16 Ago, 2017

Fair Play, Author at Fair Play

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Fair PlayJulho 20, 20178min0

As saudades do Figueira Beach Rugby apertam e com o final da época da variante, Hélio Pires, autor da coluna Visto de Fora, conta-nos como viu a Maior Etapa de Beach Rugby do Mundo. O Diário do Figueira Beach Rugby no Fair Play

Até onde vai uma pessoa para assistir a um torneio de râguebi de praia? No caso de dois adeptos em particular, até aos 61 quilómetros comboio e 50 de bicicleta, mais a viagem de regresso em moldes semelhantes. Para ser honesto, nem tudo se ficou a dever à bola oval: também gostamos de pedalar e um fim de semana diferente sabe sempre bem, pelo que foi uma espécie de três ou antes cinco em um, já que acresce ainda o exercício físico e a dimensão ecológica.

Claro que não há viagens sem imprevistos, neste caso um comboio atrasado, vento forte e estradas rurais em muito mau estado, o que resultou em mais uma hora de percurso e obrigou a uma ida apressada ao supermercado à chegada à Figueira. Escusado será dizer que nenhum de nós estava com energia para uma saída à noite e que por isso não tardámos a adormecer.

O primeiro dia

Deitar cedo e cedo erguer… qualquer coisa râguebi ver. À chegada à praia de Buarcos, já pouco depois das 10:30 e com água e comida nas mochilas, fomos à tenda principal para consultar os horários e escolher os jogos a ver, tendo optado por começar pelos Magnets, cujas qualidades com a bola e sentido de humor fazem jus ao nome da equipa.

Os flamengos venceram confortavelmente a Calpi Team por 11-1 e depois mudámo-nos para junto da terceira área de jogo, tentando encostar-nos à pouca sombra que havia no local. Vimos a primeira partida dos North Sevens, equipa francesa que já o ano passado tinha estado na Figueira e que foi formada a partir dos cacos de um clube de râguebi falido. Não se pode dizer que iniciaram a edição de 2017 com o pé direito, tendo perdido por 6-1 frente ao Dendermonde RC, mas o que interessa é como se acaba e não como se começa.

Seguiu-se o jogo do Figueira Rugby contra o São Miguel, a equipa do bulldog, que venceu pela margem mínima de 2-1. E de um animal para outro, depois virámo-nos para a primeira partida dos Caparica Sharks. Porque, tal como os Magnets, têm qualidades com a bola e sentido de humor, e não é todos os dias que se vê jogar uma equipa migratória com vários milhões de anos – dizem as crónicas oficiais dos Tubarões. E também porque o adversário era o Leiria, que para nós era o mais próximo de “clube da terra”. Assim divididos entre as barbatanas e a afinidade distrital, vimos os Sharks vencerem por 10-0.

Os minutos seguintes foram passados à conversa com alguns dos jogadores, enquanto à nossa frente, no mesmo campo, as raparigas do São Miguel jogavam contra as Putain Nanas, campeãs de 2016. A vitória clara das francesas por 13-1, a somar a outra por 7-1 no início do torneio, deixava adivinhar que estavam a caminho da final deste ano.

Já perto da 1 da tarde, voltámos a ver os Magnets, dessa vez contra o Benfica, o que foi motivo mais do que suficiente para eu tirar uma fotografia e enviá-la ao meu pai, que é um benfiquista ferranho. Não para apoiar o clube dele, mas para lhe dizer que estava a torcer pelos flamengos, o que pelos vistos ele aceitou com um riso à mistura. E ainda bem, porque os belgas venceram por 8-2.

A tarde fez-se da mesma movimentação constante entre campos, ora deitados na areia, ora encolhidos nas bancadas, por vezes refugiados na tenda principal, sempre em busca de abrigo contra o vento forte. Vimos jogos como a vitória dos Caparica Sharks sobre o Dendermonde por 8-3, a Agronomia a vencer o Dalmine por 6-3 e a mesma equipa a perder frente aos Magnets por 11-4. Por essa altura, já o frio era demasiado e fugimos para o apartamento.

Foto: Luís Cabelo Fotografia

A primeira (e única) noite

Termicamente restabelecidos após um banho quente e um bom jantar, o tempo pouco ameno não nos impediu de sair no sábado à noite. Até porque o desejo de conviver falava mais alto e as ruas estreitas junto ao casino são sempre uma boa defesa contra o vento. Isso ou as paredes de um bar.

Como o que é próximo tende a agregar-se e um de nós conhecia um dos jogadores do Leiria, juntámo-nos a eles ao início da noite. E depressa passámos de um conhecido a vários, terreno fértil para novas amizades, alimentadas pela conversa, o riso, as bebidas e sim, o facto de sermos de localidades próximas e termos por isso rotinas, experiências ou contactos em comum.

Aguentámos até às 2 da manhã, altura em que cedemos à perspectiva do dia seguinte, que ia ser cheio de jogos e com dezenas de quilómetros de bicicleta por percorrer. Para trás deixámos ruas apinhadas de locais, adeptos e jogadores, alguns muitíssimo alegres, como é normal em noites de festa sob o olhar inebriante de Dioniso.

O segundo dia

Claro que, na manhã seguinte, há um preço a pagar. E isso notou-se nas caras de sono, nas ausências matinais ou nas cervejas em mão, talvez na crença de que a melhor forma de combater a ressaca é evitando-a com o consumo estável de álcool.

Apesar disso, o torneio prosseguiu sem percalços de maior e debaixo de temperaturas mais elevadas do que no dia anterior. Tal era o calor, que para vermos as raparigas do São Miguel tivemos que nos encostar à mesa de um dos oficiais de jogo e do seu chapéu de sol. E depois mudámo-nos para a bancada sul do campo principal, abrigados sob a sombra fugaz de umas bandeiras.

Foi lá que vimos o São Miguel ganhar ao Benfica por 4-3, num jogo renhido em que, uma vez mais e para desgosto do meu pai, eu não estava a torcer pelos encarnados. Também vimos a Agronomia a perder frente ao Dendermonde por 8-4, os Caparica Sharks a derrotarem a Académica por 7-3 e os Magnets a ganharem ao Ovale de Marselha por 5-4. E mudando novamente de poiso, encolhidos à sombra de um insuflável, gritámos pelo Leiria, que venceu os Disco Disco por 7-6.

Já mais pela tarde, deixámos momentaneamente a praia para fazermos as malas, desocuparmos o apartamento e regressarmos ao recinto com as bicicletas prontas a partir. Voltámos a tempo de ver os North Sevens vencerem o Montemor por 6-5, num jogo agressivo que deu aos franceses a vitória num dos escalões intermédios masculinos. Logo a seguir, vimos o São Miguel perder por 4-7 noutra das finais, mas com a insistência de quem luta até ao apito final. E antes disso, deu gosto ver as Gazelles a não só aplaudirem as Raphaele’s, que derrotaram por 10-1, mas a puxarem por elas no final da partida.

Houve também um dejá vú, com os Magnets e os Caparica Sharks a voltarem a disputar o terceiro lugar e com uma vitória dos primeiros, tal como em 2016. Já no equivalente feminino, as portistas venceram as benfiquistas por 4-2 – logo quando eu estava finalmente a torcer pelo Benfica – e as Putain Nanas, embora tenham chegado à final, cederam o título às Dolphins Sete por 9-0.

O derradeiro jogo feminino só teve lugar, no entanto, depois de um momento de samba por raparigas de uma escola de dança, depressa acrescidas de jogadores dos Magnets com fios dentais improvisados. E tal como em 2016, atrás deles foram outros de outras equipas, num espectáculo verdadeiramente igualitário, porque tinha algo para todos os gostos, géneros e orientações. E o mesmo foi verdade para a final masculina, também ela precedida de um momento de dança ao qual se somou o improviso do público, incluindo um contributo do crocodilo insuflável do Braga.

Dito isto, o último jogo foi intenso, por momentos a fazer crer que estava prestes a resvalar para uma maior agressividade e cifrou-se numa vitória dos Minots sob a CDUL por 4-1. Para nós, foi uma final a que assistimos já em modo de partida, prontos para nos fazermos à estrada após o apito final. O comboio não espera e ainda tínhamos vários quilómetros pela frente até à estação do Louriçal, mas fomos contentes, satisfeitos com a experiência e de espírito animado. Para o ano, se der, voltamos à Figueira. E com um pouco de sorte, levamos connosco mais uns quantos a pedal e sobre carris.

Foto: Luís Cabelo Fotografia

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Fair PlayJulho 14, 20175min0

O crescimento sustentado dos atletas do Rugby Nacional é o novo tema da coluna Total Rugby de Luís Supico. As questões perante o desenvolvimento metal e físico e as soluções para o presente e futuro 

Faz sensivelmente oito anos que a imagem de uma apresentação do então director técnico e treinador principal dos Séniores do Cascais, Philip Kellerman, mudou a minha maneira de pensar Rugby (e desporto, por inerência) – a relação da velocidade de Crescimento (Peak Height Velocity ou PHV) com o desenvolvimento individual dos jogadores:

Philip Kellerman (Foto: Philip Kellerman)

Aqui estava a base de tudo o que é desporto, uma explicação sucinta da relação dos crescimentos físicos dos miúdos com o foco individual do que se deve treinar ou, neste caso, optimizar e quando.

Por forma a poder provar se o que me parecia lógico funcionava, comecei por treinar o que era mais importante para o escalão onde me encontrava na altura (os sub10) e, seguindo esta ideia, por desenvolver a parte física e técnica dos jogadores em três vertentes – a velocidade em distâncias curtas, a flexibilidade e os skills individuais (neste caso atacantes mas com algum enfoque também na placagem). Com bons resultados. Tanto que, quando passei para os sub12 (e consequentemente sub14) fui seguindo esta imagem à risca, com a sorte de subir sempre com os mesmos miúdos, ou seja, sabendo já que o que estava para trás funcionava e o que faltava desenvolver para a frente. Sempre com os resultados esperados (e às vezes, melhores do que esperava…).

Com o passar dos anos e chegado aos sub16, cinco épocas de evolução e confirmação destas ideias, pareceu-me óbvio o próximo passo: adicionar a vertente psicológica ao treino.

E o que é a vertente psicológica?

Para se perceber o porquê e o que é, há que desconstruir um pouco as divisões dos escalões já que a Federação, os clubes, treinadores, dirigentes, todos pensamos em três grupos de desenvolvimento: Formação (dos sub8 aos sub14), Pré-Competição (sub16 e sub18) e Competição (Challenge e Séniores), o que é natural e acertado. Afinal de contas há que hierarquizar as coisas para as podermos trabalhar; mas esta divisão, às vezes, pode-nos enganar. Senão vejamos: sub8 e sub10 são importantes para o desenvolvimento das aptidões individuais e para se divertirem; sub12 já é um escalão importantíssimo no que toca a juntar individualismo com trabalho de equipa; sub14 é o primeiro escalão onde o trabalho táctico começa a sério (campo inteiro menos 5 metros, XIII em campo, etc.) e sub16 onde tudo se conjuga e se joga rugby de XV já quase como nos Séniores.

Considerando ainda outra divisão, podemos dizer que há três vertentes para os jogadores: a parte física, a parte técnica e a parte táctica, que os acompanha em todos os escalões.

Ou seja (e resumindo):

No treino físico e como comprovado pela imagem inicial da relação da velocidade de Crescimento (PHV), há um crescimento natural do corpo até sensivelmente aos 14 anos, com especial declive aquando do seu zénite o que nos diz que, a haver treino físico, deverá ser feito com o próprio peso do corpo até aos sub16 e, a partir daí, começar o treino técnico de levantamento de pesos, com consequente aumento de carga;

Na incidência geral individual, o plano técnico cinge-se ao desenvolvimento do indivíduo como jogador, seguido do plano táctico a partir dos sub14 (aumento de campo, jogadores, etc.);

Já a incidência prioritária diz-nos que a parte técnica individual deve ser a preferência nos primeiros escalões, com o desenvolvimento da área táctica nos sub14 e psicológica nos sub16.

Mas como nada é estanque e tudo tem de ser trabalhado, acredito que será sensivelmente nestes termos que se deverá desenvolver os jogadores:

Sendo assim e voltando ao início: o que é mesmo a vertente psicológica do treino?

Se aceitarmos o que foi dito atrás como certo podemos deduzir que os sub16 são, então, um ponto de confluências de tudo o que foi trabalhado para trás com um acrescento importante: nos sub18 já há jogadores com capacidade para jogar nos Séniores que, podendo, o irão fazer… Sem contar com as cartas de condução, namoradas, faculdades para entrar, saídas à noite (também merecem ter vida, como é óbvio!), viagens, estudos noutros sítios, muitos condicionantes que entram rapidamente na vida dos jogadores e podem, muito facilmente, destruir uma equipa com anos de trabalho. E aí é que entra a parte psicológica dos sub16: se tudo fôr bem feito, eles irão estar preparados para o que lhes aparece à frente.

A conciliação dos estudos, do rugby e da vida pessoal, a iniciação a regras específicas e punições subjacentes se quebradas, a iniciação ao trabalho de desenvolvimento individual da parte do jogador sobre si próprio (visionamento de vídeos, treinos específicos, etc.) e o aprimorar de posições específicas, o início de trabalho de ginásio bem como a iniciação à disciplina individual e pessoal fora de campo (alimentação, saídas à noite, etc.), aliado ao facto dos pais começarem a dar liberdades até à altura inexistentes ou mínimas aos jogadores, fazem deste escalão O escalão de preparação para os Séniores.

Foto: Pai Conde Fotografia

Numa altura em que tanto se fala de problemas e desânimo pelos resultados da Selecção Nacional Sénior, penso que é indo à base e trabalhando lá que se vão ver melhorias nos escalões de cima… Dentro de uns anos, sim, mas com consistência.

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Fair PlayJunho 23, 20174min0

O Rookie Placa é um novo segmento de opinião do Fair Play. Francisco Antão é o rookie do mês, lançando uma placagem à final do TOP14 acabando por conquistar o seu primeiro ensaio na blogoesfera desportiva

O rugby é de todos e para todos… nesse sentido, o Fair Play procura encontrar novos escritores, novos analistas e novos apaixonados por compreender o desporto e todos os seus valores. 

Francisco Antão, jogador sub-18 do CDUP, arriscou, meteu o ombro e placou, conseguindo no processo conquistar a oval “perdida” e correr sozinho para o ensaio, com o Fair Play no apoio directo. Não olhando para idades, Francisco Antão esboça o seu primeiro artigo, tendo escolhido a final do TOP14 como o seu primeiro “hino” ao rugby.

Na procura incessante por novos colaboradores e escritores, esta é a tentativa do Fair Play que não se vê como uma casa de “especialistas” fechados num elitismo (criticando todos os outros que tentam começar este processo) mas sim como uma comunidade de escritores que querem cooperar e desenvolver as suas capacidades.

O Stade de France foi o palco da final do Top14 de 2017, entre o ASM Clermont e o RC Toulon, equipas com muita história, muitos títulos, grandes jogadores, muitas vitórias e também derrotas.

O Clermont ganhou por 22-16, tendo marcado 1 ensaio e 5 pontapés de penalidade, já o Toulon também marcou 1 ensaio e 3 penalidades. No nosso entender, o Clermont foi um justo vencedor, apesar do Toulon ter dado muita luta e uma excelente resposta na segunda parte, mas não foi o suficiente para sair vencedor desta final e ganhar o Campeonato Francês, uma das melhores e mais ricas ligas do mundo de râguebi.

Nesta final, o Clermont entrou melhor, fazendo uma excelente primeira parte. Na segunda parte, os Jaunards abrandaram o seu jogo e o Toulon entrou com tudo, com uma ambição e convicção de que iam ganhar o jogo, colocando muito ritmo e pressão no jogo através dos ¾, fazendo crescer o coração da equipa. Porém acabaria por ser um jogo mal gerido nas fases táticas, faltando a calma muito tanto à falta de calma (principalmente na fase de dar sequência a uma 5ª ou 6ª fase) ou ao cansaço físico.

A equipa vencedora ganhou o jogo devido ao seu jogo tático, conseguiram ler as jogadas dos vice-campeões de 2016 assim como os pontos menos fortes tendo depois atacado com tudo. Especialmente com a entrada do experiente Aurélien Rougerie as suas linhas atrasadas ganharam tranquilidade, calma e profundidade no jogo, subindo bem no terreno, fazendo com que a equipa soubesse defender com corpo e alma.

Em relação aos packs dos avançados, o do Clermont foi superior, ganhando a maioria das formações ordenadas, enquanto que nos alinhamentos foi o Toulon superior, ganhando 23 alinhamentos, podendo assim dizer que ambos o packs de avançados estiveram num excelente nível, com ótimo redimento.

Todavia, temos de destacar o coletivo do Clermont, nos últimos 20 minutos de jogo: a linha defensiva, as placagens duras e fortes, obtendo 208 placagens contra 95 do Toulon, consentidos apenas 33 falhas nas mesmas enquanto que a equipa de Giteau e Ma’a Nonu somou quase tantas falhadas como os Jaunards.

Ambas as equipas “garantiram” bem o “ruck” evitando assim o turnover defendendo, como se diz na gíria, “como cães”, com uma entrega total ao jogo, sem medo de meter ombro, como se cada placagem fosse um ensaio importantíssimo. Com o acumular do cansaço os erros surgiram… não esquecer que foram muitos jogos, muitas vitórias (e algumas derrotas), muitos treinos durante uma época muito cansativa, mas que no final, valeu bem a pena.

Os jogadores que se destacaram mais foram o formação Morgan Parra, o abertura Camille Lopez e o centro Aurélien Rougerie, jogadores chave do Clermont para a conquista do Top14. Do lado do Toulon, destaco o defesa James O`Connor e o centro Mathieu Bastareaud, peças fundamentais que tentaram virar o jogo para seu lado, com uma determinação fantástica de nunca desistir, nunca baixar os braços, mas não conseguiram dar a volta ao resultado.

O jogador que se destacou pela negativa foi o abertura Anthony Belleau, do lado do Toulon, numa noite pouco inspirada, lento a pensar no que devia fazer, muito relaxado, falhando assim vários pontapés de penalidade.

Por último, se tivéssemos que mudar algo, não o faríamos, pois a final do Top14 de 2017 foi um verdadeiro teatro dos sonhos do râguebi, duas grandes equipas, com excelentes jogadores, um grande ambiente, com duas grandes massas adeptas, apoiarem constantemente, desde o primeiro apito até ao último.

Os novos campeões de França: o Clermont! (Foto: L’Equipe)

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Fair PlayMaio 31, 20174min0

Fernando Fernandes, figura maior do Kickboxing nacional, anteriormente entrevistado pelo Fair Play, diz-nos o que pensa sobre a multiplicação de títulos verificada na modalidade.

No mundo do Kickboxing existem títulos e mais títulos, mas nem todos têm a mesma importância e relevância, quer a nível nacional como internacional.

O Kickboxing nacional é superintendido pela Federação de Kickboxing e Muay Thai, que gere a nível nacional toda a modalidade e que se encontra sob a égide do IPDJ.

A Federação de Kickboxing está integrada na WAKO (World Association of Kickboxing Organizations) que é a nível mundial quem rege todo o Kickboxing, sendo também por sua vez membro da SportAccord (Global Association of International Sports Federations), uma organização internacional onde se encontram actualmente várias modalidades olímpicas e não olímpicas.

No mundo do Kickboxing nacional e internacional existem títulos para todos os gostos e de todas as proveniências, mas só alguns têm a sua importância, pois como em todos os desportos, qualquer clube ou associação pode criar um título próprio. Desta forma, oferecem aos atletas uma maior motivação para trabalhar e competir no intuito de arrecadar mais um cinturão, no caso do Kickboxing, que noutras modalidades é substituído por uma taça. Os promotores e a Federação têm cada vez mais de se preocupar com os eventos que se realizam por todo o nosso país e fazer com que a “rodagem” dos nossos atletas a nível internacional seja cada vez mais relevante. Essa “rodagem” em termos internacionais deve ser nas várias disciplinas, e não nos podemos limitar a uma das disciplinas, cenário que acontece neste momento com o K1. Não vemos eventos de LowKick, Kick Light ou outras disciplinas, e isso é necessário para a evolução de todos os nossos atletas.

A verdade é que cada vez mais temos que seguir linhas de orientação e regras que levem o Kickboxing a tornar-se num desporto cada vez mais respeitado, claro e justo, com vista à evolução da modalidade. Uma modalidade não pode ter várias federações nacionais e/ou internacionais, cada uma com a sua perspectiva e linha de orientação. É preciso uma federação única que oriente o desporto a nível mundial e nacional, e que consiga uma cada vez maior respeitabilidade, tendo sempre em vista a sua evolução e crescimento, mas mantendo o foco nos atletas e na sua evolução.

Em Portugal, o trabalho que se vem desenvolvendo por parte da federação tem em vista uma cada vez maior divulgação da modalidade. Podemos ver pois o número de atletas a aumentar gradualmente, e o próprio Kickboxing deixou de ser visto como um desporto de gente bruta que anda ao “soco e pontapé”, passando a ser um desporto aberto a todos, desde as crianças aos mais velhos, cada um com os seus objectivos próprios, desde a manutenção até à competição. Verificou-se igualmente nos últimos anos uma grande evolução junto dos atletas femininos, que cada vez mais vêem neste desporto uma forma de manutenção, assim como também na área da competição que tem vindo a aumentar exponencialmente.

O que interessa neste momento não são só os títulos que cada um ganha, mas sim mostrar à nossa sociedade que o Kickboxing nacional tem regras bem claras e é um desporto como todos os outros, onde existem as federações nacionais e internacionais que são devidamente reconhecidas. Delas emanam as directrizes para que todos se orientem pelas mesmas regras e para que haja um único caminho, onde todos se integrem com vista a valorizar cada vez mais a modalidade.

Não podemos ter cada um a pensar pela sua cabeça, e a criar títulos e mais títulos. Devemos ser todos juntos a contribuir com ideias para tornar o Kickboxing nacional cada vez mais forte. A nível internacional, o Kickboxing português já começa a trazer alguns títulos, mas com mais esforço da parte de todos podemos elevar cada vez mais a sua qualidade.

 

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Fair PlayMaio 26, 201710min0

A parcialidade da imprensa, aliada à “venda fácil” e ao “manipular” da cultura desportiva tornam-se decisivos para um extremar de opiniões, abrindo uma divisão profunda entre adeptos do mesmo desporto. Tiago Estêvão convida-nos a olhar atentamente para três situações: Marco Silva, Renato Sanches e João Mário.

A influência dos media continua a ser de proporções enormes nos dias de hoje e a secção futebolística não foge à regra. A grande parte dos meios tem algum grau de parcialidade – algo inevitável – mas a sua grande maioria age como se não o fosse – algo evitável. Narrativas são forçadas e reprimidas consoante os interesses e influências.

Do outro lado temos o adepto comum de futebol em Portugal, que mantém ainda duas típicas caraterísticas: a falta de conhecimento e apreciação pelo jogo em si, combinada com uma gritante paixão pelas cores que defendem, na generalidade, sem pensar duas vezes. Esta combinação de fatores leva a duas situações constantes: adeptos a repudiarem qualquer narrativa e publicação de caráter negativo para com o seu clube e vice-versa.

Sabendo que não podemos simplesmente desligar e ligar grande porção da imprensa escrita em Portugal, vou analisar neste artigo três situações que levaram a inúmeras discussões durante a temporada que agora termina. Marco Silva, Renato Sanches e João Mário. Expondo factos, tenho como objetivo apenas a abertura de horizontes do leitor e a contextualização das situações em discussão.

MARCO SILVA

Todos os dias se tem questionado pela Internet a qualidade de Marco Silva como treinador – sendo o grande argumento de quem apoia tal opinião o facto da imprensa estar do lado do ex-treinador do Hull, sobrevalorizando as suas conquistas e reprimindo seus falhanços.

Olhemos para a sua carreira: chegou ao comando do Estoril com a época a decorrer, acabou campeão da Segunda Liga, conseguiu posição europeia na época de chegada à Liga NOS e de novo na seguinte. No panorama do futebol português é impossível fazer melhor – daí a receção apoteótica que teve no seu dia de apresentação em Alvalade.

Com os ‘leões’ conseguiu aquele que é ainda um dos únicos títulos da Era Bruno de Carvalho (só mais uma Supertaça para além deste) – tendo estado a minutos de deitar tudo por perdido na final, é certo, mas venceu. E se não tivesse sido a decisão errada de terceiros em Gelsenkirchen, tinha passado a fase de grupos da Champions com uma dupla de centrais composta por Maurício e Sarr – o primeiro agora quarta escolha do Spartak, enquanto Sarr acabou de descer da segunda para a terceira divisão francesa com o Red Star.

No campeonato acabou em 3º, num ano de pouco investimento (cerca de 10M€ + Nani), competindo com um FC Porto que tinha acabado de investir quatro vezes mais e um Benfica já em andamento. Na Grécia vence a liga com o Olympiakos – claro objetivo do clube –, bate recorde de vitórias consecutivas no campeonato e acaba 3º na Fase de Grupos da Liga dos Campeões, empatado em pontos com o 2º Arsenal.

Em Inglaterra aterrou numa equipa que muitos consideravam sem hipóteses de ficar no campeonato – no último lugar com 13 pontos – e tendo perdido os 2 jogadores mais influentes no balneário. O Hull passou de uma média de 0.65 pontos por jogo para um 1.16 com o treinador português, e passou a haver uma inesperada hipótese de sobrevivência para o clube. Pelo meio valorizou jogadores como Maguire e Clucas, tal como por cá tinha feito.

A verdade é que vacilou nos últimos três jogos, perdendo contra o já relegado Sunderland (que acabou a sua série de 51 jogos sem perder em casa) e Palace, antes acabar a temporada com o péssimo 7-1 frente ao Tottenham – dos 36 golos que sofreu, 13 foram nesses últimos três jogos. Culpar Marco pela descida do clube ao Championship é de loucos, já que a expetativa era zero. Que a equipa vacilou no último mês, talvez. Mas o seu histórico fala por si no que toca à sua qualidade como treinador – faltam-lhe os troféus e provar-se num clube que lhe dê recursos (até agora trabalhou mais com orçamento limitado – para seu bem ou não) para se poder colocar numa classe elevadíssima. Mas que tem qualidade, tem. Afinal, há razão para ter vários clubes da Premier League a tentar desviar a sua ligação ao FC Porto.

No que toca à sua relação com os media, tanto nos dias após pontuar frente a Liverpool ou United como depois de perder frente a Sunderland e Palace, teve o mesmo (pequeno) espaço nas capas de jornais.

A única exceção deu-se depois do 7-1 frente ao Tottenham, onde nenhum dos 3 grandes jornais noticiou o assunto na sua capa. A sua saída do Sporting foi extremamente controversa – nem sou ingénuo ao ponto de acreditar que tenha sido só aquilo que foi passado para fora –, a do Olympiakos também levantou algumas questões na Grécia, mas penso que não há informação suficiente sobre tal para fazeres juízos de valor ao seu caráter como pessoa – tenho sim mais que suficientes para dizer que sim, é bom treinador dentro de um contexto que beneficie as suas caraterísticas.

Marco Silva e pluralidade de opiniões (Foto: Getty Images)

JOÃO MÁRIO E RENATO SANCHES

As duas grandes revelações do futebol português transferiram-se por grandes quantias no passado verão e, após terem dificuldades nas suas novas realidades, agora servem de peões para discussões entre adeptos sobre quem esteve “menos mal”. Começar por dizer que cada situação é isolada, e só como tal se deveriam analisar.

Renato Sanches foi crucial para a conquista do campeonato pelo Benfica há um ano, com caraterísticas que se adaptavam na perfeição ao jogo dos encarnados. Entrou na equipa e não mais saiu, conseguindo depois também acabar por ajudar na conquista do Euro.

No entanto, ao serviço do Bayern fez apenas 800 minutos – LC + Bundesliga. Podemos começar por mencionar que Renato tem 19 anos e acabou de se mudar para um dos maiores clubes do planeta, e cada atleta tem um tempo de adaptação diferente, o que é compreensível.

Taticamente falando não faltavam opções à sua frente: Thiago foi um dos (para mim “o”) melhores médios da Europa esta época, Vidal tem lugar garantido e Kimmich já tinha sido muito rodado na equipa na época passada (era natural começar um passo à frente). Sem mencionar o Alonso (e até Javi Martinez por vezes) na posição de médio defensivo pois não é esse o papel de Renato, e relembrar ainda que quando revertiam para um 4-2-3-1 com Muller como segundo avançado se perdia mais um lugar no meio-campo.

Acho sinceramente que a saída de Renato se podia ter consumado, mas o Bayern foi uma escolha menos boa. Por muito que Ancelotti tenha dado o seu cunho à equipa, uma equipa pós-Guardiola irá continuar a incutir a sua verticalidade através do passe em oposição a uma verticalidade dada pela progressão com bola como acontecia no Benfica – e como acontece noutras equipas que se falavam interessadas no Renato.

Não é um jogador com capacidade de passe para substituir Xabi Alonso, nem lhe beneficiaria ficar preso a terrenos tão recuados e temo que, se o tentarem moldar demasiado, possa descaracterizar-se daquilo que já faz com qualidade.

Voltando ao assunto dos media: foram inúmeras as capas de jornais e a quantidade de propaganda ao Renato, pintou-se uma imagem desviada da realidade sobre um jogador humilde e com mérito pela época que fez – algo que não beneficiou o jogador que teve de lidar com pressão acrescentada e expetativas que não encaixavam com a realidade. Resultou numa invariável corrida dos colossos europeus cuja prioridade era garantir o “novo bola de ouro” antes que explodisse no campeonato europeu, e não necessariamente verificar até que ponto encaixava na sua equipa.

Pressão, pressão e mais pressão em Renato Sanches (Foto: Der Bild)

A situação de João Mário é algo diferente. Acho que poucos questionam a sua qualidade, mas a sua tomada de decisão ao ingressar no autodestrutivo Inter deverá ser questionada – se, como se reportou na altura, haviam outras equipas dispostas a pagar o mesmo. Mais um ano em que o Inter apresentou um projeto que lhes levaria “de volta aos tempos áureos”, mas no qual em novembro já De Boer tinha sido despedido. Enquanto Renato teve dificuldades em quebrar uma estabilidade constante da equipa do Bayern, no Inter foi a instabilidade constante que não beneficiou João Mário.

Quando finalmente a equipa entrou numa boa sequência já com Pioli – 11 vitórias em 13 na liga entre dezembro e março – o português era normalmente preterido. Num 4-2-3-1 em que Gagliardini e Kondogbia se tornaram âncoras do meio campo, na direita era necessária a largura dada por Candreva – algo que JM não sendo um extremo puro não consegue dar – e pelo meio surgia Banega em forma. Pioli acabou por liderar de novembro a maio, saindo depois dos resultados caírem a pique, mas não ajudou o facto de o treinador que treinou JM durante maior parte da época não ter sido quem decidiu investir 40M€ nele.

Apesar de tudo somou 2000 minutos na Serie A, 22 vezes titular, contribuiu com 3 golos e 5 assistências, e teve uma mão cheia de grandes jogos. Mas se pegarmos em todos os jogos nos quais marcou ou assistiu e ainda adicionarmos o 2-2 frente ao Milan no qual foi tão elogiado, temos 8 jogos. Façamos as contas: são três os grandes jornais desportivos portugueses que saem no dia seguinte. Se só contarmos os tais oito jogos em que João Mário teve direta influência, temos de avaliar 24 capas e, surpresa ou não, João Mário foi incluído em apenas uma, pel’A Bola. Enquanto isso, a Gazzetta Dello Sport se deliciava com a sua qualidade e questionava a Pioli a sua falta de tempo de jogo. Claro que as capas de jornais não significam tudo, mas são um bom indicador do que se passa na comunicação social portuguesa.

No fundo, se querem comentar e debater jogadores, pelo menos vejam jogos primeiro. A imprensa desportiva nacional padece de vários problemas, apesar de ter algumas virtudes… no caso de Renato Sanches, o excesso de “luz” dado ao médio-centro do Bayern acaba por criar uma “ilusão” e pressão desnecessária sobre o antigo jogador do SL Benfica. O crispar de opiniões, a divisão entre adeptos e o extremar de posições é proporcionado pela construção de notícias e capas de jornais que criam uma fantasia positiva ou negativa, não fundamentada ou pouco clara, que só prejudica a cultura desportiva em Portugal.

Artigo da autoria de Tiago Estêvão, analista de futebol português nas plataformas WhoScored e PortuGOAL.net.

Que futuro João Mário? (Foto: Pier Marco Tacca/Getty Images)

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Fair PlayMaio 23, 201723min0

O nadador Mário Bonança doutorou-se no passado dia 3 de Maio. O Fair Play desafiou-o a partilhar com os leitores o seu estudo no âmbito do alto rendimento nas águas abertas ao que ele gentilmente acedeu fazer numa série de quatro artigos. Aqui fica o primeiro.

(Artigo da autoria de Mário Bonança, PhD na faculdade de desporto da Universidade Lusófona de Lisboa)

Resumo

O ressurgimento das águas abertas (AA) como uma das disciplinas mais recentes da natação, tem suscitado a curiosidade de treinadores, nadadores e intervenientes. O aparecimento da prova de 10km no programa olímpico em 2008, tem vindo a evidenciar uma maior curiosidade e conhecimento nesta disciplina. As diferenças ecológicas de nadar em piscina ou no mar conduzem a constrangimentos que impõem dificuldades para alguns atletas ou facilidades para outros. Diferentes variáveis (ondulação, radiação solar, temperatura do ambiente e da água) e uma exigente capacidade de adaptação por parte dos intervenientes coabitam num contexto incerto. Além dos constrangimentos impostos pelas variáveis do contexto o fator suplementação, durante a competição, tem de ser considerado. O impacto das variáveis inerentes a uma prova de AA, faz com que atletas e treinadores devam planear com detalhe estratégias táticas e nutricionais, para o qual se mostra necessário recorrer a especialistas na matéria, de modo a otimizar o desempenho destes atletas no dia da competição.

Abstract (clicar)

Introdução

Atualmente começa a ser cada vez mais evidente no mundo da natação, uma marcada distinção entre um nadador fundista e o ultra fundista. Na base desta linha de pensamento está o surgimento das águas abertas (AA) como disciplina mais recente da natação, bem como modelos de preparação e competições associadas.

Muitos treinadores de natação desconhecem ainda as particularidades das águas abertas, considerando o grupo de treino que orientam. As provas de AA são uma oportunidade para um enquadramento diferente nos períodos de preparação dos atletas de determinada equipa. O aparecimento desta disciplina dentro da natação, veio dar às equipas a possibilidade de opção por outra alternativa à competição em piscina. Contudo, trata-se de uma opção que requer níveis de exigência idênticos ou até superiores à natação pura.

Um maior conhecimento em torno da disciplina, no que respeita à variabilidade dos contextos de prova e sua articulação tática ligada a diversos fatores, torna-se essencial na prática evolutiva das AA.

Competições

A natação no seu conjunto é constituída por quatro disciplinas competitivas, que compõem a estrutura federativa da modalidade: natação pura, natação sincronizada, polo aquático e águas abertas (AA) (FPN, 2015). As AA constituem a disciplina da natação mais próxima à natação pura. Esta é caraterizada pela utilização de qualquer técnica propulsiva num local sem pistas ou separadores que diminuam a ocorrência de ondulação. As provas têm apenas um ponto de partida e um de chegada, são realizadas em rios, mares, lagos, lagoas, sendo as distâncias variadas (FINA, 2015). Esta disciplina recente aparece nos calendários de natação em 1991 com a realização dos primeiros campeonatos do mundo. A Federação Internacional de Natação (FINA) não oficializa records do mundo nestas provas de longa distância, dada à constante influência do clima e da temperatura e condições da água (Zingg, Rüst, Rosemann, Lepers, & Knechtle, 2014).

Foto: FINA

As AA apresentam modelos diferentes de competição. Por um lado, um modelo suportado pelas federações de natação e estruturas internacionais, FINA e Liga Europeia de Natação (LEN), que contempla não só as distâncias presentes em Campeonatos da Europa e do Mundo (5, 10 e 25km), mas também outras distâncias (até 88km), bem como num modelo relacionado com a superação de desafios – as denominadas travessias.

Quer nos Campeonatos da Europa, quer em Campeonatos do Mundo, as provas são constituídas por distâncias de 5, 10 e 25km individuais, sendo os 10km a distância olímpica (FINA, 2015). Nesta disciplina é oficialmente permitido o estilo livre, mas adotada, por excelência, para a técnica de crol.

No que respeita à realidade europeia, os Campeonatos da Europa de AA são organizados pela LEN. A principal diferença na organização das provas passa por um formato alterado na prova individual de 5km; nos Europeus trata-se de uma prova de contrarrelógio, em que os atletas saem com um minuto de diferença entre si. Por sua vez, nos Campeonatos do Mundo a prova apresenta o formato normal, em que todos os nadadores partem ao mesmo tempo.

Os campeonatos do mundo são organizados pela FINA bianualmente de modo intercalado com os campeonatos da Europa. Atualmente os Campeonatos do Mundo incluem a totalidade das disciplinas – natação pura, natação sincronizada, saltos para a água, polo aquático, águas abertas e saltos de alto voo – no mesmo local e período temporal definidos.

Variáveis presentes

O treino desta disciplina da natação é quase sempre realizado num ambiente controlado, ou seja, numa piscina com pistas com uma distância fixa (25 ou 50m), com utilização de material de treino variado, com um treinador no cais orientando a sessão, através da realização de instruções, feedback e uma grande acuidade no controlo cronométrico. A complementaridade deste treino surge com o aproximar das provas, ou de um modo ocasional através de uma ou outra sessão em AA (Shaw, Koivisto, Gerrard, & Burke, 2014).

Tomando com exemplo a preparação os nadadores de elite, mais de 75% do treino foi realizado em intensidades aeróbias com volumes consideráveis. Apenas em 2% do volume do treino foi dada atenção ao treino anaeróbio e de velocidade (VanHeest et al 2004).

Nadar em piscina é muito diferente de nadar no mar, onde a concentração salina é maior, traduzindo-se por um aumento significativo da flutuabilidade. Quando se trata de provas de mar, as correntes encontram-se em constante mudança, o que provoca uma maior instabilidade para o nadador, fruto da ondulação e da variação da temperatura das águas. Aqui o treino da navegação, contorno de bóias e orientação torna-se fundamental. Estas recomendações são complementadas com um domínio do percurso de prova, o estabelecimento prévio de pontos de referência, e ainda a existência de uma respiração frontal entre seis a oito ciclos de braçada, que permita a visualização do percurso a efetuar (Cleveland et al., 2001).

Foto: COP

O trajeto de prova varia de local para local. A organização da prova terá a obrigatoriedade de apresentar uma zona para abastecimentos no mínimo até cada 2,5 km de prova (FINA, 2015).

A disposição dos pontões de abastecimento apresenta-se como um tópico tático no momento do abastecer. As estratégias de nutrição em prova requerem o mínimo de interrupção do nado dos atletas. Estes encontram o portador da vara de abastecimento – handler – e executam uma ingestão rápida do conteúdo preparado, através de uma breve passagem pela posição dorsal de modo a minimizar o tempo (Shaw et al., 2014).

As diferentes entidades biológicas abundantes nos oceanos, mares, rios e lagos, apresentam-se por vezes como entraves ou fatores que limitam a participação de atletas nestas provas. Recentemente, um conjunto de investigadores, apresentou na conferência global de águas abertas (GOWS) vários estudos relativos à abundância, migração conjunta e à micro anatomia de diferentes tipos de alforrecas. Angel Yanagilhara (Universidade do Havai, USA) apresentou, como resultado de diversos trabalhos laboratoriais fruto de experiências realizadas após exploração das profundezas do mar, um anti veneno eficaz (Lunt & Hingley, 2013).

Uma das variáveis mais influentes no desempenho desportivo dos atletas em AA é a temperatura da água. A nível regulamentar a FINA define como temperaturas oficiais para uma prova de AA, todos os valores verificados no intervalo entre os 16ºC e os 31ºC. Porém, não existe uma definição aceite para “água fria” e “água quente”. Várias agências (estações meteorológicas e institutos do mar e atmosfera) definem água fria como a temperatura situada entre os 10ºC e os 15ºC, baseado no risco elevado para a ocorrência de hipotermia, analisado através da estabilização da temperatura corporal em valores inferiores a 35ºC. O valor padronizado de 25ºC para a água é associado ao ponto a partir do qual a temperatura corporal apresenta um arrefecimento comparativamente aos valores habituais, tendo em conta que as variações térmicas durante o nado são influenciadas pela intensidade do trabalho realizado e ainda pela composição corporal dos atletas intervenientes. (Tipton & Bradford, 2014).

As ameaças associadas ao nado aquando da imersão em água fria contemplam um choque inicial visível através de uma respiração descontrolada resultado da taquicardia, hiperventilação e aumento na circulação de hormonas de stress. Das emoções possíveis, a raiva é a mais evidenciada em resultado da fibrilação ventricular (Taggart, Boyett, Logantha, & Lambaise, 2011).

Os problemas cardíacos evidenciados – bem como a perda de controlo na respiração durante a imersão – são causadores do afogamento, principal causa de morte em AA (Tipton & Bradford, 2014).

Figura 1 – Resposta térmica de dois nadadores. Adaptado de (Naybo,2012)

A adaptação do corpo à temperatura fria da água pode ser analisada através dos gráficos da figura 1. Atualmente a melhor forma de aclimatização ao frio foi vista em situação imersão em repouso com os nadadores a revelarem habituação em relação a tremores e conforto térmico. Contudo, as diferenças revelam-se em situação de exercício, sobretudo quando se verifica um decréscimo da temperatura rectal (aclimatização hipotérmica – figura 1).

Embora a temperatura corporal possa influenciar a perceção do estado térmico do corpo, em situação de exercício intenso, esta perceção pode ser enganosa conduzindo a um estado de hipotermia (Nybo, 2012). As novas regras para utilização de fatos isotérmicos, ainda que numa fase de experimentação e teste, vêm de facto, não só conferir uma maior segurança dos intervenientes no desenrolar das provas, mas também vêm acrescentar uma variável diferente à disciplina.

O abastecimento, quer em termos da sua composição, quer no modo de como é realizado constitui-se, também, como uma variável com influência direta na prova e na estratégia adotada para a mesma. O fator nutrição é sem dúvida um fator determinante no rendimento dos atletas de AA, sobretudo ao longo de uma prova de 10 e 25km. A preparação para uma prova desta disciplina varia consoante a distância, mas é importante considerar essa preparação de acordo com a capacidade de treino, evidência de um conhecimento tático e construção de uma estratégia nutricional eficaz.

Foto: FINA

Análise de performances nos 10km

Em relação aos atletas, o pico de idade favorável para o ultra fundo em natação é maior (aproximadamente 25 anos), comparativamente a provas realizadas na piscina (entre os 20 e os 23 anos). Quando analisadas várias provas de 10km da FINA, as mulheres mais rápidas apresentam em média 24 anos e os homens mais rápidos 26 anos. Esta tendência de, nas AA, os mais jovens nadarem distâncias mais curtas e os nadadores mais velhos distâncias superiores, ganha cada vez mais forma, a partir do momento em que se verifica um aumento na idade dos atletas que nadam distâncias entre os 5 e os 25 km (Zingg et al., 2014).

Vogt et al. (2013) avaliaram a velocidade de nado em nadadores de elite de AA, num período de quatro anos, entre 2008 e 2012. As principais conclusões apontam para uma proximidade das prestações femininas muito superior às masculinas, ou seja, a diferença temporal do primeiro ao último classificado nos grupos de atletas que terminavam as provas era muito menor nas mulheres do que nos homens. O fenómeno de drafting (nadar na esteira, colado ao nadador da frente/lado) não foi controlado, mas é apresentado neste estudo como um dos fatores que poderá ter influenciado esta proximidade nos resultados desportivos à chegada. A diferença verificada, na velocidade de nado entre géneros, é reduzida, sendo superior nas prestações masculinas em 7%. Significa que numa prova de 10km, a percentagem de velocidade de nado é próxima entre géneros, facto que não sucede em modalidades como a ultra-maratona ou o ultra-ciclismo (Vogt et al., 2013).

Através das análises comparativas realizadas ao longo destes 4 anos, é possível inferir, que tanto o top 10 masculino como o feminino atinge maiores valores de velocidade de nado nas provas do campeonato do mundo. Porém, estes valores aumentaram significativamente em ambos os sexos na prova dos 10km nos JO de Londres em 2012 (Vogt et al., 2013).

Importância da nutrição em águas abertas

As necessidades nutricionais de um nadador de AA são muito diferentes das necessidades de um nadador de piscina. As condições específicas para a alimentação durante a fase competitiva são em AA consideradas em função da duração da prova e das condições ambientais em que se dá a mesma.

A otimização da performance desportiva numa prova de AA está intimamente associada ao planeamento e prática da estratégia nutricional de prova (Shaw et al., 2014).

Recomendações durante o período de treino

Os volumes praticados no treino são um constante desafio às reservas de glicogénio muscular, a falta de reposição glicídica entre sessões pode comprometer o rendimento desportivo do atleta nomeadamente em situação de cumprimento de séries intensas e volumes elevados de treino. As estratégias específicas de renovação das reservas envolvem um aporte constante de hidratos de Carbono (HC) entre treinos, um pré treino forte e uma hidratação constante ao longo do treino.

De acordo com Shaw et al. (2014), em média o corpo perde 0,5 L de água por hora. Estes valores tendem a aumentar com as intensidades de treino e com a temperatura da água. Os nadadores devem hidratar corretamente para evitar perdas de água excessivas. É ainda  recomendada uma ingestão calórica superior a 90 g/hora de HC durante o período de treino pré competitivo, pois esse consumo ajuda à absorção e oxidação melhoradas dessas partes adicionais de HC, diminuindo assim o desconforto gastrointestinal (Shaw et al., 2014).

Estratégias de treino que procurem adaptar o músculo de modo a maximizar a produção de energia através das reservas de gordura durante o nado devem ser encorajadas (Mujika, Stellingwerff, & Tripton, 2014).

Foto: Arquivo Pessoal

Recomendações pré prova

A chamada carga em HC carateriza-se por ser uma estratégia de manipulação nutricional que combina a ingestão controlada de hidratos com o exercício em fase de taper ou redução da carga de treino. Esta combinação é planeada de modo a supercompensar as reservas musculares de glicogénio (Shaw et al., 2014). Durante sete dias passamos de baixas reservas de hidratos para um reabastecimento das reservas. Uma ingestão de 10 a 12g/kg massa corporal/dia de HC entre as 36 e 48 horas anteriores a prova, em combinação com o treino normal é suficiente para atingir a super-compensação esperada para as reservas de glicogénio (Busson et al., 2002 citado por Shaw et al., 2014).

A última refeição antes da prova constitui-se como uma oportunidade para que os nadadores iniciem a prova num estado ótimo das suas reservas musculares. Aconselha-se a ingestão regular de fluídos para garantir a hidratação, bem como a ingestão de HC entre 1 a 4 g/kg massa corporal até 4 horas antes do início da prova. A administração de cafeína é também recomendada até uma hora antes do início da prova numa quantidade até 3 mg/kg (Shaw et al., 2014). A cafeína é uma bebida ergogénica que atrasa temporariamente a fadiga estimulando o sistema nervoso central (Davis et al., 2003).

Foto: Vânia Neves

Recomendações durante o exercício

As reservas musculares de glicogénio são influenciadas pelo género, estado de treino e dieta alimentar. A depleção em glicogénio verifica-se em provas superiores a 90 minutos de duração, expetável em provas de 10 ou mais quilómetros (Shaw et al., 2014). Assim, as principais recomendações durante o exercício vão no sentido de privilegiar a ingestão de alimentos e líquidos ricos em HC (Burke et al. 2011).

O fornecimento exógeno da fonte combustível é necessário para manter a velocidade de nado. Os HC consumidos antes e durante a prova podem suportar as necessidades do músculo e melhorar o desempenho desportivo através do efeito funcional no cérebro (Shaw et al., 2014).

Durante as provas, apesar de serem menores as reservas de glicogénio nos braços que nas pernas, é nos braços que existe um maior recurso a HC (Tremblay, Peronnet, Lavoie, & Massicotte, 2009).

As guidelines gerais para o exercício de resistência com duração de 2 horas, sugerem um consumo entre 30 a 60g de HC por hora (Burke et al. 2011). Em conjunto com o consumo de HC, são ainda aconselhadas doses pequenas de cafeína em provas de longa duração (Shaw et al., 2014).

É geralmente recomendado abastecer o mais rápido possível de modo a atingir níveis de HC elevados que permitam o sistema nervoso central beneficiar através da sensibilidade oral (Jeukendrup, 2011).

A combinação de glucose com HC que são absorvidos através de transportadores gastrointestinais pode incrementar a taxa de HC exógenos disponível para trabalhar o músculo no sentido da oxidação e melhorar assim o desempenho aumentando a resistência muscular (Currell & Jeukendrup, 2008).

Recomendações pós exercício

No cenário competitivo, o principal objetivo passa por resolver o problema de esgotamento nutricional ou restaurar a homeostasia o mais rápido possível após a primeira prova, de modo a promover um desempenho ótimo na próxima prova (Burke & Mujika, 2014).

A recuperação para um evento múltiplo, como um campeonato da europa ou do mundo, composto por um mínimo de cinco dias de prova, envolve um desgaste energético acentuado. Posto isto, é importante consumir quantidades superiores a 10 g/kg massa corporal de HC entre provas e sobretudo sempre logo após cada prova. As reservas de HC devem ser focalizadas na ingestão de fibras de baixo teor e alto índice glicémico e ainda líquidos que minimizem o desconforto gastrointestinal (Shaw et al., 2014). A recomendação no sentido de maximizar as reservas de glicogénio nas primeiras duas horas após o exercício aponta para um consumo de 1g/kg de massa corporal por hora (e.g. 50 g para 50 kg nas mulheres, 80 g para 80 kg nos homens) e é melhorada quando se trata de alimentação em série (Jentjens & Jeukendrup, 2003). O consumo de HC num período de 20 minutos após o exercício contínuo de longa duração, faz com que o armazenamento de glicogénio seja três vezes mais rápido do que se o consumo for feito apenas duas horas depois do esforço (Kormanovski et al., 2002).

A síntese de proteína muscular revela-se como uma arma eficaz na reparação do tecido destruído através da síntese de proteínas sarcoplasmáticas e mitocondriais (Burd, Tang, Moore, & Phillips, 2009). O consumo de proteína imediatamente após o exercício de resistência prolongado faz com que seja aumentada a síntese de proteína muscular e, consequentemente, se restabeleça um equilíbrio proteico em 24 horas (Tripton, Borsheim, Wolf, Sanford, & Wolfe, 2003). Aproximadamente 20 g, 3 a 4 vezes por dia, de várias fontes de proteína de elevado teor biológico misturadas com HC otimizam a recuperação do tecido muscular (Areta et al., 2013).

Tendências evolutivas em AA 

O fator treino, e tudo o que o envolve é, na maioria das vezes, desconhecido por atletas e até alguns treinadores. O aparecimento de um ou mais nadadores diferentes no seio de uma equipa, deverá ter repercussões diretas na individualização do treino desses atletas através da diferenciação de tarefas.

Dada a quantidade de competições presentes no calendário internacional e nacional, existe uma proximidade relativa às provas de AA. Cada vez mais um nadador ultra fundista tende a apresentar um estado de forma concordante com a exigência da época, de modo a dar uma resposta positiva nas várias competições. Assim, um taper longo em AA será uma ferramenta menos utilizada, contrariamente ao que se poderia esperar a tendência poderá recair num descanso menor.

Alterações impõem-se, o descanso em treino será eventualmente menor, porém as estratégias pós treino e entre treinos, no que respeita a alimentação e regularização dos sonos, continuará a ser determinante.

Uma diminuição dos volumes e intensidades, em períodos criteriosos do calendário, será mais frequente do que propriamente o taper e a criação de picos de forma em mais do que dois momentos da época.

Atualmente, as sessões de treino destes nadadores são efetuadas quase sempre em piscina, porém é cada vez mais importante o contacto com o mar e outros locais propícios à prática da disciplina. Conforme visto anteriormente, é recomendada a habituação a temperaturas baixas, de modo a criar uma adaptação do corpo.

Em relação à questão tática, é fundamental ter noção que o ambiente está sujeito a variações atmosféricas e nem sempre as condições previstas são as que os nadadores vão encontrar no dia da competição. Porém, a experiência em contexto de prova, a habituação às diferentes condições nos diferentes locais são fatores influentes. A preparação através do treino prévio no local, contemplando dias de antecedência para proporcionar aos atletas adaptações ao clima e às condições específicas do local, pode ser uma mais valia. Contudo, nadadores de AA experientes e muito rotinados em situações diversificadas podem, por si só, ser um fator determinante, comparativamente com o fator adaptação ao local da prova.

Derivado ao contacto físico existente, as estratégias de nado são influenciadas pela aplicação de forças variadas e toques existentes que vão desgastando os atletas com influência direta na técnica e na adequação da braçada. O treino em seco complementar, quer seja ele de ginásio, quer seja ele intercalado com sessões de CORE training ou até mesmo crossfit, apresenta-se como uma possibilidade viável na medida em que poderá trazer vantagens competitivas para os atletas.

O desenvolvimento de estudos, no sentido da análise das capacidades individuais do metabolismo energético e resposta metabólica do organismo, apresenta-se como necessário para um conhecimento mais aprofundado da disciplina de AA.

Fisiologistas, nutricionistas e treinadores devem reunir esforços conjuntos para melhor compreenderem dinâmicas relacionadas e adotar rotinas para os respetivos atletas.

Em termos práticos para a disciplina, deverão ser desenvolvidos trabalhos que procurem dar um conhecimento relativo ao controlo de treino em AA e à estratégia presente no que respeita à prova em disputa, bem como a gestão das emoções, sentimentos e esforço durante as competições.

Conclusões

Nas AA a variabilidade do contexto de prova está associada a vários aspetos relacionados com o nado, tais como: o treino, o número de participantes na prova, a idade, a composição corporal do atleta, as caraterísticas do local e trajeto de prova (bóias, pontões e respetiva estratégia de abastecimento). No que respeita ao local torna-se relevante compreender a abundância e a diversidade de espécies, correntes existentes, eminência de ondulação e ainda temperatura da água, sabendo os riscos existentes para a situação de hipotermia em determinados contextos de água em função da estrutura física do atleta.

As velocidades de nado na prova rainha (10 km) apontam para uma superioridade em 7% nas prestações masculinas. Contudo, a diferença temporal entre o 1º e o último classificado é menor nas provas femininas que nas masculinas. A média de idades ótima para o pico de performance nesta prova é de 25 anos de idade, independentemente do género.

No que respeita à variável alimentação, o principal foco nutricional, durante o período competitivo, deve apontar no sentido da melhor hidratação possível e da manutenção das reservas ótimas de glicogénio através de um recurso alimentar rico em HC.

As recomendações e linhas de orientação relativas às práticas a desenvolver nos períodos de treino e competição (pré prova, prova e pós prova) devem sempre ser adequadas aos objetivos e particularidades de cada atleta.

Foto: Rio2016

Bibliografia (clicar)

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Fair PlayMaio 16, 201710min0

O Rugby no Fair Plays segue para mais uma crónica mensal, desta vez com Hélio Pires com «Visto de Fora». Pink is Not Dead!, o primeiro tema da coluna do historiador que se “apaixonou” pelos valores e princípios do rugby

O Desporto não pertence só a aqueles que o praticam, gerem e governam… pertence também a todos aqueles que o seguem todos os dias, seja através do youtube, artigos, twitter, instagram, que “absorvem” os ritmos e dinâmicas de cada equipa e perdem minutos da sua atenção com jogadores e treinadores.

Hélio Pires, doutor em História pela Universidade Nova de Lisboa, ganhou um fascínio pelo Planeta da Oval em 2015 com David Pocock e os valores que a modalidade defendia. Ao fim de dois anos de aprendizagem, crescimento e maturação, Hélio Pires aceitou o convite para seguir com uma rubrica mensal sobre o rugby «Visto de Fora», na óptica do adepto, apaixonado e seguidor de rugby, com algumas “pinceladas” na análise e compreensão do que se passou no jogo.

O primeiro artigo conta-nos sobre o seu interesse pelo Stade Français, o “renascimento” de um “gigante”, a final da Challenge Cup e outros pormenores da equipa parisiense. 

Pre-Match Mode

O cenário é um café-bar numa pequena cidade portuguesa, algo cheio e agitado. Os adeptos de râguebi são apenas dois, que ainda assim conseguem que se mude o canal de televisão de um direto da visita papal para as competições europeias.

O que durou até ao intervalo, altura em que foram confrontados com duas opções: ir embora ou ver o resto do jogo aos soluços, intercalando entre râguebi e Fátima a cada quinze minutos. Felizmente, numa sala ao lado igualmente apetrechada com uma televisão, houve quem não se importasse de partilhar a sua mesa e nós lá fomos, os dois adeptos, ver o resto da partida ombro a ombro com desconhecidos.

Peripécias à parte, não estávamos perante uma mera final de uma competição europeia. Havia um extra emotivo por estar em campo o Stade Français, que em dois meses passara da extinção iminente por uma fusão desigual a potencial vencedor da Challenge Cup ou Taça Desafio.

O que tem algo de heróico, mas já lá vamos. Sentados frente ao televisor, tentando abstrair-nos do ruído de fundo, pedimos um chá – somos adeptos um pouco posh – e torcemos por equipas diferentes. Porque o desportivismo é bom e recomenda-se, mas também porque os homens não se medem aos palmos e o Laidlaw é um grande senhor. Mesmo!

A rough pink! (Foto: Getty Images)

Os oitenta minutos

Não foi preciso esperar muito por momentos emocionantes. Logo aos 5 minutos, a bola andou pelos 10 metros do Gloucester sem possessão clara e, coisa de minuto e meio depois, um avant do Stade impediu o que podia ter sido o primeiro ensaio da partida. O que só aconteceu perto do quarto de hora de jogo, mas para a equipa adversária, quando Johnny May intercetou um passe e correu para a zona de validação.

A conversão pôs o Gloucester à frente por 7-0, pontuação à qual veio a somar mais três, e 10-0 ficou até o Stade marcar uma penalidade a meio dos 26 minutos. Segundos antes, ver o Will Genia esticado no chão, ele que é outro grande senhor, fez-me temer que saísse por lesão.

O que felizmente não aconteceu, em parte graças à resistência do médio de formação australiano, que volta e meia não escondia algum desconforto. E aos 31 minutos, uma bola à solta pelos 5 metros do Gloucester deu ao Stade o seu primeiro ensaio, marcado por Sergio Parisse com a ajuda de Hugh Pyle – o Jon Snow lá do sítio, como é conhecido entre os adeptos rosa. Ainda houve dúvidas sobre um possível avant, mas o vídeo árbitro pô-las de parte. Jogada limpa, conversão marcada e tudo em aberto.

Antes do final da primeira parte, ainda houve tempo para um cartão amarelo ao número 9 do Gloucester, que levou as mãos à cara de Plissou durante um salto, e um maul que… não acabou bem. Abençoado intervalo pela oportunidade de irem todos arrefecer a cabeça nos balneários!

No início da segunda parte, Laidlaw entrou em campo, para nossa alegria, que já não o víamos a jogar desde a lesão nas Seis Nações. E depois, aos 55 minutos, viu-se porque é que a bola oval pode ser traiçoeira: chutada pelo capitão escocês perto dos 10 metros do Stade, parecia que ia sair, tanto que Hugo Bonneval limitou-se a cobri-la, mas ficou disponível para ser apanhada. E foi Tom Marshall quem o fez, chutando-a para a frente já na linha dos 5 metros, embora em desequilíbrio e por isso incapaz de poisá-la claramente antes de sair da zona de validação. Foi ensaio ou não foi ensaio? A vídeo arbitragem mostrou que não, mas foi por uma unha negra. Literalmente!

Com as emoções ao rubro, o Stade marcou menos de dois minutos depois, após uma intercessão de Djibril Camara que fez lembrar o ensaio de Johnny May na primeira parte. O desempate estava assim quebrado e os franceses assumiam a liderança, para gaudio dos adeptos rosa. E a dez minutos do final, engrossaram a vantagem pelas mãos de Geoffrey Doumayrou, que recebeu a bola perto dos 22 metros do Gloucester e conseguiu fugir não a dois ou três, mas seis jogadores ingleses!

A julgar pela forma como olhou para trás, ele próprio nem acreditava no que tinha feito, e marcou o ensaio com um pequeno salto para a felicidade – língua de fora e braço no ar incluídos. A conversão, seguida de uma penalidade uns minutos depois, pôs os franceses à frente por quinze pontos, vantagem que o Gloucester ainda conseguiu reduzir a minuto e meio do fim com um ensaio de Ross Moriarty. O que é de aplaudir, porque um jogo só acaba quando o árbitro apita, mas não havia tempo para mais. O Stade saiu vencedor por 25-17 e Sergio Parisse ergueu a taça para alegria de muitos, eu incluído.

Le nouvelle champion de Challenge Cup (Foto: EPCR)

Húbris e redenção

Como disse antes, há nisto qualquer coisa de heroico. Se recuarmos até Março, altura em que os presidentes dos dois grandes clubes parisienses anunciaram uma fusão, o Stade estava em 12º lugar no Top14, apenas uma posição acima da descida de divisão, e era quase certo que seria extinto se se unisse ao Racing. Uma fusão é sempre uma absorção do mais fraco e o Stade estava ferido, a braços com maus resultados, problemas financeiros e uma escassez de adeptos que parece ser característica de Paris, conforme notou um artigo da Rugby World.

A esse estado de coisas acrescia ainda a forma como a fusão foi planeada, às escondidas e sem nunca se consultar os jogadores, a equipa técnica, funcionários ou adeptos, apresentando-a como um facto consumado onde as pessoas tinham, quando muito, o direito a votar em coisas como o aspeto do equipamento. Foi uma decisão burocrática com sabor a facada nas costas.

Ou dito de outra forma, um jogo de folhas de Excel por presidentes de formação empresarial, mas que se esqueceram de duas coisas: por um lado, que têm deveres para quem trabalha nos clubes, do mais simples funcionário ao mais famoso jogador; e por outro, que uma associação desportiva não é um mero somatório de bens e números, não podendo ser alienada ou fundida sem mais. Um clube tem história, tem memória, e tem acima de tudo uma forte carga emocional que está profundamente ligada ao sentido de identidade dos adeptos.

Achar que se podia passar por cima disso, como se uma fusão produzisse um simples somatório de massa associativa, é algo a que os gregos chamariam húbris, a ousadia desmedida e por isso condenada ao fracasso. E tal como nos mitos antigos, cada vez que se ousava em excesso, os deuses intervinham. Não que eu esteja a dizer que o Stade foi objeto de um milagre, mas teve qualquer coisa de heroico. Porque no espaço de dois meses, subiu para o sétimo lugar no Top14 e venceu uma das competições europeias. Foi como se a extinção iminente tivesse acendido uma chama que faltava e algo ou alguém, algures, quisesse dar uma estalada de luva branca em quem dava o clube como morto. Mais le rose n’est pas mort!

E agora?

Claro que depois da festa vem sempre a ressaca. O Stade venceu a Taça Desafio e provou estar vivo, mas os problemas que originaram a proposta de fusão não desapareceram. As contas continuam por equilibrar, o estádio por encher e há jogadores que estão de saída. É o caso de Hugo Bonneval, que vai para o Toulon, de Rabah Slimani, que segue para o Clermont, de Jono Ross, que vai juntar-se aos Sale Sharks, ou de Pascal Papé, que termina a sua carreira e foi uma das caras da luta contra a fusão. Aliás, vê-lo na tribuna no levantar da taça, apesar de não ter jogado ou sequer sido suplente, teve um sabor especial precisamente por causa disso e, entre os adeptos do Stade, Papé é um herói a quem já se diz, em tom de brincadeira ou não, que devia ser presidente. Mas não é, pelo menos por enquanto. À frente do Stade Français continua Thomas Savare, o mesmo que negociou a fusão e tem injetado dinheiro no clube.

Está ainda por perceber que impacto terá tudo isto. A vida é feita de mudança e o Stade não está imune a isso, mas depois do desastre que foi a tentativa de fusão, é pouco provável que o futuro passe por outra coisa que não um rosa choque, ainda que numa divisão inferior. Veremos.

http://www.rugbyworld.com/news/racing-92-stade-francais-77437

Fim de uma ameaça…até quando? (Foto: L’Equipe)

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Fair PlayMaio 10, 20175min0

Luís Cristóvão, comentador do Eurosport Portugal e sócio do Sport Clube União Torreense, aproveita o centenário do emblema de Torres Vedras para revisitar o passado, e apontar caminhos para o futuro.

O movimento desportivo popular em Portugal, no início do Século XX, gerou por cidades e vilas uma série de associações, clubes e agremiações que estariam longe de imaginar que, cem anos depois, se configurariam em embaixadores locais, tornando o desporto, como tantas vezes é repetido, a mais impactante forma de tornar esses locais mencionados na comunicação social nacional. O poder, obviamente, associa-se a essa tendência, tal como se pode comprovar com a recente visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Torres Vedras. A razão? Os cem anos do Sport Clube União Torreense.

Quem festeja um aniversário fá-lo, sobretudo, para relembrar as glórias e os feitos de uma instituição. No entanto, aquilo que hoje se marca é, acima de tudo, a sobrevivência. Porque dos muitos e variados clubes nascidos nesses longínquos anos, poucos ficaram para contar a história. No caso do nascido como Sport União Torreense, conforme registo de 1917, essa sobrevivência foi-se fazendo dos simbolismos criados em seu redor. Olhando para a história dos presidentes do clube ao longo destes cem anos, conforme pode ser confirmado no mural instalado na Exposição do Centenário, percebe-se que o clube é uma espécie de “Quem é quem” de nomes incontornáveis da história do Concelho de Torres Vedras.

CURRÍCULO EM DIFERENTES MODALIDADES

O clube foi fundamental para o desenvolvimento de um sem-número de modalidades na vila de Torres Vedras, tendo sido uma das equipas que fundou a Associação de Basquetebol de Torres Vedras em 1933. Mas foi o futebol, em conjunto com o Atletismo e o Ciclismo, aquele que lhe terá permitido mais conquistas. O Atletismo ainda hoje perdura no clube, enquanto o Ciclismo permitiu vitórias na Volta a Portugal e até a participação na Volta a Espanha, nos anos 80, como Sicasal-Torreense.

Ao futebol ficam reservadas as glórias de uma presença na final da Taça de Portugal em 1956, um título da 2ª Divisão Nacional em 1955 e seis presenças na 1ª Divisão, a última das quais em 1991/92. A história mais recente terá, como ponto alto, a vitória no Estádio das Antas, em Fevereiro de 1999, em jogo da Taça de Portugal, numa temporada em que a equipa atingiu os quartos-de-final. Actualmente, a equipa sénior encontra-se a disputar o Campeonato de Portugal, na Fase de Subida, apesar de, matematicamente, já não lhe ser possível sonhar com a Segunda Liga.

CEM ANOS E DEPOIS?

Aos clubes centenários, a principal questão que se coloca é a do seu futuro. O Sport Clube União Torreense é, hoje em dia, uma associação sem dívidas fiscais, situação ultrapassada na presente temporada, depois de anos a gerir uma dívida que lhe fez, inclusive, perder os terrenos onde se encontra o seu estádio, actualmente propriedade da Câmara Municipal. Tem, no entanto, uma dívida bancária que exige, ainda assim, muitos cuidados, como tem relembrado o Presidente António Vicente, também conhecido como Toinha, dos tempos em que foi jogador do clube. Esta tomada do poder por um antigo atleta é, sem dúvida, um dos maiores sinais de esperança, entrando em clara dissonância com a história das últimas décadas. O clube nas mãos daqueles que são o clube é uma novidade que se saúda.

Ainda que a equipa sénior seja gerida por uma SAD de maioria chinesa, os jogos do Torreense na presente temporada impõem essa visão de um regresso ao movimento popular que terá estado na génese de tantos clubes por todo o país. Novas gerações de adeptos retomaram o hábito de marcar presença no Estádio, vivendo-se em muitos jogos um autêntico ambiente de festa que sempre caracterizou o clube nos seus melhores momentos. O reconhecimento entre adeptos, jogadores e equipa técnica é outra das riquezas da situação actual do Torreense, que será tanto mais positiva se se verificar que se trata, realmente, de um novo começo.

A perspectiva de crescimento do parque desportivo municipal, com a construção de novos campos onde as camadas jovens do clube possam evoluir, junto ao Estádio, é outro dos pontos positivos da actualidade do clube. O passo mais seguro para esta retomada do clube pelas pessoas do clube passará, sem dúvida, por alargar a proximidade às equipas de formação, um costume do passado (“ir ver os miúdos do Torreense”) que se perdeu com a passagem dessas equipas para outras localidades do concelho.

Mas o futuro do Sport Clube União Torreense não pode ficar por aqui, porque a sua missão de unir e desenvolver o desporto no concelho de Torres Vedras exige um rasgo de quem o dirige para que se possa concretizar em pleno. A um modo de jogar futebol “à Torreense” que sempre se reconheceu na forma exigente como as bancadas do Manuel Marques apoiaram o seu clube, é preciso associar o desenvolvimento da modalidade num caminho que aproveite todas as potencialidades da região.

O Sport Clube União Torreense continua a ser o clube com mais história e maior potencial na Região Oeste. Afirmá-lo, não apenas em termos de passado, mas sobretudo através de uma marca distintiva na formação de jogadores, com capacidade de influenciar os clubes em seu redor e apresentando-se como símbolo de um projecto desportivo global é o passo que se exige.

No fundo, ver o clube como um marco regional fundamental pela sua capacidade transformadora e não pela sua capacidade mediática. Existirão sempre Presidentes da República prontos a visitar a cidade em dias de festa. Aquilo que se exige e espera é que o Sport Clube União Torreense possa ser um transmissor de evolução pessoal e comunitária no seu quotidiano. Haverão mais cem anos para o conseguir.


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