Arquivo de NK Rijeka - Fair Play

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Tomás da CunhaNovembro 1, 20165min0

O Dinamo Zagreb está mais do que habituado a correr sozinho, pondo os olhos na meta e esquecendo quem vem atrás. Arranca, impõe um ritmo moderado e, no final, celebra sem ter precisado de conhecer os seus próprios limites. A história repete-se todos os anos. Há 11 anos. Esta época, contudo, o maior emblema da Croácia começou a passo de caracol e terá de suar para superar a mais forte concorrência da década.

Zlatko Kranjcar não durou muito no Maksimir. A pesada derrota frente ao Rijeka, líder do campeonato, por 5-2, precipitou o pedido de demissão do antigo seleccionador croata, que tinha a árdua tarefa de suceder ao tricampeão Zoran Mamic. Face à inexistência de ideias no futebol praticado, percebeu-se desde cedo que a relação entre o treinador e o Dinamo terminaria assim que os maus resultados surgissem.

Em Zagreb, paciência não faz parte do léxico. Na presidência de Zdravko Mamic, entre 2003 e 2016, passaram pelo comando do clube 15 treinadores, sendo que apenas Zoran Mamic, o seu irmão, conseguiu estar mais do que duas temporadas ao leme da equipa. Um técnico que chega ao Dinamo sabe previamente o que vai encontrar, e que ganhar pode não ser suficiente.

Escolhido por Zoran Mamic, que substituiu o irmão na presidência, Zlatko Kranjcar, pai do futebolista Niko Kranjcar, teve dificuldades inesperadas a nível interno. Frente a oponentes de valia inferior, que defendem com 11 jogadores atrás da linha da bola, o Dínamo foi sempre uma equipa pouco ou nada criativa, sem arte para desequilibrar a estrutura adversária. Com pouca capacidade de jogar por dentro, os campeões tornavam-se bastante previsíveis e dependentes de iniciativas individuais.

Num clube como o Dinamo, que detém a hegemonia no plano nacional, o papel do treinador por vezes é secundário, já que a qualidade individual do plantel costuma ser suficiente para ultrapassar todos os obstáculos que surgem no caminho. Zlatko Kranjcar complicou o que, à partida, parecia simples. Construiu uma equipa com demasiadas preocupações defensivas e acabou por não valorizar devidamente os melhores jogadores que tinha à disposição.

É ponto assente que o Dinamo tem de assumir a iniciativa em praticamente todos os encontros que disputa no campeonato croata. Assim sendo, a ideia de jogo do treinador terá obrigatoriamente de privilegiar a vertente ofensiva, dotando o colectivo de soluções para jogar em ataque continuado. Poderia pensar-se que Kranjcar, um técnico com bastante experiência, conhecia a realidade da liga melhor do que ninguém mas, em vez disso, provou ser um erro de casting.

As duvidosas opções de Kranjcar

 Zlatko Kranjcar não durou muito no campeão croata (Foto: nacional.hr)
Zlatko Kranjcar não durou muito no campeão croata (Foto: nacional.hr)

Foram raras as ocasiões em que Kranjcar abdicou de um trinco com um perfil defensivo (como Benkovic ou Jonas, também utilizados como centrais), o que acabou por retirar qualidade à equipa na saída de bola e na ligação entre sectores. Tendo em conta a postura dos adversários que defrontam o Dinamo, sobretudo no Maksimir, era perfeitamente dispensável a presença de um jogador que pouco oferece ao nível da construção naquela posição.

A pouca fluidez no jogo do campeão croata foi uma constante enquanto Kranjcar esteve à frente da equipa. Muita posse, pouca ou nenhuma capacidade de criar situações para marcar. Este cenário de apatia colectiva acabou por prejudicar Ante Coric, provavelmente o jogador mais talentoso do plantel. Depois do destaque que teve na última temporada, era expectável que ganhasse ainda mais protagonismo e se tornasse na principal figura da equipa, emprestando a sua criatividade e rapidez de execução.

Estranhamente, este início de época mostrou uma sombra de um jovem com futebol a mais para a liga da Croácia. Coric precisava de ser desafiado, de ter novos estímulos para poder crescer enquanto jogador, e Kranjcar não acompanhou essas necessidades. Ao invés de dar ao médio um papel central na equipa, transmitindo-lhe uma mensagem de confiança, prescindiu dele em partidas teoricamente complicadas – como as da Liga dos Campeões – e terá contribuído para a sua desmotivação. Perdeu aquele que, à partida, tinha condições para ser o desbloqueador que faltou à equipa do Dínamo.

As eliminatórias europeias dificultaram a missão de Kranjcar. Para fazer face aos compromissos internacionais, o treinador do Dinamo procurou gerir o plantel, mudando o sistema e as peças de jogo para jogo. Apesar de ter sido bem sucedido, ultrapassando o Dínamo Tbilisi e o RB Salzburgo para chegar à fase de grupos, sofreu as consequências por ter sido obrigado a fazer essa rotação. Sem uma base definida, a equipa não atingiu a estabilidade necessária e foi notória a falta de identificação dos jogadores com as ideias que Kranjcar pretendia aplicar. O problema habitual em clubes como o Dinamo, demasiado fortes no próprio país mas sem argumentos para brilhar no plano europeu, não foi bem resolvido.

Foi escolhido para ser o treinador da continuidade, mas o descalabro em Rijeka tornou impossível a permanência de Kranjcar à frente da equipa. Mesmo sem ter culpas exclusivas, o técnico somou alguns deslizes inadmissíveis e perdeu o crédito que possuía. Para o seu lugar chegou Ivaylo Petev, antigo seleccionador búlgaro. Um treinador mais jovem e com outra frescura nas ideias, que parece apostado em corrigir os erros do seu antecessor. Paulo Machado tem jogado à frente da defesa e Ante Coric vai recuperando o nível que mostrou na época passada. Não muda tudo, mas coloca o Dinamo num passo mais apressado na corrida pelo título.

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Tomás da CunhaSetembro 21, 20164min0

Sopram ventos de mudança no campeonato croata. Pelo menos é o que parece. Nunca foi tão realisticamente possível ver o Rijeka destronar o Dínamo Zagreb, a quem não foge o título há 11 anos. O contexto actual é bastante simpático para o terceiro maior clube da Croácia, sobretudo depois da vitória sobre o rival. Além dos 4 pontos de vantagem na classificação, que garantem desde já uma almofada de conforto, a equipa orientada pelo esloveno Matjaz Kek conta neste momento com mais estabilidade e uma superioridade moral que pode aproveitar.

O Dínamo caiu com estrondo em Rijeka. Há muito tempo que não se via o todo-poderoso de Zagreb ser vergado de forma tão clara, podendo até dar-se por satisfeito por “só” ter perdido por 5-2. Os campeões em título fizeram uma exibição para esquecer, com erros constantes do princípio ao fim, mas muitos deles provocados pelo adversário. Pelo momento actual, o Rijeka podia ser considerado favorito à partida e não quis deixar os créditos por mãos alheias. Com uma atitude pressionante desde o início do encontro, conseguiu recuperar inúmeras bolas em zonas adiantadas e explorou as transições de forma exímia, castigando as desconcentrações do Dínamo. Uma equipa organizada e com identidade, tudo o que o emblema de Zagreb não foi.

A estratégia montada por Matjaz Kek teve o resultado pretendido. Aliás, superou por completo as melhores expectativas de jogadores e adeptos do Rijeka. O objectivo era aproveitar a pressão enorme com que o Dínamo chegava a este encontro. Depois de duas derrotas consecutivas, em casa frente ao Osijek e em Lyon, os homens de Kranjcar entravam em campo sobre brasas. E isso notou-se desde cedo. Benkovic e Schildenfeld, os dois centrais, tremeram sempre que a bola lhes chegou aos pés e ofereceram inúmeras possibilidades à equipa da casa. Toda a defesa dos campeões esteve desastrada.

Houve demérito do Dínamo, é certo, mas também houve muita inteligência na abordagem do Rijeka. Com zonas de pressão bem definidas, a equipa da casa montou uma teia muito eficaz e conseguiu bloquear prematuramente todas as iniciativas do emblema de Zagreb. Vesovic e Gorgon, os dois alas, tiveram um papel determinante e recebem ambos o prémio de melhor em campo. Cada um marcou dois golos, o que podia só por si justificar esse rótulo. Foram duas setas apontadas à baliza contrária, assumindo-se como referências nas saídas rápidas para o ataque. Gorgon procurou mais as diagonais para o centro, por se tratar de um destro a actuar na esquerda, enquanto Vesovic jogou mais em largura. Além disso, ambos revelaram uma enorme disponibilidade defensiva, bloqueando os laterais adversários e ajudando a fechar o espaço interior.

Sai Bezjak, assume Gavranovic

Roman Bezjak era o goleador de serviço do NK Rijeka Foto: sportske.jutarnji.hr
Roman Bezjak era o goleador de serviço do NK Rijeka (Foto: sportske.jutarnji.hr)

Poderia pensar-se que a saída de Roman Bezjak, nos últimos dias do mercado, iria trazer problemas ao ataque do Rijeka. Afinal, a transferência do esloveno de 27 anos para o Darmstadt, da Bundesliga, representava a perda de uma das figuras da equipa e do melhor marcador da última época (marcou 13 golos, mais 3 que o albanês Bekim Balaj, que também saiu). Contudo, o suíço Mario Gavranovic, que nunca cumpriu o que chegou a prometer, tem sido um substituto à altura e vai fazendo esquecer Bezjak. Nesta fase, os adeptos do Rijeka só se devem lembrar de que, depois de Kramaric, houve mais um avançado no clube a mostrar valor para outros campeonatos.

A mobilidade do ataque é uma das imagens de marca deste Rijeka, que joga sem uma referência na frente. Gavranovic não é um jogador estático, como Bezjak não era. Movimenta-se para abrir espaços e sabe servir de apoio. O Dínamo nunca conseguiu travar a dinâmica ofensiva da turma de Matjaz Kek, concedendo inúmeras oportunidades de golo. Houve uma ligação bastante estreita entre os dois médios mais ofensivos – Bradaric e Andrijasevic – e os três jogadores mais adiantados, que permitiu à equipa da casa ter o controlo absoluto do encontro.

Com a travessia no deserto que o Hajduk Split vai atravessando, o Rijeka assumiu-se nos últimos anos como a principal ameaça aos títulos sucessivos do Dínamo. O terceiro maior emblema da Croácia, que conta com 4 Taças no palmarés (2 da antiga Jugoslávia), tem cimentado o seu estatuto no futebol nacional e apresenta um projecto destinado a vencer. Gabriele Volpi, o dono do clube, mantém Matjaz Kek no comando da equipa desde 2013, demonstrando que a estabilidade é quase sempre a receita para o sucesso. O Dínamo continua a ter algum favoritismo, pelo historial e pela superior qualidade do plantel, mas o Rijeka está apostado em contrariá-lo.


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