Arquivo de Narcotráfico - Fair Play

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Francisco IsaacOutubro 7, 20169min0

O fim de uma “carreira” e do reinado; um até já do futebol colombiano; e o início de uma redefinição na forma de viver. O 3º episódio, e último, da saga de Escobar e o Futebol.

Convidamos o leitor a colocar a seguinte banda sonora para acompanhar a leitura: goo.gl/DVvEip

No caso de não ter lido o 1º e 2º episódios, recomendamos que o faça: goo.gl/KtPgZC e goo.gl/ruRpnU

Voltemos a Dezembro de 1993, talvez o mês mais crítico para Medelín. Pablo Escobar escondido no seio da cidade e o DIM a lutar pelo título de Campeón de Colombia. O homem que inspirou documentários e uma série não deveria querer saber de futebol nesse momento, já que a sua vida estava praticamente no fio da navalha e a todo momento poderia ser retalhada. O DIM vivia num misto de emoções, disputando com o Junior o Campeonato Nacional e teria, a 19 de Dezembro, um jogo decisivo frente ao rival, o Atlético Nacional. Irónico que as duas equipas de Medelín tivessem de medir forças, como se ambas representassem partes da personalidade de Escobar: o Atlético com a exuberância e arrogância e o Deportivo com a paixão e loucura, todas características que coexistiam dentro de Pablo Escobar. Uma vitória do Atlético entregava, imediatamente, o título de campeão aos Verdes não sendo necessário esperar pelo jogo entre o Junior-América de Cali. Já o DIM mesmo que derrubasse o Atlético, tinha de aguardar pelo desfecho do outro jogo. Mas … ao bom estilo colombiano, não quis esperar.

Depois daquele fatídico campeonato de 1989, em que estiveram tão perto da glória (o DIM encontrava-se no 2º lugar quando perdeu por 1-0 com o Cali) e que terminou na morte de Álvaro Ortega, o Deportivo Independiente de Medelín esteve três anos à espera deste momento. A equipa do pueblo, como muitos afirmavam – a equipa que trazia todas as emoções e crenças da população que vivia nas piores condições possíveis -, estava à beira de destronar os ricos (mas em queda-livre) do Atlético Nacional, do América de Cali e os puritanos do Junior. O DIM sempre representou este estracto social mais baixo – era um clube que tinha uma forma de viver diferente, mais humilde sem perder pitada da alegria associada ao estilo latino. Era a cara de Pablo Escobar: as suas raízes estavam ali no DIM, nas bancadas, no barulho ensurdecedor que vinha da hinchada do DIM, do movimento que a população, trabalhadora e de mais terra-a-terra efectuava a cada novo jogo no Atanasio Girardot. Era o pulsar de Medelín. Não era o estilo do Atlético Nacional, que vivia dos milhões do Cartel de Medelín, que deveria ter imperado no coração de Escobar. O “filho” de Medelín (nasceu em Rio Negro, a 30 km’s da capital do distrito de Antioquia) correu tanto, driblou por tantas as vezes os seus opositores, abalroou quem tentava chegar perto do seu balón e acabou tropeçando nos seus próprios pés…

A 2 de Dezembro desse ano, Pablo Escobar, com o seu braço-direito e guarda-costas Alvaro Agudelo, foi apanhado pelos dois grupos que há 1 ano sonhavam com esse momento. Desta vez, Don Pablo não conseguiu fintar a morte – saltou de prédio em prédio, só que os disparos das forças policiais puseram fim à Lenda de Medelín. A corrida de Escobar terminara ali, numa manhã que mudaria, para sempre, a Colômbia. No dia 3 de Dezembro não haveria mais Cartel de Medelín, a liderança caiu com Don Pablo, que acabou por tropeçar no seu próprio “drible”: os assassinatos, as conspirações, os esquemas, o regozijo com que falava das suas atrocidades e do nível de vida que tinha atingido tinha sucumbido perante um erro do próprio – a chamada telefónica para o filho fora captada pelas forças do Search Bloc. Um escape muito curto, que iria terminar em tragédia, para uns, e no ressuscitar da Colômbia, para a larga maioria.

Fica ao cargo do leitor (e visualizador, no caso de ter visto a série) escolher se Medelín caiu na penumbra nesse mês de Dezembro ou se retirou de si mesmo aquele “manto” negro com que Escobar havia encoberto a cidade durante largos anos.

A segunda tragédia de Medelín aconteceu pouco depois, a 19 do mesmo mês. O DIM tinha conquistado a vitória final frente ao Atlético, com um belo golo de Carlos Castro ao minuto 86. A 700 km’s ainda se jogava o outro encontro, onde um 2-2 persistia… Os adeptos do DIM já festejavam o Campeonato Nacional, pensando que mais nada se passaria no jogo entre o Junior e Cali; porém, quis o destino que McKenzie, avançado tapado por Pacheco, recebesse um passe formidável de ‘El Pibe‘ Valderrama para fazer o 3-2 aos 90’ (clique no link para obterem informações sobre a derradeira jornada: goo.gl/fMwNxa)

O que veio de seguida foi a típica explosão de emoções. Mckenzie dirige-se à afición que salta em cima do seu herói, o estádio quase que desaba entre o frenesim do choro e o alucinar da memória, enquanto, em Medelín, a desilusão, com as típicas tonalidades de tristeza e convulsão, atingem da mesma forma que o golo de McKenzie atingiu no golo a Oscar Córdoba (entrevista a Mckenzie: goo.gl/C7EJ1L).

Fruto de uma coincidência gritante, a equipa de Escobar de coração, o DIM, e a equipa de lavagem, Atlético, acabam deitados no chão após uma tentativa de fuga com o título, na mesma altura em que o homem que “inspirou” histórias e fantasias termina o seu reinado. Dezembro de 1993, o momento em que a paixão, loucura, frenesim terminam com um golpe de misericórdia do destino. Aplicando um fastfoward, o Atlético Nacional (para mais situações de organizações criminosas a apoiar equipas no futebol ver: goo.gl/xe8NWd) subiria ao palanque dos campeões na temporada seguinte, numa altura em que a Colômbia está imersa na guerra contra o Cartel de Cali, com as FARC a não deixar de maniatar o poder do governo e com o espectro de Escobar ainda a pairar em Medelín…

As instalações do DIM (Foto: Wikipedia)
As instalações do DIM (Foto: Wikipedia)

Passaram-se largos desde da morte de Pablo Escobar – 23 mais especificamente. O DIM conseguiu ser campeão por 4 vezes nos anos 2000 – Jackson Martínez deixou forte marca na equipa de Medelín -, com o seu eterno rival do Atlético Nacional a somar 8 títulos da Colômbia (mais a tal Taça Libertadores) e a selecção colombiana voltou a ser um equipa competitiva com vários talentos de grande dimensão.

A fantasia que se criou em redor de Escobar “mergulha” o público numa subtil dança de respeito e de estima pelo falecido líder do Cartel de Medelín. Mas ao jeito do que foi a festa desfeita pelo Junior ao DIM em 1993, lembramos que Don Pablo lançou o pânico, a discórdia e a violência um pouco por toda a Colômbia, vivendo sob a regra do “Plato o Plomo“, e acabou por deixar um legado tóxico, que durante anos fora inalado pela sua doce Colômbia.

Como todas as paixões ardentes e envoltas num êxtase hiperbolizado que acabam por terminar de forma abrupta, o futebol colombiano definhou durante largos anos e só em 2004 é que recomeçou o seu processo de regresso à ribalta, com a conquista da Libertadores pelo Once Caldas. Se Medelín e o Deportivo Independiente de Medelín sentem falta do seu hincha mais conhecido? Não o sabemos. Mas ainda hoje há uma luta intensa entre os adeptos do Atlético Nacional e do DIM, com cada facção a afirmar que Escobar es Nuestro Hincha com um fervor e clamor que deixariam Escobar orgulhoso de algum do seu legado.

Gol o Plomo, um sofrimento pela hinchanda, uma forma de viver a alegria do futebol, entre as consequências de uma vida ilegal e de uma vontade de ser o revolucionário de Medelín, Escobar e o seu cartel liquidaram mais de 5000 pessoas, lançaram os cartéis mais maliciosos e violentos da História da América do Sul, destruiram vidas (incluindo a sua), tentaram revirar a política nacional, relançaram o futebol colombiano, deram parte da sua pele ao Atlético Nacional (tenha sido o propósito de “lavar” ou de simplesmente ajudar) e amaram o DIM até ao momento final. Gol o PlomoPlata o Plomo ou entre La Vida e la Muerte

Ao jeito de uma série de referência, abrimos caminho para o que pode vir a ser uma nova trilogia. Agora sem Escobar. Com quem então? Gilberto Rodriguez Orejuela. Quem? Para isso terá de esperar pela 3ª temporada de Narcos e pela 2ª trilogia do Fair Play.

Que segredos esconde o América de Cali (Foto: ESPN)
Que segredos esconde o América de Cali (Foto: ESPN)
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Francisco IsaacSetembro 30, 20169min0

1993, o ano das coincidências macabras para Medelín: Escobar entre a fuga e a caça, uma guerra nas “entranhas” de Medelín e um redefinir de ilusões. O 2º episódio de uma trilogia do Fair Play

Convidamos o leitor a colocar a seguinte banda sonora para acompanhar a leitura: goo.gl/ksIbNR

No caso de não ter lido o 1º episódio, recomendamos que o faça: goo.gl/KtPgZC

O Muro de Berlim caiu, assim como a União Soviética; Bill Clinton é presidente nos EUA; a World Wide Web “nasce” no CERN; o Jurassic Park faz “estremecer” o Mundo do Cinema; Whitney Houston arrebata a crítica; e o Marselha conquista a sua 1ª Taça dos Campeões Europeus. Na Colômbia, o barril de pólvora de Escobar estava pronto a explodir…

Imaginem, por um momento, o que seria a Colômbia à passagem de 1993… Os tumultos em Medelín, com Escobar foragido do Search Bloc/Bloque de Búsqueda  e de Los Pepes, tentando, por entre fintas e dribles do mais fantasista possível, escapar da morte a todo custo. Na mesma cidade, o Deportivo Independiente de Medelín estava perto de voltar a sagrar-se campeão colombiano, algo que lhes escapava desde 1957 – a vitória tinha de chegar! As fintas de Henry Zambrano (avançado do DIM) encantavam o público do Equipo del Pueblo. E quem se encontrava por entre os fãs dessa mítica equipa de Medelín? Don Pablo!

O coração de Escobar não palpitava pelo Atlético Nacional, não; e, talvez, nem a selecção colombiana excitasse a sua paixão pelo futebol como o Deportivo Independiente de Medelín o fazia (pelo menos como afirma o seu filho mais velho, Sebastián Marroquín, e Popeye, o Sicario de Escobar). Do vermelho enternecido no azul, com um subtil toque do branco, as cores do DIM eram quase como um auto-retrato da história e personalidade de Escobar, que fez a sua vida entre o vermelho sangue do seu trabalho ou das suas vítimas, o azul do céu  da altitude do vale de Aburrá ou do rio Porce (que “vive lado-a-lado” com a cidade de Medelín) e o branco dispensa explicações. Entre a loucura de ser um hincha do DIM, de chefiar o maior cartel da América do Sul (e talvez das Américas) e da sua vida familiar “escondida” de todos, Escobar sabia perfeitamente do alcance da sua Lenda.

Ao estilo da série, comecemos pelo final do reinado de Don Pablo que cruza, coincidentemente, com a história do DIM e do Campeonato de futebol da Colômbia de 1993. Escobar estava no final da linha, o seu coração palpitava a cada noite que se levantava, com os seus inimigos sedentos de fazer justiça e de pôr fim ao tango Escobariano dos últimos 18 anos. Escondido em Medelín, Don Pablo deveria desconhecer qual seria a data da sua morte, apesar de todos os seus intuitos para driblar, fintar e regatar os seus fiéis perseguidores. Porém, sabia que o momento final estaria a chegar. Sobre o mesmo timbre e ritmo, o DIM tentava fugir com o título de campeão da Colômbia e a loucura e paixão que se faziam ouvir e sentir no Estádio Atanasio Girardot demonstravam que o sonho estava perto. Muito perto.

Numa contenda complicada contra o sempre favorito Atlético Nacional (estaria a ser financiado ou não pelo Cartel de Medelín?), o América de Cali (orquestrado pelo Cartel de Cali, rivais de Escobar), o Junior de Barranquilla (os “puros” do futebol colombiano, aqueles que nunca se venderam) e o Deportivo Independiente de Medelín, o campeonato acabou na Liguilha a 4. Nessa altura o campeonato da Colômbia estava dividido em três fases: campeonato com 16 equipas, divisão em dois grupos com os 8 melhores onde se apuravam 2 e os 4 finalistas. Na 3ª fase, a liga a 4 decorria em duas voltas e quem somasse o maior número de pontos era considerado o campeão. Difícil? Complicado? Confuso? Não, era a paixão sul-americana pela redonda, pelo calor das arenas onde as maiores estrelas se degladiavam para atingirem o rótulo de Mito e Lenda.

No Junior jogava Valderrama, o enigmático médio colombiano (com mais de 110 internacionalizações) que conseguia levar qualquer arena à loucura, impondo todo um perfumepaixão em campo que “matavam” o público ao fim de 45 minutos. A equipa purista habitava nessa “mansão” do futebol colombiano, entre o pânico de fazer frente aos rivais governados pelas redes de tráfico de droga e influência e a emoção de provar que não precisavam de uma mão misteriosa para indicá-los ao caminho da Glória.

No América de Cali jogava um portento físico, também no meio-campo, chamado Freddy Rincón. O médio da selecção da Colômbia (84 int.) possuía um porte físico quase inultrapassável, aguentando qualquer carga e impondo toda uma raçaatitude ao estilo do nome pelo qual os hinchas colombianos o classificavam, El Colosso. Atenção que o Cali em 1993 era o campeão em título e queria manter o troféu em “casa”, como se fosse uma prova de que o Cartel de Cali dominava – ou queria dominar – em todas as frentes de “combate”.

E por fim, o Atlético Nacional de Medelín, o grande rival do DIM… e que era apoiado, supostamente, por Don Pablo. Los Verdolagas beneficiaram da ousadia, capricho e génio de Escobar, que ajudava o Atlético Nacional a chegar ao estrelato e, ao mesmo tempo, “limpava” os vários milhões de Pesos Colombianos “sujos” pelo negócio que comandava a sua vida. Em 92/93 o Atlético sorria por ter o fascinante René Higuita que “voava” (sem uso da branca) para chegar aos mais indefensáveis remates que acabavam, assim, expulsos da portería do Atlético.

El Nacional (Foto: ESPN)
El Nacional (Foto: ESPN)

Este era o quadro final da temporada de 1992/1993. Uma luta intensa ao bom estilo do calor da paixão pelo futebol dos colombianos, que caminhavam para os estádios sob os gritos e urras dos seus hinchas, enquanto os cartéis maquinavam as suas conspirações, estabeleciam o seu poder e desgovernavam o poder político que tentava, a todo custo, se libertar das amarras que tinha aceitado colocar anos atrás.

O mês das decisões chegava em Dezembro de 1993. Para todos. Pablo Escobar estava foragido das forças policiais, após ter “desaparecido” da sua prisão-fortaleza La Catedral na noite de 22 de Julho, sem que as autoridades dessem conta do sucedido. Como quem está rodeado de amigos de escola no campo de futebol, Escobar ludibriou tudo e todos, com todos os seus regates, evitando uma transferência para uma prisão menos ao seu gosto – La Catedral tinha todos os luxos que poderiam imaginar, desde uma cascata, cinema, bar e, melhor do que tudo, um campo de futebol! -, assim tentando relançar a sua carreira, que nunca entrou em modo pausa.

Esta acção levou a que os Estados Unidos da América, em parceira com o Governo da Colômbia, criassem uma força policial-militar apelidada de Search Bloc/Bloque de Búsqueda , que tinha um único objectivo: encontrar Pablo Escobar. O Search Bloc/Bloque de Búsqueda,  composto por uma liderança americana que treinaria operativos colombianos, possuía todos os meios para encontrar o líder do Cartel de Medelín. Vivo ou Morto, era a ordem de César Gaviria, Presidente da Colômbia. Ordem que Hugo Martínez Poveda, coronel do exército colombiano e agora da equipa de captura de Escobar, acatou.

A pressão sobre o líder do cartel de Medelín era quase incapacitante, uma vez que todos os movimentos mais audaciosos poderiam captar a atenção. E, para piorar o cenário para Don Pablo, o emergir de Los Pepes vinha duplicar os seus problemas.

Quem assistiu à série sabe que Los Pepes era um grupo rebelde, composto por vigilantes, que só queriam caçar e aniquilar Pablo Escobar, erradicando a Colômbia da memória e jugo do déspota da Branca. Porquê Los Pepes? O nome provem de: Perseguidos por Pablo Escobar, ou seja, todos aqueles que foram alvos da extorsão, violência, ameaças e coação por parte de Pablo Escobar. Para além disso, entre as fileiras de Pepes estavam familiares de indivíduos mortos por Don Pablo, o que alimentava ainda mais uma fúria incessante, um desejo único em pôr termo ao “demónio” que lhes retirou a liberdade, humildade ou vontade de viver. A criação dos Pepes ficou marcada para Setembro de 1992, com Fidel Castaño, Carlos Castaño e Diego Fernando Murillo Bejarano a liderarem este grupo que no futuro iria inspirar outros “inícios” de luta na Colômbia. O peso de Escobar na política colombiana foi tal, que o governo local foi obrigado a constituir duas forças anti-narcóticos, que nas suas “entranhas” tinham nascido para caçar Don Pablo.

Escobar, Verde por fora, rojo por dentro (Foto: ESPN)
Escobar, Verde por fora, rojo por dentro (Foto: ESPN)

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