparar uma época desportiva é um processo muito trabalhoso e longo, estaria aqui a falar até amanhã se especificasse tudo, mas foi um processo muito bem trabalhado por toda a estrutura do Estoril Praia SAD. Todos vivemos o “azar” do primeiro confinamento e da paragem dos campeonatos, mas nós encarámos isso como um oportunidade e começámos logo em março a preparar a época seguinte.

O primeiro passo é sempre o fazer o plantel, mas para este passo acontecer existe todo um trabalho de scouting que tem de ser feito. Este trabalho foi muito bem feito pelo departamento de scouting do Estoril, liderado pelo nosso diretor desportivo Pedro Alves e pelo nosso team manager André Sabino, sempre em conjunto connosco equipa técnica.

Nós equipa técnica, liderados pelo Vasco Botelho da Costa, vimos muito jogos durante o confinamento, muitos jogadores e começámos a projetar a época.

Todo este trabalho da estrutura fez com que construíssemos um bom plantel e a partir daí começássemos a trabalhar dentro das nossas ideias, enquadrando sempre as características dos jogadores nas mesmas, e acreditando que a nossa forma de jogar as potencia e faz a diferença.

Foram campeões na última jornada, frente ao adversário direto. Como foi gerir as emoções de um grupo tão jovem de jogadores?

A verdade é que foi uma semana emocionante para todos nós, passámos de ter poucas hipóteses de ser campeões e a depender de resultados para termos essa hipótese para dependermos única e exclusivamente de nós no último jogo, em nossa casa. Definimos dentro do grupo que não iríamos perder aquele campeonato 2x e o grupo de jogadores foi enorme no trabalho diário mesmo durante aquele dias em que as hipóteses se reduziram. O jogo em si não foi tão bom como gostaríamos, não apresentamos toda a qualidade que demonstrámos o ano todo, foi um jogo muito emocional mas os jogadores ainda assim fizeram tudo para chegarmos ao objetivo final e conseguimos.

A vossa equipa é composta por uma variedade de nacionalidades, como é feito o processo de scouting? São vocês treinadores que têm essa responsabilidade, ou essa função é própria da direção?

Acho já que respondi a esta pergunta a descrever a forma como planeamos as épocas. Mas é um processo conjunto, existe um departamento de scouting que faz um trabalho de base, depois o nosso diretor desportivo, o nosso team manager e nós equipa técnica definimos por cada posição as prioridades de jogadores que pretendemos.

Foto: GD Estoril
Qual é a tua rotina em dias de jogo, tens algum tipo de superstição?

Tenho algumas coisas que faço sempre antes dos jogos, acredito na força do hábito e da rotina sim. Mas nada de especial, por exemplo, faço sempre a barba no dia antes ou no dia do jogo se for mais tarde, e oiço sempre a mesma playlist antes de ir para jogo.

Quais são para ti as principais referencias no futebol?

Bem eu gosto de “beber” ideias de vários treinadores, acho que não tenho uma grande referência, identifico me bastante do ponto de vista ofensivo com o jogo posicional que o Pep Guardiola apresenta nas suas equipas que descende do jogo que o Johan Cruijff apresentava e este do Rinus Michels, do ponto de vista defensivo identifico me com a forma como as equipas do Jürgen Klopp pressionam. Mas gosto de muitos treinadores como o Thomas Tuchel, o Julian Nagelsmann, o Luís Henrique, entre outros.

Agora que se fala muito na formação com 3 centrais, na tua opinião, é futuro ou moda?

É uma pergunta polémica esta. Está provado e descrito na história do futebol que estes “padrões” ou sistemas se quiseres, acontecem por ciclos, existem livros a documentar este facto. No início da história do jogo quase todas as equipas jogavam com 3 centrais, passando por equipas que conquistaram coisas sendo ultra defensivas outras sendo ultra ofensivas, até que que se chegou ao que se chama o sistema base de aprendizagem, o 4-3-3.

Agora parece que muitas equipas voltaram a utilizar 3 centrais, mas respondendo à tua pergunta, futuro não é porque vem do passado e moda não acredito que algum treinador decida o sistema que vai jogar por modas. Por isso nem uma coisa nem outra.

Para quem pensa o jogo da forma como nós pensamos nos sub 23, que é com base na criação de superioridade numérica na zona da bola, desde a construção procurando ir eliminando adversários para conseguir criar situações vantajosas de finalização limpa, o sistema de 3 centrais pode ser limitativo numa situação em que o adversário nos pressione só com 1 jogador, aí acreditamos que com 2 jogadores a superioridade é suficiente e podemos ter mais jogadores em zonas mais adiantadas.

Mas o objetivo de quem joga com 3 centrais pode ser atrair mais adversários para perto da sua baliza para depois conseguir explorar o espaço que estes deixam na profundidade. Acho que tem tudo a ver com preferências e decisões, nada está errado nem nada está certo. Nós preferimos construir com os jogadores necessários para criar superioridade perante o número de jogadores que nos pressionam.

Qual é a formação tática que mais gostas? E porquê?

A resposta que vou dar parece cliché mas é a verdade, nós não vemos essa importância toda na formação tática, vemos muita importância no posicionamento e isto são coisas diferentes. Por exemplo, provavelmente toda gente diz que jogávamos num 4-2-3-1 o ano passado, mas a atacar, se quisermos classificar isto assim, variámos muito entre o 2-2-5-1, 3-1-5-1, 2-2-6, 2-3-5, e a defender variamos entre o 4-2-3-1, 4-4-2 e o 4-3-3. No entanto nós não olhamos para estes números assim. Olhamos para posicionamentos e funções. Ofensivamente como vamos criar superioridade na zona da bola para eliminar adversários. Defensivamente como vamos criar superioridade ou igualdade na zona da bola para recuperar a bola rapidamente.

A partir daqui os diferentes jogadores são melhores em determinados momentos do jogo e posicionamo-los em função disso. Se temos um lateral muito bom a jogar por dentro e um extremo muito forte por fora, se calhar a atacar o lateral vai estar dentro do bloco adversário e o extremo fora.

Além de se ter um conhecimento muito profundo sobre o jogo, ser treinador é também gerir recursos humanos. Como lidas com essa tarefa?

Primeiro essa gestão dos recursos humanos é fundamental, diria até a mais decisiva para se ter sucesso como treinador, principalmente enquanto treinador principal. A capacidade de gerir expetativas de enquadrá-las, de conhecer todas as pessoas com quem trabalhas e de procurar criar empatia quando com elas te relacionas faz toda a diferença, e isso é o que todos costumamos chamar de liderança.

Lido com essa tarefa naturalmente, o que nos apaixona é procurar ajudar os jogadores a serem melhores com o treino, análise e jogo. Só percebendo as suas motivações, expectativas e aquilo que valorizam é que conseguimos ajudá-los ao máximo.

A equipa técnica campeã (Foto: GD Estoril)

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