17 Jan, 2018

Ricardo Lestre, Author at Fair Play

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Ricardo LestreJunho 19, 201712min0

Num continente onde persiste o reinado de Omar Abdulrahman, surgem outros jogadores que, temporada após temporada, continuam a demonstrar rendimentos excepcionais. O Fair Play dá-te a conhecer alguns dos nomes mais interessantes em todo o futebol asiático.

Kosuke Nakamura | Guarda-redes

Nacionalidade: Japonesa

Idade: 22 anos

Clube: Kashiwa Reysol

Internacionalizações AA: 0 (2 pela Selecção Olímpica 2016)

Valor de mercado: 800.000€*

Por detrás da excelente e surpreendente temporada do Kashiwa Reysol até ao momento, está Nakamura, guarda-redes japonês de 22 anos. Formado na academia dos Sun Kings, Nakamura estreou-se como sénior ao serviço do Avispa Fukuoka – equipa que disputara a J-League 2 e para o qual seguiu a título de empréstimo em 2015 – e o seu rendimento surpreendeu totalmente os responsáveis do Kashiwa: em 23 jogos somou cerca de 15 (!) clean sheets. Assim, em 2016, Nakamura foi a aposta número 1 do clube para a baliza e os resultados voltaram a confirmar todo o seu potencial. Em 32 encontros divididos pelas diferentes competições, o jovem keeper manteve as redes intactas por 13 ocasiões. Na actual temporada, com um total de 15 disputados, Kosu não sofreu qualquer golo em 7. Algo simplesmente fantástico.

O Outside of the Boot destacou, no mês de Janeiro, alguns dos nomes mais interessantes da J-League 2016 pelo que Kosuke Nakamura foi um dos visados. Ágil, dono de óptimos reflexos, boa elasticidade e de uma grande voz de comando de área. Por outro lado, revela algumas deficiências a nível do jogo de pés assim como de posicionamento, algo típico de um jogador tão jovem. A qualidade não engana. O sucessor de Eiji Kawashima já tem o seu destino traçado.

Abdelkarim Hassan | Defesa

Nacionalidade: Qatarí

Idade: 23 anos

Clube: Al-Sadd

Internacionalizações AA: 54/8 golos

Valor de mercado: 650.000€*

Produto da famosa Aspire Academy, Abdelkarim Hassan é hoje um dos grandes valores qatarís da actualidade e do futuro. Desenvolveu um percurso interessante pelas selecções jovens do país (sub-20 e sub-23) até figurar na convocatória do escalão sénior para a Asian Cup 2011, com somente 17 anos. Antes disso, assumiu um papel de destaque e destacou-se como o jogador mais jovem, inclusive, da Liga dos Campeões Asiáticos 2011, a única vencida até ao momento pelo Al-Sadd. Hoje, é um dos pilares da selecção nacional e de um dos maiores clubes do Qatar, treinado por Jesualdo Ferreira.

Hassan é um lateral esquerdo possante, de grande envergadura física (1,86 m, semelhante a Benjamin Mendy) que se sobressai imenso pela passada larga e pelo forte remate. É extremamente difícil de travar nas transições ofensivas e de ultrapassar nas transições defensivas. Disputa lances nos diferentes momentos da partida com uma intensidade brutal, o que muitas vezes prejudica as suas acções individuais e, consequentemente, as colectivas. Tem vantagem clara no jogo aéreo tal como nos duelos físicos e abarca uma capacidade técnica razoável para a sua posição. No entanto, a sua acentuada propensão ofensiva faz com que seja um pouco permeável a nível defensivo provocando, de forma algo frequente, situações de perigo aos restantes companheiros. Posto isto, caso se projecte uma selecção qatarí de qualidade para os próximos anos, Abdelkarim Hassan terá, certamente, um lugar reservado como um dos maiores esteios do plantel.

Nam Taehee | Médio

Nacionalidade: Sul-coreana

Idade: 25 anos

Clube: Lekhwiya SC

Internacionalizações AA: 30/3 golos

Valor de mercado: 4.000.000€*

Num continente onde subsiste o reinado de Omar Abdulrahman, já previamente analisado no Fair Play, surge um outro jogador de tremenda classe e cujas habilidades se destacam perante os demais. Nam Taehee, playmaker de elevado calibre e figura de proa do histórico Lekhwiya, é um dos jogadores sul-coreanos mais jovens de sempre a estrear-se nos maiores palcos europeus, aquando da sua passagem pouco proveitosa, diga-se, pelo Valenciennes FC em 2009/2010. Na verdade, Taehee desde muito novo que interagiu com o futebol europeu. Abandonou a formação do Ulsan Hyundai em 2007 para se juntar à academia do Reading FC onde se manteve por uma temporada e meia. O clube inglês reconheceu, de facto, as suas qualidades mas decidiu não avançar para um contrato profissional, o que levou o Valenciennes aproveitar-se da situação. Embora tenha alcançado uma proeza interessante, o tempo de jogo registado em França foi bastante escasso. Eis que, na época 2011/2012, o Lekhwiya SC, clube de topo da Qatar Stars League, assegurou a sua contratação. Nam Taehee viu, finalmente, todo o seu talento ser potenciado.

Nam Taehee é um médio-ofensivo de raiz que pode desempenhar a função de extremo. Contudo, as suas caraterísticas físicas/tácticas fazem com que a posição 10 seja a mais adequada. Drible curto, técnica e inteligência acima da média. Delicado na forma como trata o esférico. Capacidade de criação/decisão fenomenal. Remate certeiro. Qualidade de passe soberba. Excelente na execução de bolas paradas. Em suma, tem um talento gigante.

Completada a 5ª temporada com a camisola dos actuais campeões, o somatório total não engana: 169 jogos, nas várias competições, 66 golos e 55 assistências. Mesmo com a recente revelação da fusão entre o Lekhwiya e o El Jaish para a próxima temporada desportiva, sob o nome de Al Duhail SC, o sul-coreano continuará a ser o homem de destaque da equipa. Resta saber, portanto, se num eventual regresso à Europa, este tem condições para se impor definitivamente.

Wu Lei | Extremo

Nacionalidade: Chinesa

Idade: 25 anos

Clube: Shanghai SIPG

Internacionalizações AA: 43/7 golos

Valor de mercado: 1.500.000€*

No mercado onde abundam as transferências milionárias, o investimento e o desenvolvimento nas academias de futebol também tem sido em largas proporções. Wu Lei é, a par de Zhang Linpeng, a maior conquista do futebol chinês. Produto da academia de Xu Genbao, afiliada ao Shanghai SIPG, seu mentor, realizou um percurso notável pelos escalões jovens e chegou ao topo da sua carreira ainda muito jovem.

Wu Lei destaca-se pela capacidade atlética. É extremamente leve, rápido, forte nas transições e em situações de 1×1, muito ágil e astuto nas movimentações interiores/exteriores e, por fim, eficaz no momento da finalização. Ainda que a sua posição natural seja a de extremo direito/esquerdo, já cimentou uma posição privilegiada no topo da lista dos melhores marcadores da Super Liga e é dos jogadores chineses que mais contribuem para esse capítulo. No entanto, conta com uma certa dose exagerada de individualismo e com algumas deficiências na definição dos lances.

O ‘Maradona chinês’, alcunha que lhe fora atribuída por Genbao, representa o presente e o futuro. É um dos símbolos do Shanghai SIPG, clube liderado por André Villas-Boas que ambiciona afirmar-se em pleno no contingente asiático, e da própria selecção. Sobra a esperança de, num futuro próspero, surgirem mais Golden Boys como Wu Lei provenientes das escolas de formação do país.

Ali Mabkhout | Avançado

Nacionalidade: Emiradense

Idade: 26 anos

Clube: Al-Jazira SC

Internacionalizações AA: 17/12 golos

Valor de mercado: 800.000€*

Os Emirados Árabes Unidos têm em Omar Abdulrahman o seu maior símbolo, juntamente com Ahmad Khalil, portentoso avançado que desde muito cedo ganhou reconhecimento um pouco por todo o mundo. Ali Mabkhout saiu das escolas do Al-Jazira e conseguiu a sua debut na equipa principal aos 18 anos de idade.

Desde muito cedo que Mabkhout demonstrou aptidões para um ponta-de-lança. Forte fisicamente, rápido, solta-se muito bem da marcação e, claro, possui uma grande veia goleadora. Para uma pequena noção, desde a sua estreia disputou 104 jogos e marcou cerca de 76 golos e contribuiu com 16 assistências. É uma das pedras fundamentais dos actuais campeões da AG League e, na presente temporada, em 29 jogos balançou as redes por 32 ocasiões.

No contexto internacional, tem vindo a cimentar a sua posição como uma das maiores referências. Completa um trio fenomenal com Omar e Ahmad na frente de ataque, e tem vindo a apontar golos de belo efeito e, ao mesmo tempo, cruciais para os Leões de Zayed em diversas competições. Muito móvel, bom tecnicamente e na procura da profundidade – articula muito bem as suas movimentações com o limite do fora-de-jogo. Ao invés, revela algumas dificuldades no jogo aéreo e está longe da potência do seu compatriota Ahmad Khalil.

Omar Al-Somah | Avançado

Nacionalidade: Síria

Idade: 28 anos

Clube: Al-Ahli Jeddah

Internacionalizações AA: 2

Valor de mercado: 4.500.000€*

Um pouco mais experiente que os restantes, surge Omar Al-Somah, ponta-de-lança sírio, conhecido sobretudo no futebol asiático como The Arabic Zlatan Ibrahimovic. E a comparação é bastante pertinente. Iniciou o seu percurso futebolístico no Al-Futawa da Síria, deu nas vistas no Qadsia SC do Kuwait – um pouco tarde, diga-se- até que o Al Ahli Jeddah, uma das melhores equipas do futebol saudita, assegurou, na temporada de 2014, a sua aquisição por 2 milhões de euros. Al-Somah viria, então, a tornar-se a melhor contratação da história do clube. E é fácil explicar o porquê.

As similitudes com o astro sueco são evidentes. É um avançado alto (1,92 m), forte, excelente no cabeceamento, muito forte a proteger o esférico de costas para a baliza, e, acima de tudo, é uma autêntica máquina goleadora. Por muito que as suas características físicas apontem para tal, os seus golos não são de dificuldade reduzida. Bem longe disso. Al-Somah remata muito bem com os dois pés – daí que seja um óptimo executante de bolas paradas -, tem uma técnica bem apurada e é capaz de finalizar de várias formas e feitios. Basta olharmos para as suas estatísticas globais com a camisola do Al Ahli: 102 jogos, 105 golos e 11 assistências. Quebrou vários recordes de golos na Saudi Premier League, onde constam distinções como o Melhor Marcador Estrangeiro da história e/ou o jogador estrangeiro que mais hat-tricks regista até hoje.

Relativamente ao seu desempenho internacional, as divergências políticas com Bashar Al-Assad levaram a que se afastasse em definitivo da selecção, mesmo tendo cumprido poucos jogos. É livre, assim, de representar outro país da esfera ocidental desde que lhe seja garantida a cidadania – a Arábia Saudita continua à espreita. Esteve perto, no passado, de rumar ao Nottingham Forest, mas não conseguiu obter um visto de trabalho. Não fosse este o eterno dilema dos jogadores do médio oriente e Al-Somah tinha todas as condições para brilhar em qualquer uma das ligas europeias de topo.

Omar Kharbin | Extremo

Nacionalidade: Síria

Idade: 23 anos

Clube: Al-Hilal

Internacionalizações AA: 32/13 golos

Valor de mercado: 850.000€*

Omar Kharbin, aos 23 anos, tem vindo a despertar muita atenção na Saudi Premier League e, ao mesmo tempo, ao serviço da selecção síria de futebol, onde se assumiu como um dos – ou, talvez, o mais – jogadores bem cotados do plantel. Iniciou o trajecto no Al Wahda, do seu país natal, e, após consequentes empréstimos, avançou para o Al-Dhafra dos Emirados Árabes Unidos, cujo desafio lhe garantiu maior visibilidade. Criou impacto imediato ao apontar 17 golos e 5 assistências em 26 jogos, e o Al-Hilal não hesitou em garantir o seu empréstimo.

Kharbin tanto pode actuar a extremo como a segundo-avançado dentro de campo. Tem uma envergadura física de respeito (1,84 m), mas, por outro lado, é um jogador extremamente móvel. Movimenta-se muito bem no interior das áreas adversárias e aparece com frequência em zonas de finalização. Combina muito bem com os seus colegas e foge à marcação com facilidade, para além trabalhar imenso em prol da equipa. Na presente época, leva 15 golos em 20 jogos pelo clube saudita que parece decidido a apostar na sua aquisição definitiva.

*Valores segundo o site Transfermarkt.

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Ricardo LestreMaio 20, 20176min0

O futebol nos Emirados Árabes Unidos é visto como pouco competitivo pelas quantidades gigantescas de capital que movimenta. Mas, por outro lado, é precisamente no país dos Leões de Zayed que reside um talento nunca antes visto e que hoje simboliza uma nação inteira. O seu nome é Omar Abdulrahman. Conheça o perfil do jogador asiático mais talentoso de sempre através do ‘FP Scouting’, rubrica desenvolvida em colaboração com a Talent Spy.

Não é de agora. O boom do futebol asiático no que toca ao desenvolvimento e projecção de jogadores tem sido notório desde há vários atrás. No entanto, o rótulo de retirement leagues sempre acompanhou o futebol no continente – veja-se que mesmo com todo o investimento canalizado para as academias jovens, a República Popular da China continua a ser vista como tal – e a área ocidental não foge a essa tendência.

A história de Omar, assim como a dos seus dois irmãos e actuais companheiros de equipa, Khalid e Mohammed, iniciou-se nos arredores Riade, capital da Arábia Saudita. E desde uma idade bem tenra que ninguém conseguia ficar indiferente ao seu puro talento de rua. Foi então que, já depois de disputar vários torneios juvenis sob a recomendação de um olheiro, Amoory, como é carinhosamente reconhecido no país, entrou para um período de testes no gigante Al Hilal. Encantou a direcção, mas a decisão do clube em não conceder a nacionalidade saudita a toda a família não foi aceite pelo seu pai que imediatamente rejeitou a oferta. Assim, e aberta a oportunidade, Omar, juntamente com os seus outros dois irmãos, rumou à academia do Al Ain, conjunto que representa nos dias de hoje.

Fonte: Soccerway

Foram várias e sucessivas as épocas que Omar brilhou nos escalões mais jovens. A sua estreia oficial na equipa principal do gigante emblema dos Emirados Árabes Unidos, que prontamente se disponibilizou a garantir a nacionalidade emiradense a todos os seus familiares, ocorreu a 24 de Janeiro de 2009 na primeira edição da Taça da Liga, troféu onde competem somente clubes da primeira divisão. Amoory contava apenas com 17 anos de idade e, por sua vez, com um dom quase surreal. No entanto, o processo que marcou a sua posição no plantel principal foi bem árduo muito por culpa da fragilidade física que motivou algumas lesões graves ao longo do tempo. Na temporada 2010-2011, tornou-se presença regular na equipa principal e o resto… é história.

25 anos, mas com um palmarés colectivo/individual invejável. Ao serviço do Al Ain, venceu 3 campeonatos, 3 Supertaças, uma Taça da Liga e 2 duas Taças do Presidente. A nível internacional, uma Gulf Cup of Nations e atingiu um surpreendente 3º posto na AFC Asian Cup de 2015 formando uma dupla temível com Ahmed Khalil, o avançado de eleição da selecção nacional. Na verdade, a lista de troféus individuais é bem mais longa. Dentro das muitas distinções, destacam-se a atribuição de MVP da Liga dos Campeões Asiáticos 2015, lugar na Dream Team da Liga dos Campeões de 2014 e na AFC Asian Cup 2015, Jovem Jogador do Ano do campeonato em 2009 e 2011 e Futebolista Asiático do ano em 2016. Fenomenal.

Dentro do campo, funciona basicamente como algo que os italianos apelidam de Trequartista ou Fantasista. Um playmaker que assume o espaço entre-linhas. Cérebro da equipa nos mais diversos momentos do jogo. Que cria, que distribui, que finaliza, que pauta. É um regalo ver a maneira delicada e refinada com que Omar Abdulrahman trata o esférico que se encontra sempre colado ao um pé esquerdo extraordinário fazendo com que o seu drible se assemelhe muito ao de Lionel Messi. Tem uma percepção táctica ao alcance de poucos, fruto da inteligência e da antecipação com que aborda cada lance. Omar, depois de um, já está a pensar no seguinte. E isso, mais do que a elevada qualidade técnica que abarca, é o que o torna um jogador diferente, genial. No entanto, mesmo analisando a fundo a actualidade futebolística, é justo referir que são pouquíssimos os jogadores tecnicamente superiores a Amoory.

Outros dos seus pontos fortes são a execução de bolas paradas assim como qualidade de passe curto, médio e sobretudo longo. É um assistente de excelência. Coloca a bola ao milímetro para o colega finalizar quando nada nem ninguém o fazia prever.

Obviamente que para apontar algum defeito a Omar Abdulrahman, e não incluindo um certo individualismo exagerado, é necessário focar a componente física. Não é um jogador talhado para confrontos físicos, duelos aéreos ou mesmo para o processo defensivo. Algo perfeitamente normal dadas as suas características.

O ‘Messi árabe’, como é reconhecido internacionalmente, rejeitou, inclusive, propostas de Arsenal e Benfica e esteve perto de rumar ao Manchester City, onde chegou a entrar em período de testes. O sonho e a vontade perduram para que Omar Abdulrahman um dia triunfe no futebol europeu, mas a verdade é pura e dura. O mundo do futebol assistiu e continua a assistir ao reinado do mais talentoso príncipe asiático de todos os tempos.

BOA OPÇÃO PARA…

Fenerbahçe; Galatasaray – Para uma primeira experiência na Europa, porque não experimentar a primeira divisão turca em dois clubes de topo? A situação de ambas as instituições não é a ideal e um jogador icónico e com a qualidade de Omar seria um enorme upgrade em todos os sentidos. Abria-se uma porta interessante para que pudesse demonstrar toda a sua qualidade sob os holofotes dos grandes clubes europeus.

Manchester United – Se quisermos apontar o capitão dos Emirados Árabes Unidos a patamares superiores, o Manchester United talvez seja a equipa que melhor se adequa. Isto porque funcionaria na perfeição como elemento criativo, uma vez que o elenco de José Mourinho carece e muito de um jogador com essas particularidades.

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Ricardo LestreAbril 20, 20177min0

13 de Abril de 2017 é uma data que ficará para sempre na história do Associazone Calcio Milan. Silvio Berlusconi e Adriano Galliani, a dupla maravilha, estará para sempre cravada nos tempos de ouro do clube, mas, como em tudo na vida, existe um fim. Depois de dois longos anos de negociações, os impasses entre a Sino-Europe Sports, consórcio chinês que pretendia adquirir o clube, e a Fininvest, empresa fundada e liderada pelo próprio presidente terminaram e ficou estabelecido um acordo final de 740 milhões para a aquisição do gigante de Milão. Pelo meio de toda esta situação, surge Vincenzo Montella que dentro de campo foi afastando os maus olhados do exterior conquistando o possível e o impossível para aquela que se tornou, de facto, a triste realidade rossoneri.

De Allegri a… Mihajlović

Desde 2014, ano do despedimento de Massimiliano Allegri, curiosamente o último técnico que se sagrou campeão ao serviço do clube, o AC Milan embarcou num declínio gigantesco desportivo e, consequentemente, económico. A verdade é que Allegri caminhava para a segunda temporada consecutiva sem alcançar resultados palpáveis e o momento algo crítico que a equipa atravessava não parecia ter solução. O grande problema, no entanto, prendeu-se com a terrível gestão do plantel e com a escolha dos seus sucessores.

Jogadores de maior calibre começaram, pontualmente, a rumar a outras paragens – muitos deles por valores pouco significativos –  e, face aos poucos recursos disponíveis, as apostas da direcção recaíram em dois nomes bem conhecidos como Clarence Seedorf e Pippo Inzaghi. Pelos demais motivos, ambas as experiências não obtiveram os resultados desportivos desejados e a crise interna do AC Milan foi, oficialmente, anunciada. Em 2013/2014, os rossoneri terminaram em 8º lugar e, na temporada seguinte, em 10º.

AC Milan versão 2016/2017 Vs. AC Milan versão 2013/2014

Não existe comparação possível, pelo menos em termos qualitativos, entre os plantéis acima destacados. Hoje, na matéria prima que Vincenzo Montella tem ao seu dispor, existem várias peças de enorme potencial cujo valor de mercado disparou de forma acentuada. Contudo, isso deve-se, em grande parte, a Siniša Mihajlović. Se o AC Milan hoje mantém uma identidade própria, é porque o técnico sérvio assumiu, na época anterior, um papel de grande relevância no seu processo de reconstrução. Para além da aposta frutífera em Gigi Donnarumma, Mihajlović retirou o melhor, desportivamente falando, de elementos como Giacomo Bonaventura, M’baye Niang, Alessio Romagnoli ou até Juraj Kucka, adaptando as qualidades de cada um às suas maiores necessidades.

A equipa foi, aos poucos, demonstrando fases de maior fulgor exibicional, assim como outras menos positivas e conseguiu, à sua maneira, incomodar os seus rivais directos por muito que se denotasse uma diferença desportiva e económica abismal. Resultados atingidos, esses, longe de demonstrarem a verdadeira dimensão do clube. A relação entre Mihajlović e a direcção conheceu o seu ponto final a 11 de Abril de 2016, com o interino Christian Brocchi a assumir as rédeas nas poucas jornadas de sobra do campeonato. Na verdade, essa relação foi conhecendo alguns sobressaltos ao longo do tempo embora a justificação dada se prendesse com a sequência de maus resultados. Miha foi, ao contrário do que possa parecer, fundamental, em várias vertentes, para o AC Milan dos dias de hoje.

Foto: ESPN

O indesejado Vincenzo Montella

Curioso verificar que após as experiências falhadas com homens da casa como Seedorf e Inzaghi, o corpo directivo virou as suas atenções para dois técnicos com passados gloriosos em clubes rivais dos rossoneri como o Internazionale e a AS Roma. Montella, tal como Mihajlović numa primeira instância, não recebeu apoio da massa adepta. A impugnação logo se fez sentir e mais uma vez a divisão entre a direção e os adeptos entrava em decadência.

O ex-técnico da Sampdoria, clube onde não teve vida facilitada até ver assegurada a permanência na Serie A, foi aos poucos ganhando a confiança dos mais críticos depois de um arranque de temporada razoável. Por outro lado, viu apenas algumas posições da sua equipa serem cirurgicamente reforçadas com as aquisições de Matias Fernández, Mario Pasalic, José Sosa, Gustavo Gómez e Gianluca Lapadula. Retirando da lista Matias e Pasalic, ambos sob o título de empréstimo, o AC Milan despendeu cerca de 25 milhões de euros em três jogadores.

Fonte: transfermarkt

Obviamente que para um adepto do AC Milan a lista acabou por não deslumbrar, mas já em épocas anteriores o cenário havia-se repetido. Dinheiro investido em quantidades astronómicas em poucos jogadores – em alguns casos só mesmo num – precisamente quando o clube vivia tremendas dificuldades financeiras. O certo é que Montella, mesmo tendo-se apercebido bem cedo das maiores debilidades do seu plantel, suprimiu-as de forma exemplar. E isto deve-se, sobretudo, à identidade que devolveu à equipa. É notória a coesão do balneário. Os jogadores jovens têm-se integrado na perfeição – basta olhar para Donnarumma, Locatelli e Calabria – e a contribuição de alguns elementos experientes acabou por facilitar a mensagem do treinador.

Relativamente ao desenho táctico, a filosofia de Montella, ainda que com ligeiras diferenças, é praticamente idêntica à que elevou a Fiorentina a um outro patamar entre 2012 e 2015. Utilizando o esquema clássico 1x3x5x2 e um estilo assente na posse de bola – o meio-campo composto por Borja Valero, Alberto Aquilani e David Pizarro era, de facto, o motor da equipa – surpreendeu totalmente o mundo do futebol durante os anos em que esteve ao serviço dos Viola.

Em Milão, definiu o 1x4x3x3 como seu esquema base. A defesa volta a ser crucial na construção de jogo, cuja função Romagnoli desempenha quase na perfeição, da mesma forma que os extremos no auxílio defensivo aos laterais. A Montella, mais do que a vertente táctica, reconhece-se a valentia de apostar em jovens jogadores. A sua maior conquista, e afastando a projecção absolutamente fantástica de Donnarumma, foi, muito provavelmente, Manuel Locatelli. O jovem médio de 19 anos, que assumiu a posição de um ícone como Riccardo Montolivo fustigado pelas lesões e já sentindo o peso da idade, estreou-se no encontro frente à Sampdoria e deixou óptimas impressões sobre o seu futuro. Locatelli é um puro regista à italiana. Fã de Andrea Pirlo e com qualidades um pouco semelhantes ao pequeno maestro, Loca abarca uma excelente visão de jogo, qualidade de passe e, sobretudo, inteligência na ocupação de espaços. Dono de remate fácil e de boa capacidade de desarme, o talentoso médio atingiu o clímax da sua carreira com um golo memorável frente à Juventus, em pleno San Siro, que posteriormente ditou a vitória final do AC Milan sobre os campeões em título.

O posicionamento de Locatelli no encontro frente ao Chievo. (Fonte: calciomercato)

São vários os aspectos positivos que podem ser apontados a L’Aeroplanino. Desde a conquista da Supertaça à confiança depositada em Gabriel Paletta, passando ainda pela revitalização da carreira de Gerard Deulofeu – a grande sensação da segunda metade da época –, pela forma como lidou com a lesão grave de Bonaventura e terminando nos minutos concedidos a Leonel Vangioni, um autêntico desconhecido até então. Se nos próximos anos se projecta um AC Milan de volta à elite do futebol europeu, Vincenzo Montella já demonstrou, para todos os efeitos, que merece uma injecção de total confiança para conseguir alcançar tal proeza.

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Ricardo LestreAbril 5, 201711min0

Ukra Monteiro é um nome bem conhecido dos portugueses não só pelas suas qualidades dentro de campo, mas também pelas atitudes fora dele. Hoje, ao serviço do Al Fateh, equipa que disputa a primeira divisão do futebol saudita, assume um papel de destaque. Não perca as peripécias, as aventuras e os momentos vividos pelo extremo português nesta entrevista exclusiva ao Fair Play.

fpUkra, numa primeira instância gostaria de te agradecer, em nome de toda a equipa do Fair Play, por teres aceitado o nosso convite com enorme prontidão e simpatia. De Vila do Conde, Portugal, para Al-Hasa, Arábia Saudita. Depois de tantos anos a actuar em solo nacional, como se sentiu o Ukra na hora da despedida? Foi difícil a decisão de rumar a um país totalmente diferente do nosso, deixando a família, amigos e o dia-a-dia português para trás? Teve Ricardo Sá Pinto, inicialmente oficializado como treinador do Al-Fateh, grande peso na mudança?

UM. Sair do país para jogar num campeonato sem ser o português foi sempre um objetivo pessoal que tinha para a minha carreira, por isso fiquei contente com esta oportunidade! Claro que o Sá Pinto teve muito peso na minha vinda para cá. Para além de ser bom treinador e de ter feito bons trabalhos por onde passou, é português, a equipa técnica era portuguesa e isso iria ajudar na minha integração e adaptação ao clube e ao país. Assim não me sentiria “sozinho”. Também pesou o facto de saber que já estavam aqui 3 brasileiros!

O que mais me custou e ainda me custa é, claramente, a família. Posso dizer que no primeiro mês chorei quase todos os dias, não por me sentir mal aqui, mas sim pelo facto de pensar que iria ficar muito tempo sem a ver! Logicamente que sinto saudades do meu pai, mãe, irmão… Mas o que me mata o coração são mesmo as minhas filhas! Todos os dias faço facetime com elas, não é mesma coisa que estar pessoalmente mas já dá para matar as saudades… Foi difícil para elas e para mim porque de estarmos juntos praticamente todos os dias, passámos a não saber quando é que iríamos estar! Mas este pequeno esforço é, também, para o futuro delas ser melhor.

fp. Como e qual foi a primeira impressão assim que pisaste solo saudita? Os cidadãos são, na sua maioria, pessoas acolhedoras?

UM. A primeira impressão foi boa. Já vinha com uma pequena ideia de como era o país porque fui ter à Holanda com a equipa quando esta estava em estágio de pré-época e, como os treinadores já tinham estado na Arábia alguns dias antes do início, disseram-me por alto como era a cidade e para onde ia! As pessoas acolheram-me bem, sou muito bem tratado aqui… Inicialmente como viam que era estrangeiro tentavam sempre saber de onde era e o que fazia aqui, mas agora já toda a gente sabe quem sou.

fp. A adaptação, como foi? O mister Sá Pinto e os bem conhecidos do futebol português Luís Leal e Nathan Junior facilitaram esse processo? Como é a tua relação com o balneário do Al Fateh?

UM. A adaptação foi muito boa. Claro que com o Nathan, Luis Leal e o João Guilherme foi mais fácil, mas como sou uma pessoa muito divertida e gosto de brincar com todos, isso também ajudou! Não tenho as mesmas brincadeiras que tinha em Portugal devido à cultura e aos costumes deles mas eles dizem que nunca viram um “maluco” como eu (risos).

fp. Clima, costumes, cultura… tudo diferente em que medida? A gastronomia, entre outros costumes, é apenas uma questão de hábito? Conta-nos alguma peripécia que tenhas vivido.

UM. No verão cheguei a apanhar 55 graus durante o dia e 44 à noite. São temperaturas que nos impossibilitam de estar na rua, e as pessoas que estão aguentam por pouco tempo porque querem logo entrar em algum sítio com ar condicionado! As mulheres aqui não podem conduzir, não podem ir aos estádios e andam sempre tapadas. Eles dizem que são as “mulheres ninja” porque só conseguimos ver os olhos, mas algumas nem os olhos consegues ver. Até as mãos tapam! Passo por elas e não sei se são jovens ou idosas. Não consigo ter mesmo a noção de nada. Eles têm 5 rezas ao dia e na hora das rezas eles fecham tudo: lojas, restaurantes, cafés…

Das primeiras vezes que fui ao supermercado com o Nathan, íamos a caminho das caixas para pagar, só que como era hora das rezas fecharam tudo e tivemos que estar 25/30 minutos à espera que terminassem para podermos pagar as compras, mas, na verdade, não somos obrigados a esperar. Muita gente continua a fazer as compras como outros deixam os carrinhos de compras e vão rezar.

A comida aqui é muito boa. Sempre que falo com amigos ou família falo sempre da comida. É das coisas que vou sentir mais saudades!

fp. Agora com uma opinião formada, como classificas o futebol saudita na sua totalidade? Existe mais ‘vida’ para além do Al-Hilal e do Al Ahli SC?

UM. Existe sim. Há o Al-Ittihad e o Al Nasr que também são boas equipas e têm muitos adeptos! Mas o Al-Hilal é, sem dúvida, o maior clube e o clube com uma massa adepta maior. Equipa onde o Carlos Eduardo (que jogou no Porto) está.

fp. Os adeptos… Tão fervorosos como os portugueses? Ou mais reservados? O futebol é já visto como uma tradição no país?

UM. Os adeptos aqui na Arábia vivem muito o futebol porque também é o desporto-rei. Vibram muito e cantam durante todo o jogo! Contra equipas grandes o ambiente é muito bom.

Sá Pinto, até então treinador do Al Fateh, com Ukra no dia da sua apresentação. (Foto: Facebook @UkraMonteiro)

fp. O arranque do Al Fateh no campeonato não foi o desejado, com a equipa a acumular derrotas e empates de forma consecutiva. O que falhou nesse período inicial? O afastamento de Sá Pinto esteve relacionado com os maus resultados?

UM. O início do nosso calendário foi complicado porque quer na primeira quer na segunda defrontámos equipas grandes e tivemos logo duas derrotas! Nos primeiros 4 jogos tivemos 1 jogo em casa e 3 fora. Jogávamos bem, mas não ganhávamos e aqui os árabes querem resultados imediatos, ou seja, vitórias, pois é isso que os deixa felizes. O Sá Pinto pôs a equipa a jogar um futebol diferente do que as equipas jogam aqui, mas os resultados não apareceram.

fp. De Ukra para… André. Esta ‘troca’ de nome foi difícil de assimilar ou é apenas uma questão temporária? A alcunha ‘Ukra’ não se tornou famosa na Arábia Saudita por alguma razão específica?

UM. Eu queria por ‘Ukra’ na camisola porque toda a gente me conhece por esse nome, mas eles disseram-me que na camisola os jogadores têm que usar o nome ou os nomes que estão no passaporte… Não podem por alcunhas! Tenho André na camisola, mas toda a gente me trata por Ukra à mesma.

fp. O regresso de Fathi Al-Jabab ao comando técnico do Al-Fateh deu um outro alento à equipa que se libertou do fundo da tabela e garantiu um apuramento histórico para a fase de grupos da Liga dos Campeões Asiáticos 2017 com um golaço de… Ukra. Sendo um dos mais utilizados e um dos melhores marcadores da equipa, como descreves o teu momento futebolístico actual? Há espaço para melhorar? Quais são os objectivos do clube para esta época?

UM. A nível individual tenho feito uma época muito boa, com golos, assistências e bons jogos. Os jogadores árabes dizem que sou muito bem falado aqui, o que me deixa super feliz e motivado para continuar o meu trabalho! Sim, claro que há espaço para melhorar. Treino diariamente para que isso aconteça! O objectivo do clube esta época passa por garantir a manutenção e fazer uma boa fase de grupos na Liga dos Campeões Asiática.

fp. É certo e sabido que o Ukra é um autêntico fenómeno das redes sociais em Portugal. Mas como são as redes sociais na Arábia Saudita? É mais difícil criar hype com as tuas acções habituais? Qual a importância de ser um jogador acessível ao público como foste, sobretudo, no Rio Ave?

UM. Aqui não posso publicar certas brincadeiras que fazia em Portugal. Quando vim para cá, tive de apagar algumas fotos do meu Instagram porque não iriam cair bem na cultura e na religião do país.

Eu sempre fui uma pessoa divertida, com um sorriso desde miúdo, só que nunca publicava nada. Então, no Rio Ave disseram-me para começar a publicar algumas coisas porque as pessoas mereciam saber como era o verdadeiro Ukra! Aos poucos fui-me dando a conhecer fora do balneário. Fui sempre assim em todos o sítios por onde passei. No Porto e no Braga já o era, só que não publicava nada.

‘Praxado’ no estágio de pré-época em solo holandês. (Foto: Facebook @UkraMonteiro)

fp. Depois de vários anos no campeonato português sempre com um nível assinalável e agora brilhando no continente asiático… guardas alguma mágoa por não te terem dado uma verdadeira oportunidade no FC Porto?

UM. Mágoa!? Nenhuma mesmo. Sinto-me um privilegiado por ter feito a minha formação e por ter feito parte do plantel principal do Porto! Numa equipa que deixa saudades com um grande treinador, André Villas-Boas, e com grandes jogadores como Hulk, Falcao, James, Moutinho, Fernando, Guarín, Belluschi, Álvaro Pereira e por aí fora… Aprendi muito nos 6 meses que estive no plantel principal. Foi um ano inesquecível para todos os portistas!

fp. Em jeito de curiosidade, qual foi o segredo do FC Porto versão 2010/2011? O que injectou André Villas-Boas na equipa para que se tivesse tornado tão forte?

UM. O Porto vinha de um ano menos bom e André Villas-Boas injectou no grupo ambição, confiança, trabalho de qualidade fazendo com que todos nós evoluíssemos diariamente! Lembro-me que ia feliz para todos os treinos, porque sabia que ia sair melhor jogador do que quando entrei.

fp. Por fim, pretendes, no futuro, estender a tua carreira além-fronteiras? Ou tens em mente um breve regresso a Portugal?

UM. O meu objectivo é ficar por estes mercados mais 4 ou 5 anos e depois regressar a Portugal porque quero acabar a minha carreira no clube da minha terra que é o Famalicão.

Foto: Facebook @UkraMonteiro

A equipa do Fair Play vem, por este meio, agradecer ao Ukra pela disponibilidade e gentileza demonstradas no decorrer da entrevista. Aproveitamos, do mesmo modo, para lhe desejar as maiores felicidades na sua vida pessoal e profissional.

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Ricardo LestreMarço 20, 201737min1

Carlos Miguel Silva, jovem técnico português natural da Figueira da Foz, conta, no seu currículo, com uma experiência destacável no mundo do futebol. Assim que deu por terminada a carreira enquanto jogador profissional, Carlos, inspirado pelo FC Porto 2002/2004 de José Mourinho, seguiu pela via de treinador e não parou de acumular novas aventuras. Depois de conhecer a realidade da formação de topo em Portugal, partiu para as duas potências emergentes da actualidade (China e EUA) e partilhou, em entrevista exclusiva ao Fair Play, toda a sua visão sobre o desporto-rei.

Perfil


Nome: Carlos Miguel Simões de Carvalho e Monteiro da Silva
Idade: 31 anos
Nacionalidade: Portuguesa
Naturalidade: Figueira da Foz
Histórico profissional como jogador: GD Buarcos (1993-1996), Naval 1º de Maio (1996-2000 e 2014-2015), Sporting CP (2001-2002), Académica de Coimbra (2002-2004), FC Pampilhosa (2004-2005 e 2010-2011), UD Tocha (2005-2006 e 2012-2013), EC Bahia sub-20 (2006-2007), CD Tondela (2007-2008), Atlético de Valdevez (2008-2009), Boavista FC (2009-2010) e AD Limianos (2013-2014)
Histórico profissional como treinador: Sporting CP sub-11 (2011-2012), Dragon Force-Porto – DCAPI (2013-2014), WL Figo Football Academy sub-9 e sub-11 (2015-2016) e Global Premier Soccer sub-10 e sub-12 (2016-2017)


fpCarlos, antes de mais, gostaria de lhe agradecer em nome de toda a equipa do Fair Play pela disponibilidade demonstrada na realização desta entrevista. O seu trajecto como atleta profissional de futebol foi, de facto, notável. Como descreve a passagem, no seu processo de formação, pela Academia do Sporting Clube Portugal visto que interagiu com vários futebolistas de elite como Cristiano  Ronaldo,  João Moutinho, Miguel Veloso, Rui Patrício e Silvestre Varela? Quais as ilações retiradas na Academia que agora fazem parte do seu progresso enquanto treinador?

CM. Caro Ricardo, eu é que agradeço e é com todo o gosto que acedo ao vosso pedido.

Agradeço o elogio relativo à minha carreira de futebolista, embora creia que algo exagerado… Joguei a um nível “razoável”, que atingi com trabalho, e tenho consciência que, devido a alguns factores, alguns dos quais relacionados mais comigo outros relacionados mais com aspectos externos, poderia ter atingido mais. De qualquer forma, foi um caminho do qual me orgulho, nomeadamente pelo facto de o futebol me ter proporcionado tanta coisa, de me ter ensinado valores e princípios essenciais e transversais a tudo na vida, de ter sido sempre honesto com o futebol e por me ter proporcionado experiências que muito me influenciaram agora na visão que tenho como treinador. A passagem por uma academia de formação do Sporting foi uma dessas vivências.

Sempre fui muito observador e acho que tenho uma boa memória… Apesar de na altura não reflectir sobre isso, hoje, quando recordo, reforço cada vez mais as ideias que tenho sobre os contextos que podem ou não propiciar maior ou menor probabilidade de se atingir a elite ou não e que fazem sentido se recordar o que observei na Academia do Sporting.

Há estudos interessantes que abordam qual o trajecto dos jogadores de elite que parecem estar em concordância com as biografias dos grandes craques.

O contexto Academia Sporting não é mais que uma continuidade de um processo, processo esse que naquela geração, quer queiramos quer não, veio da rua e não de uma geração espontânea. O talento do Ronaldo (e do Messi?) é inato? Ou é algo adquirido nos contextos que vivenciou? Joguei a primeira vez contra ele num torneio sub-12 inter-associações, tinha ele acabado de chegar ao SCP e já parecia um extraterrestre. Mas de onde vinha isso? Repara, um rapaz que vivia num contexto pobre, irmão mais novo, o que fazia ele? Enquanto criança brincava e jogava na rua, horas e horas, à parte dos clubes onde esteve ainda na Madeira, onde começou a modelar o domínio do corpo, do corpo com a bola, e a aculturar o jogo em si… Sem adultos, sem treinadores!

A continuidade do processo, numa Academia, depois vai tendo contextos mais específicos que vão ser decisivos. A tendência passa a ser integrar cada vez mais tempo em contexto de treino e de competição, com níveis de exigência cada vez maiores até ao futebol sénior mas continuando a haver contextos de rua! Porque o Ronaldo e outros, serviam como ídolos aos mais novos, inspirando-os a imitarem os dribles, os freestyles, e tudo o que os ídolos faziam, basicamente. Às vezes os miúdos até “faziam fila”! Estas referências funcionavam como factor de competição e superação, proporcionando coisas novas também, muito tempo de prática com procura de se transcenderem. Era como que uma droga…

Depois existem outros fatores como o scouting. Lembro-me que o Sporting tinha uma rede de scouting maior e melhor distribuída no país, por isso iam buscar os melhores jogadores.

O contexto logístico e funcional da Academia do Sporting é outro factor. Creio que foi decisivo, visto que os residentes apenas faziam duas coisas: escola e academia, onde os tempos livres passados na Academia eram dedicados a jogar, inventar fintas e treinar por iniciativa própria. Outro factor ainda importante apesar de tudo, era o ambiente algo aberto e até “descontraído” do treino, com muito jogo e uma intervenção algo liberal por parte dos treinadores (fosse essa intervenção feita de forma deliberada ou não), o que proporcionava que os jogadores jogassem sem medo de errar.

Reforçou-me a ideia de que não são craques que nascem com um dom, mas que se desenvolvem em contextos que são decisivos e que têm timings, “doses” e particularidades distintas ao longo da carreira, desde a rua ao contexto de treino-competição.

fpNo decorrer da sua carreira profissional, o Carlos envergou as cores de vários clubes no panorama português. Quais os momentos mais marcantes vividos enquanto jogador que recorda com extrema satisfação nos dias de hoje? E as lições que leva consigo para o futuro?

CM.Vou abranger o momento mais marcante à época em que representei o Atlético de Valdevez em 2008/2009. Apesar de no campeonato também termos feito um grande trajecto, saliento o trajecto na Taça, onde fomos a grande surpresa nessa época, ao sermos a única equipa das competições secundárias a atingir os quartos-de-final. Eliminámos com distinção quatro equipas da II Liga, nomeadamente os 3 primeiros classificados (Olhanense do Jorge Costa, Santa Clara do Vítor Pereira e Gil Vicente) e praticando futebol de muita qualidade, até sermos eliminados pelo Nacional da Madeira em penáltis nos quartos, num jogo muito equilibrado e onde fizemos mais uma grande exibição.

Mas mais importante que isso, e é a ideia que quero salientar, é que tenho a certeza que isso não foi um acaso, foi muito fruto da forma como treinávamos e jogávamos, praticando um futebol ligado, combinativo e de ataque. Tudo isto foi mais uma experiência que me marcou e influenciou na forma como vejo o treino e o jogo.

Foi onde eu, jogando nas minhas sete quintas, em 1-4-3-3 como pivô (uma concepção na qual me inspirava para jogar na posição 6), mais cresci e aprendi. O treinador era o Micael Sequeira, tinha ideias e princípios semelhantes ao Barcelona, punha a equipa a jogar e com crença e não é por acaso que está hoje em 1º lugar na fase de subida, Série Norte do Campeonato Nacional de Seniores. Jogar nesse contexto foi decisivo para literalmente adquirir sensações que ficam marcadas em nós, e são decisivas depois na intervenção porque há detalhes que só vivenciando é que depois não passam despercebidos.

Depois houve outros aspectos marcantes, como a Academia Sporting e jogar com aqueles craques, o qual já referi, e também a superação dos momentos difíceis, de salários em atraso e lesões, como por exemplo uma pubalgia que me atormentou durante épocas e uma fractura num osso do pé direito aos 29 anos que demorou a ser diagnosticada e quase me fez desesperar, levando-me a parar uma época e equacionar deixar de jogar. Mas depois de a diagnosticar e decidir voltar a jogar, fui à luta. Não podia terminar carreira lesionado. Tinha de acabar por cima. Apesar da dificuldade de um jogador de 29 anos, um ano parado, em arranjar clube, a Naval (clube da minha terra e o qual estimo) acabou por me abrir as portas e voltei a jogar. Fiz 31 jogos e atingimos a manutenção. Pude aí dizer para mim próprio: “Agora podes pensar em ser treinador. O trabalho está feito”.

As lições são muitas, mas creio que estes momentos foram os que proporcionaram as mais importantes: a importância de constantemente cruzar experiências adquiridas em diferentes contextos e não aceitar que as dificuldades nos deitem abaixo e aprender com os erros.

Foto: Arquivo pessoal

fp. Paralelamente à actividade como atleta, terminou, com elevada distinção, as suas obrigações a nível académico. Em que medida é que todo o percurso desenvolvido quer na Licenciatura em Educação Física quer nos demais Mestrados (Fundación F.C Barcelona e FADEUP) transformou a sua perspectiva em relação ao futebol praticado nos dias de hoje?

CM. Uma pequena provocação: como “atleta” e não como “jogador” … Influenciou e muito. Desistir de Engenharia Electrotécnica e entrar em Educação Física foi uma decisão muito inspirada pelo momento marcante e arrasador do Mourinho naquele F.C. Porto fantástico de 2002-2004 e pela leitura da sua biografia.

Foi quando tive a certeza que queria e iria ser treinador. A partir daí, começo a chegar à leitura de outros livros mais técnicos, com referências às ideias do Mourinho e do Rui Faria e é aí que chego à Periodização Táctica do Prof.Vítor Frade (metodologia que norteia em grande parte o trabalho da equipa técnica do Mourinho), de quem o meu pai, coincidentemente, era amigo (foram colegas no antigo INEF). Para além de toda a leitura de livros com ideias de Cruyff, Rinus Michels, Sacchi, Mourinho, passei a ler muito sobre a Periodização Táctica até que decidi que tinha de a conhecer in loco e fazer a tese sobre esse mesmo tema. O Prof. Vítor Frade e o Mister Luís Castro – na altura a coordenar o Projecto de Formação do Futebol Clube do Porto (Projecto Visão 611) – acederam a esse meu primeiro estágio em 2006/2007 e, depois, a partir do Mestrado (2008), surgiu o de Barcelona, que coincidiu com o primeiro ano do Guardiola no Barça.

Entre 2007 e 2015, no âmbito académico ou por iniciativa própria, estudei e observei Luís Castro no Porto B, José Tavares, campeão nacional de sub-15 e adjunto do Mister Luís Castro, Pepijn Lijnders, actual adjunto de Jürgen Klopp, no treino de desenvolvimento técnico, João Brandão e Pedro Emanuel, campeões de sub-17, Marisa Gomes, Mara Vieira, José Guilherme Oliveira, Miguel Lopes e Mário Silva. Juntamente com o contexto de Barcelona foram influências decisivas.

Simultaneamente, tive, em Barcelona, como professor e influenciador, o Prof. Paco Seirul.lo (treinador durante muitos anos da equipa A do Barça), Mentor da Filosofia do Máster, e Manuel Lillo, adjunto de Sampaoli no Sevilha e um dos grandes influenciadores de Pep Guardiola. Em Barcelona tive ainda um professor, Mark Smith, e, através dele, conheci o Paul Ford, ambos investigadores na John Moores University em Liverpool. Estavam na altura a fazer investigações sobre o trajecto dos jogadores de elite e aquisição de perícia no futebol. Pediram-me para colaborar com eles nas investigações e fiquei responsável pela recolha de dados com os jogadores de elite cá em Portugal. Depois de publicado o estudo no Journal of Sports Science, os dados vieram confirmar mais uma vez as convicções referi na primeira questão.

Portanto, neste trajecto académico, considero que houve três pilares que fundamentaram as minhas crenças: o contexto Periodização Táctica no FC Porto durante o PV611, o contexto Máster Barcelona e a colaboração com a John Moores University de Liverpool. Eles foram decisivos na perspectiva de como vejo o futebol.

A sistematização mais formal destas ideias foi muito importante pois deu-me, à partida, uma grande clareza de ideias para depois intervir no terreno.

fpEm 2011/2012 deu início à sua primeira experiência como técnico no Sporting Clube de Portugal e depois na Dragon Force-Porto – equipas de competição e Departamento de Capacidades Individuais (DCAPI). Sente que a aplicação dos seus princípios desenvolvidos no âmbito teórico-académico surgiu o efeito desejado na prática?

CM. Vou-me cingir mais à experiência no Sporting porque foi onde tive maior grau de autonomia em termos de operacionalização e de condução de equipa em competição.

Ter tido a oportunidade logo na primeira experiência como treinador, de estar nas equipas de competição do Sporting com uma geração de jogadores que eram a elite em termos nacionais (absolutamente fantásticos) foi algo realmente espectacular e para o qual estava absolutamente focado e motivado. Também pelo facto de ter alguma autonomia operacional e poder construir algo que, à partida, já acreditava muito.

É natural quando iniciamos qualquer actividade nova, ao início estejamos ainda algo “verdes” em determinadas coisas que com a prática vamos progressivamente refinando. Contudo, o que senti nessa experiência, foi, principalmente, e que tem que ver com uma Ideia de como jogar, o seu ajustar face aos jogadores que temos e o seu processo de construção. Este aspecto estava, para mim, já relativamente bem claro e adequado.

Sugiro aos leitores darem uma vista de olhos na playlist que está disponível no meu site (www.cmvision.pt) na página case-studies para perceberem melhor o que foi o processo de desenvolvimento da nossa ideia de jogo nessa experiência no Sporting.

Tenho a certeza que o que desenvolvi no contexto mais formal das Universidades foi decisivo, também ajudado e muito pela experiência de jogador.

Foto: Arquivo pessoal

fpComparando as duas instituições, como classifica a actualidade dos escalões de formação em Portugal?

CM. Em relação ao “classificar” a actualidade dos escalões de formação em Portugal, pergunto: qual é o referencial de comparação? Bom, acho que isso é algo que importante para se poder classificar. Ok, se nos quisermos basear como referencial os resultados que as selecções têm tido ultimamente, comparando-as com as selecções de outros países, ou os rankings FIFA,  podemos chegar a determinadas conclusões e se nos basearmos noutros factores podemos chegar a outras.

Se fizermos uma análise muito rápida, podemos pensar: nós realmente estamos a ganhar nas selecções jovens, estamo-nos a apurar constantemente para as principais competições, a passar as fases de grupos e a chegar a meias-finais e finais nas principais competições. Então, se somos melhores do que os outros actualmente é porque temos efectuado um bom trabalho…

Parece-me, no entanto, que a análise deve ser um pouco mais profunda para termos em conta aspectos históricos e abrangermos uma escala temporal bem maior para percebermos o que está a acontecer ao futebol mundial e mais concretamente em Portugal. Quando me lembro da quantidade de equipas e jogadores do passado, lembro-me de um outro futebol mais atractivo, mais técnico, criativo e espectacular. Mas digo isto em termos gerais, porque havia maior quantidade de equipas a jogar melhor futebol. Agora, parece-me que são cada vez mais raras.

O facto de as selecções nacionais estarem a ganhar é resultado de que ganhamos porque temos evoluído? Porque os outros têm regredido? Pelos dois? Vamos analisar assim? Ou será que a questão principal deverá ser a seguinte: Como saber se estamos a exponenciar ao máximo aquilo que pode ser a evolução da nossa formação?

Sou da opinião que a qualidade e a “quantidade da qualidade” do futebol em todo o mundo (salvo raras excepções) tem vindo a decair ultimamente, o que é resultado de uma “evolução” do fenómeno para o negócio, dos contextos culturais, da sociais, demográficos…

Sem querer ser especulativo, deixo em aberto a minha disponibilidade para debater melhor esta questão, isto era uma discussão que dava para uma vida…

fpSetembro de 2015 foi um marco muito importante na sua jovem carreira como treinador. O que o levou a ingressar na Academia Luís Figo sediada em Guangzhou, República Popular da China? Como se originou e desenrolou todo esse processo?

CM. Esta oportunidade surgiu primeiramente através do Prof. Dr. Gomes Pereira, que foi meu orientador de Mestrado, e que me deu a conhecer o Prof. Rolão Preto que era o Director Técnico deste projecto na China. Manifestei o meu interesse e, com a ajuda e recomendação do Dr. Gomes Pereira, acabei por ter a oportunidade de ser convidado a integrar o projecto. Por estar já a ponderar terminar carreira como jogador, entendi ser uma oportunidade interessante para começar.

fpO que diferencia, propriamente, o futebolista chinês do europeu em termos técnicos e psicológicos?

CM. Apesar de ter acompanhado todo o futebol chinês e ter estado em três cidades (Pequim, Guangzhou e Zangjiakou), estive numa realidade de futebol de formação, concretamente numa academia de futebol.

Tinha uma ideia muito geral, por ter tido colegas chineses, como sendo jogadores tecnicamente evoluídos, ágeis (até pelas suas características morfológicas), humildes, concentrados com capacidade de trabalho e fácil integração (geralmente eram sociáveis e todos os outros jogadores gostavam deles).

No que se refere ao futebol de formação, a minha ideia era vaga, embora antevisse a China como uma potência de formação de futuros jogadores, pela demografia e pelo forte investimento político no futebol. Pensei que houvesse uma certa cultura de dedicação ao treino, características morfológicas e recrutamento de treinadores europeus.

Quando me deparei com a prática, repito, num contexto de uma Academia de Futebol (com miúdos entre 7 e 13 anos), no que se refere ao nível (fraco) que encontrei, não foi surpresa nenhuma. Era natural que miúdos destas idades não tenham tido experiências de jogar sem ser no contexto das academias.

No que se refere ao domínio do corpo sinceramente esperava um pouco mais, mas rapidamente percebi que as grandes cidades chinesas, apesar da relutância da China em se abrir a determinadas tendências da cultura ocidental, têm características sócio-demográficas comuns às do Ocidente, onde há cada vez menos possibilidades de os miúdos poderem desenvolver autonomamente aquilo que dantes era natural e espontâneo em termos corporais e de movimento.

Depois observei algum egoísmo, algum desrespeito por valores essenciais a uma equipa, pouca atenção. Foi de certa forma, não digo um choque, mas um grande contraste com aquilo que esperava e que estava habituado.

Ao longo do tempo, fui percebendo melhor determinados contextos mais Macro daquilo que é a cultura chinesa, o seu sistema sócio-político e educativo e de que forma isso poderia influenciar todo as suas dimensões.

fp. Teve/tem a política grande influência na forma como o futebol se desenvolveu ao longo do tempo? O que tem a dizer do forte investimento efectuado sob a recente liderança de Xi Jinping?

CM. Absolutamente. O Presidente é completamente apaixonado por futebol e toda a gente o quer seguir. Existe um bocado isso. Fala-se no sonho chinês. Quando há um sonho e se investe nesse sonho, acho que é de valorizar a atitude. Não é fácil, mas sem sonhos a vida perde sentido.

Depois repara nos jogadores que estão a ir para a China e os valores envolvidos nas transferências. Neste momento, penso que isto é um bocado de loucos. O Jackson Martínez tinha o filho inscrito na nossa academia em Guangzhou. Um dia esteve lá com o miúdo e em conversa manifestou estar um pouco triste. E imagina o dinheiro que ele não ganha. Certamente o prazer que lhe dava a jogar no Porto do Vítor Pereira não era o mesmo que lhe dava lá. Há um desequilíbrio total na economia mundial, que se reflete no futebol, e existem mercados que simplesmente esmagam outros e não permitem que os outros ousem ter melhores jogadores nas suas ligas. Muitos dos grandes jogadores acabam por ter um apelo pelo dinheiro e não pelo prazer de estar inserido num contexto que os valorize em termos de jogo.

Foto: Arquivo pessoal

fp. Agora numa vertente pessoal, como foi viver num país com língua, cultura e costumes completamente distintos do nosso país? Alguma peripécia que queira partilhar connosco?

CM. A China foi uma experiência fantástica, tanto sob o ponto de vista profissional como pessoal. Fui com mente aberta e tive de me adaptar em muitos momentos mas sabendo que manter-me fiel às minhas ideias e valores era fundamental para a missão que tinha pela frente.

É um mundo completamente diferente, mas por já ter vivido e trabalhado em muitas cidades, quer em Portugal quer no estrangeiro, não estranhei tanto. É claro que depois existiam sempre peripécias que nós chamávamos de “chinesices”.

Logo nos primeiros dias vou a caminhar no passeio e, de repente, um chinês que ia à minha frente, pára, agacha-se, acende um cigarro e fica de cócaras no passeio a fumar. É um hábito que eles têm, ficar de cócaras seja onde for. Até é uma forma de dar descanso ao corpo. Depois, têm o hábito de a seguir ao almoço simplesmente cruzarem os braços em cima da mesa onde comeram e dormir uma sesta aí mesmo.

Houve situações engraçadas, como quando perdi a carteira que me havia caído do bolso quando ia de bicicleta. Estava a ir para o Starbucks, ia trabalhar lá durante a tarde e, chegando lá, perguntei ao empregado se podia ligar para a polícia local só para participar. Vi o empregado a ligar e fiquei descansado. Entretanto começo a trabalhar, tinha um relatório para apresentar com alguma urgência e nisto entra a polícia no Starbucks, vêm ter comigo (nisto estava toda a gente a olhar para mim), começam a falar chinês, eu sem perceber nada e eles o mesmo. Eles lá falam muito mal inglês e perceberam que eu queria chamar a polícia. Eu tentava despachar os polícias a dizer que tinha de acabar um trabalho e depois passava na esquadra, mas eles continuavam a fazer-me perguntas. Felizmente o Google Translator serve para alguma coisa. Lá perceberam que tinha só queria participar a ocorrência. Mas toda a gente olhava para mim a pensava que tinha cometido algum crime…

Tenho outros episódios engraçados para partilhar. Os pais dos miúdos correrem à volta do campo, com as suas roupas normais, enquanto os miúdos treinam é algo normalíssimo. Tive de os fazer perceber que devem ficar fora do espaço de treino, mas tive de me adaptar e dar-lhes uma bola para jogarem no outro campo.

Outro episódio: fui convidado para jogar por uma equipa de futsal. Um dia tivemos jogo, vejo os jogadores concentradíssimos e prepara-se uma palestra do capitão de equipa. Reunião no banco de suplentes, jogadores equipados e tudo a fumar, capitão incluído (fumava e falava ao mesmo tempo).

Muitas foram as peripécias hilariantes devido às falhas de comunicação.

fp. Qual foi a principal intenção que levou à criação do seu site cmvision.pt?

CM. Numa perspectiva mais global, dar a conhecer melhor, “à distância de um clique”, a minha visão sobre o futebol, mais concretamente uma cultura de estar e agir perante o jogo. É o conceito básico do site, reflecte a minha visão, daí o nome CM Vision. A restante organização do site surge em função desse primeiro pressuposto. As ideias da visão surgem em função de necessidades reais do futebol actual e que tendencialmente, parece-me, continuarão a existir.

Desenvolver jogadores cada vez mais dotados tecnicamente, cada vez mais antecipativos, criativos e conhecedores do jogo é um desafio. Desenvolver um determinado tipo de jogo é outro. Estes são dos desafios do futebol actual a que me refiro e para os quais apresento através de “case-studies”, vídeo-exemplos com equipas que treinei de como me proponho a fazê-lo, porque mais que levantar problemas, é tão ou mais importante apresentar propostas para intervir.

E isso acaba por estar ligado com uma outra intenção do site, no fundo apresentar um portefólio do trabalho que tenho vindo a realizar e dar a conhecer de forma mais detalhada qual o meu trajecto, ambições, filosofia, etc.

Com o Prof. Dr. Gomes Pereira. (Foto: Arquivo pessoal)

fp. Depois da experiência na China, o Carlos decidiu juntar-se à Global Soccer Premier, clube parceiro oficial e exclusivo do gigante clube alemão Bayern Munique nos Estados Unidos e América do Norte. Será demasiado cedo para definirmos o Carlos como sendo um Globetrotter? Tenciona, no futuro, continuar a exercer as suas funções noutros países espalhados pelo mundo?

CM. Penso que não é cedo porque trabalhei como treinador em Portugal, China, Brasil (aqui também como jogador), Estados Unidos, Canadá e estive ainda durante 2 anos em Espanha no Mestrado de Barcelona. Com 31 anos, ter já estado na Europa, América do Sul, América do Norte e Ásia, é alguma coisa. Só me falta África e Oceania…

Acaba por ser uma consequência da globalização a que assistimos hoje e que está a abranger sobremaneira o futebol. Este fenómeno, ainda por cima tendo vivido nesses contextos, tem-me feito reflectir sobre aquilo que o futebol se está a tornar.

Já na minha segunda vez no Brasil tinha tido essa sensação (e estas duas últimas experiências no estrangeiro reforçaram-me essa crença): não acredito muito que a Europa Central não continue a ser o centro do futebol de topo durante os próximos 20 anos porque há uma coisa muito forte e que o dinheiro não compra: a cultura.

É este sentimento de cultura e paixão que vivemos cá que senti muita falta, daí decidir regressar a Portugal. Tenho agora outras ambições que passam por atingir o futebol profissional. Estou à procura do meu espaço. Posso começar por integrar uma equipa técnica de um clube profissional começando como adjunto ou preparador físico por exemplo, ou iniciar um projecto próprio como treinador principal numa liga amadora, pois estou habilitado para ser treinador principal no Campeonato Nacional de Seniores.

Não fecho as portas ao estrangeiro neste momento, mas terá de ser um desafio ambicioso e que valha a pena e não algo que, caso regresse, as pessoas não saibam o que fiz ou onde estive. Neste momento estou mais focado em apanhar esse comboio.

fp. Como classifica o futebol em Boston? Fale-nos sobre a sua experiência nos Estados Unidos e Canadá.

CM. O futebol nos EUA, tal como nos outros desportos, já está estruturalmente e organizado de acordo com a coerência e objectivo do sistema há algum tempo. E esse objectivo é regido por um lema “se dá dólar é bom”. Não tenho dados para comparar, mas em Massachussets e em New Hampshire (dois Estados de New England que pude conhecer mais de perto), já há, no futebol de formação, um considerável número de clubes e praticantes, ligas escalonadas em diferentes níveis e não há subidas nem descidas de divisão. As equipas de formação, em função da avaliação feita do seu nível, vão para a divisão onde há em melhor enquadramento competitivo, podem ser reajustadas e ir para outras divisões a meio da época caso se verifique uma discrepância competitiva. O número de níveis competitivos também é maior à medida que se sobe de escalão, sendo que entrar nas equipas do College Soccer é a grande e principal ambição dos jovens jogadores norte-americanos, pois terão os estudos pagos. Pareceu-me que não é propriamente a principal ambição atingir a MLS, até porque os salários e perspectiva de carreira não são grande coisa.

A nível profissional, há um clube a disputar a principal liga, o New England Revolution na MLS.

O futebol, apesar de estar a crescer e a ficar mais popular é ainda uma modalidade secundária, depois do Basebol, Futebol Americano e Basquetebol. Há ainda falta de treinadores qualificados para abranger a quantidade de clubes que já existem. A crescente popularidade do futebol e as necessidades existentes ao nível do desenvolvimento deste estão, parece-me, a ser aproveitadas com um intuito prioritário de fazer dinheiro à custa do futebol e não centrar a acção no desenvolvimento de futebolistas norte-americanos, pelo que me parece estar a ser subaproveitado.

Relativamente à minha experiência, foi mais uma oportunidade para evoluir como treinador. Passar por outro tipo de desafios, não só a nível do futebol mas também culturais. Foi um período intenso, de muito trabalho, onde desempenhei para além das funções de treinador, funções de Coordenação no Departamento de Sports Performance do clube que exigiram de mim estudo, pesquisa, aplicação prática noutro campo importante e extremamente específico como é o campo da metodologia do treino e recuperação funcional pós-lesão.

Por outro lado, como treinador, a GPS incentivava muito aos treinadores com funções administrativas, como por exemplo participarem na inscrição de jogadores junto nas ligas, comunicação próxima com os pais (apresentar relatórios de jogo e orientações logísticas para os jogos a disputar), planear itinerários para deslocações fora… Passava horas a conduzir numa mega cidade como Boston. Às vezes passava 4 horas por dia a conduzir. Incrível! Mas claro, com GPS…

Outro dos desafios foi ter de observar jogos de outras equipas para recrutar jogadores. Não havia um departamento de scouting e os treinadores eram responsabilizados por esse tipo de tarefas. Foi desafiante.

No que toca à cultura e sociedade, fiquei de facto espantado com a quantidade de capital daquela gente. Só grandes carros, casas boas… Enfim. E nós cá andamos a “penar”.

Mas numa esfera maior, a minha experiência nos EUA e Canadá engrandeceu-me por perceber a sociedade do país mais influente no mundo e a sua influência em tanta coisa que nos toca. Alertou-me, sobretudo, para perceber qual o meu rumo no futebol. Senti muita falta da nossa cultura de futebol, principalmente. Era difícil ver jogos por causa da diferença horária e da carga de trabalho, por isso agora que regressei tenho-me desforrado e aproveitado para ver muitos jogos de ligas variadas e estudar algumas equipas.

Foto: Arquivo pessoal

fp. Muitos referem-se à falta do ‘futebol de rua’ nos EUA como justificação para o não aparecimento de grandes futebolistas norte-americanos. Concorda com esta leitura?

CM. Repara, o não existir o futebol de rua é uma realidade que não é só nos Estados Unidos. É hoje uma realidade também cá na Europa. Neste momento só em África e talvez alguns contextos na América do Sul, ainda existe futebol de rua próximo do que ele era antes. Mesmo no próprio Brasil, apesar do fenómeno futebol de rua ainda estar bem presente nas favelas e nos contextos mais pobres de algumas regiões, cada vez mais a tendência nesse país é haver uma aproximação da realidade da europeia e americana. A prática desportiva e a formação de futebolistas passar pelos clubes e pelas escolas de futebol, num regime pago, em que há interesses de negócio e de imagem (agradar aos pais por exemplo), torna os miúdos sobreagendados e, resumindo, acaba por não haver tempo. E era o tempo que dantes havia em todo o contexto do futebol de rua.

Acho que se o desaparecimento do futebol de rua é uma realidade dos dias de hoje e do futuro. Há desafios para os clubes. Conseguir transportar as características contextuais da rua para o treino é decisivo e isso, quer queiramos quer não, terá sempre como ponto de partida uma coisa que é o jogo! Não são os cones e as “pistas de aeroportos” e as abordagens sectorizadas das etapas e das fases que se faz na grande maioria das escolas de futebol. Nos Estados Unidos, pelo que meu deu a perceber, também acontece em muitos dos clubes. Este para mim é o principal desafio.

No entanto, não esqueçamos que para emergir algo espontâneo da paixão pelo jogo é preciso uma cultura que leva gerações a construir, onde são precisas referências, como nós temos cá o Ronaldo e outros… Depois vejo algumas coisas em que fico um bocado apreensivo, nomeadamente o modelo de negócio montado à volta dos principais desportos e o qual o soccer se está a adaptar.

fp. Apesar do crescimento exponencial do número de atletas norte-americanos a praticar o ‘soccer’, parece que a qualidade dos atletas não tem acompanhado essa tendência, pelo menos ao mesmo ritmo. Os resultados das selecções jovens norte-americanas são reflexo disso mesmo. Que trabalho é que não está a ser feito na formação dos jovens?

CM. Não sei como está o nível das gerações jovens actualmente, nem estou por dentro do projecto de desenvolvimento do futebol nos EUA a longo prazo, mas acho que a prioridade deveria ser primeiro criar a paixão nestas gerações e rever seriamente o caminho a seguir nos clubes dentro da ideia que expus anteriormente.

Não posso nem devo generalizar, porque não conheço de perto a realidade de todos os clubes, mas parece-me que em muitos casos há um olhar sectorizado na abordagem do treino e uma exacerbação do lado atlético em detrimento do lado técnico e táctico. Sinceramente não acredito que isso também não se passe cá, mas nós temos uma coisa que inevitavelmente leva a resultados diferentes: temos a cultura e as referências, o que leva a que os miúdos aos 3 anos já estejam com uma bola de futebol, enquanto que lá é uma de basquetebol ou futebol americano. Na ponderação, isto depois acaba por pesar muito mais.

fp. Quem considera ser o melhor treinador da actualidade? Quais os motivos?

CM. É difícil responder a isso. Depende que critérios definimos para eleger o melhor treinador. Resultados? Como põe a equipa a jogar? Consistência de resultados em diferentes clubes/ligas? Parece-me que é importante contextualizar.

Para mim o grande treinador é aquele que conseguir potenciar ao máximo a sua equipa e os seus jogadores. E se há um treinador que, por alguma razão, ainda não teve a oportunidade de estar num grande clube, mas consegue fazer isso no contexto em que está, deixa de ser um grande treinador e comparável aos treinadores que ganham a top? Não quero entrar em utopias, mas acho que por um lado se deve fazer essa contextualização.

Segundo, e de volta aos critérios, para mim um treinador será tanto melhor quantos mais desses critérios conseguir conjugar de forma consistente.

Falando dos mais conhecidos e, circunscrevendo-me não só à actualidade, mas também a outros que marcaram o jogo e contribuíram decisivamente para a sua evolução, aqueles que mais me inspiraram foram Cruyff, Mourinho e Guardiola, três extra-terrestres, três lendas, porque foram três treinadores que marcaram um impacto enorme no jogo nos respectivos tempos. E refiro primeiro o Cruyff, não só por ser justo homenagear esse visionário (assim como o Rinus Michels), mas também porque os referidos “romper” do Mourinho e Guardiola, são muito influenciados. Tenho a certeza pelas ideias do Cruyff pois foi alguém que marcou uma diferença no jogo como jogador e treinador. Sim, o próprio Mourinho, apesar do padrão das suas equipas ultimamente ser diferente, marcou a sua diferença no jogar do FC Porto em ideias de jogo muito baseadas no Cruyff. Isso está documentado em entrevistas suas e foi bem visível na forma como o FC Porto jogava. Por coincidência ou não (e isso é uma provocação que deixo), aliado à originalidade e upgrade como reeditaram esse jogo, ganharam os títulos que sabemos.

Na história recente, Mourinho e Guardiola são dois treinadores com uma Liderança com “L grande”, um carisma enorme, cada um com o seu estilo, mas ganharam de forma consistente já em diferentes equipas e campeonatos. O Mourinho em mais ligas (quatro), o Guardiola em duas.

No que toca ao jogo, não vi, até hoje, nenhum futebol igual aos “futebóis” que o Barça foi apresentando nos 3 anos do Guardiola lá. Não vi um outro treinador com uma ideia tão forte pelo que, com base no que foram os anos no Barça e Bayern (vamos ver no City), considero esse futebol, a essência do futebol/futebol do futuro e, no que confere ao jogo, não o vejo de outra forma. Se conseguir o desafio de não só conseguir vencer, mas conseguir voltar a vencer com esse futebol de forma consistente, temos que lhe tirar (ainda mais) o chapéu.

Esses são os motivos. Tem que ver com o facto de ganharem a seguir um caminho que valoriza o jogo em que acredito: de ataque, de domínio, um jogo ligado, combinativo, jogando em bloco e de forma equilibrada. São todos padrões essenciais para se jogar bem e ganhar.

Depois há outros treinadores que também por exibirem muitos desses padrões me têm levado a estudá-los e segui-los. Neste momento mais o Conte, Sampaoli e o Thomas Tuchel.

Treinadores portugueses dos que acompanhei melhor, por terem estado mais tempo em Portugal e/ou por terem deixado uma grande marca mesmo que tenham estado pouco tempo, para mim foram o Jorge Jesus, André Villas-Boas, Paulo Fonseca e Marco Silva pelo acrescento de qualidade táctica que trouxeram ao jogo.

Num panorama mais verticalizado, há dinâmicas ofensivas muito interessantes no jogo de Jardim e estou a procurar seguir um pouco mais de perto o Paulo Sousa. Do que vi gostei imenso.

fp. Por fim, que diria o Carlos aos demais colegas que ambicionam uma nova etapa longe de Portugal?

CM. Se for algo que realmente possa ser interessante, e uma forma de atingirem os vossos sonhos, se não assumirem o risco de tentar nunca saberão se seriam ou não capazes. Ficar algo apreensivo nestas situações é algo que se sucede normalmente, mas percebemos depois de passar pelas experiências que não faz sentido nenhum. É uma descoberta, uma experiência e o resultado dela depende de como a interpretamos. Senti que depois de cada experiência fora, as seguintes eram mais naturais que a anterior, pelo que no meu ponto de vista não se deve ter medo de ir. Às vezes agarramo-nos a crenças limitadoras que não são mais do que isso: crenças. Que se podem reverter.

Mas senti também que há uma coisa que não podemos renegar nunca: a nossa cultura, o nosso país e o nosso futebol.

Foto: Arquivo pessoal

A equipa do Fair Play vem, por este meio, agradecer ao Carlos Miguel pela disponibilidade e gentileza demonstradas no decorrer da entrevista. Aproveitamos, do mesmo modo, para lhe desejar as maiores felicidades na sua vida pessoal e profissional.

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Ricardo LestreMarço 11, 201710min0

A chegada de André Villas-Boas ao futebol chinês surpreendeu o planeta do futebol naquele que foi um all-in da direcção do Shanghai SIPG para terminar com a hegemonia do Guangzhou Evergrande na Super Liga. Após um início empolgante sob o comando do jovem técnico português, o Fair Play lança a sua análise integral à equipa que promete fazer história na China e em todo o continente asiático.

Um clube com (muita) tradição na cantera

Anos antes do investimento milionário levado a cabo no futebol, o clube agora conhecido como Shanghai International Port Group Football Club procurava canalizar todo o seu capital no desenvolvimento e na projecção de jovens jogadores. Rebobinemos, então, a cassete para trás.

A história remonta para o ano 2000, com a criação da Genbao Football Academy pelo homem forte do futebol chinês Xu Genbao. Genbao é uma figura incontornável na República Popular da China. No seu vasto curriculum contam-se inúmeras experiências como técnico – isto após terminar a carreira como futebolista -, quer ao serviço da selecção nacional (sub-23 e sénior) quer de clubes como o Shanghai Shenhua ou o velhinho Dalian Wanda. Hoje, é um empresário de enorme sucesso. A fundação da Academia foi o perfeito exemplo da visão de Xu Genbao em torno de um desporto menosprezado e com pouco motivo de interesse no país. Para além de formar, deu oportunidade a atletas de alimentarem o sonho face à escassa quantidade de competições exclusivas para as camadas jovens.

Por esse motivo em particular, na temporada de 2005, deu-se por oficial a parceria entre a Shanghai Genbao Football Training Base e a Shanghai East Asia Sports and Culture Center, empresa de gestão desportiva estabelecida pelo grupo Shanghai East Asia Co.Ltd que por sua vez se encontra subordinado à Administração Desportiva de Shanghai. Deu-se, assim, um grande passo no que toca à profissionalização do futebol na China. Xu Genbao, como primeiro presidente, carimbou de imediato o paradigma da instituição: foco total na formação. Imagine-se que, no primeiro campeonato disputado, ou seja, na terceira divisão, o plantel era exclusivamente composto por jogadores com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos.

Com o passar do tempo, o Shanghai East Asia foi lançando grandes fornadas de jogadores – muitos dos quais são titulares absolutos na selecção nacional – onde constaram nomes como Wu Lei, Zhang Linpeng, Cao Yunding, Gu Chao e Jiang Zhipeng, e, simultaneamente, vencendo títulos e escalando posições até ao topo do futebol chinês. Em 2013, com a entrada da Shanghai International Port (Group) Co. Ltd, gigante empresa que detém controlo de todos os terminais públicos no porto da cidade, o paradigma imposto sofreu uma transformação astronómica. Literalmente.

Xu Genbao, o “Padrinho do futebol”, na China Football Summit 2016, realizada em Chongming. (Foto: pioneersports.cn)

Chen Xuyuan, actual chairman do Shanghai SIPG, ao lado de Javier Tebas e Enrique Cerezo, na tour asiática do Atlético de Madrid em 2015. (Foto: atleticodemadrid.com)

O curto legado de Sven Göran-Eriksson

Já sob o desígnio do milionário Shanghai SIPG e após uma primeira temporada de afirmação, Eriksson foi apresentado no ano desportivo de 2015 numa clara tentativa de cimentar a posição da equipa no pódio da Super Liga. O status quo do Shanghai SIPG mudou automaticamente e, dado o rico plantel ao dispor do técnico sueco, as dúvidas relativas à hegemonia do Guangzhou Evergrande começaram a surgir. O objectivo, no entanto, passava apenas por assegurar um lugar de acesso à AFC Champions League.

O plantel escolhido por Eriksson, na primeira época ao serviço do clube, teve um grande selo de qualidade. A experiência de elementos como Darío Conca, Asamoah Gyan, Tobias Hysén e Davi contrastou na perfeição com a boa base de jogadores chineses existentes no plantel. Cai Huikang, Yu Hai, Wang Shenchao, Fu Huan, Shi Ke, Lü Wenjun, Sun Xiang e, obviamente, o prodígio Wu Lei, são alguns exemplos. A nível táctico, a equipa organizava-se num 1x4x2x3x1 com grande foco nas acções de Darío Conca. O argentino, além de dono e senhor das bolas paradas, desempenhava a grande função cerebral no meio-campo. Todo o futebol do Shanghai SIPG versão 2015 era pensado e executado por si.

Onze base do Shanghai SIPG 2015. (Fonte: Lineup11)

A maior virtude desta formação centrava-se, particularmente, na forma disciplinada e pragmática com que se impunha perante os adversários. O desequilíbrio entre os sectores era raro e havia uma facilidade tremenda em produzir jogadas quer em ataque posicional quer em contra-ataque. Não era nada fácil bater o Shanghai SIPG de há duas épocas atrás. Que o diga o Guangzhou Evergrande de Scolari, que terminou no primeiro lugar somente a dois pontos de distância.

No ano seguinte, retirando a bombástica contratação de Elkeson, o plantel, assim como Eriksson, manteve-se intacto. E a ansiedade também. Com a história participação na Liga dos Campeões Asiáticos em disputa, o esforço teria de ser redobrado. O certo é que a equipa conseguiu uma prestação interessante na competição, mas, ao invés, foi revelando uma maior inconstância no campeonato e perdeu por completo o comboio do título. No somatório total, o Shanghai SIPG atingiu o terceiro posto e ficou a cinco pontos atrás dos rivais do Jiangsu Suning e a doze do Guangzhou Evergrande. Terminava, assim, o curto mas importantíssimo legado de Svennis.

Foto: ESPN

A aposta surpresa em André Villas-Boas

“Queremos trazer o troféu de campeão para Shanghai em 2017!”

Foi assim, sem qualquer tipo de relutância, que o dono e senhor do clube Chen Xuyuan se pronunciou na antevisão à presente temporada. O main target das Águias Vermelhas é, oficialmente, terminar com o longo reinado do Guangzhou Evergrande Taobao e o investimento efectuado teria de acompanhar tamanha ambição.

O xeque-mate da direcção em André Villas-Boas surpreendeu e agitou todo o mercado europeu. Um treinador jovem, com qualidades reconhecidas e com muitos pretendentes nas Big-5 que acabaria, no final das contas, por rumar ao emergente campeonato chinês. AVB foi, de facto, anunciado no timing ideal não só pelo tempo que teria para estudar o plantel, mas também pela antecipação negocial, diga-se, a outros clubes europeus de grande relevo.

Relativamente à composição do seu grupo de jogadores, Villas-Boas não usufruiu inteiramente da ‘carta branca’. Hulk e Elkeson já preenchiam duas vagas de extracomunitários, porém, a lesão prolongada de Darío Conca e a iminente saída de Kim Ju-young para o Hebei China Fortune abriram espaço para mais dois jogadores da sua preferência. Odil Akhmedov (FK Krasnodar) e Oscar (Chelsea FC), este último envolvido na transferência mais cara de sempre do futebol chinês, vieram colmatar essas mesmas lacunas.

As entradas no plantel em 2017. (Fonte: transfermarkt)

A época está ainda no seu começo, mas, tacticamente, já são visíveis as ideias de AVB. Algumas das quais bem conhecidas. Não obstante, a recente alteração da Associação Chinesa de Futebol para a utilização de jogadores estrangeiros veio atrapalhar um pouco o trabalho do técnico português ainda que noutros clubes a situação seja bastante mais complicada. De acordo com a nova regra, apenas três jogadores estrangeiros poderão ser utilizados em simultâneo e pelo menos um de dois jogadores sub-23 tem de entrar nas contas iniciais. Posto isto, ao contrário do que se tem sucedido na Liga dos Campeões, André Villas-Boas vê-se forçado a colocar Zhang Huachen no onze inicial, acabando por proceder à polémica substituição após poucos minutos decorridos no primeiro tempo. Na imagem seguinte, consta aquele que é o onze mais forte do Shanghai SIPG até ao momento.

Esquema táctico do FC Seoul 0-1 Shanghai SIPG (21/02), a contar para a AFC Champions League.  (Fonte: cortesia de Emilio @Scout5Continen)

Mesmo numa fase tão precoce da época, o futebol ‘espetáculo’ característico do português tem sido notório. A equipa soma 5 vitórias consecutivas em 5 encontros e um total de 16 golos marcados e 2 sofridos e demonstra uma assimilação de processos excepcional.

Na baliza consta Yan Junling, um dos melhores keepers chineses da actualidade, que transmite enorme segurança aos companheiros. A linha defensiva é coesa e acima de tudo muito rotinada – não tão alta como noutras experiências do português – conta com dois laterais de grande propensão ofensiva como Fu Huan e o capitão Wang Shenchao e ainda dois defesas-centrais posicionais como He Guan e Shi Ke. Inicialmente a defesa do Shanghai SIPG era apontada como o tendão de Aquiles, mas a verdade é que tem surpreendido bastante pela positiva. No meio-campo, o duplo-pivot com Cai Huikang e Odil Akhmedov torna-se vital no contraste com o maior peso atacante da restante equipa. Huikang mais posicional e defensivo e Akhmedov com um papel mais próximo de um box-to-box, actua com maior liberdade dentro das quatro linhas. Por fim, segue-se o quarteto genial composto por Oscar, Hulk, Elkeson e Wu Lei no último terço. Oscar, ainda que muito diferente de Conca na distribuição de jogo, combina, de forma exímia, com os restantes colegas em espaços reduzidos. Se a frente atacante da máquina de Felipão encanta à primeira vista, a de Villas-Boas não fica nada atrás.

O Shanghai SIPG versão 2017 vive do seu ataque e da forma como o quarteto Oscar-Hulk-Elkeson-Wu Lei se envolve para chegar ao golo. No mapeamento de passes que se segue relativo ao jogo frente ao Changchun Yatai a 4/03, cortesia de @11tegen11, é visível a frequência com que todos os membros de outros sectores se procuram ligar com os jogadores mais adiantados. É quase um sufoco para o adversário. Todos estes quatro membros jogam muito próximos entre si, produzem triangulações constantes e, consequentemente, momentos fantásticos de futebol.

Fonte: cortesia @11tegen11

Dadas as presentes circunstâncias, (re)nasceu um novo titã do futebol chinês. A essência da formação de jogadores perdura embora as aquisições milionárias tenham um peso tremendo a curto prazo. Assim surgiu o primeiro treinador a contrariar o tradicional cliché. O temível Shanghai SIPG Football Club de 2017 é um produto de grande qualidade made in André Villas-Boas.

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Ricardo LestreFevereiro 16, 201715min0

Perante o aproximar do início de mais uma temporada da Super Liga Chinesa, o Fair Play, em parceria com Leonardo Hartung, jornalista do China Brasil Futebol, decidiu presentear os seus leitores com algumas previsões sobre o que se pode suceder no campeonato que tanto amedronta o futebol europeu.

Leonardo, em primeiro lugar, gostaria de te agradecer, em nome do Fair Play, por teres aceitado o nosso convite para a realização desta Flash-Antevisão da Super Liga Chinesa 2017. Partindo agora para a acção, quais são as tuas apostas para…?

A contratação

LH. Oscar (Shanghai SIPG) – Impossível não ver o meia brasileiro como a principal contratação do futebol chinês em 2017. € 60 milhões de euros e Oscar chegou ao Shanghai SIPG para ocupar a vaga do lesionado argentino Darío Conca. Deve-se também olhar além dos valores. Oscar, assim como foram Hulk, Elkeson e André Villas-Boas simbolizam uma nova era do SIPG. Única equipe presente no G4 das últimas três edições da Super Liga (fora o campeão Guangzhou Evergrande), fazendo sua segunda participação consecutiva na Champions Asiática e a segunda que mais cede jogadores à Seleção Chinesa (só perdendo para o Evergrande). Para a diretoria do SIPG, chegou a hora de colher os frutos do bom trabalho com os jogadores locais e do investimento estrangeiro. E isso deve passar pelos pés de seu novo camisa 8.

Hernanes (Hebei China Fortune) – Não tendo sido, propriamente, uma transferência bombástica como a de Oscar – estima-se que o valor ronde os 8 milhões de euros mais 2 por objectivos –, por tudo o que se mencionou em cima, Hernanes foi, do ponto de vista táctico, uma contratação brilhante. A cedência de Gäel Kakuta, um dos elementos com melhor toque de bola do meio-campo, ao RC Deportivo, abriu caminho para a entrada de mais um extra-comunitário no plantel e, perante a permanência de Stéphane Mbia, esse elemento teria abarcar uma grande versatilidade em terrenos centrais. Eis que surge a opção Hernanes, médio-centro brasileiro que nunca teve a sua situação definida na Juventus FC. Manuel Pellegrini assegura assim um catalisador de enorme calibre que tratará de pautar todo o futebol de ataque da equipa.

A equipa sensação

LH. Guangzhou R&F – Segunda maior posse de bola e segunda equipe que mais passa na Super Liga. O Guangzhou R&F faz tudo isso gastando pouco e sem contratações bombásticas. E também com bons valores nacionais, como Tang Miao, Jiang Zhipeng, Wang Song e Xiao Zhi, além de estrangeiros de qualidade e baixo custo (se comparado com os rivais) como Eran Zahavi, Renatinho e Jang Hyun-Soo. Os 58,39% de posse de bola e 14.722 passes na Super Liga 2016 impressionaram o país. E a chegada de Júnior Urso mostra bem o que o técnico Dragan Stojkovic quer em 2017: mais bola nos pés e muita velocidade em sua equipe.

Tianjin Quanjian – A par do Guangzhou R&F, o Tianjin Quanjian, um dos recém-promovidos à Super Liga tem tudo para deixar boas impressões nesta nova edição. Fabio Cannavaro, conhecedor da realidade chinesa, levou o Tianjin a um excelente campeonato na segunda divisão, a China League One, onde viria a terminar no primeiro lugar da tabela. Óptimo plantel, bom futebol, e reforços de peso. Nomes como Axel Witsel, Alexandre Pato, Wang Yongpo e Kwon Kyung-won preenchem, com muita qualidade diga-se, as opções do técnico italiano que ainda procura atrair um ponta-de-lança de créditos firmados no recente defeso. Muita expectativa, portanto, na cidade de Tianjin, local onde se disputará um intenso derby entre Quanjian e TEDA, este último treinado por… Jaime Pacheco.

A equipa desilusão

LH. Shandong Luneng – Tradicional equipe do futebol chinês, o Shandong Luneng sofreu na Super Liga ao mesmo tempo em que fazia história na Champions Asiática na última temporada. A 14ª posição com apenas dois pontos a mais que o rebaixado Hangzhou Greentown pareciam ligar o sinal de alerta em Jinan. Mas o desmanche do elenco com as saídas de Walter Montillo, Jucilei, Wang Yongpo e ainda prováveis de Yang Xu e Zhao Mingjian preocupam apesar da chegada de Zhou Haibin e o retorno de Diego Tardelli. 2017 pode ser mais um ano difícil para os torcedores do Shandong Luneng.

Beijing Sinobo Guoan – A gestão do Shandong Luneng tem levantado imensas questões nos últimos tempos, mas, o que esperar do histórico Beijing Guoan? Com a entrada da Sinobo Land, cujo investimento total se traduziu numa larga fatia de 64% dos direitos administrativos, os Guardas Imperiais enfrentam a nova temporada colocando-se na lista dos clubes mais valiosos do mundo. 2016 não foi um ano feliz para a formação de Pequim que decidiu apostar no espanhol José González para comandar o novo ano desportivo. O mercado de transferências não tem sido muito movimentado, pelo que já se confirmaram várias saídas de peso para os rivais directos e apenas certas entradas com alguma relevância. Mesmo admitindo publicamente a necessidade da aquisição de um novo avançado (!) – Burak Yilmaz permanece no plantel –, o problema do Beijing Guoan é bem claro. O plantel é rico, contudo, mal aproveitado e há uma necessidade urgente que a equipa se reerga.

O treinador

LH. Manuel Pellegrini (Hebei China Fortune) – Esqueça o fraco segundo turno do Hebei China Fortune com duas vitórias, oito derrotas e apenas 14 gols marcados em 15 partidas. O período de ambientação do chileno Manuel Pellegrini na China terminou. Agora sim começa a cobrança, que o experiente treinador já conhece de longas datas. Para 2017, o Hebei focou no mercado interno e mostrou a vontade do clube com as chegadas do zagueiro Ren Hang e dos meias Zhang Chengdong e Yin Hongbo. A cereja do bolo veio no final da janela: a chegada de Hernanes dá o toque de classe e técnica que o Hebei tanto precisa para mostrar o seu projeto à China. Se em 2016 a equipe brigou pela vice-liderança no início da liga, este ano promete ser mais um forte candidato às vagas na Champions Asiática. E quem sabe, ao tão sonhado título chinês.

André Villas-Boas (Shanghai SIPG) – Naquela que foi uma decisão surpreendente por parte do jovem treinador português, André Villas-Boas assumiu um projecto ambicioso no Shanghai SIPG, instituição que pretende quebrar com a hegemonia do Guangzhou Evergrande o mais rápido possível. O ciclo fantástico, futebolísticamente falando, sob o leme de Sven-Göran Eriksson terminou e a chegada de AVB funciona como um all-in da direcção que pretende, assim, tornar o SIPG uma referência do continente asiático. A capacidade técnica/táctica de Villas-Boas é inegável e, embora na sua carreira tenha algumas experiências menos positivas, o núcleo que tem ao seu dispor não deixa qualquer tipo de dúvida. O Shanghai SIPG é o mais forte candidato a destronar o Guangzhou Evergrande e André Villas-Boas o homem ideal para conseguir tal proeza.

O jogador

LH. Alex Teixeira (Jiangsu Suning) – O início de ano do brasileiro de 27 anos era tímido. Poucos gols e uma queda precoce na Champions Asiática. Até a chegada de Choi Yong-Soo e do colombiano Roger Martínez, e Alex Teixeira voltou a ser o homem-gol visto no Shakhtar Donetsk. Antes engessado na ponta esquerda, o jogador passou a fazer dupla de ataque com o ex-atacante do Racing. Assim, Alex Teixeira se tornou o artilheiro do Jiangsu Suning e o destaque da equipe, chegando a 11 gols e sete assistências na Super Liga 2016. Com uma equipe entrosada e sem mudanças para a temporada 2017, Alex Teixeira e o Jiangsu Suning prometem vir ainda mais forte para enfrentar o poderoso Guangzhou Evergrande.

James Chamanga (Liaoning Whowin) – Uma menção honrosa para James Chamanga, veterano capitão do Liaoning Whowin que mesmo com 37 anos de idade continua a desempenhar um papel extremamente importante no seu conjunto. A experiência do avançado zambiano tem sido fulcral nas últimas temporadas, onde os Liao-Tigerkins acabaram por evitar grandes dissabores. Juntamente com Anthony Ujah e com o especial apoio de Robbie Kruse, Chamanga tratará de liderar o Liaoning Whowin a aventuras menos perigosas, porque 2017 não será nada fácil para os pupilos de Ma Lin.

Fonte: Daily Express

O goleador

LH. Eran Zahavi (Guangzhou R&F) – Difícil falar do incrível futebol do Guangzhou R&F e não mencionar o talento do atacante israelense. Custando menos que Graziano Pellè, Anthony Ujah e outros mais, Eran Zahavi fez incríveis 17 gols em 19 partidas na temporada passada. Dos 11 gols marcados na Super Liga, dez foram marcados dentro das áreas dos oponentes. Eran Zahavi teve formidável desempenho em apenas seis meses na China e promete fazer muito mais na temporada que se aproxima.

Elkeson (Shanghai SIPG) – O melhor marcador estrangeiro de sempre da Super Liga não tem vivido os melhores tempos da sua carreira. Durante a sua estadia no Guangzhou Evergrande, o avançado brasileiro marcou uma quantidade absurda de golos e ajudou o clube a conquistar inúmeros troféus nacionais e internacionais. A sua transferência para o Shanghai SIPG, na época transacta, reacendeu a chama após algumas lesões complicadas: 34 jogos, 15 golos e 14 assistências. Números interessantes, mas dada a contagem habitual de Elkeson, acabam por não deslumbrar. Agora, o panorama mudou. O avançado canarinho tem nada mais, nada menos do que Hulk, Oscar e Wu Lei como seus colegas e um treinador que privilegia imenso o futebol de ataque. Caso tudo corra sem sobressaltos, o seu nome figurará no topo da lista de melhores marcadores.

A táctica

LH. O 5-3-2 do Jiangsu Suning – A chegada de Choi Yong-Soo no comando do Jiangsu Suning foi um divisor de águas na equipe de Nanjing. Antes engessada no 4-2-3-1 de Dan Petrescu, a equipe passou a jogar em um promissor 5-3-2. Sem dúvida a chegada do colombiano Roger Martínez também agregou muito ao Jiangsu Suning, mas a mudança no estilo de jogo deu grandes resultados. No segundo semestre, o Jiangsu chegou a ser uma real ameaça à liderança do Guangzhou Evergrande na Super Liga e encarou o rival com todas as forças nas finais da Copa da China. Apesar do vice-campeonato em ambas as competições, o Jiangsu manteve a base com esperanças de ter um 2017 ainda melhor pela frente.

. O 1-4-2-3-1 do Yanbian Funde – Facilmente desdobrável num 1-4-1-4-1, o sistema táctico adoptado pelo experiente Park Tae-ha provocou imensas surpresas na temporada anterior. O Yanbian Funde foi o maior tomba-gigantes e registou resultados absolutamente surpreendentes contra adversários de maior dimensão. Futebol rápido, muito focado no contra-ataque e com grande ênfase nas acções do pequeno maestro Yoon Bitgaram. Apenas com uma saída de peso, do capitão Cui Min, e com várias contratações cirúrgicas, o Yanbian Funde prepara 2017 de modo assegurar o mais breve possível a manutenção no principal escalão do futebol chinês, mas sempre com a caixa das surpresas bem aberta.

Os relegados

LH. Guizhou Hengfeng Zhicheng – Grande surpresa da China League One 2016, quando conquistou o vice-campeonato com a mesma pontuação do campeão Tianjin Quanjian, o Guizhou Hengfeng Zhicheng estreia na Super Liga em 2017. Junto com a equipe campeã, os comandados de Li Bing tiveram a melhor defesa na segunda divisão. O Guizhou Zhicheng manteve o seu treinador e quase todo o sistema defensivo. As saídas do zagueiro Iban Cuadrado e do atacante Mazola, artilheiro da equipe no último ano, podem ser sentidas apesar das chegadas de Tjaronn Chery, Ali Ghazal e Michael Olunga. O Guizhou Hengfeng Zhicheng é um dos grandes candidatos ao rebaixamento, como o Yanbian Funde também era no início da temporada anterior após o vice-campeonato da China League One 2015. Se espelhar no estreante do ano anterior é uma boa ideia para o Guizhou.

Henan Jianye – Na última temporada chinesa, a equipe de Jia Xiuquan ficou notabilizada por ter o pior ataque da Super Liga com 26 gols marcados e uma das defesas mais vazadas com 44 gols sofridos. Bem fechada e com rápidos contra-ataques, o Henan freqüentou a parte de cima da tabela no primeiro semestre de 2016, mas teve forte queda e terminou a temporada em 13º. As saídas do talentoso meia Ivo, do bom zagueiro Ryan McGowan e de seu melhor valor local o meia Yin Hongbo deixam uma grande pulga atrás da orelha dos torcedores do Henan Jianye. A equipe precisa urgentemente de reforços, faltando três semanas para o início da Super Liga 2017. O atraso pode custar caro.

.  Changchun Yatai – Depois de uma luta intensa contra a descida de divisão durante toda a época de 2016, o Changchun Yatai respirou de alívio ao somar quatro vitórias consecutivas nos últimos cinco jogos da Super Liga e fugiu de uma realidade que se aproximava a cada dia – os comandados de Lee Jang-soo estiveram cerca de 25 (!) jornadas na zona da despromoção. Na ainda activa janela de transferências – fecha a 27 do presente mês – o Changchun movimentou-se bem relativamente às opções atacantes. Saíram Marcelo Moreno – o ‘herói’ e melhor jogador da equipa –, Julien Gorius, Mislav Orsic, Darko Matic e Ognjen Ozegovic e entraram Odion Ighalo, Marinho e Szabolcs Huszti. Retirando o sector ofensivo, cuja qualidade está, aparentemente, assegurada, o plantel vive com muitas lacunas defensivas. O Changchun Yatai continua a ser, portanto, um conjunto desbalanceado e a despromoção volta a ser uma realidade concreta.

Liaoning Whowin – Por muito que a situação do Henan Jianye seja, de facto, mais alarmante em relação às restantes, o Liaoning é outra formação que se insere no leque de potenciais relegados à China League One. 47 golos sofridos na edição anterior – uma das defesas mais batidas da competição – e com a dupla Chamaga-Ujah ao resgate em várias ocasiões, o Liaoning viveu momentos conturbados no que toca a movimentações de jogadores estrangeiros. O mercado australiano voltou a estar no foco da direcção, com a chegada de James Holland e de Robbie Kruse, porém, a matéria nacional existente não enche medidas. Será uma autêntica corrida contra o tempo para os Liao-Tigerkins.

O campeão

LH. Guangzhou Evergrande – 2017 deve ser o ano do heptacampeonato consecutivo da equipe do Cantão. Mas não será nada fácil. A concorrência tem aumentado e a temporada promete trabalho duro para os comandados de Luiz Felipe Scolari. Jiangsu Suning, Shanghai SIPG e Hebei China Fortune, um pouco mais distante, prometem atrapalhar os planos do Guangzhou Evergrande. Ainda assim, os atuais hexacampeões começam mais uma temporada chinesa como favoritos ao títulos. O motivo? O Evergrande tem os melhores jogadores locais e é a equipe que mais coloca jogadores na Seleção Chinesa. Sem contar do talento brasileiro de Paulinho, Ricardo Goulart e Alan, que torna o Guangzhou Evergrande ainda mais temido.

Guangzhou Evergrande – A máquina campeã do futebol chinês aparece, mais uma vez, na pole position para atingir o título. Em ‘equipa que ganha não se mexe’, e o Guangzhou Evergrande voltou a manter o seu núcleo de jogadores e a sua equipa técnica bem coesos. O valor dos hexacampeões é incontestável, mas irão os mecanismos funcionar na perfeição? A época não se avizinha fácil para os Tigres do Sul por muito que as odds continuem a apontar o contrário. 2017 será, ao que tudo indica, o ano mais duro – pelo menos a nível interno – para os meninos de Luiz Felipe Scolari.

O XI ideal

LH.

Fonte: Lineup Builder

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Fonte: Lineup Builder


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