Arquivo de Rio2016 - Fair Play

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Rodrigo ZaccaMaio 9, 20178min0

Na segunda entrevista da série com nadadores de águas abertas convidamos Angélica André (Clube Fluvial Portuense), que é treinada pelo Técnico Rui Borges. Ela teve um bate papo com Rodrigo Zacca, nosso colunista de águas abertas, e contou um pouco sobre seu passado, presente e futuro no desporto.

 fp: Angélica, como surgiu o teu interesse pela vertente de águas abertas?

AA. No início tinha muito medo das águas abertas, tanto que acabei por desistir das duas primeiras provas que fiz, entretanto tive a oportunidade de nadar a prova aberta em Setúbal de 2km, onde no aquecimento o Rui teve que entrar comigo dentro de água, tamanho era o medo. Essa prova correu bem, ganhei com uma grande vantagem e por aí é que começou a surgir a ideia de fazer provas de águas abertas.

 fp: E qual foi a competição que mais te marcou até hoje?

AA. O Europeu de 2016 na Holanda, pois depois de Setúbal eu queria mostrar a mim mesma que era capaz de fazer novamente uma boa prova.

 fp: Fizemos a mesma pergunta à Vânia. Qual é a importância de teres como tua companheira de treino a tua maior adversária em Portugal?

AA. É sempre ótimo ajudamos-nos uma à outra, e conseguimos elevar o nível do treino.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Ao contrário da piscina onde o ambiente é controlado, muitos são os fatores (como por exemplo, temperatura, correntes marítimas, etc.) que tornam cada prova de águas abertas única e muitas vezes imprevisível. Nesse sentido, como é a tua preparação nas semanas que antecedem cada prova? Estudas as características do local da prova e procuras saber detalhes sobre as adversárias?

AA. Esta é uma questão que eu estou pensando em melhorar, pois realmente é muito importante. Eu não tenho por hábito estudar pré prova com tantos detalhes, mas costumo ver o clima, ondas, temperatura da água… tenho que trabalhar mais neste sentido.

 fp: Setúbal 2016, quais as lições que ficam?

AA. Setúbal era completamente diferente de todas as provas que fizemos. Mentalizei muito o final da prova e não no percurso todo. A lição que tiro desta prova é manter o foco do início ao fim, mas principalmente ouvir o treinador.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Qual era a tua estratégia de prova para esta qualificação? O que funcionou e o que não funcionou?

AA. Eu pensei em ir para a frente e depois ficar no grupo e no final tentar um lugar para garantir a qualificação. O que funcionou foi o pré prova, pois até Setúbal eu tinha muita dificuldade em alimentar-me e isto correu muito bem. O que não funcionou foi a prova em si.

 fp: A pouco mais de dois meses para o Mundial da Hungria, como avalias a tua preparação até agora?

AA. Na parte física, os treinos estão a correr muito bem. Na parte mental, falta mais experiência competitiva. As provas até o mundial servirão para afinar isso.

 fp: E quais são os teus objectivos para este mundial?

AA. Ainda não delineamos os objetivos, pois ainda dependemos da definição das nossas adversárias.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Quais os principais aspetos que precisam ser ajustados na tua preparação para Tokyo2020?

AA. Esta época iniciou de uma forma diferente, tive vários fatores que me limitaram nos treinos (lesões, etc.). O ciclo até setúbal foi muito produtivo, pois tive a oportunidade de realizar diversos estágios, nomeadamente EUA, Itália e Serra Nevada e evoluí muito fisicamente. Era nítido durante as séries na piscina.

 fp: Vou ser direto, consegues dedicar-te aos treinos para Tokyo2020 com tranquilidade do ponto de vista financeiro? Tens algum apoio ou patrocínio?

AA. Tranquila nunca estou, pois nem sempre posso contar com apoio da família. Tenho bolsa atleta da federação que dura apenas um ano, mas tentarei renovar no mundial com uma boa classificação. Sou muito grata ao apoio de todos que seguem comigo, o Dr. Jaime Milheiro da CMEP, que me dá todo suporte nas questões multidisciplinares, a AQUALOJA que me tem fornecido material de treino e a ESCOLA EDUARDO CIRÍLIO MÉTODO DEROSE que me tem me ajudado muito a aprimorar a minha concentração, foco e mentalização.

 fp: Como vês o desenvolvimento das águas abertas em Portugal?

AA. Acho que está a evoluir. Tivemos marcas muito boas no último indoor… Já aparece um número maior de nadadores e nadadoras, muito evoluídos tecnicamente. Mas será possível verificar isso mesmo na próxima competição já este mês.

 fp: Há cada vez mais jovens nadadores a optar pela variante de águas abertas. És sem dúvida uma referência dentro e fora d’água para estes jovens. Como vês isso?

AA. Eu tento fazer o meu melhor. No ano passado não faltei uma única vez aos treinos. Raramente saio à noite. Acredito que aqueles que treinam comigo diariamente veem em mim uma boa referência.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Que conselhos darias para os nadadores de piscina que se querem iniciar nas águas abertas?

AA. Eu sugiro experimentar as provas mais curtas e informarem-se com a organização da prova e conversarem com seus treinadores. Existem muitas em Lisboa e Algarve.

 fp: Quem são os nadadores e nadadoras de futuro das águas abertas em Portugal?

AA. Talentos existem muitos, mas ainda estão a optar pela natação pura. 

 fp: Há Fair Play nas águas abertas?

AA. Por vezes não existe fair play nas águas abertas, mas muita porrada (risos). A maior parte das nadadoras tem fair play. Nas águas abertas somos todos muito mais simpáticos, talvez por ser um grupo mais restrito, todos se conhecem. Em Portugal somos uma família, e mesmo lá fora nos damos todos muito bem, até entrarmos na água.

Foto: Arquivo Pessoal

Muito obrigado Angélica André e votos de sucesso para o futuro!

Perfil Oficial de Angélica André no Twitter

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Rodrigo ZaccaMaio 2, 201711min0

Para dar início à uma série de entrevistas com nadadores de águas abertas, nada mais justo o Fair Play com a nadadora Olímpica Vânia Neves (Clube Fluvial Portuense). Treinada pelo Técnico Rui Borges, ela teve um bate papo com nosso colunista de águas abertas Rodrigo Zacca, e contou um pouco sobre Treinos, Clube, Rio2016, Mundial, Tokyo2020.

 fp: Vânia, como descreverias a tua transição da natação pura para as águas abertas?

VN. No meu ponto de vista foi uma transição natural, pois sendo uma nadadora de fundo e gostando bastante desse tipo de distâncias, o mais natural era mesmo passar por uma experiência em águas abertas que acabou por se tornar bem mais que uma experiência.

fp: Hoje ainda te vemos competindo nas piscinas, mas obviamente tua preparação é focada na época de águas abertas. O que as competições em piscina agregam para seu foco principal, as águas abertas?

VN. Neste momento as competições em piscina têm tido dois objetivos: analisar o estado de forma e a preparação que está a ser feita, mas também servem como treinos com intensidades mais elevadas.

fp: E como se prepara um nadador de águas abertas? Fazes muitos treinos em mar?

VN. O mais correto e aquilo que seria esperado era um nadador de águas abertas associar os treinos de piscina a treinos de mar, mas, infelizmente não é o que acontece na minha realidade. 99% da minha preparação é feita em piscina e sinto que isso é uma desvantagem depois em competição, pois adversárias que diariamente estão perante situações de ondulação, correntes, água salgada etc. estão muito mais preparadas para todas as adversidades que nos vão aparecendo em competição.

fp: Como é a tua preparação em seco?

VN. Neste momento estou a fazer 4 treinos em seco, dois treinos com carga e dois treinos mais focados em prevenção de lesões e trabalho de core. Temos tido imenso cuidado no que toca à prevenção de lesões pois devido à agressividade das nossas provas e o desgaste a que estamos sujeitos isso é essencial para evitar surpresas desagradáveis em fases cruciais da época.

fpE em piscina, diz-nos uma série de referência que seja habitual fazeres?

VN. Uma série que fazemos habitualmente antes das competições em natação pura (piscina) é 8×100 + 8×50 a ritmo de prova de 800. Antes de uma prova de águas abertas o ritual é um treino de reconhecimento do percurso e retirar as máximas referências possíveis no mar e uma séria de 30×50 em piscina progredindo a cada 10.

fpNa época passada transitaste para o Clube Fluvial Portuense onde reencontraste uma antiga companheira de treino e, simultaneamente, a tua maior adversária em Portugal, a Angélica André. Quais as vantagens de ter uma companheira de treino como ela? Existem desvantagens?

VN. Uma das principais vantagens é a competitividade em treino, penso que isso foi uma mais valia não só para mim como para ela. Claro que em algum momento uma estar muito melhor que a outra poderia trazer aspetos menos bons, mas tal não se verificou pois sempre houve muita entreajuda entre as duas.

fp: E em relação ao CFP, um clube de referência no treino das águas abertas em Portugal, é de facto um clube vocacionado para esta vertente? O que se faz diferente no clube para alcançar estes resultados?

VN. O CFP não é um clube só vocacionado para as águas abertas pois tem também excelentes nadadores de natação pura, com resultados bastante interessantes. Mas penso que o facto de ter duas referências da disciplina a treinar incentiva os mais novos a quererem experimentar e a olhar com outros olhos para a mesma. E o número elevado de nadadores que praticam águas abertas ajuda a que se possa fazer um treino mais diferenciado, pois evita estarem apenas 2 ou 3 nadadores a fazerem um treino diferente da restante equipa. As condições da infraestrutura também facilitam bastante esta gestão, pois como existe imenso espaço até treino de contorno de boias nos é possível fazer.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: Quem são os nadadores e nadadoras do futuro das águas abertas de Portugal?

VN. Essa é uma pergunta difícil. Penso que existem muitos talentos em Portugal para a disciplina, mas infelizmente, esta não é tão apoiada quanto deveria o que acaba por levar a que os nadadores optem pelo caminho com mais apoio, ou seja, a natação pura.

fp: Na tua opinião, como vês a atenção dedicada por clubes e treinadores portugueses para as águas abertas?

VN. As águas abertas continuam a ser um campo cinzento para muita gente no nosso país. Já temos alguns treinadores a fazerem um trabalho interessante, clubes que até apoiam, mas no geral ainda há muito a melhorar.

fp: Logo no primeiro ano a treinar no CFP chegaste aos Jogos Olímpicos. Estava no teu horizonte conseguires essa participação? Se sim, quando percebeste que a vaga era possível?

VN. Sendo o mais sincera possível eu sabia que iria nadar a qualificação Olímpica e que logo aí teria uma hipótese, mas para mim era apenas isso. Eu estava a nadar para 1 hipótese contra 1 milhão de contrariedades. Encarei a prova da melhor forma possível, mas sem grandes pressões ou ansiedades. E só me apercebi verdadeiramente que a vaga estava mesmo ali quando terminei a prova e vi a posição em que tinha ficado.

fp: Uma prova de águas abertas tem sempre muita história, como nos relatarias a história da prova realizada no RIO2016?

VN. Por mais que tente expressar tudo que senti e vivi durante aquelas duas horas penso que nunca o conseguirei fazer. Foi uma experiência única! O mar estava com uma temperatura ótima (23º), ondulação dentro dos padrões que eu me sinto confortável e o ambiente na praia era surreal. Centenas de pessoas a ver a prova, bandeiras de todos os pais entre a multidão… e a prova em si foi única. Ritmos bons onde me senti confortável (sabia que estava bem preparada) e depois de ter sofrido um “confronto” onde descolei do grupo e fiquei sozinha continuei a sentir-me bem, feliz. Resumidamente essa é a palavra que descreve tudo… eu fui muito FELIZ.

Fotos: Arquivo Pessoal

fp: Esse apuramento surgiu no seguimento da prova praticamente perfeita que fizeste em Setúbal no ano passado, onde ficaste à frente de nomes como Mireia Belmonte e Kristel Kobrich, mas ainda tiveste de esperar pela confirmação. Como viveste esse mês entre a prova de Setúbal e a certeza que ias estar no Rio?

VN. Foi um mês tranquilo. Como sabia que era uma decisão que não iria depender de mim em parte alguma foquei-me na minha preparação para o Europeu e deixei o destino tomar conta dessa decisão.

fpE quais são os objectivos para a Hungria?

VN. Será o meu primeiro Campeonato do Mundo pelo que não dá para traçar objetivos muito concretos. Mas claro que meus objectivos passam por uma prova de 10Km feita no grupo da frente e ainda estamos a analisar uma possível loucura e participar na prova de 25km. Quero mesmo ser capaz de fazer uma prova destas para provar a mim mesma as minhas capacidades. É uma prova onde mais que a preparação física o psicológico manda e acredito que depois de ultrapassar uma barreira como esta serei uma nadadora mais completa e mais forte psicologicamente.

fpO que funcionou na preparação para RIO2016 e o que precisa funcionar para Tokyo2020?

VN. Não se pode dizer que tenha tido propriamente uma preparação focada nos Jogos do Rio pois não tive qualquer tipo de apoio a nível federativo nesse aspeto. A minha “preparação” foi feita sem competições internacionais e sem estágios em ano olímpico. Para Tokyo 2020 há ainda muita coisa a melhorar: preparação mais especifica em águas abertas com treinos de mar mais frequentes e estágios em que isso nos seja possível; apoios a um leque mais alargado de nadadores pois as surpresas acontecem sempre. Enfim, os erros que se verificaram em preparações olímpicas anteriores continuam presentes nos dias de hoje.

fpTens os anéis olímpicos no currículo e tatuados na pele… Mas afinal, o que estes anéis lhe trouxeram de bom do ponto de vista financeiro? O que significa para um atleta ter estes anéis olímpicos em Portugal? Consegues dedicar-se aos treinos para tokyo com uma certa tranquilidade ou segues na luta para conciliar treinos, estudo e trabalho?

VN. Pergunta muito pertinente. Do ponto de vista financeiro NADA mudou, continuo sem apoios por parte de Federação, clube ou qualquer entidade. O único apoio que tenho tido é por parte da Aqualoja que me tem fornecido material de treino e procura ajudar em tudo que é possível. Ter estes anéis no currículo de pouco ou nada me tem servido o que é triste pois depois de ter conseguido atingir o lugar onde muitos querem estar sem qualquer apoio merecia um pouco mais de respeito. Ou seja, para Tokyo neste momento continuo na luta “sozinha” (tendo sempre apoio da família como é obvio) e procurando conciliar a vida académica, com o trabalho e com os estudos pois quero continuar a fazer aquilo que gosto, mas infelizmente as contas não se pagam sozinhas.

fp: Há Fair Play nas águas abertas?

VN. Mais do que na natação pura, mas há muita coisa a ser trabalhada ainda.

Muito obrigado Vânia Neves e votos de sucesso para o futuro!

Twitter oficial de Vânia Neves: @VniaNeves

 

 

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João BastosAbril 4, 201716min0

Durante os nacionais de Coimbra, no intervalo entre um record e outro, o Fair Play conseguiu conversar com Alexis Santos. O semi-finalista olímpico e medalha de bronze nos campeonatos da Europa do ano passado revelou os seus planos para o futuro e os seus constrangimentos no presente

fp: Alexis, obrigado por nos concederes esta entrevista. Começava por satisfazer uma curiosidade. Quando estás com o equipamento do Sporting vestido, confundem-te com o Bryan Ruiz?

AS. [Risos] Confundir não confundem, mas de vez em quando oiço essa comparação.

fp: 2016 foi um ano perfeito para ti. Pódio nos Europeus, meia-final nos JO. Se tiveres de escolher só um ponto alto da tua época, qual deles é?

AS. É difícil de escolher, foram os dois muito marcantes. Os Jogos Olímpicos são sempre os Jogos Olímpicos e sinto-me privilegiado de ter podido nadar na sessão de finais e isso é algo único. Mas no currículo o que fica são as medalhas e ter sido bronze nos Europeus de Piscina Longa de Londres foi muito importante.

Por isso, sinceramente não sei responder a essa pergunta. Ambos foram momentos muito marcantes na minha carreira.

O que sei é que um ajudou o outro. Ter sido medalhado no campeonato da Europa deu-me um “boost” de confiança para os Jogos Olímpicos porque me mostrou que estava no caminho certo.

Nunca vamos saber se eu teria conseguido a meia final se não tivesse subido ao pódio em Londres, mas acredito que os Europeus foram fundamentais para o desempenho nos JO.

fp: Estavas à espera de tanto?

AS. Se me dissessem antes que seria medalhado no campeonato da Europa e semi-finalista dos JO, talvez acreditasse mais na segunda hipótese.

No campeonato da Europa nem fui com o objectivo de pódio, mas à medida que os campeonatos se foram desenrolando, percebi que a medalha estava ao meu alcance.

Em termos de tempos, os objectivos eram aqueles ou melhores. Eu gosto de ter os meus objectivos bem definidos e as marcas que queria fazer eram aquelas ou melhores.

Em termos de classificações, foi um ano perfeito. Não podia pedir mais!

fp: Os horários tardios do Rio não te permitiram estabelecer novo record nacional aos 200 estilos?

AS. Não quero arranjar desculpas, mas basta ver que tirando os 3/4 primeiros de cada prova, toda a gente nadou melhor nas eliminatórias. Por exemplo, nos 200 estilos, nomes consagrados como o Ryan Lochte e o Thiago Pereira ficaram aquém do seu melhor.

Eu nadei à meia noite. Eram exactamente 0:00 horas quando eu terminei a minha prova de 200 metros estilos.

Para além disso, chegamos ao Rio apenas 5 dias antes da prova. Cá fizemos uma mini adaptação aos horários em que iríamos competir, mas lá deveríamos ter tido mais tempo de adaptação.

Nadar 5 horas depois de escurecer era complicado. O horário da manhã era o ideal. Nem precisava de despertador, acordava por mim e fazia as coisas com naturalidade. Mas depois, mesmo com 4 ou 5 cafés – e eu nem bebo café – conseguia estar devidamente preparado para nadar uma meia final de uns Jogos Olímpicos à meia noite.

Mas estávamos todos nas mesmas condições e consegui fazer 12º lugar, o que foi excelente. Por isso, não é desculpa porque não há nada para desculpar quando consegui ser o 12º melhor do mundo.

Alexis Santos no estágio de adaptação aos horários do Rio | Foto: FPN

fp: O facto de ter sido a tua estreia olímpica, criou-te alguma ansiedade?

AS. Obviamente que os Jogos Olímpicos são uma prova única, mas o facto de eu já ter participado noutras provas, como o Festival Olímpico da Juventude Europeia, que é uma prova quase igual mas com atletas da mesma idade, Campeonatos da Europa, Campeonatos do Mundo, etc…eu já estava acostumado àquele ambiente e sempre que pensei na minha estreia olímpica, pensei que ia ser assim.

Realmente o Festival Olímpico da Juventude Europeia preparou-me bem porque eu já sabia que ia ser um evento universal, onde ia estar toda a gente na sua melhor forma, e onde a pressão para obter bons resultados seria enorme.

A minha única preocupação era saber que no dia da prova teria feito tudo para estar nas melhores condições, desde a minha preparação até ao descanso, à alimentação, a todos os pormenores que me permitissem estar no meu melhor.

As pessoas que apareceram na câmara de chamadas foram as mesmas que apareceram nos mundiais e nos europeus. Não apareceu o Usain Bolt, se aparecesse eu ficava mais preocupado, não fosse ele a correr por cima da água [risos].

As pessoas eram as mesmas e quando se entra na piscina, esquece-se que são os Jogos Olímpicos e procura-se fazer o que se faz em todas as provas que é dar o melhor.

fp: Sendo no Brasil, a delegação portuguesa sentiu-se mais em casa?

AS. Isso foi uma grande ajuda. O povo brasileiro foi impecável, sempre que percebiam que éramos portugueses incentivavam-nos e disponibilizavam-se para nos ajudar em qualquer coisa que precisássemos.

fp: Para este ano, quais são as expectativas para o Mundial?

AS. O objectivo é continuar a melhorar as minhas marcas. Não vale a pena estar a definir finais ou meias finais como objectivos porque se eu chegar lá, fizer a minha melhor marca, mas ficar de fora da final, fico contente na mesma.

O objectivo é sempre estar no meu melhor, mas esse também é o objectivo dos adversários. Não posso avaliar o meu desempenho pela melhoria deles, mas sim pela minha. 

E mesmo fazendo as minhas melhores marcas nos mundiais, na competição seguinte o objectivo vai ser melhorar essas marcas, pois assim aumento as minhas hipóteses de ser presença assídua em finais de grandes competições.

Não quero ser irrealista e dizer que o objectivo para o mundial é estar na final, mas sei que se lá chegar e fizer o meu record pessoal, a probabilidade de isso acontecer é muito grande.

Após bater o record nacional dos 200 estilos nos nacionais de Coimbra | Foto: Luís Filipe Nunes

fp: Sendo assim já sei a resposta à próxima pergunta, mas tenho de a fazer: já tens os teus objectivos traçados para Tóquio?

AS. Obviamente que os meus planos para estes 4 anos passam por fazer tudo para estar em Tóquio. Uma vez lá, o objectivo é sempre fazer melhor que a última prestação.

Mas tenho de pensar ano a ano, prova a prova. Agora estou focado nos nacionais, depois terei um período de descanso e focar-me-ei nos mundiais, depois pensarei nos europeus de piscina curta, e assim sucessivamente.

Se pensar que ainda faltam 4 anos para os Jogos, não treino. É fundamental ter objectivos altos para todas as competições e chegar a cada competição e fazer melhor que na anterior. Esse é o meu objectivo.

fp: E também a nível interno, os teus adversários obrigam-te a estar sempre no teu melhor. Tens protagonizado grandes duelos com o Diogo Carvalho e agora também têm o Gabriel Lopes a discutir os 200 estilos convosco. Qual é a importância deste nível de competitividade interna?

AS. Acho muito importante. Se só houvesse um de nós, de certeza que não estaria ao nível a que está actualmente. O Diogo tem-me feito evoluir bastante, eu tenho feito o Diogo evoluir, nós queremos sempre ganhar um ao outro e qualquer um de nós quer ser o melhor de Portugal.

Agora com o Gabriel ainda há mais competitividade. O ideal é todos baixarmos os nossos tempos. Seria excelente nadarmos os três em 1’57. Aos mundiais só podem ir dois, mas se tivéssemos três nadadores a nadar em 1’57 era garantia que os dois que lá estariam iam trazer grandes resultados para Portugal.

Eu fico contente quando batem os meus recordes, porque é sinal que a natação portuguesa está a evoluir e isso é mais importante do que eu estar a evoluir. Obviamente que eu quero fazer o meu papel e só me posso preocupar com o meu desempenho, mas deixa-me muito contente ver a natação portuguesa evoluir como um todo.

Pódio dos 200 estilos em Coimbra | Foto: Luís Filipe Nunes

fp: Até porque estás cá para voltares a restabelecer os teus recordes que venham a ser superados.

AS. Exacto! Se baterem os meus recordes, eu vou querer batê-los depois! [risos] E de certeza que vou trabalhar mais para superar essa marca.

fp: Durante este ciclo olímpico tiveste um ano a treinar em Espanha. Como é que foi esta experiência?

AS. Foi uma experiência muito positiva. Claro que teve os seus aspectos positivos e os seus aspectos negativos, mas no balanço geral foi uma experiência importante para o meu crescimento.

Saí de lá com uma mazela no ombro, mas tirando isso foram vários as coisas boas que trouxe desse ano. Não só o meu nível de treino que aumentou bastante, mas também os amigos que fiz lá. Fiquei a conhecer a natação espanhola por dentro e abriu-me outros horizontes.

Eu treinava com a Mireia [Belmonte] e, apesar de ela treinar muito e treinar bem, é uma rapariga absolutamente normal, como eu vejo no Sporting ou como vejo nos outros clubes portugueses. Ela é pequenina, tem as mãos pequeninas, não “dás nada por ela”, mas é campeã olímpica. Conseguiu porque trabalhou muitíssimo para lá chegar e isso faz-nos pensar que se para ela foi possível, para nós, portugueses, também é. Desde que trabalhemos para alcançar os nossos objectivos.

Antes de ir para lá o meu pensamento era que para os portugueses nunca seria possível chegar ao mais alto nível mundial, mas lá percebi que não é assim. E são poucos os quilómetros que separam as duas realidades.

fp: Disseste, em entrevista ao “Publico”, que se fosses espanhol terias mais condições de treino. Podes dar-nos três exemplos práticos das diferenças de realidades entre Portugal e Espanha?

AS. Em primeiro lugar, e a maior diferença de todas, é a nível financeiro. O nível de financiamento da natação espanhola é muito superior ao da natação portuguesa.

Depois as condições logísticas de treino são muito diferentes. Eu treinava no Centro de Alto Rendimento, onde só entrava quem era mesmo do alto rendimento. Tínhamos 5 piscinas à nossa disposição para treinar e só eram usadas efectivamente por nadadores integrados no plano de alto rendimento. Cá brincamos ao alto rendimento e brincamos à natação. Nadar no Jamor é nas horas a que a piscina está disponível e nas pistas disponíveis. É verdade que hoje o Jamor está melhor que há uns anos, mas continua a anos-luz da realidade que encontrei em Espanha.

Também nas condições dos clubes, a diferença é enorme. Estive há pouco tempo a fazer um estágio no Clube de Natação de Sant Andreu e só gostava que o meu clube tivesse as condições que aquele clube tem.

O ano passado foi de sonho, mas se calhar se tivesse a piscina do Jamor disponível para treinar com a minha equipa, se calhar seria ainda melhor.

É que o nível da natação masculina portuguesa não abaixo do nível da natação masculina espanhola. Não falo em termos de quantidade de nadadores, obviamente, mas o nível dos nadadores espanhóis de topo é o mesmo que o nosso. Faz-nos pensar onde poderíamos estar se as nossas condições de treino fossem idênticas.

Até que isso aconteça, eu vou continuar a fazer a minha parte de pedir melhores condições. Não estou satisfeito com as que tenho actualmente.

fp: E estás falar da realidade de um clube hexacampeão nacional, não é de um clube qualquer.

AS. Exacto. E eu sou da opinião que os clubes não devem ser tratados da mesma maneira. Os clubes que trabalham melhor devem ser mais apoiados.

fp: Começaste a nadar pelo Benfica e aos 10 anos mudaste para o Sporting. Razões clubísticas ou de melhores condições de treino?

AS. Foi mesmo por questões de condições de treino. Foi na altura em que demoliram o Estádio da Luz e também a piscina e aí ficamos sem sítio para treinar. Alternávamos entre a piscina do Casal Ventoso e a do Campo Grande.

Na altura o meu primo mais velho, que fazia natação, decidiu mudar-se para o Sporting. Ele já fazia natação de competição há muitos anos e nessa altura orientou-me e ajudou-me a chegar ao Sporting.

As condições eram melhores, os treinadores que tinha no Benfica foram-se quase todos embora e os meus pais decidiram que o melhor seria seguir para o Sporting.

A obtenção do hexacampeonato pela equipa masculina do SCP na Póvoa de Varzim | Foto: FPN

fp: Hoje tens noção que tomaste uma das decisões mais importantes da tua carreira aos 10 anos?

AS. No caso, não fui eu que a tomei, mas que foi muito importante para a minha carreira, foi.

O facto de ter encontrado a equipa que encontrei, o treinador que me acompanha desde os 14 anos e a forte formação que o Sporting tem desde sempre leva-me a concluir que foi, sem dúvida, uma decisão muito acertada.

fp: Em várias entrevistas que te fizeram, a última pergunta era sempre quem era o teu ídolo. A minha é se tens noção que tu próprio já te tornaste num ídolo para as gerações mais jovens e se isso te acresce a responsabilidade?

AS. Tenho noção que há miúdos que olham para mim como eu olhava para o Tino [Nuno Laurentino], para o José Couto, ou mesmo para o Diogo Carvalho.

É importante ter essas referências e pensar um dia chegar lá. Quando era miúdo olhava para o Tino e pensava “ele nada tão rápido”, e logo a seguir pensava “um dia eu quero lá chegar”. Desde muito novo que tinha esses objectivos na cabeça: chegar ao nível desses nadadores. 

É fundamental para quem está agora a começar a nadar, ter essas referências e esses objectivos para que a natação seja mais do que olhar para o fundo da piscina e contar azulejos.

fp: Apontaste o Nuno Laurentino como um ídolo teu. Nesse sentido, teve um grande simbolismo o facto do primeiro record nacional absoluto que bateste ter sido o record dos 50 metros costas, que lhe pertencia?

AS. Foi muito especial, até porque na altura comparavam-me muito ao Tino, pela fisionomia que era parecida.

fp: Há Fair Play na natação?

AS. Sem dúvida! Somos uma família. Basta ver que ontem [dia 31 de Março, o Sporting competiu com a estafeta 4×200 metros livres em extra-prova para tentativa de record nacional, depois do programa oficial dos Campeonatos Nacionais de Juvenis, Juniores e Absolutos] ninguém arredou pé e estava a piscina toda a puxar por nós. Não havia clubes e no final toda a gente ficou feliz pela nossa conquista e pela minha conquista [a equipa estabeleceu novo record nacional e Alexis abriu a estafeta, batendo o record individual] e recebemos os parabéns de toda a gente.

Eu sei que na maior parte dos desportos há Fair Play, mas na natação é especial. Somos mesmo uma grande família!

Muito obrigado, Alexis e sucesso para o futuro!

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João BastosJaneiro 14, 201717min0

Miguel Arraiolos é um dos representantes da geração de ouro do triatlo português. Olímpico desde o Rio de Janeiro, anda há já vários anos no circuito da elite mundial. Conheça o trajecto deste super atleta na entrevista exclusiva dada ao Fair Play

Perfil


Nome: Miguel da Cunha Arraiolos
Idade: 28 anos
Clube: Sport Lisboa e Benfica
Treinador: Lino Barruncho


fp: Como iniciaste a prática do Triatlo?

MA: No desporto escolar havia as provas de corta-mato onde costumava participar. Numa dessas provas, convidaram-me para experimentar o duatlo, que é uma variante do triatlo. Na primeira prova de duatlo que fiz, o “prémio” para os primeiros classificados era um estágio com a selecção nacional de triatlo, para o qual eu consegui ser seleccionado.

Na altura praticava futebol, mas comecei-me a interessar pelo triatlo e começar a treinar as disciplinas do triatlo foi uma coisa natural, também por culpa do meu treinador da altura, Miguel Jourdan.

fp: Ou seja, tu não começaste por praticar primeiro uma das três disciplinas do triatlo e depois evoluíste para as três. Começaste logo a nadar, pedalar e correr, certo?

MA: Andei na natação em criança, mas na altura não me interessei. Só mesmo a partir dos corta-matos escolares é que nasceu o interesse numa vertente mais competitiva de praticar desporto.

fp: Já falaste do Professor Miguel Jourdan. Não só teve uma grande influência na tua decisão de abraçar o triatlo, mas também teve uma grande influência naquilo que é hoje o triatlo nacional?

MA: Toda! Apesar de eu também ter tido a influência da minha irmã que já praticava triatlo, foi ele que me levou a experimentar de forma mais séria. Foi o meu primeiro treinador (em Alpiarça), levou-me para Lisboa e ficou comigo até se iniciar o projecto do Centro de Alto Rendimento do Jamor. Como ele estava ligado à selecção nacional, continuou a estar ligado também à minha preparação.

Quanto à influência que ele teve no triatlo nacional, basta dizer que foi ele um dos treinadores da Vanessa Fernandes. Por isso, o Miguel Jourdan está na génese de uma das maiores desportistas portuguesa de todos os tempos.

fp: Para quem nos lê e não esteja tão a par da modalidade, o Professor Miguel Jourdan faleceu prematuramente aos 41 anos. O triatlo e muitos dos melhores triatletas nacionais acabam por ser um grande legado que ele deixa?

MA: Sem dúvida. O Sérgio (Santos) era o Director Técnico Nacional, mas a equipa técnica eram os dois. Foram os dois grandes pilares da primeira grande geração de triatletas portugueses, e particularmente da Vanessa Fernandes.

fp: Como é que se treina triatlo? Descreve-nos o teu dia-a-dia.

MA: No início há muitas dificuldades nas transições, ou seja, na mudança entre cada uma das disciplinas do triatlo porque em cada segmento há a utilização de diferentes grupos musculares. No início é importante treinar as transições e o atleta familiarizar-se com essa questão para não ser surpreendido em prova.

Foto: Comité Olímpico de Portugal

fp: Ou seja, numa prova composta por três segmentos com cargas aeróbias bastante exigentes, é o intervalo que dura cerca de um minuto entre cada um desses segmentos que tu destacas como o ponto mais crítico no triatlo.

MA: Não são as transições em si, é essencialmente o choque de iniciar uma nova disciplina e a activação repentina de diferentes grupos musculares que constituem um grande desafio no triatlo. Há pessoas que correm muito bem mas fazem dois, três, quatro triatlos e sentem sempre muita dificuldade em imprimir o ritmo de corrida que conseguem facilmente em treino.

É por conta dessa complexidade que o triatlo é um desporto e não a soma de três.

fp: Treinas no CAR do Jamor integrado na Selecção Nacional de Triatlo. Que importância dás ao grupo de treino na tua preparação?

MA: Eu faço alta competição há 12 anos e posso afirmar que é impossível treinar triatlo sozinho. Treinamos sempre em altas intensidades, há momentos da época em que temos de treinar muito e se o fizermos sozinhos, vamos abaixo física e mentalmente. Se tivermos um grupo, há uma motivação extra mesmo nos piores momentos. Há muita solidariedade e ajudamo-nos uns aos outros a evoluir e a continuar a treinar, mesmo quando a vontade é parar.

Depois houve um aspecto fundamental na minha formação que foi, no início, poder aprender com os mais velhos e mais fortes. Quando integrei o grupo da selecção nacional, existia a Vanessa Fernandes e o Bruno Pais que já eram atletas de grande experiência e de grande estatuto a nível mundial. Eles ensinaram-me o que é estar num grupo e o que é a superação diária.

Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Foste campeão europeu sub-23 de duatlo em 2011, vice-campeão sub-23 de triatlo em 2008, terceiro classificado na Taça Pan-Americana de Triatlo em 2013, para além dos vários títulos nacionais. Há alguma prova que te tenha ficado marcada de maneira especial na tua memória?

MA: Os nossos melhores resultados ficam sempre mais marcados. Mas eu destaco as minhas primeiras provas da qualificação olímpica porque foi quando percebi que era possível alcançar uma coisa que até então não passava de um sonho.

Sempre achei possível a qualificação, mas quando iniciei esse período tinha a consciência que ia ser muito, muito difícil, mas os resultados que obtive no primeiro ano da qualificação olímpica (2014) fizeram-me acreditar, não só que era possível, mas que os Jogos estavam perfeitamente ao meu alcance.

E essas provas marcaram-me muito. Fiz top-12 na etapa da Taça do Mundo de Chicago em 2014 e fui 5º classificado na etapa de Alicante. Foi um excelente arranque do período de qualificação que me motivou para o resto.

fp: 2016 é um ano que certamente fica marcado na tua carreira: fizeste a tua estreia olímpica. Antes de falarmos dessa participação, conta-nos como se processa a qualificação para essa prova?

MA: A qualificação é feita em dois anos. Decorreu de Maio de 2014 a Maio de 2016. O apuramento é pelo ranking mundial e são apurados os 55 melhores do mundo, havendo um limite de vagas por país.

Portugal é um dos oito países que apura 3 triatletas no sector masculino, fomos precisamente o oitavo país do ranking.

Para me apurar contavam as 7 melhores provas na época 2014/2015 e as 7 melhores provas em 2015/2016, o que leva a que se tenha de se competir muitas vezes nos anos de qualificação.

João Silva, Miguel Arraiolos, João Pereira e o director técnico nacional Lino Barruncho de partida para o Rio de Janeiro | Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Ou seja, chegaste aos JO já com muitos km de competição nas pernas. Conseguiste chegar ao Rio de Janeiro na tua melhor forma?

MA: Entrei no ano de 2016 sem a qualificação assegurada. Tinha duas provas onde tinha de fazer pontos e mais duas onde iria tentar melhorar o conjunto das 7 melhores, “limpando” as duas piores.

Assim, fiz uma pausa muito curta entre as épocas 14/15 e 15/16 para estar no meu melhor o mais rapidamente possível.

Fui para a Austrália, onde fiz 4 provas, voltei, fui à África do Sul,…percorri quatro continentes nos meses de Maio e Junho.

Consegui, mas fiquei muito desgastado e por isso tive de tirar uns dias de férias mesmo antes dos Jogos porque o corpo já não respondia como devia à carga dos treinos.

A prova (nos Jogos) não correu bem, mas não vou atribuir nenhuma razão. Simplesmente não correu. Pode ter sido por desgaste de outras provas, mas eu prefiro olhar mais para os factos e menos para as desculpas.

fp: Independentemente da forma como a prova correu, a sensação ao chegar à meta foi diferente de outras provas?

MA: Claramente. Nós competimos muito e, como competimos num circuito mundial, os nossos adversários dos Jogos são os mesmos de todas as provas, mas o espírito e o ambiente envolvente daquela competição tornam-na diferente.

Até à prova não cheguei a estar com a comitiva olímpica, mas enquanto competia consegui sentir o tal “espírito olímpico”.

E isso ajudou-me porque a meio da prova, mesmo quando já percebia que ela me estava a correr mal, o sentimento que tinha era de dever cumprido. O meu objectivo era estar ali a competir e isso só por si era suficientemente recompensador. Estava satisfeito e feliz por ali estar!

Antes do tiro de partida, o meu treinador apenas me pediu que desse o meu melhor, que não pensasse em resultados e que fizesse a prova com a felicidade de estar a competir no maior palco desportivo do mundo. Foi nessas palavras que eu pensei durante a prova e foi esse sentimento que eu tive quando cruzei a meta.

Arraiolos a cruzar a meta do Rio | Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Com certeza que reviste a prova, agora achas que se cumpriu a máxima do triatlo que “não se ganham provas na natação, mas podem-se perder provas na natação”?

MA: Sem dúvida. Veja-se como foi a prova do João Pereira, saiu bastante atrás da água e ainda conseguiu acabar em 5º lugar. O normal no triatlo é que no segmento de ciclismo os atletas se agrupem e formem um grande grupo que acaba a discutir a vitória na corrida. Tenho a certeza que se isso tivesse acontecido na prova do Rio, tínhamos conseguido uma medalha pelo João Pereira.

No meu caso, a natação já é o segmento mais fraco, mas perdi demasiado tempo porque houve um grupo que desde o início teve interesse em fazer com que a natação fosse rápida para impedir a criação de um grande grupo no ciclismo. No primeiro km do ciclismo já estava completamente fora de prova.

fp: Os JO é uma prova diferente de todas as outras em termos de exposição mediática. Sentiste que essa exposição te motivou, pelas mensagens de apoio que foste recebendo ou, pelo contrário, transmitiu-te maior pressão?

MA: Eu sou um atleta muito relaxado, por vezes até de mais (risos) e não costumo sentir pressão antes das provas. E senti aquela como “mais uma prova”. Não tinha de provar nada a ninguém. O que tinha de provar era a mim mesmo e já o tinha feito: que conseguia estar nos Jogos Olímpicos.

O que senti muito foi o apoio…mais do que esperava. A quantidade de mensagens que recebi e a quantidade de pessoas que nos apoiaram durante a prova foi surpreendente porque não esperava tanto e isso fez-me ficar ainda mais feliz por estar lá.

Miguel Arraiolos e o Presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, Mário Pereira | Fonte: noticiasdealpiarca.blogspot.com

fp: Depois do memorável ano de 2016, começaste 2017 a renovar com o teu clube – Benfica – até 2020. Colocava-te duas perguntas: em primeiro lugar, o que significa para ti esse voto de confiança e em segundo lugar que importância tem esta estabilidade na tua preparação para Tóquio?

MA: Tenho de fazer um esclarecimento. Eu renovei contrato até 2018, com mais 2 de opção. Saíram várias notícias que davam conta da renovação até 2020, mas o que é certo é que o contrato é válido até 2018 e depois poder-se-ão rever as cláusulas e, então prolongar até 2020.

O Benfica é o clube com o melhor projecto olímpico para o triatlo. Tem um grupo de elite e de jovens promessas muito bom e a aposta é muito forte.

No Benfica tenho tudo o que preciso para me preparar devidamente. Tenho gabinete médico, fisioterapia, piscinas, etc…tudo o que preciso do Benfica, eu tenho de um dia para o outro e isso é muito importante na minha preparação.

E depois é o Benfica, o maior clube de Portugal e do mundo, como sempre ouvi dizer (risos). Mesmo para obtenção de patrocínios, é muito vantajoso estar associado ao Benfica e a relação é muito boa.

E já que falo em patrocinadores, aproveito para agradecer à PROZIS, Under Armour e Zone3 a confiança que também eles depositaram em mim, continuando a apoiar-me.

Miguel Arraiolos renovou com o Benfica a 4 de Janeiro de 2017 | Foto: SL Benfica

fp: Percebendo já, claramente, quais são os teus objectivos daqui a 3 anos e meio. Quais são os teus objectivos mais imediatos, nessa tua caminhada para Tóquio?

MA: Um passo de cada vez. Primeiro há que garantir a qualificação olímpica, mas desta vez de forma mais confortável, se possível.

Não gostava de voltar a entrar no ano dos JO ainda com a qualificação em dúvida e ter de voltar a fazer muitas provas. Espero que em 2020 o meu foco seja única e exclusivamente a prova nos JO.

Depois há a participação em mundiais e europeus e atingir os meus melhores resultados em Taças do Mundo e ir subindo consistentemente nos rankings mundiais.

fp: Tu já referiste a Vanessa Fernandes, uma triatleta que é também uma grande referência do desporto nacional. Sentes que os sucessos dela abriram portas para ti e todos os que surgiram na cena internacional depois dela? E sobretudo, se a nível nacional ajudou a atrair mais praticantes para o triatlo (o número quase que quadriplicou nos últimos 10 anos)?

MA: Claramente! A maior parte das pessoas que hoje praticam triatlo, começaram por causa dela. Ela fez do triatlo uma modalidade conhecida em Portugal. O triatlo tem um antes e um depois da Vanessa.

Ela não é só uma referência para os jovens triatletas que estão agora a começar a competir no triatlo. Há muita gente que experimenta a modalidade de forma amadora por causa da Vanessa Fernandes.

E depois os sucessos da Vanessa também beneficiaram financeiramente a Federação. As suas vitórias fizeram aumentar bastante o número de federados, fazendo aumentar o financiamento da Federação via Instituto Português do Desporto e Juventude e via Comité Olímpico de Portugal.

fp: E tu, gostavas que daqui a uns anos os novos campeões de triatlo dissessem que escolheram o triatlo por causa do Miguel Arraiolos?

MA: Na minha rua já toda a gente pratica triatlo por causa de mim (risos).

O que eu gostava mesmo é que em Portugal houvesse pelo menos mais uma Vanessa Fernandes. A modalidade precisa de outra Vanessa para a ajudar a crescer ainda mais. O objectivo de todos os que estão envolvidos no triatlo é precisamente esse: contribuir, um bocadinho que seja, para o prestígio da modalidade.

fp: Há FairPlay no Triatlo?

MA: Há atletas um bocado malandros! Na natação em águas abertas há muito contacto e muitas vezes há um ou outro murro que aparece sem se perceber de onde veio, mas tudo isso é normal quando há muitos atletas à procura da melhor posição.

No final acaba por haver fairplay, porque sem adversários não havia competições. Eu gosto de chegar à meta e cumprimentar os adversários e sinto que toda a gente gosta de comunicar e partilhar os momentos, muitas vezes comuns, que se têm durante uma prova.

fp: Deixa-nos uma mensagem para os leitores do Fair Play e particularmente para os mais novos que te estão a ler e a ficar com vontade de começar a praticar triatlo.

MA: Quando se pensa em começar a praticar um desporto, por vezes há a indecisão se se vai experimentar o atletismo, a natação ou o ciclismo. No triatlo não é preciso decidir porque praticam as três. Por isso, venham para o triatlo que não se vão arrepender!

O triatlo é uma modalidade muito desafiante e quem experimenta gosta. Até pode não gostar muito de uma das disciplinas, mas em conjunto acaba por se divertir porque é um desafio terminar essa disciplina e iniciar a próxima. É como uma corrida de obstáculos.

Para a equipa do FairPlay, espero que venham todos experimentar o triatlo, pelo menos já têm quem faça a parte da natação (risos).

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João BastosAgosto 24, 201618min2

Os Jogos Olímpicos terminaram e chegou a altura dos balanços, que antecede a fase do alheamento que durará uma olimpíada. O Rio ficará desportivamente marcado pelo ocaso das carreiras olímpicas das estrelas Phelps e Bolt, mas fica também marcado pela ascensão dos cometas Biles e Ledecky. Mas houve muitas mais histórias que ficam na História do Rio2016. Confira a “lista telefónica” dos destaques do Fair Play.

Almaz Ayana – Logo na primeira jornada do Atletismo no Rio, a etíope surpreendeu ao estabelecer um novo record do mundo dos 10 000 metros. O novo máximo podia ser só mais um entre os 19 estabelecidos no Rio de Janeiro, mas este era um dos considerados “imbatíveis”. É que a anterior recordista, a chinesa Wang Junxia era treinada pelo controverso Ma Juren que administrava sangue de tartaruga às suas atletas (substância que se veio a comprovar ter propriedades dopantes) e estabeleceu o record dos 10 000 metros nos Campeonatos Nacionais chineses de 1993, numa pista que ainda hoje se suspeita que teria menos do que os regulamentares 400 metros (Na mesma prova 5 atletas bateram o record mundial). Ayana desfez o mito e correu os 10 km nuns inacreditáveis 29 minutos, 17 segundos e 45 centésimos.

Brasil – Num país em colapso de regime, debatendo-se com problemas de saúde pública como a proliferação do vírus zika, com infra-estruturas por finalizar semanas antes do início dos JO e com os brasileiros na rua em protesto, os Jogos da XXXI Olimpíada tinham tudo para correr mal, mas o que é certo é que à boa maneira brasileira, quando se “cortou a fita” a organização esteve à altura do maior evento desportivo do planeta, marcando a diferença nos pequenos pormenores.

Canoagem – Faltou a legitimamente desejada medalha, mas o que é facto é que a canoagem portuguesa tem de ser distinguida pela sua prestação no Rio. Só o facto de em Londres a prata de Fernando Pimenta e Emanuel Silva ter sido uma surpresa e 4 anos volvidos se considerar uma desilusão não se ter repetido o feito já é sintomático da enorme progressão que a modalidade sofreu no nosso país. Com uma das delegações mais representativas em número dentro da modalidade, a canoagem trouxe para Portugal 3 diplomas olímpicos, tantos como aquela que tem sido a modalidade bandeira de Portugal em Jogos Olímpicos, o atletismo.

Foto: RTP
Só faltou a medalha para servir de atestado da evolução da canoagem portuguesa | Foto: RTP

Decatlo – Os atletas do decatlo são comummente apelidados de “super atletas”, e não é para menos, fazer 10 provas em dois dias não é para qualquer um, ainda para mais ao nível a que cada uma dessas provas tem de ser cumprida para os decatlonistas que têm aspirações elevadas. Mas entre estes super atletas, há um que é mais super que todos os outros: o americano Ashton Eaton, o bi-bi-campeão mundial (ao ar livre e em pista coberta) e agora bi-campeão olímpico. Eaton é recordista mundial desde 2012, quando superou a grande referência do decatlo (antes dele), o checo Roman Sebrle. O ano passado, nos mundiais, Eaton superou-se a si próprio e estabeleceu nova melhor marca de sempre com os 9045 pontos. No Rio “só” fez 8893 mas foi suficiente não só para ganhar como para igualar o record olímpico de Sebrle em Atenas.

EUA – Quem seguiu intensamente os Jogos vai dizer que o hit de Verão de 2016 foi o hino dos EUA. O Rio confirmou que o Team USA é a maior potência desportiva mundial. De resto, desde a última participação da URSS (como equipa unificada em 1992), os EUA só não ocuparam o primeiro lugar da tabela em Pequim 2008, quando a China teve “camiões” de campeões olímpicos de quem nunca mais se ouviu falar. Com o mesmo número de ouros que em 2012 (46), mas com mais 18 medalhas no total (121), os EUA tiveram a sua melhor edição de sempre, constituindo esta participação como certificado de qualidade da política desportiva americana, única no mundo inteiro.

Fraternidade – Foram vários os irmãos que competiam no Rio, fosse para conquistar títulos em conjunto, fosse para ocupar mais que um lugar no pódio, fosse para levar o ouro no masculino e no feminino para a família. O par mais famoso é o das irmãs Williams que não repetiram o ouro de Sydney, Pequim e Londres, ou os irmãos Bender, medalhados de prata pela Alemanha no Futebol, mas a família mais representada era a família Luik, da Letónia com as trigémeas Leina, Liina e Lily na maratona e a mais sui generis é a família  Gleghorne da Irlanda do Norte. Uma vez que podem escolher representar a Grã-Bretanha ou a Irlanda, Mark (o mais velho) jogou a competição de hóquei em campo pela GBR e Paul (o mais novo) pela Irlanda. Contudo, os mais bem sucedidos foram os Brownlee (ouro e prata no triatlo) e as Fisher, campeãs olímpicas de pólo aquático pelos EUA.

As trigémeas Leina, Liina e Lily da Estónia | Foto: Newsoxy.com
As trigémeas Leina, Liina e Lily da Estónia | Foto: Newsoxy.com

Grã-Bretanha – Para os “seus” JO há 4 anos, os britânicos puseram em prática um projecto que tinha como objectivo a obtenção de 20 medalhas de ouro. Conseguiram 29 e a terceira posição do medalheiro. Para os Jogos do Rio decidiram reforçar o orçamento em 10% adjudicando parte das receitas fiscais obtidas com as casas de apostas, e mais uma vez a aposta (passando a redundância) deu resultado. Apenas os EUA ganharam mais ouro que a Grã-Bretanha e apesar de ter levado menos dois títulos que há 4 anos, conseguiram mais duas medalhas no total (67). Um caso sério de estudo!

Horários – O público português que não estava de férias fez um esforço olímpico para acompanhar algumas provas. Por exemplo, o “prato forte” da primeira semana – a natação – era servida até às 4 da manhã…talvez por isso muitos opinadores tenham escrito sobre provas que aconteceram e atletas que competiram enquanto dormiam (mas disso falaremos mais à frente).

Ilhas Fiji – O rugby fez parte do calendário olímpico na sua vertente de 15 nos idos anos de 1900, 1908, 1920 e 1924. Volvidos 92 anos estreou-se na sua vertente de Sevens. E não foi só a disciplina a estrear-se; as Ilhas Fiji obtiveram a sua primeira medalha olímpica de sempre…e logo a de ouro. Um feito notável para uma pequena nação que em todas as edições dos JO soma 40 participações de atletas, maioritariamente ao abrigo do critério da universalidade. Um belo marco para recomeçar a história do rugby na história olímpica. E as Fiji não se limitaram a ganhar, na final “cilindraram” a Grã-Bretanha por 43-07!

Fiji
Um a um os jogadores das Fiji ajoelharam-se quando receberam a medalha das mãos da Princesa Anne | Foto: Reuters

Justiça – É a forma como podemos adjectivar a obtenção da medalha de bronze de Telma Monteiro. A competir nos seus quartos Jogos Olímpicos, a judoca penta-campeã da Europa tinha chegado a Pequim e a Londres com grandes perspectivas de medalha. Das duas vezes experimentou o amargo sabor da desilusão e chegando ao Rio, vinda de lesão, eram poucos (ou menos) os que nela apostavam. Mas Telma conseguiu finalmente um dos metais mais preciosos, sendo o único que Portugal trouxe do Brasil (apenas quisemos registar a ironia). Que a resiliência e a confiança de Telma sirva de exemplo a todos os atletas portugueses que nestes JO ficaram desapontados com a sua prestação para que em futuras edições aconteça justiça, como agora aconteceu a Telma Monteiro. #EuVimPraFicar

Telma Monteiro trouxe a única medalha portuguesa do Rio 2016 | Foto: Epa
Telma Monteiro trouxe a única medalha portuguesa do Rio 2016 | Foto: Epa

Katie Ledecky – Os amantes da natação já se estavam a mentalizar que iriam passar por um longo período de ressaca pós-Phelps, antevendo-se com o abandono do nadador americano um vazio e ao mesmo tempo uma disputa equilibrada pelo “título” de referência máxima das piscinas. Nada mais errado. A jovem Ledecky com apenas 19 anos confirmou-se como o grande nome a seguir nos próximos tempos, seguindo já com 5 ouros e uma prata na sua conta pessoal de medalhas olímpicas (Phelps aos 19 anos tinha 6 ouros e 2 bronzes) e juntando a isso 12 records mundiais (Phelps tinha 14 na sua idade). Há mais um fenómeno à solta nas piscinas.

Lochtegate – O nadador Ryan Lochte protagonizou uma cena lamentável que embaraçou não só a missão olímpica dos EUA, como a administração Obama. De forma a justificar à namorada a sua saída nocturna mais comprida que o previsto, inventou que tinha sido vítima de um assalto, horas antes de sair do Brasil, deixando os companheiros que consigo tinham sido “vítimas” para trás a acarretar com as consequências. Jack Conger e Gunnar Bentz (os caloiros da natação americana) tiveram de pagar 10 000 dólares para poderem sair do país. Resultado: A Speedo, principal patrocinador de Lochte, já anunciou que vai retirar o patrocínio.

Michael Phelps – Desta vez foi de vez. O Rio viu Michael Phelps terminar a carreira em glória. O desportista que mais medalhas ganhou em Jogos Olímpicos, na era moderna e na era antiga, “pendurou a sunga” aos 31 anos de idade com 28 medalhas conquistadas, 23 de ouro, um registo que muito dificilmente será alguma vez batido. No Rio, Phelps conquistou 5 ouros e uma prata, depois de ter abandonado em 2012 e regressado em 2014, e pelo caminho ter resolvido problemas relacionados com o álcool. Todo este “rise and shine” (ou o pré-argumento de filme/documentário à boa maneira americana) só tornou mais épico o final de carreira da bala de Baltimore.

Michael Phelps encerrou a sua carreira no Rio de Janeiro | Foto: USA Swimming
Michael Phelps encerrou a sua carreira no Rio de Janeiro | Foto: USA Swimming

Naturalizações – Num mundo global, é cada vez mais regular que vários atletas compitam por outro país que não aquele que o viu nascer. E muitas vezes revelam um patriotismo superior aos “nativos” pois reconhecem que foi esse país adoptivo que lhes permitiu ter a carreira e a vida que têm. Mas depois há outro tipo de naturalizações, as chamadas “naturalizações marteladas”, ou seja, de atletas que a única relação que têm com o país que representam é o fato de treino que vestem (e o saldo da conta bancária). Países como o Qatar, Turquia e Bahrein são useiros e vezeiros nessa prática. O Bahrein conquistou duas medalhas, uma de ouro e outra de prata por intermédio de duas atletas que nasceram, vivem e treinam no Quénia. Será que no futuro os JO serão uma competição de clubes sob a égide de nações?

Onze Mil – 11544 atletas estiveram a competir no Rio, um record absoluto, ultrapassando Londres em cerca de 1000 atletas. E o número promete crescer já que para Tóquio foram anunciadas mais 6 modalidades em disputa.

Público – Provavelmente, a maior marca identitária que fica destes Jogos Olímpicos foi o espectáculo dentro do espectáculo que é o público brasileiro. De sangue muito quente, todos os recintos desportivos do Rio tiveram um ambiente constante de festa e contínuo apoio aos atletas brasileiros. Porém, houve vários excessos que, em alguns casos, condicionaram o desempenho desportivo dos intervenientes. Desde falsas partidas por se confundir o sinal de start com o barulho das bancadas, ao episódio com Renaud Lavillenie, aos recorrentes apupos aos atletas russos. No meio do samba, faltou por vezes a bossa nova.

Quarenta e duas – Foi o número de modalidades em competição no Rio 2016. Um número mitológico no universo olímpico, nomeadamente para o atletismo (quilometragem da maratona). Em Londres foram 40 disciplinas (entrou rugby 7’s e golf) e para Tóquio já estão anunciadas mais 6 modalidades (karaté, baseball, softball, escalada, skateboarding e surf).

Rússia – Os Jogos do Rio ficam indelevelmente marcados pelo escândalo do esquema de dopagem do governo russo e da inacreditável demissão de responsabilidades do COI que atirou a decisão sobre a participação dos atletas russos para as Federações de cada modalidade, criando-se situações caricatas de atletas que estiveram, deixaram de estar e voltaram a estar admitidos aos JO “ene” vezes a uma semana de competirem. A (não) decisão do COI só veio contribuir para criar uma atmosfera hostil para os atletas russos e um clima de suspeição sobre os resultados obtidos. No final, mesmo com muitos ausentes, a Rússia acaba no 4º lugar do medalheiro.

Simone Biles – “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps, sou a primeira Simone Biles” a frase de Biles na primeira pessoa resume tudo sobre este cometa que apareceu na ginástica. Depois de Bolt e Phelps terem atingido uma dimensão maior que os próprios desportos que praticam, chegou a vez da ginástica ter a sua grande referência. Biles até pode não ultrapassar as impressionantes 18 medalhas olímpicas de Larissa Latynina ou nunca ter um “perfect 10” em JO como Nadia Comaneci (porque foi introduzido o critério da dificuldade dos exercícios), mas está destinada a fazer o que nunca ninguém fez, como nunca ninguém fez (porque foi introduzido o critério da dificuldade dos exercícios). No Rio, um desequilíbrio na trave impediu-a de ser isoladamente a ginasta com mais ouros numa só edição dos JO, mas aos 19 anos este foi apenas um prólogo de que aí vem por parte de “the Biles”.

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Simone Biles promete dar uma volta de 360º à ginástica mundial.

Teddy Riner – Sem o protagonismo de outros olímpicos, Teddy Riner é provavelmente o desportista mais dominante na sua modalidade. A carreira do gigante judoca francês é absolutamente impressionante, dominando o escalão +100 kg desde 2007. Desde então, já foram 9 títulos mundiais (só não ganhou em 2012), 4 títulos europeus e agora é bi-campeão olímpico (foi bronze em Pequim). Apesar deste longo currículo, Riner ainda só tem 27 anos, numa modalidade com uma grande longevidade, ainda está para vir muito mais do Teddy Bear.

Usain Bolt – Pendura as botas no que aos Jogos Olímpicos diz respeito de forma invicta. Seja a correr sozinho ou em equipa, seja nos 100 ou nos 200 nunca ninguém poderá dizer que bateu Bolt em Jogos Olímpicos. O Trovão marcou uma era e deixou um legado difícil de superar (muitos biomecânicos afirmam que já não é possível correr 100 metros mais rápido que 9.58 segundos). Bolt deixa marca não só pelo atleta fenomenal que é, mas também pelo seu carisma que cativou muitos espectadores para o atletismo, que por isso muito lhe deve. No seu museu pessoal figuram as 9 medalhas de ouro conquistadas em Pequim, Londres e Rio de Janeiro.

Usain Bolt sempre esteve um passo à frente da concorrência | Foto: Sports Illustrated

Verde – Era a cor da piscina de saltos que intrigou o mundo. Em comunicado oficial, o Comité Organizador do Rio 2016 esclareceu que a culpa foi de uma alga, mas que a saúde dos saltadores estava salvaguardada. A explicação continuou a intrigar já que seria um problema facilmente resolúvel em qualquer piscina caseira, estranha-se que não o tenha sido na piscina olímpica de imediato.

Wayde van Niekerk – Apesar de ser o campeão do mundo dos 400 metros, muitos atribuíam o favoritismo da prova ao americano LaShawn Merritt e ao atleta de Granada Kirani James. Ainda para mais, na final calhou em sorte a pista 8 ao sul-africano, estando “condenado” a correr a prova sem qualquer referência. Nada disso o intimidou e partiu para a volta à pista mais rápido que todos. Quando se pensava que quebraria na recta da meta, ainda acelerou para fazer o impensável: marcar 43.03 segundos e apagar o mítico Michael Johnson da lista de recordistas mundiais. Ficou à beira de se tornar o primeiro homem a correr abaixo de 43 segundos, mas ainda agora fez 24 anos.

X – O gesto que Feyisa Lilesa fez com os braços cruzados acima da cabeça ao chegar à meta na maratona e que lhe pode custar a vida. O gesto simbolizava um protesto de Lilesa contra a limpeza étnica que o governo etíope está a levar a cabo dirigido ao povo oromo. Lilesa procura agora asilo nos EUA pois crê que será executado se voltar à Etiópia. Os Jogos Olímpicos sempre foram férteis em episódios de protestos a favor dos direitos humanos, como a icónica imagem do pódio dos 200 metros do México 68…o que é triste é que 50 anos depois as razões de protesto continuem a ser as mesmas.

O gesto que pode custar a vida a Feyisa Lilesa | Foto: OLIVIER MORIN/AFP/GETTY IMAGES
O gesto que pode custar a vida a Feyisa Lilesa | Foto: OLIVIER MORIN/AFP/GETTY IMAGES

Yusra Mardini – O nome pode não ser familiar, e a história desta nadadora de 18 anos não se conta com medalhas ou records, mas é uma história muito mais impressionante. Yusra, como muitos, atravessou o mediterrâneo desde a Síria com destino à Europa. O motor da embarcação onde seguia avariou e o barco começou a afundar. Foi quando Mardini e seis outras pessoas que seguiam viagem ataram uma corda à cintura e puxaram o barco durante 5 km a nado. Hoje reside e treina em Berlim e foi uma das representantes da equipa dos refugiados, pela primeira vez representada em Jogos Olímpicos. No Rio, houve muitos atletas que venceram a prova da sua vida, Yusra Mardini ainda antes de subir ao bloco no Rio já tinha vencido a prova pela sua vida!

Zapping – Com 102 provas em disputa, era impossível acompanhar a par e passo tudo o que se passava no Rio, mas o zapping por vezes também era necessário para evitar ouvir as incorrecções, equívocos e demonstrações de ignorância que alguns comentadores com frequência evidenciavam. É recorrente considerar que os portugueses são pouco dotados de cultura desportiva. É um facto que o futebol, quer enquanto desporto, quer enquanto fenómeno social, preenche fortemente os interesses de grande parte da população, “secando” a projecção de outras modalidades. Mas a parca cultura desportiva dos portugueses não resulta só do seu próprio desinteresse. Resulta na sua grande parte na total ignorância de opinion makers, comentadores e tudólogos que preenchem os órgãos de comunicação social nacionais. O facto de só existirem JO de 4 em 4 anos podia ser um pretexto para “dar a palavra” a especialistas que pudessem veicular fundamentos técnicos e tácticos das várias modalidades, bem como as diversas realidades. Em vez disso, assiste-se a uma sequência inenarrável de tiradas desinformadas de quem teria o dever de informar e de se informar.

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João BastosAgosto 14, 20167min0

A última jornada de natação no Rio de Janeiro foi também a última jornada desportiva de Michael Phelps, o maior desportista olímpico de todos os tempos. 28 medalhas, 23 ouros e 39 records do mundo depois, o Rei vaga um trono muito difícil de vir a ser ocupado.

Blume consoma a surpresa

O último título individual feminino do Rio foi para Pernille Blume | Fonte: Reuters
O último título individual feminino do Rio foi para Pernille Blume | Fonte: Reuters

É difícil classificar a vitória da dinamarquesa Pernille Blume nos 50 metros livres como uma surpresa, já que fez o melhor tempo das eliminatórias e também das meias finais. Ela tinha avisado!

Mas a verdade é que chegava ao Rio apenas com o 10º melhor tempo da start list e ia enfrentar na final a nadadora mais rápida de sempre sem fatos de poliuretano, a campeã olímpica em título, a vice-campeã olímpica e a vencedora dos 100 metros livres, entre outras nadadoras com grande currículo.

Nada disso impressionou a dinamarquesa que venceu com 24.07, superiorizando-se à americana Simone Manuel que teve um torneio olímpico de sonho e juntou ao ouro dos 100 metros, a prata nos 50 com o tempo de 24.09. A búlgara Aliaksandra Herasimenia desceu um lugar relativamente aos Jogos de há 4 anos, levando desta vez o bronze com 24.11.

Cate Campbell, a grande favorita, tal como nos 100 (onde é recordista do mundo) voltou a desiludir e ficou apenas em 5º, consumando a desilusão que constituiu para ela estes Jogos Olímpicos.

Imperador Paltrinieri vence de ponta a ponta

Paltrinieri juntou o título olímpico ao título mundial. Falta agora o record do mundo | fonte: Zimbio
Paltrinieri juntou o título olímpico ao título mundial. Falta agora o record do mundo | fonte: Zimbio

Sem a concorrência de Sun Yang, o campeão do mundo, recordista europeu e segundo melhor de sempre Grigorio Paltrinieri, de Itália, era o único favorito na prova mais longa do programa da natação em piscina, os 1500 metros, e quis prová-lo desde o início. Paltrinieri nadou a prova sempre sozinho e sempre abaixo do parcial para record do mundo de Sun Yang. No entanto, para se sagrar o homem mais rápido de sempre nos 1500 metros, o italiano sabia que tinha de entrar nos últimos 100 metros com uma margem de 3 ou 4 segundos sobre o parcial do record, uma vez que o chinês concluiu a sua prova em Londres (onde estabeleceu o record do mundo) em 53.49, o que é um tempo surreal para conclusão de uma prova de 1500 metros.

Grigorio Paltrinieri não conseguiu manter a vantagem para a marca e terminou com 14:34.57 (3.55 segundos acima do record mundial). Título olímpico e bronze para a Itália, com Gabriele Detti em 14:40.86 a repetir o lugar dos 400 metros. Entre os dois ficou o americano Connor Jaeger que para além da prata, consegue também o record americano com 14:39.48. Paltrinieri e Jaeger repetiram os primeiro e segundo lugares do mundial do ano passado.

Americanas fecham com chave de ouro

Americanas campeãs olímpicas dos 4x100 estilos | Fonte: USA Swimming
Americanas campeãs olímpicas dos 4×100 estilos | Fonte: USA Swimming

As americanas vinham para a estafeta 4×100 metros estilos como favoritas, mas antes de se iniciarem os Jogos Olímpicos, a Austrália era encarada como a equipa com fortes possibilidades de estragar a festa às americanas, já que tinham teoricamente melhores percursos de costas e crawl, com uma mariposa equilibrada. Mas depois destes 8 dias em que as americanas se mostraram no seu melhor e as australianas no seu pior, já ninguém esperava que o título não fosse para os States.

E assim foi. Os EUA com um quarteto constituído por Kathleen Baker (vice-campeã nos 100 costas) que nadou em 59.00, Lilly King (campeã nos 100 bruços) nadou em 1:05.70, Dana Vollmer (bronze nos 100 mariposa) em 56.00 e Simone Manuel (campeã dos 100 livres) que fechou a estafeta em 52.43. O tempo total da equipa dourada foi de 3:53.13.

A Austrália de alguma maneira “limpou a face” e chegou à prata, com prestações individuais até bastante positivas. O entrave para lutar pelo ouro foi mesmo o percurso de bruços. Emily Seebohm (58.83), Taylor McKeown (1:07.05), Emma McKeon (56.95) e Cate Campbell (52.17) completaram o percurso em 3:55.00.

Apenas 1 centésimo depois chegou a fantástica equipa da Dinamarca. Mie Nielsen (58.75), Rikke Moller Pedersen (1:06.62), Jeanette Ottesen (56.43) e Pernille Blume (53.21) fecharam no bronze com 3:55.01.

E fechou-se a cortina a Michael Phelps

EUA ganham 5 estafetas em 6 | Fonte: Reuters
EUA ganham 5 estafetas em 6 | Fonte: Reuters

A prova de despedida e consagração de Michael Phelps foram os 4×100 metros estilos, prova que faz parte do calendário olímpico desde 1960 e que os EUA nunca perderam. Era por isso praticamente garantido que Phelps ia sair do palco onde foi o protagonista nos últimos 16 anos pela porta grande. Ainda para mais quando o quarteto era composto pelo campeão dos 100 costas, pelo terceiro classificado dos 100 bruços, pelo vice-campeão dos 100 mariposa e pelo medalha de bronze dos 100 livres.

Para a despedida, Phelps viu-se envolvido numa verdadeira prova de loucos. Ryan Murphy abriu a estafeta com novo record mundial dos 100 metros costas, batendo o tempo de 2009 de Aaron Peirsol. Abriu a estafeta americana em 51.85, dado uma vantagem que parecia ser super confortável para o resto da equipa. O problema é que pela Grã-Bretanha ia nadar o fenómeno Adam Peaty que foi o primeiro ser humano a nadar um parcial de 100 bruços em 56 segundos! (Na realidade, nem sequer nunca ninguém nadou em 57). Peaty percorreu o percurso em 56.59 levando a estafeta britânica ao primeiro lugar.

Mas essa prestação de Peaty só veio abrilhantar a festa de Phelps que ficou com a responsabilidade de ultrapassar os britânicos…e assim o fez, sendo o homem mais rápido na piscina no percurso de mariposa. 50.33 foi o parcial de Phelps. Para selar a vitória, Nathan Adrian nadou o percurso de livres em 46.74. O resultado final da estafeta composta por Ryan Murphy, Cody Miller (59.03), Michael Phelps e Nathan Adrian foi um novo record olímpico, em cima do record do mundo (que seria uma despedida ainda mais de sonho para Phelps) em 3:27.95.

A Grã-Bretanha ficou com a prata em 3:29.24 com um quarteto composto por Chris Walker-Hebborn em 53.68, Adam Peaty, James Guy em 51.35 e Duncan Scott em 47.62, fechando em 3:29.24.

O bronze ficou para Austrália que também nos masculinos ficou aquém do que podia fazer, uma vez que chegava ao Rio com os melhores nadadores do ano nos 100 costas e 100 livres. Mitch Larkin (53.19), Jake Packard (58.84), David Morgan (51.18) e Kyle Chalmers (46.72) fecharam a prova em 3:29.93.

E assim se despediu o maior desportista olímpico de todos os tempos. Foi a 23ª medalha de ouro olímpica, de um total de 28 medalhas. Na História do Olimpismo da era moderna apenas 38 países em 116 anos conseguiram conquistar mais medalhas de ouro que Phelps em 16. Até em relação aos Jogos da era antiga bateu um record, este com 2168 anos ao superar o grego Leonidas de Rôdes que ganhou 12 medalhas de ouro individuais. Phelps ganhou o número da sorte de 13.
Durante a sua carreira, Phelps bateu 39 records do mundo, durante 16 anos o desporto natação confundiu-se com Phelps, um atleta que muitas vezes foi maior que o maior evento desportivo do mundo….Foi Phelps e foi um privilégio testemunhar a sua lenda!

Fonte: USA Swimming
Fonte: USA Swimming
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João BastosAgosto 13, 20168min0

Hoje foi a jornada dos estraga festas. O maior medalhista olímpico teve de partilhar a sua última medalha individual e Hosszu não conseguiu fazer o pleno. Já Ledecky não tem rivais e Ervin volta a ser campeão…16 anos depois.

Dirado surpreende a Dama de Ferro

Maya Dirado vingou as derrotas nas provas de estilos para Katinka Hosszu | Fonte: Getty Images
Maya Dirado vingou as derrotas nas provas de estilos para Katinka Hosszu | Fonte: Getty Images

Katinka Hosszu vinha determinada a concluir a sua participação nos Jogos Olímpicos de forma invicta, querendo levar para casa o quarto ouro, desta feita nos 200 metros costas. Para os húngaros, esta seria talvez a prova com maior relação afectiva, uma vez que a maior nadadora húngara de todos os tempos Krisztina Egerszegi venceu-a em três JO consecutivos, entre 88 e 96.

Katinka partiu forte, com passagem abaixo do parcial de record do mundo aos 50 metros e liderou a prova até bem perto do fim, mas o esforço empregue no início fez-se sentir nos últimos metros e a americana Maya Dirado conseguiu ultrapassar a húngara em cima da parede. 2:05.99 da americana contra 2:06.05 da húngara foram as marcas da única derrota da Dama de Ferro no Rio. Para o Canadá vai mais uma medalha na natação feminina. Hilary Caldwell fez bronze com 2:07.54.

O beliscão da lenda veio de Singapura

Joseph Schooling teve a audácia de vencer a última prova de Phelps | Fonte: Reuters
Joseph Schooling teve a audácia de vencer a última prova de Phelps | Fonte: Reuters

Michael Phelps nadou a sua última prova individual! Ainda vai nadar a estafeta de 4×100 metros estilos, mas antes da derradeira prova o seu saldo vai em 27 medalhas, 22 de ouro. Durante os seus 5 Jogos Olímpicos e mais de duas dezenas de vitórias, Phelps protagonizou duelos épicos com nadadores como Ian Thorpe, Pieter van den Hoogenband ou Ryan Lochte. A sua vitória mais apertada foi nos 100 mariposa em Pequim contra o sérvio Milorav Cavic, quando venceu a prova por 1 centésimo, mas venceu…e já ia numa série de 3 JO seguidos a vencer esta prova.

Ontem tinha-se tornado no primeiro nadador tetra-campeão numa única prova, e hoje ia tentar fazê-lo duas vezes mas não conseguiu aumentar ainda mais a sua lenda. E o responsável por isso podia ser Chad le Clos ou Laszlo Cseh, nadadores com um currículo que lhes permitia “sonhar” vencer Phelps. Mas não…essa honra ficou para o surpreendente Joseph Schooling, o primeiro campeão olímpico na natação da Singapura! Schooling até pode não conquistar mais nada na sua carreira, que o seu nome já vai ficar nos anais da História da natação e dos Jogos Olímpicos.

E não se pense que foi Phelps que falhou, foi mesmo o singapurense que se transcendeu e com os seus 50.39 estabeleceu novo record olímpico…que pertencia a Phelps!

A ironia não se ficou por aqui, pois no final Phelps sagrou-se vice-campeão olímpico. Mas não foi o único. Na prova de 200 metros antevia-se um “trielo” com le Clos e Laszlo Cseh que acabou por não acontecer, tal a superioridade de Phelps. Mas na prova de 100 acabaram os três por fazer o mesmo tempo e partilhar a medalha de prata. 51.14 foi a marca feita pelos três.

Ledecky e as outras

Ledecky é o maior fenómeno da actualidade | Fonte: AFP
Ledecky é o maior fenómeno da actualidade | Fonte: AFP

Nos 800 metros livres não houve espaço para mais surpresas. Katie Ledecky, como antevimos, não deu confiança a ninguém a nadou completamente sozinha, numa prova que não seria fácil de acompanhar para muitos nadadores masculinos (o tempo final é melhor que o record português masculino, por exemplo).

A nadadora americana terminou com o novo record mundial absolutamente estratosférico de 8:04.79 para conseguir o ouro mais confortável de sempre da história da prova com os 11.38 segundos de vantagem. A vantagem de Ledecky foi de tal forma grande que não permitiu que a prova das restantes nadadoras fosse televisionada.

Mas não foi porque as companheiras de Ledecky no pódio fizessem maus tempos. Os 8:16.17 da britânica Jazzmin Carlin que lhe deram a prata e os 8:16.37 da húngara Boglarka Kapas que valeu bronze são a 10ª e a 13ª melhor marca de sempre (as 5 primeiras são de Ledecky).

Depois da chuva de records mundiais nos dois primeiros dias, volta a cair um máximo mundial ao penúltimo dia da natação.

Ervin 16 anos depois

Ervin foi campeão olímpico em 2000, teve problemas com drogas e álcool, síndrome de Tourette, depressão e volta a ser campeão em 2016 | Fonte: AP
Ervin foi campeão olímpico em 2000, teve problemas com drogas e álcool, síndrome de Tourette, depressão e volta a ser campeão em 2016 | Fonte: AP

A natação no Rio está a ser pródiga em histórias que certamente perdurarão no tempo, desde os feitos históricos de Phelps, à marca inédita de Simone Manuel, aos records do outro mundo de Ledecky, ao surgimento de fenómenos como Chalmers e Oleksiak até às meras curiosidades como as medalhas ex-aequo.

A prova dos 50 metros livres trouxe-nos outra história fantástica, protagonizada pelo americano Anthony Ervin. Ervin já tinha sido campeão olímpico nesta prova, mas até aí não há nada de extraordinário. O que é extraordinário é que Ervin foi campeão olímpico dos 50 metros livres nos Jogos Olímpicos de Sydney. Isso mesmo…há 16 anos!

Na altura dividiu o ouro com o compatriota Gary Hall, Jr. e evidenciou-se por ter sido o campeão olímpico mais jovem de sempre nos 50 livres (19 anos). No Rio volta a evidenciar-se por ter sido o campeão olímpico mais velho de sempre nos 50 livres (35 anos). 21.40 foi a marca em 2016. 21.98 tinha sido o tempo em 2000.

O francês Laurent Manaudou vinha defender o seu título (a um dia de concluir o programa da natação apenas Phelps nos 200 estilos e Ledecky nos 800 livres conseguiram revalidar os seus títulos), mas ficou com a prata a apenas 1 centésimo do americano.

No lugar mais baixo do pódio ficou Nathan Adrian que repetiu a posição dos 100 metros. O americano fez o tempo de 21.49.

Records do mundo em perspectiva para a jornada de amanhã

Na jornada da manhã foram nadadas as eliminatórias dos 1500 metros livres masculinos, uma prova com final directa, que trouxeram grandes marcas (a final fechou bem abaixo dos 15 minutos) e trouxeram a confirmação que o recordista do mundo e campeão olímpico Sun Yang já não quer nada com esta prova. Na sua eliminatória o chinês liderou até aos 1000 metros e depois travou autenticamente para terminar em 15:01.97 e no 16º lugar. O seu record do mundo é de 14:31.02. O vencedor das eliminatórias foi o recente campeão e recordista da Europa e grande favorito para a final, Grigorio Paltrinieri, o italiano que pode ameaçar o record do mundo, qualificou-se tranquilamente com 14:44.51.

As estafetas também são provas de final directa e as de estilos estão a provocar grandes expectativas. A única vez que os EUA não venceram os 4×100 metros estilos masculinos foram em 1980, em Moscovo, quando não participaram, mas nas eliminatórias a Grã-Bretanha impressionou (com Peaty em destaque) e qualificaram-se em primeiro. Na estafeta feminina as favoritas americanas não facilitaram e ficaram a dois segundos do record do mundo com a equipa secundária.

À noite, só foram nadadas as meias finais dos 50 metros livres femininos, a última prova em que faltavam definir as finalistas. A dinamarquesa Pernille Blume (que até tem sido a segunda dinamarquesa, na sombra de Jaenette Ottesen) impressionou quer nas eliminatórias, quer nas meias finais e chega à final com o melhor tempo, mas enfrenta as irmãs Campbell, a campeã em título Ranomi Kromowidjojo, a vice-campeã Aliaksandra Herasmenia, a vencedora dos 100 Simone Manuel, a britânica vice-campeã europeia Francesca Halsall e a nadadora da casa Etiene Medeiros. Por outro lado, as meias finais já fizeram vítimas como a citada Ottesen e as suecas Sjöström e Alshammar.

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João BastosAgosto 11, 20169min1

Dia memorável para as cores nacionais com a meia final de Alexis Santos na jornada das surpresas. Balandin e Chalmers são nomes que entram na lista dos campeões e Mireia foi ao Rio buscar o título que não conseguiu trazer de Londres. Entretanto Ledecky já vai com 3 ouros e uma prata.

A surpresa cazaque

O Cazaquistão vence a sua primeira medalha na natação...e logo de ouro | Fonte: Rio2016
O Cazaquistão vence a sua primeira medalha na natação…e logo de ouro | Fonte: Rio2016

A prova dos 200 metros bruços tinha à partida muitos candidatos que reforçaram a sua candidatura na meia-final. Watanabe inclusive bateu o record olímpico nessa fase, mas havia Prenot, detentor da melhor marca mundial do ano, havia Koch, campeão do mundo em título, havia Cordes, vice-campeão do mundo em título, havia Chupkov, campeão mundial de juniores…enfim, um cartel de luxo.

E de entre tantos candidatos, o título “fugiu” para o outsider cazaque Dmitry Balandin, que foi o último a classificar-se para esta final. 2:07.46 foi o tempo que lhe valeu ouro, quase dois segundos melhor do que o seu record pessoal com que se apurou para o Rio! A primeira grande surpresa na natação destes Jogos Olímpicos.

Josh Prenot (EUA) não conseguiu repetir o tempo que fez nos trials americanos e que continua a ser a melhor marca mundial do ano e ficou com a prata , perfazendo as 4 piscinas em 2:07.53.

Anton Chupkov (Rússia) chega ao bronze olímpico com apenas 19 anos. 2:07.70 foi a marca registada.

Ippei Watanabe tinha batido o record olímpico nas meias finais, mas desiludiu na final e ficou apenas em 6º. De registar o elevado nível médio desta final com 6 nadadores a nadar abaixo dos 2:08 (em 2012 apenas dois o tinham feito e em 2008 – mesmo com fatos de “borracha” – só o campeão conseguiu).

Hala Mireia!

Mireia Belmonte Garcia já conquistou duas medalhas no Rio | Fonte: AFP
Mireia Belmonte Garcia já conquistou duas medalhas no Rio | Fonte: AFP

Ao contrário do sector masculino, a prova dos 200 metros mariposa no sector feminino é parca em figuras de destaque (ainda para mais com a ausência de Hosszu), dando até a ideia de ser uma prova onde o nível actual é baixo, face à diferença para o excelente record do mundo. Mas nem por isso tem sido uma prova pouco competitiva, antes pelo contrário…

E a mais competitiva hoje foi mesmo a espanhola Mireia Belmonte (curiosamente uma antiga colega de treino de Alexis Santos). 2:04.85 foi o tempo dourado de Mireia que há 4 anos tinha sido vice-campeã olímpica. Chegou agora o merecido prémio.

A australiana Madeline Groves chegou apenas 3 centésimos atrás da espanhola para levar a prata, enquanto que a campeã do mundo em título, Natsumi Hoshi (Japão) chegou ao bronze com uma forte ponta final.

E no Rio nasceu uma estrela

Kyle Chalmers é o novo rei dos 100 livres | Fonte: TLA
Kyle Chalmers é o novo rei dos 100 livres | Fonte: TLA

Os 100 metros livres viram nascer aquele que pode bem ser o próximo grande destaque da natação. Na verdade, Kyle Chalmers já brilha há uns anos nos escalões de formação, mas vencer a prova rainha da natação em idade de júnior é “de homem”. Os seus 47.58 colocam-no já como 12º melhor nadador de 100 livres da História à frente de nomes como Thorpe, van den Hoogenband ou Popov e a apenas 7 centésimos do melhor de Phelps…e isto tudo aos 18 anos!

No segundo lugar chegou a segunda surpresa do dia (no espaço que uma prova de 100 metros permite surpresas). O belga Pieter Timmers chegou à prata a nadar na pista 7 e a fazer o tempo de 47.80.

O campeão olímpico em título Nathan Adrian (EUA) desta feita ficou “apenas” com o bronze. 47.85 foi a marca que realizou, 33 centésimos acima do que tinha realizado em Londres. Ainda não foi desta que um nadador revalidou o seu título numa prova individual no Rio.

O australiano líder mundial do ano com grande margem (melhor tempo de sempre sem fatos) Cameron McEvoy desiludiu e foi apenas 7º.

Mais uma estafeta para os EUA

Terceiro ouro para Ledecky...and keep counting | Fonte: USA Swimming
Terceiro ouro para Ledecky…and keep counting | Fonte: USA Swimming

Os EUA continuam a ser reis e senhores, rainhas e senhoras nas estafetas. Até agora, em 4 venceram 3. E os 4×200 metros livres femininos é uma estafeta que os americanos já estão mais que habituados a ganhar.

E mesmo com Missy Franklin completamente fora de forma, ao ponto de ser afastada da equipa da final (quando até foi nadar a prova individual), a equipa dos EUA não deu hipótese selando a vitória apenas no último percurso mas com quase dois segundos de avanço. Abriram com a campeã olímpica de Londres, Allison Schmidt (1:56.21) e fecharam com a campeã olímpica do Rio, Katie Ledecky (1:53.74). Pelo meio nadou Leah Smith (1:56.69) e Maya Dirado (1:56.39) para um total de 7:43.03

As australianas deram luta até onde puderam, mas o quarteto de 4×200 livres não tem a mesma valia do de 4×100. Leah Neale, Emma McKeon, Bronte Barratt e Tamsin Cook nadaram para a prata e para o tempo de 7:44.87.

As jovens canadianas continuam a surpreender o mundo com os seus espectaculares desempenhos. Penny Oleksiak será certamente um nome muito tweetado no final destes Jogos Olímpicos. Katerine Savard, Taylor Ruck, Brittany MacLean e Penny Oleksiak superiorizaram-se à China, chegando ao bronze com 7:45.39.

Phelps e Campbell puxam dos galões nas meias finais

A recordista do mundo dos 100 metros livres, Cate Campbell (Austrália) cumpriu a sua tarefa de forma exemplar, quebrando por duas vezes o record olímpico, primeiro nas eliminatórias com 52.78 e depois nas meias finais com 52.72. Em ambas as provas pareceu ter margem de progressão para a final, mas vai ter de se cuidar com a canadiana Penny Oleksiak que na meia final nadou ao lado da australiana fazendo 52.73, novo record do mundo do juniores (única júnior abaixo de 53′).

Nos 200 metros costas masculinos, mais um teenager em destaque. O russo Evgeny Rylov, de 19 anos, foi o primeiro qualificado para a final, à frente do campeão do mundo Mitchell Larkin (Austrália). 1:54.45 foi o tempo do russo.

A australiana Taylor McKeown, sendo uma nadadora a ter em conta, não é uma das principais favoritas na prova de 200 metros bruços femininos, mas isso não a impediu de se qualificar para a final de forma autoritária no primeiro lugar com 2:21.69. Destaque para o falhanço no apuramento para a final de várias nadadoras que tinham hipóteses de chegar às medalhas: Victoria Gunes (Turquia), Jessica Vall (Espanha) e Kanako Watanabe (Japão).

A meia final que mais nos interessava no dia hoje era a dos 200 metros estilos. Em primeiro lugar porque nadava Alexis Santos (participação que desenvolveremos mais à frente) e depois porque Michael Phelps ia medir forças com Ryan Lochte. No frente-a-frente entre os dois nadadores mais medalhados de sempre, para já Phelps levou vantagem. Qualificou-se para a final com o melhor tempo de 1:55.78 contra o 1:56.28 de Lochte.

Alexis histórico, Diogo aquém do seu melhor

Fonte: COP
Fonte: COP

A natação portuguesa não é uma modalidade com grande expressão a nível mundial (nem mesmo a nível europeu). Até à data o melhor que os nadadores portugueses conseguiram em Jogos Olímpicos foi a final (7º lugar) de Alexandre Yokochi nos 200 metros bruços em Los Angeles 84, seguido da final B (9º lugar) do mesmo nadador e na mesma prova em Seoul 88. Fora estas duas performances, nenhum nadador português tinha sequer passado as eliminatórias nuns Jogos Olímpicos.

O enguiço quebrou-se hoje nos 200 metros estilos com Alexis Santos! Na eliminatória conseguiu classificar-se no 12º lugar geral com o tempo de 1:59.67, novo record pessoal e assim ganhar o direito de nadar à noite.

Na meia final voltou a repetir o 12º lugar, com um tempo ligeiramente superior ao que tinha feito nas eliminatórias. 2:00.08 é a marca que representa a terceira melhor classificação de sempre da natação portuguesa em Jogos Olímpicos.

O recordista nacional dos 200 metros estilos Diogo Carvalho vinha a esta prova com fortes aspirações, uma vez que se qualificou para estes Jogos Olímpicos há mais de um ano e só nadaria esta prova. Partiu forte e determinado a bater o seu record nacional de 1:59.39 que lhe daria acesso à meia final. Acabou por quebrar e acabou a prova com 2:00.17, no 19º lugar. Diogo cumpriu os seus terceiros Jogos Olímpicos e quer em Pequim, quer em Londres tinha sido 18º classificado nesta prova. Duro golpe ficar tão perto da meia final pela terceira vez.

A participação portuguesa na natação em piscina termina amanhã com a campeã europeia de juniores Tamila Holub, que nadará os 800 metros livres.

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João BastosAgosto 10, 20166min0

Foi sem dúvida uma das jornadas mais excitantes e históricas de sempre de uns Jogos Olímpicos. Phelps nadava pela primeira vez na posição de “underdog” e tentava contrariar a História maldita dos regressos fracassados dos grandes campeões. Para além disso, Ledecky enfrentava Sjöström, ambas já com um record do mundo batido no Rio cada uma e Katinka Hosszu continuava a sua saga de coleccionar títulos.

Phelps vezes 20

Michael Phelps chegou à sua 20ª medalha de ouro nos 200 mariposa do Rio | Fonte: The Adviser
Michael Phelps chegou à sua 20ª medalha de ouro nos 200 mariposa do Rio (Foto: The Adviser)

O fenómeno Phelps é impossível de adjectivar, impossível de comparar e estamos em crer que impossível de algum dia igualar.

Phelps estreou-se em JO em Sydney com 15 anos nos 200 metros mariposa, onde ficou em 5º lugar. 16 anos depois, o americano chegou ao Rio na condição de atleta mais medalhado de sempre em Jogos Olímpicos. Ainda assim, havia um nadador no activo que se podia gabar de ser o único que lhe tinha ganho uma prova individual: Chad le Clos, o actual campeão olímpico dos 200 mariposa.

Para acondimentar ainda mais a prova de 200 mariposa juntava-se o campeão do mundo Laszlo Cseh.

Por tudo isto, este seria talvez o desafio mais difícil de superar para Michael Phelps, mas o americano é um fenómeno, um autêntico semi-Deus e liderou a prova de ponta a ponta, chegando ao 20º ouro olímpico!

Uma medalha com contornos épicos – à boa maneira americana – pois em Londres só perdeu duas provas: na estafeta dos EUA de 4x100m livres para a França e nos 200 metros mariposa para Chad le Clos. Pois, no Rio de Janeiro as duas primeiras provas que veio nadar foram os 4x100m livres, onde levou o ouro deixando a França no 2º lugar e os 200 mariposa que ganhou com le Clos fora do pódio.

No segundo lugar ficou o japonês Masato Sakai, que por apenas 4 centésimos não estragou a festa a Phelps. No terceiro lugar, aquele que seria o segundo húngaro: Tamas Kenderesi de 19 anos.

Chad le Clos terminou em 4º lugar e Laszlo Cseh em 7º.

Ledecky bi-campeã olímpica

Katie Ledecky já soma 3 medalhas à sua conta pessoal: 2 ouros e uma prata | Fonte: Mike Lewis
Katie Ledecky já soma 3 medalhas à sua conta pessoal: 2 ouros e uma prata (Foto: Mike Lewis)

A primeira final da noite foram os 200 metros livres que opunha a campeã do mundo Katie Ledecky (EUA) à lider mundial do ano Sarah Sjöström (Suécia). As duas irão certamente discutir com a húngara Katinka Hosszu quem será a MVP do Rio2016 (provavelmente considerando todas os desportos…). Por isso este frente-a-frente entre americana e sueca era um autêntico “tira-teimas”.

E a balança pendeu para a Katie Ledecky que nadou em 1:53.73. Sarah Sjöström apesar do forte ataque nos últimos 50 metros acabou na posição de prata a 35 centésimos da americana. Emma McKeon, da Austrália, liderou a prova até meio, mas acabou no terceiro lugar.

A recordista mundial Federica Pellegrini acabou no 4º lugar mas o seu record do mundo permanece intacto.

Tripleta para Hosszu

E vão 3 para a Dama de Ferro | Fonte: Getty Images
E vão 3 para a Dama de Ferro (Foto: Getty Images)

Para que os holofotes não fossem só para Ledecky e Sjöström, Katinka Hosszu nadou os 200 metros estilos, prova onde já é recordista mundial. E depois de ver a performance da britânica O’Connor nas meias finais, decidiu não nadar os 200 metros mariposa (que eram nadados minutos antes de estilos) para se concentrar nesta final.

E aposta foi ganha. Katinka Hosszu chegou ao seu terceiro ouro com direito a record olímpico de 2:06.58. Siobhan-Marie O’Connor confirmou as boas indicações de ontem e ficou com a prata a apenas 3 décimos da húngara. O bronze ficou para a nadadora que já tinha levado a prata nos 400 estilos, Maya Dirado, dos EUA.

Quatro seguidas para os Estados Unidos

Equipa vencedora dos 4x200 livres | Fonte: USA Swimming
Equipa vencedora dos 4×200 livres (Foto: USA Swimming)

O dia de Phelps ainda não estava acabado. Apesar de não ter nadado os 200 livres na classificativa americana – e por isso não ser elegível para a estafeta 4×200 metros livres – os seleccionadores americanos Bob Bowman (treinador de Phelps) e David Marsh (treinador de Lochte) ofereceram uma “prenda” a Phelps e incluíram-no nessa estafeta, uma prova que os americanos não perdem desde Sydney. Atenas, Pequim, Londres e agora Rio de Janeiro, em todas essas equipas estiveram Michael Phelps e Ryan Lochte.

E voltaram a comprovar o favoritismo, chegando ao ouro pelos quartos JO consecutivos. Uma equipa de luxo composta por Conor Dwyer (1:45.23), Francis Haas (1:44.14), Ryan Lochte (1:46.03) e Michael Phelps (1:45.26) que completaram os 4×200 metros livres em 7:00.66

No segundo lugar chegou a equipa campeã do mundo, a Grã-Bretanha. Stephen Milne, Duncan Scott, Dan Wallace e James Guy compuseram a estafeta que fez o tempo de 7:03.13.

Ao bronze chegaram os surpreendentes japoneses. Kosuke Hagino, Naito Ehara, Yuki Kobori e Takeshi Matsuda com o tempo de 7:03.50 ultrapassaram equipas mais favoritas como a Austrália (incompreensivelmente sem McEvoy) e a Rússia.

Com este título, Phelps chega às 21 medalhas de ouro, num total de 25 medalhas olímpicas.

Adrian, Groves e Watanabe marcam posição para amanhã

O campeão olímpico dos 100 metros livres em título, Nathan Adrian (EUA) não tinha impressionado nas eliminatória ao classificar-se para as “meias” no último lugar classificável. Nas meias finais não quis facilitar e marcou um excelente tempo de 47.83. Cinco nadadores nadaram abaixo de 48 segundos, o que promete uma final de alto nível.

Katinka Hosszu abdicou de nadar as eliminatórias dos 200 metros mariposa para se concentrar nos 200 metros estilos. Sem a concorrência da húngara, foi a australiana Madeline Groves que aproveitou para se classificar em primeiro para a final.

Os 200 metros bruços masculinos foram uma prova com um nível elevadíssimo. Logo nas eliminatórias o nível foi alto de mais para o tri-campeão do mundo e campeão olímpico Daniel Gyurta, que foi 17º classificado. Nas meias finais, Ippei Watanabe, do Japão, bateu o record olímpico com 2:07.22, ficando “em cima” do record do mundo. A final fechou em 2:08.20, o que seria suficiente para ir ao pódio há 4 anos.


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