Arquivo de Wu Lei - Fair Play

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Ricardo LestreJunho 19, 201712min0

Num continente onde persiste o reinado de Omar Abdulrahman, surgem outros jogadores que, temporada após temporada, continuam a demonstrar rendimentos excepcionais. O Fair Play dá-te a conhecer alguns dos nomes mais interessantes em todo o futebol asiático.

Kosuke Nakamura | Guarda-redes

Nacionalidade: Japonesa

Idade: 22 anos

Clube: Kashiwa Reysol

Internacionalizações AA: 0 (2 pela Selecção Olímpica 2016)

Valor de mercado: 800.000€*

Por detrás da excelente e surpreendente temporada do Kashiwa Reysol até ao momento, está Nakamura, guarda-redes japonês de 22 anos. Formado na academia dos Sun Kings, Nakamura estreou-se como sénior ao serviço do Avispa Fukuoka – equipa que disputara a J-League 2 e para o qual seguiu a título de empréstimo em 2015 – e o seu rendimento surpreendeu totalmente os responsáveis do Kashiwa: em 23 jogos somou cerca de 15 (!) clean sheets. Assim, em 2016, Nakamura foi a aposta número 1 do clube para a baliza e os resultados voltaram a confirmar todo o seu potencial. Em 32 encontros divididos pelas diferentes competições, o jovem keeper manteve as redes intactas por 13 ocasiões. Na actual temporada, com um total de 15 disputados, Kosu não sofreu qualquer golo em 7. Algo simplesmente fantástico.

O Outside of the Boot destacou, no mês de Janeiro, alguns dos nomes mais interessantes da J-League 2016 pelo que Kosuke Nakamura foi um dos visados. Ágil, dono de óptimos reflexos, boa elasticidade e de uma grande voz de comando de área. Por outro lado, revela algumas deficiências a nível do jogo de pés assim como de posicionamento, algo típico de um jogador tão jovem. A qualidade não engana. O sucessor de Eiji Kawashima já tem o seu destino traçado.

Abdelkarim Hassan | Defesa

Nacionalidade: Qatarí

Idade: 23 anos

Clube: Al-Sadd

Internacionalizações AA: 54/8 golos

Valor de mercado: 650.000€*

Produto da famosa Aspire Academy, Abdelkarim Hassan é hoje um dos grandes valores qatarís da actualidade e do futuro. Desenvolveu um percurso interessante pelas selecções jovens do país (sub-20 e sub-23) até figurar na convocatória do escalão sénior para a Asian Cup 2011, com somente 17 anos. Antes disso, assumiu um papel de destaque e destacou-se como o jogador mais jovem, inclusive, da Liga dos Campeões Asiáticos 2011, a única vencida até ao momento pelo Al-Sadd. Hoje, é um dos pilares da selecção nacional e de um dos maiores clubes do Qatar, treinado por Jesualdo Ferreira.

Hassan é um lateral esquerdo possante, de grande envergadura física (1,86 m, semelhante a Benjamin Mendy) que se sobressai imenso pela passada larga e pelo forte remate. É extremamente difícil de travar nas transições ofensivas e de ultrapassar nas transições defensivas. Disputa lances nos diferentes momentos da partida com uma intensidade brutal, o que muitas vezes prejudica as suas acções individuais e, consequentemente, as colectivas. Tem vantagem clara no jogo aéreo tal como nos duelos físicos e abarca uma capacidade técnica razoável para a sua posição. No entanto, a sua acentuada propensão ofensiva faz com que seja um pouco permeável a nível defensivo provocando, de forma algo frequente, situações de perigo aos restantes companheiros. Posto isto, caso se projecte uma selecção qatarí de qualidade para os próximos anos, Abdelkarim Hassan terá, certamente, um lugar reservado como um dos maiores esteios do plantel.

Nam Taehee | Médio

Nacionalidade: Sul-coreana

Idade: 25 anos

Clube: Lekhwiya SC

Internacionalizações AA: 30/3 golos

Valor de mercado: 4.000.000€*

Num continente onde subsiste o reinado de Omar Abdulrahman, já previamente analisado no Fair Play, surge um outro jogador de tremenda classe e cujas habilidades se destacam perante os demais. Nam Taehee, playmaker de elevado calibre e figura de proa do histórico Lekhwiya, é um dos jogadores sul-coreanos mais jovens de sempre a estrear-se nos maiores palcos europeus, aquando da sua passagem pouco proveitosa, diga-se, pelo Valenciennes FC em 2009/2010. Na verdade, Taehee desde muito novo que interagiu com o futebol europeu. Abandonou a formação do Ulsan Hyundai em 2007 para se juntar à academia do Reading FC onde se manteve por uma temporada e meia. O clube inglês reconheceu, de facto, as suas qualidades mas decidiu não avançar para um contrato profissional, o que levou o Valenciennes aproveitar-se da situação. Embora tenha alcançado uma proeza interessante, o tempo de jogo registado em França foi bastante escasso. Eis que, na época 2011/2012, o Lekhwiya SC, clube de topo da Qatar Stars League, assegurou a sua contratação. Nam Taehee viu, finalmente, todo o seu talento ser potenciado.

Nam Taehee é um médio-ofensivo de raiz que pode desempenhar a função de extremo. Contudo, as suas caraterísticas físicas/tácticas fazem com que a posição 10 seja a mais adequada. Drible curto, técnica e inteligência acima da média. Delicado na forma como trata o esférico. Capacidade de criação/decisão fenomenal. Remate certeiro. Qualidade de passe soberba. Excelente na execução de bolas paradas. Em suma, tem um talento gigante.

Completada a 5ª temporada com a camisola dos actuais campeões, o somatório total não engana: 169 jogos, nas várias competições, 66 golos e 55 assistências. Mesmo com a recente revelação da fusão entre o Lekhwiya e o El Jaish para a próxima temporada desportiva, sob o nome de Al Duhail SC, o sul-coreano continuará a ser o homem de destaque da equipa. Resta saber, portanto, se num eventual regresso à Europa, este tem condições para se impor definitivamente.

Wu Lei | Extremo

Nacionalidade: Chinesa

Idade: 25 anos

Clube: Shanghai SIPG

Internacionalizações AA: 43/7 golos

Valor de mercado: 1.500.000€*

No mercado onde abundam as transferências milionárias, o investimento e o desenvolvimento nas academias de futebol também tem sido em largas proporções. Wu Lei é, a par de Zhang Linpeng, a maior conquista do futebol chinês. Produto da academia de Xu Genbao, afiliada ao Shanghai SIPG, seu mentor, realizou um percurso notável pelos escalões jovens e chegou ao topo da sua carreira ainda muito jovem.

Wu Lei destaca-se pela capacidade atlética. É extremamente leve, rápido, forte nas transições e em situações de 1×1, muito ágil e astuto nas movimentações interiores/exteriores e, por fim, eficaz no momento da finalização. Ainda que a sua posição natural seja a de extremo direito/esquerdo, já cimentou uma posição privilegiada no topo da lista dos melhores marcadores da Super Liga e é dos jogadores chineses que mais contribuem para esse capítulo. No entanto, conta com uma certa dose exagerada de individualismo e com algumas deficiências na definição dos lances.

O ‘Maradona chinês’, alcunha que lhe fora atribuída por Genbao, representa o presente e o futuro. É um dos símbolos do Shanghai SIPG, clube liderado por André Villas-Boas que ambiciona afirmar-se em pleno no contingente asiático, e da própria selecção. Sobra a esperança de, num futuro próspero, surgirem mais Golden Boys como Wu Lei provenientes das escolas de formação do país.

Ali Mabkhout | Avançado

Nacionalidade: Emiradense

Idade: 26 anos

Clube: Al-Jazira SC

Internacionalizações AA: 17/12 golos

Valor de mercado: 800.000€*

Os Emirados Árabes Unidos têm em Omar Abdulrahman o seu maior símbolo, juntamente com Ahmad Khalil, portentoso avançado que desde muito cedo ganhou reconhecimento um pouco por todo o mundo. Ali Mabkhout saiu das escolas do Al-Jazira e conseguiu a sua debut na equipa principal aos 18 anos de idade.

Desde muito cedo que Mabkhout demonstrou aptidões para um ponta-de-lança. Forte fisicamente, rápido, solta-se muito bem da marcação e, claro, possui uma grande veia goleadora. Para uma pequena noção, desde a sua estreia disputou 104 jogos e marcou cerca de 76 golos e contribuiu com 16 assistências. É uma das pedras fundamentais dos actuais campeões da AG League e, na presente temporada, em 29 jogos balançou as redes por 32 ocasiões.

No contexto internacional, tem vindo a cimentar a sua posição como uma das maiores referências. Completa um trio fenomenal com Omar e Ahmad na frente de ataque, e tem vindo a apontar golos de belo efeito e, ao mesmo tempo, cruciais para os Leões de Zayed em diversas competições. Muito móvel, bom tecnicamente e na procura da profundidade – articula muito bem as suas movimentações com o limite do fora-de-jogo. Ao invés, revela algumas dificuldades no jogo aéreo e está longe da potência do seu compatriota Ahmad Khalil.

Omar Al-Somah | Avançado

Nacionalidade: Síria

Idade: 28 anos

Clube: Al-Ahli Jeddah

Internacionalizações AA: 2

Valor de mercado: 4.500.000€*

Um pouco mais experiente que os restantes, surge Omar Al-Somah, ponta-de-lança sírio, conhecido sobretudo no futebol asiático como The Arabic Zlatan Ibrahimovic. E a comparação é bastante pertinente. Iniciou o seu percurso futebolístico no Al-Futawa da Síria, deu nas vistas no Qadsia SC do Kuwait – um pouco tarde, diga-se- até que o Al Ahli Jeddah, uma das melhores equipas do futebol saudita, assegurou, na temporada de 2014, a sua aquisição por 2 milhões de euros. Al-Somah viria, então, a tornar-se a melhor contratação da história do clube. E é fácil explicar o porquê.

As similitudes com o astro sueco são evidentes. É um avançado alto (1,92 m), forte, excelente no cabeceamento, muito forte a proteger o esférico de costas para a baliza, e, acima de tudo, é uma autêntica máquina goleadora. Por muito que as suas características físicas apontem para tal, os seus golos não são de dificuldade reduzida. Bem longe disso. Al-Somah remata muito bem com os dois pés – daí que seja um óptimo executante de bolas paradas -, tem uma técnica bem apurada e é capaz de finalizar de várias formas e feitios. Basta olharmos para as suas estatísticas globais com a camisola do Al Ahli: 102 jogos, 105 golos e 11 assistências. Quebrou vários recordes de golos na Saudi Premier League, onde constam distinções como o Melhor Marcador Estrangeiro da história e/ou o jogador estrangeiro que mais hat-tricks regista até hoje.

Relativamente ao seu desempenho internacional, as divergências políticas com Bashar Al-Assad levaram a que se afastasse em definitivo da selecção, mesmo tendo cumprido poucos jogos. É livre, assim, de representar outro país da esfera ocidental desde que lhe seja garantida a cidadania – a Arábia Saudita continua à espreita. Esteve perto, no passado, de rumar ao Nottingham Forest, mas não conseguiu obter um visto de trabalho. Não fosse este o eterno dilema dos jogadores do médio oriente e Al-Somah tinha todas as condições para brilhar em qualquer uma das ligas europeias de topo.

Omar Kharbin | Extremo

Nacionalidade: Síria

Idade: 23 anos

Clube: Al-Hilal

Internacionalizações AA: 32/13 golos

Valor de mercado: 850.000€*

Omar Kharbin, aos 23 anos, tem vindo a despertar muita atenção na Saudi Premier League e, ao mesmo tempo, ao serviço da selecção síria de futebol, onde se assumiu como um dos – ou, talvez, o mais – jogadores bem cotados do plantel. Iniciou o trajecto no Al Wahda, do seu país natal, e, após consequentes empréstimos, avançou para o Al-Dhafra dos Emirados Árabes Unidos, cujo desafio lhe garantiu maior visibilidade. Criou impacto imediato ao apontar 17 golos e 5 assistências em 26 jogos, e o Al-Hilal não hesitou em garantir o seu empréstimo.

Kharbin tanto pode actuar a extremo como a segundo-avançado dentro de campo. Tem uma envergadura física de respeito (1,84 m), mas, por outro lado, é um jogador extremamente móvel. Movimenta-se muito bem no interior das áreas adversárias e aparece com frequência em zonas de finalização. Combina muito bem com os seus colegas e foge à marcação com facilidade, para além trabalhar imenso em prol da equipa. Na presente época, leva 15 golos em 20 jogos pelo clube saudita que parece decidido a apostar na sua aquisição definitiva.

*Valores segundo o site Transfermarkt.

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Ricardo LestreMarço 11, 201710min0

A chegada de André Villas-Boas ao futebol chinês surpreendeu o planeta do futebol naquele que foi um all-in da direcção do Shanghai SIPG para terminar com a hegemonia do Guangzhou Evergrande na Super Liga. Após um início empolgante sob o comando do jovem técnico português, o Fair Play lança a sua análise integral à equipa que promete fazer história na China e em todo o continente asiático.

Um clube com (muita) tradição na cantera

Anos antes do investimento milionário levado a cabo no futebol, o clube agora conhecido como Shanghai International Port Group Football Club procurava canalizar todo o seu capital no desenvolvimento e na projecção de jovens jogadores. Rebobinemos, então, a cassete para trás.

A história remonta para o ano 2000, com a criação da Genbao Football Academy pelo homem forte do futebol chinês Xu Genbao. Genbao é uma figura incontornável na República Popular da China. No seu vasto curriculum contam-se inúmeras experiências como técnico – isto após terminar a carreira como futebolista -, quer ao serviço da selecção nacional (sub-23 e sénior) quer de clubes como o Shanghai Shenhua ou o velhinho Dalian Wanda. Hoje, é um empresário de enorme sucesso. A fundação da Academia foi o perfeito exemplo da visão de Xu Genbao em torno de um desporto menosprezado e com pouco motivo de interesse no país. Para além de formar, deu oportunidade a atletas de alimentarem o sonho face à escassa quantidade de competições exclusivas para as camadas jovens.

Por esse motivo em particular, na temporada de 2005, deu-se por oficial a parceria entre a Shanghai Genbao Football Training Base e a Shanghai East Asia Sports and Culture Center, empresa de gestão desportiva estabelecida pelo grupo Shanghai East Asia Co.Ltd que por sua vez se encontra subordinado à Administração Desportiva de Shanghai. Deu-se, assim, um grande passo no que toca à profissionalização do futebol na China. Xu Genbao, como primeiro presidente, carimbou de imediato o paradigma da instituição: foco total na formação. Imagine-se que, no primeiro campeonato disputado, ou seja, na terceira divisão, o plantel era exclusivamente composto por jogadores com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos.

Com o passar do tempo, o Shanghai East Asia foi lançando grandes fornadas de jogadores – muitos dos quais são titulares absolutos na selecção nacional – onde constaram nomes como Wu Lei, Zhang Linpeng, Cao Yunding, Gu Chao e Jiang Zhipeng, e, simultaneamente, vencendo títulos e escalando posições até ao topo do futebol chinês. Em 2013, com a entrada da Shanghai International Port (Group) Co. Ltd, gigante empresa que detém controlo de todos os terminais públicos no porto da cidade, o paradigma imposto sofreu uma transformação astronómica. Literalmente.

Xu Genbao, o “Padrinho do futebol”, na China Football Summit 2016, realizada em Chongming. (Foto: pioneersports.cn)
Chen Xuyuan, actual chairman do Shanghai SIPG, ao lado de Javier Tebas e Enrique Cerezo, na tour asiática do Atlético de Madrid em 2015. (Foto: atleticodemadrid.com)

O curto legado de Sven Göran-Eriksson

Já sob o desígnio do milionário Shanghai SIPG e após uma primeira temporada de afirmação, Eriksson foi apresentado no ano desportivo de 2015 numa clara tentativa de cimentar a posição da equipa no pódio da Super Liga. O status quo do Shanghai SIPG mudou automaticamente e, dado o rico plantel ao dispor do técnico sueco, as dúvidas relativas à hegemonia do Guangzhou Evergrande começaram a surgir. O objectivo, no entanto, passava apenas por assegurar um lugar de acesso à AFC Champions League.

O plantel escolhido por Eriksson, na primeira época ao serviço do clube, teve um grande selo de qualidade. A experiência de elementos como Darío Conca, Asamoah Gyan, Tobias Hysén e Davi contrastou na perfeição com a boa base de jogadores chineses existentes no plantel. Cai Huikang, Yu Hai, Wang Shenchao, Fu Huan, Shi Ke, Lü Wenjun, Sun Xiang e, obviamente, o prodígio Wu Lei, são alguns exemplos. A nível táctico, a equipa organizava-se num 1x4x2x3x1 com grande foco nas acções de Darío Conca. O argentino, além de dono e senhor das bolas paradas, desempenhava a grande função cerebral no meio-campo. Todo o futebol do Shanghai SIPG versão 2015 era pensado e executado por si.

Onze base do Shanghai SIPG 2015. (Fonte: Lineup11)

A maior virtude desta formação centrava-se, particularmente, na forma disciplinada e pragmática com que se impunha perante os adversários. O desequilíbrio entre os sectores era raro e havia uma facilidade tremenda em produzir jogadas quer em ataque posicional quer em contra-ataque. Não era nada fácil bater o Shanghai SIPG de há duas épocas atrás. Que o diga o Guangzhou Evergrande de Scolari, que terminou no primeiro lugar somente a dois pontos de distância.

No ano seguinte, retirando a bombástica contratação de Elkeson, o plantel, assim como Eriksson, manteve-se intacto. E a ansiedade também. Com a história participação na Liga dos Campeões Asiáticos em disputa, o esforço teria de ser redobrado. O certo é que a equipa conseguiu uma prestação interessante na competição, mas, ao invés, foi revelando uma maior inconstância no campeonato e perdeu por completo o comboio do título. No somatório total, o Shanghai SIPG atingiu o terceiro posto e ficou a cinco pontos atrás dos rivais do Jiangsu Suning e a doze do Guangzhou Evergrande. Terminava, assim, o curto mas importantíssimo legado de Svennis.

Foto: ESPN

A aposta surpresa em André Villas-Boas

“Queremos trazer o troféu de campeão para Shanghai em 2017!”

Foi assim, sem qualquer tipo de relutância, que o dono e senhor do clube Chen Xuyuan se pronunciou na antevisão à presente temporada. O main target das Águias Vermelhas é, oficialmente, terminar com o longo reinado do Guangzhou Evergrande Taobao e o investimento efectuado teria de acompanhar tamanha ambição.

O xeque-mate da direcção em André Villas-Boas surpreendeu e agitou todo o mercado europeu. Um treinador jovem, com qualidades reconhecidas e com muitos pretendentes nas Big-5 que acabaria, no final das contas, por rumar ao emergente campeonato chinês. AVB foi, de facto, anunciado no timing ideal não só pelo tempo que teria para estudar o plantel, mas também pela antecipação negocial, diga-se, a outros clubes europeus de grande relevo.

Relativamente à composição do seu grupo de jogadores, Villas-Boas não usufruiu inteiramente da ‘carta branca’. Hulk e Elkeson já preenchiam duas vagas de extracomunitários, porém, a lesão prolongada de Darío Conca e a iminente saída de Kim Ju-young para o Hebei China Fortune abriram espaço para mais dois jogadores da sua preferência. Odil Akhmedov (FK Krasnodar) e Oscar (Chelsea FC), este último envolvido na transferência mais cara de sempre do futebol chinês, vieram colmatar essas mesmas lacunas.

As entradas no plantel em 2017. (Fonte: transfermarkt)

A época está ainda no seu começo, mas, tacticamente, já são visíveis as ideias de AVB. Algumas das quais bem conhecidas. Não obstante, a recente alteração da Associação Chinesa de Futebol para a utilização de jogadores estrangeiros veio atrapalhar um pouco o trabalho do técnico português ainda que noutros clubes a situação seja bastante mais complicada. De acordo com a nova regra, apenas três jogadores estrangeiros poderão ser utilizados em simultâneo e pelo menos um de dois jogadores sub-23 tem de entrar nas contas iniciais. Posto isto, ao contrário do que se tem sucedido na Liga dos Campeões, André Villas-Boas vê-se forçado a colocar Zhang Huachen no onze inicial, acabando por proceder à polémica substituição após poucos minutos decorridos no primeiro tempo. Na imagem seguinte, consta aquele que é o onze mais forte do Shanghai SIPG até ao momento.

Esquema táctico do FC Seoul 0-1 Shanghai SIPG (21/02), a contar para a AFC Champions League.  (Fonte: cortesia de Emilio @Scout5Continen)

Mesmo numa fase tão precoce da época, o futebol ‘espetáculo’ característico do português tem sido notório. A equipa soma 5 vitórias consecutivas em 5 encontros e um total de 16 golos marcados e 2 sofridos e demonstra uma assimilação de processos excepcional.

Na baliza consta Yan Junling, um dos melhores keepers chineses da actualidade, que transmite enorme segurança aos companheiros. A linha defensiva é coesa e acima de tudo muito rotinada – não tão alta como noutras experiências do português – conta com dois laterais de grande propensão ofensiva como Fu Huan e o capitão Wang Shenchao e ainda dois defesas-centrais posicionais como He Guan e Shi Ke. Inicialmente a defesa do Shanghai SIPG era apontada como o tendão de Aquiles, mas a verdade é que tem surpreendido bastante pela positiva. No meio-campo, o duplo-pivot com Cai Huikang e Odil Akhmedov torna-se vital no contraste com o maior peso atacante da restante equipa. Huikang mais posicional e defensivo e Akhmedov com um papel mais próximo de um box-to-box, actua com maior liberdade dentro das quatro linhas. Por fim, segue-se o quarteto genial composto por Oscar, Hulk, Elkeson e Wu Lei no último terço. Oscar, ainda que muito diferente de Conca na distribuição de jogo, combina, de forma exímia, com os restantes colegas em espaços reduzidos. Se a frente atacante da máquina de Felipão encanta à primeira vista, a de Villas-Boas não fica nada atrás.

O Shanghai SIPG versão 2017 vive do seu ataque e da forma como o quarteto Oscar-Hulk-Elkeson-Wu Lei se envolve para chegar ao golo. No mapeamento de passes que se segue relativo ao jogo frente ao Changchun Yatai a 4/03, cortesia de @11tegen11, é visível a frequência com que todos os membros de outros sectores se procuram ligar com os jogadores mais adiantados. É quase um sufoco para o adversário. Todos estes quatro membros jogam muito próximos entre si, produzem triangulações constantes e, consequentemente, momentos fantásticos de futebol.

Fonte: cortesia @11tegen11

Dadas as presentes circunstâncias, (re)nasceu um novo titã do futebol chinês. A essência da formação de jogadores perdura embora as aquisições milionárias tenham um peso tremendo a curto prazo. Assim surgiu o primeiro treinador a contrariar o tradicional cliché. O temível Shanghai SIPG Football Club de 2017 é um produto de grande qualidade made in André Villas-Boas.


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