Arquivo de Pocock - Fair Play

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Francisco IsaacNovembro 22, 201617min0

Fim-de-semana cheio para o rugby internacional, com jogos entre os “grandes” mundiais: Inglaterra “domina” as Fiji; Austrália sai vitoriosa graças a uma “mão final”; Escócia e Itália colocam Argentina e África do Sul num vórtice negativo; Nova Zelândia sem brilhantismo põe termo ao sonho irlandês. Os Internacionais de Outono em 5 pontos

Um sábado de intensa loucura, com grandes jogos, algumas surpresas e médios de abertura a distribuírem espectáculo por onde passaram. Fiquem com os nossos destaques do fim-de-semana

A Coincidência: MÉDIO DE ABERTURA SIGNIFICA ESPECTÁCULO

Uma mera mas feliz coincidência neste fim-de-semana de jogos, já que em 12 nº’s 10, 3 conseguiram chegar à linha de ensaio, 4 assistiram colegas seus para esse efeito, para além de 10 quebras-de-linha e mais 82 pontos marcados entre todos. Finn Russell, Johnny Sexton, Josh Matavesi, Carlo Canna, Gareth Ascombe, Patrick Lambie e Yu Tamura não realizaram umas exibições de “encher o olho”, mas ainda assim foram importantes para o esboçar de algumas jogadas de maior impulso, com bons dinamismos (aqui foram especialmente interessantes Russell e Canna) e de ideias claras. Para compensar, George Ford (duas assistências para ensaio, um defesa batido e uma quebra de linha), Nicolas Sánchez (11 pontos convertidos e dois defesas batidos), Bernard Foley (nº10 de recurso para suplantar a ausência força de Quade Cooper, somou um ensaio, uma quebra de linha, 25 pontos e 26 metros conquistados), Jean-Marc Doussain (“calou” os críticos pela boa exibição que realizou, coroada com um ensaio e uma série de boas mudanças de linha que alteraram a velocidade da França) e Beauden Barrett (voltou às grandes exibições, com um ensaio marcado, uma assistência, três quebras de linha, 90 metros conquistados e dois defesas batidos para além dos 11 pontos).

Na hora H, Foley apareceu para animar o jogo da Austrália, que estiveram em risco de sair de Paris com uma derrota… Foley fez um bom ensaio, ao aparecer junto ao ruck, completamente lançado e sem que o poste conseguisse parar a corrida do nº10. Nesse momento (42 minutos de jogo), Foley se apercebeu que a França estava a defender de forma pouco pressionante, estando sempre na expectativa e com uma postura pouco “agressiva” junto do ruck, aproveitando Foley para “cortar” o espaço e surgir bem junto a esse perímetro do jogo para fazer o 20-11. Passados dez minutos, foi a vez de Doussain aproveitar um ruck rápido, para captar a oval e explorar o eixo do ruck, atirando-se para dentro da área de validação, naquele que foi um ensaio “carregado de manha”.

Mas os senhores aberturas foram Beauden Barrett e George Ford. O primeiro voltou a deslumbrar com um punhado de “aparições” decisivas no jogo frente à Irlanda, naquela que foi a vingança pela derrota de Chicago. Barrett assistiu Fekitoa para o 1º ensaio, com um cross-kick teleguiado que o nº13 (excelente regresso à titularidade) não desperdiçou para chegar à linha de meta. Passado uns minutos, foi o próprio nº10 a seguir para o ensaio, aproveitando um erro defensivo irlandês, para quebrar a linha e meter a bola no chão (ainda foi necessário ir ao TMO para certificar que Barrett tinha colocado a bola ou não no chão). Ainda participou no 3º ensaio dos All Blacks, com uma bela jogada entre ele, TJ Perenara e Fekiota. Barrett é, actualmente, o Melhor Jogador do Mundo para World Rugby e, talvez, assim o seja. Uma exibição “grande” que brilhou um jogo pouco brilhante dos All Blacks em Dublin.

Mas, poderá existir um nº10 que tenha a mesma capacidade que Barrett? De acordo, com Eddie Jones, sim e o nome dele é George Ford. O médio de abertura inglês do Bath, conseguiu a proeza de “meter” Owen Farrell a nº12, conquistando o seu espaço no XV da Inglaterra. Já vem sendo assim desde Junho, altura em que a Inglaterra foi à Austrália. De lá para cá, Ford tem vindo a amealhar boas exibições e no jogo frente às Fiji não fugiu a este novo “paradigma”. Duas assistências para ensaio, participou em mais três jogadas para esse objectivo, num resultado que terminou em 58-15 a favor dos ingleses. Ou seja, George Ford está em 5 dos 8 ensaios da sua selecção, algo fundamental para o que Eddie Jones e Paul Gustard querem da equipa de Sua Majestade: jogo rápido, ágil e com consequências “pesadas” para os seus adversários. Ford é/será fundamental para esta nova “realidade” do rugby inglês, já que é um jogador que gosta de viver na intensidade, em criar espaços onde só existem obstáculos e de levar ao jogo a um ritmo vertiginoso. Um detalhe bem interessante do jogo de Ford foi a execução do seu passe (100% eficácia, com uma qualidade de elevada categoria) e o posicionamento na defesa (10 placagens e 1 turnover) ou ataque (as Fiji sentiram dificuldades em ler os movimentos de Ford).

Um fim-de-semana em cheio para os médios de abertura, que tiveram a liberdade necessária para fazerem “magia”, assim como um engenho sempre especial.

O Momento: UMA “MÃOZINHA” PARA A VITÓRIA

Um fim-de-semana recheado de momentos que proporcionaram aos adeptos grandes momentos de espectáculo, intesidade, “terror” e paralização. Seja o final de jogo entre a Itália-África do Sul, que marcou um momento de glória para a equipa de Conor O’Shea (este é o 2º jogo do novo seleccionador da Itália), já que nunca antes os transalpinos tinham conseguido arrancar uma vitória frente aos temíveis Springboks. O perfume da Inglaterra, com dois ensaios de excelência, que ditam os momentos de loucura ou de maior espectáculo (o terceiro ensaio de Semesa Rokoduguni, é uma jogada tremenda de equipa, com todos os envolvidos a desempenharem as suas funções com extrema eficácia); o País de Gales-Japão foi de uma loucura total, em que o 30-30 aos 79′ colocou vários adeptos galeses a “roer as unhas”, no desespero de poderem ter mais um revés neste Novembro de jogos internacionais… porém, a frieza de Sam Davies possibilitou que os Red Dragons arrancassem uma vitória por 33-30, com um belo drop final.

No assunto de drops e momentos de “pânico”, o França-Austrália foi um hino a essas dois conceitos… os Les Bleus conseguiram realizar um jogo bem conseguido, com uma excelente articulação do seu pack avançado (10 alinhamentos e 6 formações ordenadas conquistadas, tendo ainda “roubado” 1 alinhamento e 3 formações ordenadas dos australianos), que foi bastante agressivo, impedindo a avançada Wallaby de conseguir ganhar nas fases estáticas. Porém, o ataque francês nunca foi o mais “rápido”, com vários erros (15 “erros” forçados), tendo desaproveitado alguns lances para chegar à área de validação australiana.

Do outro lado, a equipa da Austrália que não esteve bem nas fases estáticas, cometeu alguns erros no jogo curto e permitiu algumas falhas de placagem, minimamente, graves que foram “salvas” com os ensaios de resposta de Foley e Kuridrani (espectacular ensaio do nº13, que tem o descernimento e a lucidez de meter a bola no canto da área de validação antes que seja empurrado para fora das linhasde jogo). A França foi muito leviana junto ao ruck, concedendo certos espaços que a selecção de Michael Cheika aproveitou para marcarem os tais ensaios (veja-se o ensaio de Bernard Foley, que entra a “abrir” perante a passividade de Vakatawa ou a má dobra de Ollivon.

No entanto o momento do jogo estava reservado para o final dos 80′, aliás, já estávamos 2 minutos para lá do tempo com a França a tentar chegar a uma penalidade ou ensaio que possibilitasse a reviravolta final de 23-25 para 26-25. Os Wallabies defenderam com calma e paciência, não cometeram erros ou faltas no chão, o que premeditou que a equipa da casa tivesse de arriscar todo o jogo num drop de Camille Lopez. O nº10 do Clermont “armou” o pontapé, a bola bateu no chão e recebeu o pontapé que finalizou o jogo… por escassos centímetros a bola não entrou, passou ao lado e a Austrália coleccionaram uma nova vitória na sua demanda pelo Grand Slam Tour (querem somar só vitórias neste “estágio” de final de ano) de final 2016.

Mas houve algo que ditou que a bola não conseguisse passar por entre os postes e terá sido a carga final de Foley com Kyle Godwin (estreia de gigante do jovem centro) que terão dado uma “mãozinha” para que o pontapé de Lopez não tivesse o desfecho que Novés tanto queria.

O Jogador: THE LIFE AND WORK OF POCOCK

Não há palavras suficientes para descrever a imensidão de jogador que é David Pocock. O asa prepara-se para tirar o seu semestre sábatico do rugby internacional (ainda não sabemos para onde irá treinar e estudar durante esse tempo) e deixará saudades à comunidade do rugby. É um jogador com uma classe tremenda, não há adversário que no final não queira apertar a mão e de trocar algumas palavras com o 7 dos Brumbies e, acima de tudo, representa os valores do jogo da melhor forma possível.

No jogo frente à França, Pocock voltou a vestir a camisola de nº7 dos Wallabies, uma vez que já não a assumia desde 2012 (lesões e a ascensão de Michael Hooper). Por isso, David Pocock teria de demonstrar ao Mundo que ainda é um dos melhores asas abertos do Planeta… e ao fim de 80 minutos, não restaram dúvidas disso mesmo, ao ponto que já se discute em meter Hooper a 6 e manter Pocock a 7. Mas o que aconteceu neste jogo que levou os comentadores, analistas, adeptos e outros jogadores ao êxtase?

O jogo defensivo de Pocock foi soberbo: 18 placagens (três delas fundamentais para parar ataques), 4 turnovers (mais uma vez é o “Rei” desta secção)e três penalidades (no risco de tentar tirar a bola no ruck, Pocock foi castigado com três penalidades, sempre no meio-campo francês). No ataque esteve mais “escondido” que o costume, realizando um trabalho de apoio ao portador da bola, de decoy quando Foley assim o pedia, terminando o encontro com apenas 10 metros conquistados, 6 carries e sem erros atacantes forçados. Acima destes números e secções do jogo, Pocock foi um líder gigante dentro do campo, guiando a sua equipa em direcção da vitória e capitaneando (Stephen Moore ficou no banco neste encontro) com excelência.

Pocock não se assume como uma “Estrela” ou “Astro”, ele é o jogador que define melhor o conceito de “colectivo”, com uma entrega absoluta (já sofreu 13 lesões pela selecção, o que demonstra a forma como se sacrifica em prol da Austrália), uma raça inesquecível e uma vontade para gerar jogo para os Wallabies das situações de “desespero” (os turnovers que arranca possibilitam aos australianos partir para novas situações de ataque) em que se encontram. Pocock merece ser analisado à luz dos analistas de performance, pela forma como ele “estuda” o jogo, como consegue adaptar-se ao adversário (é o jogador que tem mais facilidade em jogar contra os All Blacks por exemplo) e encontrar formas de retirar os devidos dividendos nos momentos em que é chamado a intervir.

The Great Leader (Foto: L'Equipe)
The Great Leader (Foto: L’Equipe)

O Jogo: THE DRAGON ALMOST FELL TO THE WAY OF THE SAMURAI

Ponto prévio: o País de Gales não está na sua melhor forma. Segundo Ponto Prévio: O Japão partiu para estes jogos de Outono com 15 lesionados, o que impossibilitou ter a melhor selecção em jogo. A equipa de Warren Gatland (o homem que vai guiar os Irish&British Lions em 2017 na tour por Nova Zelândia) tinha uma missão única para o jogo frente ao Japão: ganhar! Do outro lado, está uma das “raposas velhas” do rugby Mundial, Jamie Joseph. O antigo treinador dos Highlanders (levou a equipa de Aaron Smith e Ben Smith ao título do Super Rugby em 2015) está a dar continuação do trabalho de Eddie Jones (o homem que deu a estocada nos Springboks no Mundial de 2015) e molda a cada dia que passa os seus Samurais no caminho certo para uma nova “realidade”.

O País de Gales obteve uma vitória em dois jogos, “sorrindo” frente à Argentina (24-20) e caíndo perante a Austrália (08-32) para a pior derrota desde 2006 em casa. Os japoneses jogaram frente à Argentina (derrota por 20-54 em Tóquio) e Geórgia (vitória por 28-22 em Tbilisi), ficando a faltar o tal jogo frente aos Dragões galeses e um final frente às Ilhas Fiji. Ou seja, como coincidência ambas conquistaram uma vitória por 4 pontos de diferença e ambas somaram derrotas em casa complicadas e por números avolumados.

No jogo de sábado passado, o Japão foi um problema sério para Gatland, já que obrigaram os Red Dragons correr durante 80 minutos, atrás de um prejuízo que os próprios causaram. O Japão passou a maior parte do tempo a defender (35% de posse de bola e mais de 19% no seu próprio meio-campo), esperando pelos momentos X para saírem em contra-ataque e garantirem pontos necessários para lutarem por uma vitória que poderia ter sido histórica. O ensaio aos 73′ de Amanaki Lotoahea, que tirou dois jogadores da frente, após um passe brilhante e carregado de risco de Amanaki Mafi, para chegar à área de validação e lançar o público do Millenium Stadium num frenesim… 30-30 a 5 minutos do apito final.

Com o tempo a passar, o Japão a defender cada vez mais “fechado” e sem falhas e o País de Gales sem a velocidade necessária para quebrar a linha e chegar a novo ensaio, Ascombe pediu a “obrigação” de chutar e atirou um drop bem medido e calculado que passou pelo meio dos postes… 33-30 a 1 minuto do final. A equipa galesa já não deixou a vitória fugir e puderam respirar melhor no final do encontro, apesar de todos os erros somados, das falhas consentidas e da falta de ideias para passar uma defesa (180 placagens e só 18 falhadas) que esteve intratável. O Japão está em grande crescimento e poderá ser mesmo uma super-nação para o futuro… Eddie Jones, Richie McCawe, Jean De Villiers já tinham apontado para esse sentido. Um grande jogo, que merece ser observado vezes sem conta!

A Queda: SPRINGBOKS E PUMAS EM EXTINÇÃO?

É verdade… Springboks e Pumas estão em queda num 2016 muito complicado para ambas as selecções. A Argentina soma só três vitórias em dez jogos, consentindo derrotas frente à Nova Zelândia (2x), Austrália (2x), França, País de Gales e Escócia, naquilo que está a ser um “complicado” para Daniel Hourcade. Esperávamos todos mais da equipa das Pampas, já que o rugby carregado de raça, vigor e “agressividade” deveria estar a “florescer” e a abordar as nuances de intensidade nas linhas atrasadas, ideias para criar roturas defensivas e outra mentalidade dentro de campo. Infelizmente, os Pumas continuam a preocupar-se mais com as arbitragens que o jogo jogado, entregam-se a um rugby demasiado físico e “duro de rins”, que consente perante a maior intensidade e frescura física das equipas de maior gabarito. Hourcade terá que procurar uma maior elasticidade da sua linha de ataque, encontrar soluções para penetrar nos canais exteriores e garantir que a sua equipa tenha 100% de eficácia nas fases estáticas (têm consentido vários erros nesses departamentos).

Para além disto tudo, há que ter outra mentalidade na abordagem ao jogo. A Argentina parece querer vestir o “fato de mártir”, que está a lutar contra todo o tipo de “males” do Mundo da Oval, bracejando e protestando com os árbitros ou adversários como se fosse obter vitórias desse perímetro do jogo. Em dez jogos, são 7 derrotas e algo terá de ser feito para que a nação dos grandes Pumas não caia num “tufão de negativismo”.

No mesmo Hemisfério, está a África do Sul que atravessa a sua fase mais conturbada dos últimos 15 anos. Uma equipa que não assume e não processa o plano de jogo como devia, que não se reconhece como a potência que é e que caiu no erro de aceitar todas as polémicas em seu redor, está sem rumo e sem direcção. Alistair Coetzee recebeu uma herança envenenada, já que o novo sistema de quotas (a SARU deve uma explicação à sua comunidade em porquê estar a aplicar medidas tão “pesadas” e graves no escalão máximo, invés de se preocupar com a igualdade nas escolas e rugby de formação) tem criado alguns cismas dentro da equipa. Há jogadores que estão no lugar de outros, simplesmente porque são de uma raça e não porque são melhores… mesmo assim, a África do Sul não tem desculpas para cair perante a Itália, como aconteceu neste fim-de-semana por 20-18. Os sul-africanos consentiram uma derrota histórica (nunca antes a Itália tinha sentido o prazer de ganhar aos Springboks), apesar de terem realizado uma exibição defensiva imaculada (90 placagens e só 3 falhadas) em que mesmo no sector das faltas esteve bem (7 faltas apenas).

Porém, Carlo Canna aproveitou para fazer 7 pontos e dar o seu contributo à sua Itália. Os Springboks a atacar estão lentos, pouco motivados e sem as características que se pede de uma selecção de topo. Curiosamente, neste jogo só jogaram três jogadores de raça negra, algo que “finta” o sistema de quotas… por isso será que a culpa das derrotas é só do sistema ou algo mais? É possível que os jogadores não estejam satisfeitos com a SARU, que as ideias de Coetzee ainda precisem de tempo para solidificarem ou que há que encontrar soluções boas para o futuro do rugby sul-africano. 2016 está a acabar, as 6 derrotas (Nova Zelândia 2x, Argentina, Austrália, Itália e Inglaterra 1x) e 1 empate (Barbarians) em 10 jogos terão de servir de lição para um 2017 mais “feliz”. Mas será que Coetzee ainda estará no banco dos Springboks em Março de 2017?

For one to go up, another must go down (Foto: Rugbyrama)
For one to go up, another must go down (Foto: Rugbyrama)
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Francisco IsaacSetembro 18, 201614min0

Outra exibição de gala dos All Blacks, Springboks a ficarem longe do satisfatório, Pumas na raça mas sem cabeça e uns Wallabies em franca recuperação… esta foi a 4ª jornada do Rugby Championship, em que a Nova Zelândia já conquistou o título de Campeã do Hemisfério Sul

O Campeão: ARE THE ALL BLACKS THAT GOOD?

Para responder desde logo a essa pergunta… sim, o são. É a 2ª semana em que perdemos tempo a falar dos neozelandeses, mas vale a pena analisar, brevemente, como jogam, como atingem a linha de ensaio e como criam uma ilusão aos seus adversários. Para os mais dedicados à observação do rugby, apercebem-se, desde logo, que a selecção da Nova Zelândia trabalha com excelência os básicos: passe, linha de corrida, apoio, colocação de bola no chão, placagem, disputa de ruck e recuperação de bola. No primeiro factor, o passe, vejam como Dane Coles, o talonador neozelandês, acaba o jogo como o melhor assistente para ensaio com três passes certos, cada um diferente do outro (curto, offload e longo) o que prova que em todas as posições o domínio dos básicos é necessário para jogar a este nível. Esse trabalho só torna mais fortes, temíveis e capazes de dar a volta a qualquer jogo (jogo frente à Argentina por exemplo). Seja um pilar que tem de saber correr com a oval nas mãos e fazer diferença na hora de escolher entre um offload, um passe curto ou optar por uma finta de corrida, ou um médio-de-abertura que não pode realizar uma placagem de baixa categoria e tem de saber parar o adversário on the spot (Barrett voltou a realizar 7 placagens nesta 4ª jornada), a Nova Zelândia acaba por ganhar os jogos não só nos detalhes (os offloads preciosos, as linhas de corrida de outra dimensão ou os pontapés in game) mas por tornarem os básicos na sua melhor “arma” durante os 80 minutos. No jogo frente à África do Sul, foi aí que se viu a grande diferença entre as duas “arque-inimigas”, com os sul-africanos a realizarem 16 erros próprios, enquanto os All Blacks ficaram nos 11. Outro destaque vai para a formação ordenada, que já tínhamos falado na análise à 3ª jornada. Neste jogo em 6 ensaios, 3 nasceram a partir desse aspecto do jogo: o 1º, de Israel Dagg, começa numa FO já dentro dos 22 metros, com Smith a transmitir a oval para Barrett e depois, logo de seguida, de Smith para Coles e este a fazer de “moinho” para entregar ao ponta neozelandês; o 2º é uma cópia do 1º, com a mesma sequência de jogada, que acaba com Coles a receber a bola e a encontrar espaço na linha de defesa, o que vai permitir metê-la nas mãos de Julian Savea para o ensaio; e o 6º e último de TJ Perenara, foi um “mergulho” a partir de uma FO já nos últimos 5 metros dos Springboks. Steve Hansen, com a sua equipa técnica, aperfeiçoou este “prisma” de jogo da Nova Zelândia garantindo não só eficiência mas, e principalmente, “conversão” da FO em pontos para conquistar novas vitórias e levantar novos troféus. Por último, um terceiro aspecto igualmente importante: banco. Isto é, suplentes que têm a mesma categoria, qualidade e capacidade que o XV titular. Neste Rugby Championship foi outro “sector” em que os All Blacks provaram a sua gritante diferença entre eles e os outros. Se Aaron Smith saísse de jogo, TJ Perenara fazia o mesmo ou melhor (2 ensaios, 2 assistências em menos de 100 minutos), Jerôme Kaino sai por lesão entra Matt Todd, não há que preocupar (2 placagens e 1 turnover) e Ryan Crotty, o 1º centro que está a assumir um papel importante nas linhas atrasadas, falhou a 2ª jornada por lesão, foi substituído com classe por Lienert-Brown. Com um banco de excelência é fácil entrar para a 2ª parte dos jogos, momento em que os All Blacks aproveitou para ligar o “motor” e cilindrar quem esteja à sua frente. Nesta 4ª jornada estes três factores somados deram a vitória final de 41-13 e o título de campeões do Rugby Championship quando ainda faltam duas jornadas por disputar. Básicos, Formação Ordenada e Banco de Suplentes… três detalhes para garantir metros, pontos e jogos.

Dominium (Foto: Getty Images)
Dominium (Foto: Getty Images)

O “retorno”: WELCOME BACK MICHAEL HOOPER

Sentíamos saudades do one and only Michael Hooper. O asa australiano, na vitória da sua selecção frente à Argentina (36-20), voltou à carga com uma exibição ao seu estilo: 1 ensaio, 1 assistências, 20 placagens e 2 turnovers. A intensidade que impôs na 3ª linha foi fulcral para que os Wallabies continuassem na senda das vitórias (2ª consecutiva), com aquele ritmo muito alto que acabou por “vergar” a defesa adversária. Nos 3 jogos anteriores, Hooper e Pocock andaram longe dos seus melhores dias, aparecendo aqui e ali, sem uma participação preponderante… especialmente no jogo frente aos All Blacks, a queda vertiginosa da 3ª linha complicou a missão de Cheika. Como já destacámos, no jogo frente à Argentina, Hooper demonstrou o seu melhor rugby, mas como? Enquanto que no jogos frente à Nova Zelândia sentia-se a ausência do asa nos canais mais laterais do campo ou no apoio ao portador da bola (notem que neste momento, Read, Ardie Savea e Jaco Kriel são os melhores neste sentido), o que criava, a longo prazo, problemas constantes no avanço no terreno, perdendo boas ocasiões de conseguirem pontos. Hooper tem este papel no jogo de Michael Cheika, é uma “peça de xadrez” para o avançar no terreno, no criar espaços e roturas defensivas (veja-se os jogos com a Inglaterra, em Junho, o papel de Hooper no ataque da Austrália), já que é um jogador de qualidade atacante acima do normal. Se a atacar foi fundamental (acaba por estar ligado a 10 pontos, directamente, jogo da 4ª jornada), a defender foi um primor estupendo. 20 placagens e 2 turnovers demonstram o papel preponderante em garantir que a defesa Wallaby não fosse alvo de “danos” sérios durante os 80 minutos de jogo. A Argentina teve um arranque de jogo péssimo, em que aos 10′ já se encontravam a perder por 21-00, o que obrigou a “carregarem” no “acelerador”. Nos restantes 70 minutos de jogo tiveram direito a 14 penalidades (os australianos tinham já feito duas nos primeiros 10) que quase nunca foram bem aproveitadas… em quatro delas, que seguiram para alinhamentos, Hooper conseguiu destruir – legalmente – os mauls com ajuda de Kepu e Mumm, para além de ter ido buscar Cordero a uma das pontas num momento fulcral de decisão de jogo. Com Hooper em alta forma, a “cantiga” australiana muda de tom, tomando proporções espantosas e necessárias para conseguir colocar a Austrália perto do topo do Hemisfério Sul.

Hooping away (Foto: Sanzar)
Hooping away (Foto: Sanzar)

Detalhes: BROTHERS IN ARMS, BROTHERS IN TRIES

Ao fim de 4 meses tivemos, finalmente, os dois irmãos Savea lado-a-lado num jogo internacional. Se nos Hurricanes a parceria tem sido de sonho em 2016 (campeão do Super Rugby), na selecção voltaram a chamar a atenção para si. Um ensaio para cada, uma grande exibição também e membros dos campeões do Rugby Championship em 2016. É nos detalhes que cada um deles conquistam o público do Rugby, já que Ardie é aquele asa incansável, veloz, que arrisca saídas de ruck desapoiado e ainda inventa jogadas de ataque do nada, enquanto que Julian é um monstro à ponta, consegue quebrar a linha e aguentar a placagem de um ou dois opositores, pondo em prática o seu belo offload ou aquela jigajoga que permite chegar ao ensaio. No total, os dois irmãos correram 70 metros (destaque no ensaio de Ben Smith, os 25 metros que Ardie conquistou com dois adversários a tentarem a agarrá-lo), 2 quebras de linha, 2 ensaios, 11 placagens, 3 turnovers e uma forte importância posicional. Vale a pena reverem um detalhe (dentro destes detalhes) de Ardie Savea aos 31′ (ver vídeo) para perceberam a utilidade que é ter um asa que não só placa, como se preocupa a levantar e voltar a atacar o canal para arrancar a bola da oposição. Hansen tem dois Savea e qualquer um pode assumir o papel de dínamo do ataque ou defesa All Black.

A estratégia: HOW TO HUNT A PUMA, A CHEIKA GUIDE

Michael Cheika volta a sorrir e a demonstrar que os Wallabies não estão “doentes” como se apregoava. No jogo frente à África do Sul (na semana passada) os Wallabies voltaram a conquistar uma vitória, sem demonstrar um rugby consistente e equilibrado, tendo alguma sorte em certos momentos do jogo. Nesta semana, pudemos ver algo completamente diferente: uma equipa sólida, crente nas suas capacidades e com vontade de fazer o seu jogo, sem se preocupar com o que adversário queria fazer. Cheika estudou bem os Pumas e percebeu que a equipa da Argentina dá-se mal com demasiada posse de bola, pois sempre que os Pumas tinham-na na mão durante largos períodos de tempo, havia pouca conquista de metros efectiva, levando-os a a perdê-la num avant ou turnover. Claro que aqueles primeiros dez minutos foram fundamentais para a Austrália, com três ensaios (todos convertidos) sem qualquer esboçar de resposta da Argentina. A partir daí foram os Pumas a ir atrás do prejuízo, com os Wallabies a fazerem uma “espera” bem montada, com 168 placagens confirmadas (mais 34 falhadas). A selecção comandada por Daniel Hourcade nunca soube aproveitar os momentos de maior superioridade (jogaram contra menos um durante 10 minutos) e nem com 16 penalidades a seu favor (8 nos últimos 22 metros australianos) conseguiram chegar a um ponto de bónus defensivo (optaram chutar três vezes aos postes e as outras 5 foram foram para o alinhamento, três delas perdidas no contacto). A Austrália traduziu em pontos sempre que tinha a posse de bola, castigou todas as desatenções argentinas e obrigou a Nicolas Sanchez, Tomás Cubelli ou Joaquín Tuculet a cometerem erros nos pontapés in game, que lhes deram os pontos suficientes para se afirmarem no 2º lugar do Rugby Champioship à passagem da 4ª jornada. Os Pumas exageraram nos rucks e jogadas curtas, desgastando-se o suficiente para entrarem para os 30 minutos finais sem capacidade física para virarem o resultado e nem mesmo com um ensaio aos 71′ (maul dinâmico) acreditaram na vitória. A perda de David Pocock para os restantes jogos poderá ser problemática (fractura na mão direita), todavia Cheika finalmente tem uma equipa, algo que faltou entre Junho e Agosto. 3 jogos frente aos Pumas, 3 vitórias para Cheika e, para já, 2º lugar no torneio de selecções do Hemisfério Sul… será suficiente para se aguentar no comando da Austrália?

The Wallabies hunting Pumas (Foto: ESPN)
The Wallabies hunting Pumas (Foto: ESPN)

Ensaio da Jornada: THE KEREVI-HOOPER CONECTION

No final desta 4ª jornada, tivemos uma mão cheia de bons ensaios, com os All Blacks a terem aquela jogada impressionante de Dane Coles para o ensaio de Julian Savea ou a “fuga” de Cordero frente à Austrália. Porém, foram dois ensaios dos Wallabies que captaram o nosso interesse: o 1º de Kerevi e o 2ª de Haylett-Petty. O de Kerevi começa num pontapé mal executado por Sanchez, que vai para às mãos dos australianos, para depois em movimentos bem trabalhados, conseguirem jogar ao largo, com Quade Cooper (boa exibição do excêntrico médio-de-abertura) a entregar a Hooper e este a atacar o espaço entre Moroni e Amorosino, com uma belo step tendo tempo para armar um excelente offload para Kerevi conseguir fazer o ensaio. Todos os detalhes foram bem trabalhados,  com um contra-ataque mordaz, rápido e letal para chegarem ao ensaio em 2 fases, em 15 segundos. Já o 2º ensaio é construído com uma base de dinamismo total, seja pelo salto de Coleman, a viragem de Pocock, para depois Quade Cooper “inventar” um passe que Petty “agradeceu”, quebrou a linha e foi directo aos postes. Era isto que faltava aos australianos, a “alegria” em querer arriscar, em imprimir uma dinâmica extenuante e que deixa o adversário sem reacção. Enquanto que nos jogos frente à Nova Zelândia ou mesmo frente à África do Sul, os avançados apresentaram-se algo “parados”, já neste jogo viveram das acelerações de Genia participando activamente na construção de oportunidades. O ensaio de Hooper, também merece menção, seja pelo passe de Cooper ou a corrida de Polota-Nau (substituto à altura para Stephen Moore).

O rant da jornada: ARGENTINA E O EXCESSO DE RAZA

É irritante e altamente frustrante ver um jogo dos Pumas. A qualidade está lá, têm jogadores fenomenais (Santiago Cordero, Agustín Creevy, Tomás Lavanini, Facundo Isa, Joaquín Tuculet, Matías Moroni, etc), têm um treinador que sabe analisar e ler as grandes adversárias (foram a única selecção a conseguir pôr os All Blacks em modo pânico) e o público, em casa, apoia ao bom estilo dos hinchas do país das Pampas. Porém, voltaram a claudicar num jogo que poderia ter sido seu a partir dos 15’… em 16 penalidades a seu favor só aproveitaram os pés de Sanchez por 3 vezes (só 9 delas é que foram a seguir ao meio-campo), tentando por ir a um alinhamento que saiu quase sempre mal (ganharam 88% das bolas no ar, mas no chão faziam falta, avant ou eram facilmente atirados para fora e só por uma ocasião conseguiram montar uma jogada de ensaio através deste sector de jogo) ou jogar em pick and goruck curto, sem aproveitar a velocidade de Tuculet (esteve muito afastado do jogo) ou o génio de Cordero. A equipa argentina foi sempre atrás da picardias lançadas pela defesa australiana, que queria os Pumas de cabeça quente, para destabilizarem a formação de Daniel Hourcade. Quando essa irritação Wallaby entrou nas “cabeças” dos Pumas, o jogo começou a ser mais jogado na raza e força, do que em génio e estratégia, algo que os Wallabies agradeceram para montar um jogo defensivo de enorme qualidade e que castigou, severamente, os Pumas. Com um jogo ainda em casa e outro em Twickenham, caberá a Hourcade mexer com os seus jogadores e pedir mais frieza e capacidade para perceberem que o “calor” do jogo não deve ser um veículo de destabilização e de destruição do plano de jogo.

Só raça não chega (Foto: Olé)
Só raça não chega (Foto: Olé)

 

Jogos Completos:

AUSTRÁLIA-ARGENTINA (goo.gl/jNrzuv)
NOVA ZELÂNDIA-ÁFRICA DO SUL (goo.gl/Xc3efn)

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Francisco IsaacSetembro 11, 201616min0

De regresso após uma semana de paragem, o Rugby Championship seguiu-se com grandes ensaios, placagens brutais e alguma discussão: Barrett e Savea terminaram com o espectáculo dos Pumas; David Pocock e Michael Hooper voltaram a “acordar” para infligir uma derrota crítica nos Springboks. Toda a jornada em 6 pontos

O Colectivo: UM WALLABY FERIDO “RESSUSCITA” EM BRISBANE

Podíamos falar dos primeiros 50 minutos da Argentina, que colocaram os All Blacks sempre em check e não fosse a queda abrupta física, por um lado, e a qualidade técnica e força mental dos All Blacks, por outra, a Argentina poderia ter saído da Nova Zelândia com um resultado muito interessante. Mas o destaque tem de ir para a selecção da Austrália, que ao fim de 4800 minutos (6 jogos) voltou a saborear a textura e contornos de uma vitória e nada melhor do que contra a África do Sul, uma selecção que também precisava de uma vitória para animar as hostes. Num jogo sempre muito “quente”, com uma “luta” em cada metro, em cada fagulha de espaço, foram os Wallabies a saltar para a vitória fruto de um excelente ensaio de Bernard Foley (61′) e de uma tremenda defesa colectiva, da qual sentíamos saudades, que impediu a África do Sul de chegar à área de validação contrária na 2ª parte. O score final ditou um 23-17, num jogo em que os Springboks de Coetzee chegaram a liderar por 14-03 ainda antes dos primeiros 20 minutos de jogo, mas acabaram por quebrar em todos os sentidos perante uma Austrália decidida em ganhar os seus primeiros pontos neste Rugby Championship. Efectivamente, podemos discutir se há mais mérito aussie na vitória ou mais desmérito da África do Sul em perder o jogo, uma vez que tiveram duas situações claras de ensaio nos últimos 10 minutos de jogo perdidas pelo terrível handling de alguns jogadores e da falta de velocidade do seu par de médios. É verdade, Faf de Klerk e Elton Jantjies, aquela dupla fantástica de médios dos Lions, quebraram neste jogo e voltaram a ficar debaixo de uma “chuva” de críticas, com o nº9 a revelar um ritmo elevado, boa velocidade mas peca na voz de comando (natural, uma vez que só tem 24 anos) ou nas decisões que toma, enquanto que Jantjies só surge no jogo em raros momentos o que tira a importância do nº10 do jogo. Todavia, o que queremos destacar é o incrível jogo de colectivo dos Wallabies, que voltaram a ser uma Equipa perante aquela que poderia ser a derrota número 7. Se os avants/knock-on’s dos Springboks são erros ofensivos, podemos dizer que a placagem imposta ou a pressão bem “agressiva” colocada no ataque por parte da defensiva australiana ajudaram a que os visitantes cometessem tantos erros ofensivos (20). A entrada de Dean Mumm para asa foi providencial, com 3 das suas 10 placagens terem sido realizadas quando Hougaard, de Klerk e Whiteley estavam à beira de quebrar a linha e de conseguir criar uma situação de vantagem ofensiva para os sul-africanos. Ao lado de Mumm, Michael Hooper e David Pocock regressaram à “Terra”, com jogos bem conseguidos, ainda que longe do que conseguem fazer. Pocock realizou 2 turnovers, os mesmos que Hooper, com ambos a completarem 23 placagens (na soma total de ambos) num jogo em que tiveram bastante trabalho. A nota de destaque da noite vai para Samu Kerevi, o 2º centro, que correu mais de 120 metros com a oval em seu poder, quebrando a linha por três vezes e assumindo um papel providencial, uma vez que tinha de “bater e bater” para moer a defesa dos Springboks. O jogador dos Queensland Reds voltou a demonstrar que é a grande solução para a má forma de Tevita Kuridrani, patenteado o papel que pode ter no desgaste da defesa contrária (de Jongh e Jesse Kriel realizaram 18 placagens no total, 8 delas foram só para Kerevi). Michael Cheika precisava de que a sua equipa seguisse o plano e demonstrasse que a “sua” Austrália não era “fracasso” algum no que toca à leitura defensiva, à placagem e à reacção perante uma quebra de linha dos seus adversários. Ainda estão longe do seu melhor em termos ofensivos, todavia a 2ª parte foi uma prova que há vida nestes Wallabies, onde uma incrível defesa garantiu a sua 1ª vitória em 2016. Vale a pena prestarem atenção à forma como a Austrália – especialmente o bloco dos avançados – impôs uma pressão alta, quando a África do Sul decidia abrir o jogo para as alas, “amarrando”, por completo, potenciais entradas de Bryan Habana, François Hougaard e Johan Goosen, que só conseguiram realizar três quebras-de-linha no jogo.

Wallabies with the Jump (Foto: Rugby World Magazine)
Wallabies with the Jump (Foto: Rugby World Magazine)

Más decisões: EARTH TO COETZEE, WE HAVE A KLERK-JANTJIES PROBLEM

É um ponto extremamente polémico, ao nomear Faf de Klerk e Elton Jantjies como as desilusões da última noite The Rugby Championship em Brisbane. O surpreendente formação e o “mago” médio de abertura, ambos dos Lions, caíram a pique no jogo frente à Austrália. Já com a Argentina realizaram uma exibição q.b., longe do seu melhor e com uma participação intermitente nesse jogo frente aos Pumas. Mas o 1º encontro frente à Austrália deste torneio, foi quase um show de horrores para o par de médios da África do Sul. O número 9 esteve longe de conseguir organizar os seus 8 avançados e nem a ajuda do seu 8, Warren Whiteley, serviu para de Klerk ganhar força e voz para pôr os “monstros” dos Springboks a andarem em rotação alta. Sentiu-se uma desorganização, por vezes bem clara, dos 8 avançados que não conseguiam manter um ritmo bom (que transitasse entre esse nível e o alto) e coerente, que permitisse a equipa ganhar metros, estabelecer-se, com eficácia, em zonas mais avançadas do terreno e garantisse mais pontos, já que Elton Jantjies só teve direito a dois pontapés de penalidade (50% de eficácia) durante todo o encontro (das 8 penalidades que conquistaram, apenas 3 foram do meio-campo para a frente). Ainda por mais, o Gold Flash dos Springboks somou três avants um deles já nos últimos metros da Austrália, deitando a perder aquele podia ter sido o momento da reviravolta final (faltavam menos de 8 minutos para o fim do encontro) para a equipa de Coetzee neste Rugby Championship. Mas de Klerk não ouve as críticas sozinho, já que Jantjies voltou a realizar um jogo tremido, nervoso e quase inconsequente, não fosse a assistência para o ensaio de Goosen. Jantjies desde do último jogo do Super Rugby está a léguas do que pode conseguir de melhor e a resposta ao porquê dessa queda de rendimento, tem a ver com a confiança e segurança que o abertura não sente nos Springboks. Não é que a 3ª linha tenha estado mal, só que Louw não teve participação no encontro, Mohoje revela-se demasiado pesado para acompanhar a velocidade de formações excêntricos e Warren Whiteley precisa de mais jogos para continuar controlar, por completo, os avançados dos boks’. Por isso, Jantjies tem de encontrar motivação para melhorar e solidificar a sua posição, apesar da comunidade do rugby sul-africano contar os dias para o retorno de Handré Pollard ou mesmo de Pat Lambie. E Faf de Klerk, apesar de ter toda aquela velocidade, de ser um jogador que se entrega à equipa e que defende com brilhantismo, devia perder o lugar para Rudy Paige, para voltar a ganhar alguma estabilidade e calma para regressar mais forte e capaz de liderar um jogo que passa, quase sempre, por ele. Sem um “moto” é difícil que o panzer dos Springboks consiga avançar no terreno, marcar ensaios e, mais importante que tudo, ganhar jogos. Este é um ano de redefinição de objectivos, Coetzee está a construir o melhor elenco possível e será fundamental que os fãs do rugby da África do Sul tenham paciência… Roma não se fez num dia.

Faf de Klerk (Foto: Scrum)
Faf de Klerk (Foto: Scrum)

O AstroKIDS STEP ASIDE, BEAUDEN BARRETT IS GOING IN

É impossível não destacar o médio de abertura dos All Blacks… falha pontapés aos postes, mas compensa com um jogo soberbo de pés, uma finta e velocidade vertiginosa e uma visão de jogo de “paralisar” qualquer adepto do Mundo da Oval. No 57-22, Barrett teve ligação directa em 22 pontos, com o seu ensaio (assistência de Ben Smith, com um grubber espectacular), 6 conversões e uma assistência para o ensaio de Ryan Crotty (o 1º do centro, com o número 10 a entrar bem no espaço e a realizar um offload característico dos neozelandeses). No entanto, isto não foi só o que Barrett fez em todo o encontro… quando a Argentina estava mais perto de conseguir uma reviravolta no início da 2ª parte, que seria altamente perigosa para os All Blacks, Barrett começou o seu show privado de “destruição” das linhas atrasadas dos Pumas, com uma série de fugas e trocas de pés que deixaram Sanchez, Moroni ou Landajo pregados ao chão e que perante as formidáveis entradas de Julian Savea (jogo gigante do The Bus), pouco conseguiram fazer nos últimos 35 minutos. No ensaio de Faumina, Barrett tem uma incrível e estonteante entrada na defesa argentina, fazendo os Pumas dançarem um tango ao som da Nova Zelândia, abrindo espaços e brechas na defesa dos visitantes para o 5º ensaio da sua equipa. Quando Ben Smith (outro jogo impressionante do defesa, merecerá, a este ponto, conquistar o título de melhor jogador do Mundo em 2016) realiza um jogo tremendo (o segundo ensaio vale a pena verem e reverem para notarem a qualidade do step do nº15), quando Julian Savea volta ao seu normal e desgasta a defesa contrária, quando Kieran Read diverte-se a jogar (outro jogo incrível do nº8) é impossível a Nova Zelândia perder jogos e o Rugby Championship está praticamente no “bolso”. Quando nos lembramos dos “medos” dos neozelandeses em Junho deste ano, perante o “adeus” de Daniel Carter, Beauden Barrett decidiu estabelecer uma nova era na camisola nº10 dos All Blacks. Em 3 jogos, já conquistou 43 pontos, com dois ensaios, 4 assistências e 33 pontos em pontapés (falhou 10, 5 penalidades e 5 conversões)… é possível parar o pace, o step e a “electricidade” do médio de abertura que almeja em se afirmar como uma das novas lendas do rugby neozelandês… pelo menos já pode ser considerado como um Astro no Mundo do rugby.

A Comparação: MISTER JOUBERT LEARN FROM PROFESSOR OWENS

Nunca é bom falar de arbitragens, mas há que arriscar em falar deste ponto: a diferença entre Craig Joubert e Nigel Owens nesta jornada de rugby. Joubert ficou destacado para o jogo entre a Nova Zelândia e Argentina, enquanto que Nigel Owens ganhou o “direito” de mediar o encontro entre Austrália e África do Sul. O 1º acabou por fracassar na sua missão de controlar o jogo, permitindo um rugby quezilento e confuso no chão (a Argentina abusou das faltas no ruck e do anti-jogo no chão) e acabou por ser demasiado rígido (por mais de duas vezes sem razão) na formação ordenada, caindo sempre encima do bloco avançado dos Pumas. A vitória por 57-22 não deixou espaço para questionarem a exibição do árbitro sul-africano, porém Joubert assume um papel arrogante dentro do jogo, evitando explicar e conversar com os jogadores (teve um momento de aplaudir, quando ajudou Creevy a levantar-se do chão quando o capitão argentino tinha cometido uma penalidade), perdendo o equilíbrio que é obrigatório o juiz de jogo ter durante os 80 minutos. A força física e maior capacidade para aguentar o mesmo ritmo de jogo criou um gap entre a Nova Zelândia e Argentina e nem as potenciais faltas no chão estragaram a bela vitória dos All Blacks. Passado umas horas e não muito longe, a Austrália-África do Sul foram ajuizadas por Nigel Owens, o Professor da arbitragem do rugby. O juiz de jogo galês fez uma exibição de qualidade, revelando um carácter quase educacional perante alguns erros e penalidades de alguns jogadores. Neste encontro em que existiram algumas escaramuças entre Wallabies e Springboks (Etzbeth ficou mesmo sem camisola a certo ponto), Owens soube manter a calma, impor o respeito e ordem e relançar o jogo quando foi necessário. Houve um momento que abriu espaço para debate e dúvida: o não ensaio de Kerevi. Aos 46′ com um 16-14 a favorecer a equipa da casa, Kerevi consegue entrar na área de validação sul-africana e enrola-se com Goosen para marcar um ensaio que foi anulado por Owens depois de consultarem o TMO. Uns bons 5 minutos de conversa e análise da repetição do ensaio, deixaram ainda algumas dúvidas se Kerevi conseguiu “enterrar” a bola legalmente ou se acabou por perdê-la ou por tocar na linha antes de conseguir fazer os seus 5 pontos. Owens considera no-try, apesar de parecer duvidar da decisão que acabou de tomar. Mesmo assim, Owens soube dosear jogo, quando teve de dar um cartão amarelo deu (a Etzebeth, que fez o seu jogo 50 pela África do Sul, tornando-se o mais jovem de sempre a atingir esta meta nos Springboks) e garantiu um jogo bem disputado, sem erros e com a postura que o Mundo da Oval precisa de ver e aprender. Joubert, de 38 anos, tem muito que aprender com o seu colega Owens, com 45 anos… aliás tem todos que aprender com a postura e o nível que Nigel Owens obriga jogadores e técnicos a ter dentro e fora de campo.

A placagemKAINO WITH A SHOW STOPPER

Foi um fim-de-semana carregado de placagens e de reacções defensivas de grande qualidade, seja pela grande placagem de Kerevi a Goosen, de du Toit a Ginea, de Moroni a Retallick… mas a placagem que fica para a memória, foi a de Jerome Kaino a Moroni na 1ª parte do encontro entre Nova Zelândia e Argentina. Notem que não é uma placagem perfeita, nem como “está nos livros”, já que Kaino placa bem acima da cintura, ficando no limiar da falta, sem cair no erro de placar em falta, uma vez que a força e impacto com que “ataca” Moroni poderia resultar num cartão amarelo. Kaino soube esperar pelo momento perfeito para atacar Moroni que fica de peito aberto para o ataque do asa dos Blues. O impacto pode causar uma perda de bola ou, pior, uma lesão para o jogador que sofre esta placagem… todavia, Moroni demonstrou raça para aguentar com o “ataque” de Kaino e manter a oval em segurança. Pouco depois, vamos ter o 2º ensaio, que provem de uma excelente entrada de Julian Savea… se não fosse uma placagem de Matías Moroni às pernas do The Bus, tínhamos tido um bis do ponta dos Hurricanes. O ponta argentino dos Jaguares, demonstrou, mais uma vez, o porquê de ele ser um dos futuros dos Pumas… aguentar com Kaino, para depois “atacar” as pernas de Savea, só está ao alcance dos melhores deste desporto. Para Kaino, só basta dizer que com a idade parece estar melhor, sendo uma peça fundamental para estes All Blacks que estão a um pequeno passo de conquistar o Rugby Championship.

Detalhes: RUGBY, A GAME OF DETAILS

Vamos observar duas situações, uma de cada jogo da 3ª jornada do Rugby Championship: a saída de formação ordenada da Nova Zelândia e a forma como de uma defesa hábil se pode ganhar um ataque eficaz. Os All Blacks conseguiram 8 ensaios, dois deles tiveram o seu “berço” na formação ordenada. O 1º foi uma bola jogada entre Read e Aaron Smith, com Israel Dagg a realizar um falso, para Julian Savea receber a bola no espaço entre Sanchez e Hernandez. Mais tarde, aos 63′, Ryan Crotty vai receber de TJ Perenara, que tinha esperado pela saída e passe rápido de Kieran Read, para entrar no meio dos postes. É possível de analisarmos, que nesse momento a defesa argentina estava mais preocupada com a movimentação de Barrett ou as possíveis entradas/falsos de Savea ou Dagg, esquecendo-se do 1º centro dos All Blacks, que teve todo o espaço e tempo do Mundo para fazer o seu segundo ensaio do jogo. A Nova Zelândia é uma selecção que aperfeiçoou o básico, trabalha o máximo do impossível para atingir aquilo que chamaríamos perfeição, que para eles não passa da normalidade. A formação ordenada não falha, com 100% em três jogos, enquanto que o alinhamento só quebrou por 2 vezes em mais de 23 nesse sector. É aqui que os neozelandeses vão buscar o seu princípio de jogo, para depois atacarem nos outros sectores que tanto gostam, com os tais pormenores que fazem da Nova Zelândia a selecção mais entusiasmante de ver jogar. No outro jogo, houve um detalhe que “ensina” que uma defesa hábil, pressão intensa e inteligente pode converter um situação de risco num ensaio rápido. O 2º ensaio da África do Sul, de J. Goosen, nasceu dessa situação: a Austrália estava a escassos 10 metros de ir à linha de ensaio e encontravam-se todas as condições para que isso acontecesse, com uma superioridade crescente na linha (8 atacantes para 4 defesas) e com a África do Sul, aparentemente, perdida na defesa. Foley recebe a bola de Will Genia e quando devia ter a solto logo no imediato, opta por correr com a mesma e já encima da defesa atira um passe sem dinâmica, que Strauss, o talonador sul-africano, intercepta e joga para Jantjies, para o médio-de-abertura atirar um grubber para a corrida imparável de Goosen. Ensaio que nasceu numa situação defensiva bem trabalhada, que esperou pelo erro australiano para converter uma situação de perigo num momento de festejo, naquele que foi o 3º ensaio de intercepção em 6 jogos. Pena que não tenham conseguido manter o nível ao longo dos 80 minutos.


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