Arquivo de Miguel Arraiolos - Fair Play

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João BastosMarço 5, 201712min0

O Mundial de Triatlo voltou e com ele também voltou Javier Gomez Noya, o azarado espanhol que ficou fora dos Jogos Olímpicos do Rio. Abu Dhabi marcou o arranque do circuito que percorrerá quatro continentes até Setembro

Os Emirados Árabes Unidos foram o primeiro dos 9 palcos por onde passará o Mundial de Triatlo 2017. A etapa árabe foi marcada por muitas ausências, mas também por alguns regressos.

Para as cores nacionais, foi uma prova onde se pôde ver os nossos atletas já a um nível bastante interessante para esta altura crepuscular da temporada.

Mario Mola e Flora Duffy não iniciaram da melhor forma a defesa dos seus títulos. Duffy, então, não iniciou de todo. Mas, certamente, ainda vamos ver ao longo do circuito o que os dois campeões mundiais em título são capazes de fazer.

Hewitt vence ao sprint

Como já falado, Flora Duffy não alinhou à partida da prova de Abu Dhabi, mas houve mais ausências de relevo na start list, sendo a mais notada a da campeã olímpica em título, Gwen Jorgensen, que deixou a representação americana a cargo de um quinteto de luxo composto por Sarah True, Katie Zaferes, Kirsten Kasper, Summer Cook e Renee Tomlin.

Também a britânica Helen Jenkins, sempre candidata, optou por não participar, mas a armada britânica nunca está desfalcada e apresentava outras candidatas como Jodie Stimpson e India Lee.

Outra das ausências foi (ainda) a de Vanessa Fernandes, que anunciou recentemente o regresso à competição e já estava inscrita nesta primeira prova, o que indicia que o seu regresso em pleno estará para muito breve.

Vanessa Fernandes anunciou o regresso à competição no passado dia 27 de Fevereiro | Foto: Lusa

A prova começou como tantas outras começam, com a espanhola Carolina Routier a vir para a frente na natação e a fazer a principal despesa dentro de água até ao parque de transição para o ciclismo.

À saída da água, as americanas Sarah True e Katie Zaferes vinham muito bem posicionadas (como também é apanágio das americanas).

Pedalando no autódromo de Abu Dhabi, o grupo mais restrito que seguia na frente rapidamente se deixou apanhar pelo pelotão mais numeroso que seguia atrás.

Por volta dos 20 km de ciclismo, Sarah True desiste e Zaferes passa ao ataque, voltando a fragmentar o pelotão, formando-se um grupo na frente formado pela americana, pelas australianas Gillian Backhouse e Charlotte McShane, pela italiana Alice Betto, pela japonesa Yuko Takahashi, pela holandesa Rachel Klamer, pela austríaca Sara Vilic e ainda pela neozelandeza Andrea Hewitt e pela britânica Jodie Stimpson, as duas que representavam as mais fortes ameaças às aspirações de Zaferes.

E na verdade foram as duas que passaram imediatamente ao ataque no segmento de corrida, deixando em dificuldades a americana que tanto tinha forçado no ciclismo para as deixar para trás.

A meio do segmento de corrida de 10 km, o pódio começava a definir-se quando Hewitt, Stimpson e Vilic deixam para trás Klamer, a última resistente do grupo de nove que começou a correr junto.

Sara Vilic também não viria a aguentar durante muito mais tempo o ritmo das duas triatletas mais cotadas.

A 50 metros da meta, Stimpson – que tinha sido a mais empenhada durante a corrida em ir encurtando o grupo – parecia ter tudo encaminhado para iniciar o circuito com uma vitória (como tinha feito no ano passado), mas num sprint final “do outro mundo” foi Andrea Hewitt que levou a melhor, conseguindo a vitória mesmo em cima da linha de meta.

Veja e impressione-se com o recta final da prova:

Hewitt sofreu uma experiência pessoal, há cerca de um ano e quatro meses, absolutamente traumática. O seu treinador e marido, o francês Laurent Vidal – um dos melhores triatletas do pelotão internacional, que por problemas cardíacos deixou a competição em 2014 e dedicou-se ao treino da neozelandesa – faleceu em Novembro de 2015, vítima de ataque cardíaco.

No final, uma Hewitt emocionada, dedicou a vitória a Laurent Vidal…que certamente lhe deu um empurrãozinho naquele final de prova!

A neozelandesa começa assim o circuito mundial da melhor forma. Ela que no ano passado foi 6ª no final das 9 etapas, mas que este ano quererá, certamente, melhorar essa posição.

Já Jodie Stimpson tinha ganho esta etapa em 2016, mas desta vez teve de se contentar com a prata.

Sara Vilic fechou o pódio, chegando 7 segundos depois das duas primeiras.

Veja o resumo da prova feminina:

Gomez volta ao seu lugar habitual: o primeiro

Tal como a prova feminina, também a prova masculina foi pautada por várias ausências, com a dos irmãos Brownlee a ser a mais notada (Jonathan lesionou-se poucos dias antes da etapa).

Mas a nota dominante não foi das ausências, mas sim das presenças. O maior vencedor de sempre de etapas do Mundial, Javier Gomez Noya, estava de regresso, depois de se ter lesionado o ano passado, a apenas um mês do início dos Jogos Olímpicos, o que o retirou da luta pelo ouro no Rio de Janeiro.

Fonte: MundoTRI

Gomez vinha liderar uma armada espanhola de luxo, composta também por Mario Mola, actual campeão do WTS e vencedor desta etapa em 2016 e Fernando Alarza, 3º classificado no ano passado, no final do circuito.

A probabilidade da primeira prova internacional do ano ser ganha por um espanhol era grande, mas o trio tinha de se preocupar com fortes rivais, nomeadamente Richard Murry (África do Sul) que este ano já se tinha mostrado em boa forma em provas no seu país.

Sem Richard Varga em prova (o habitual animador na natação), foi o francês Aurelien Raphael que impôs o ritmo…e que ritmo!

Durante o segmento de natação, Raphael chegou a andar completamente isolado, mas na saída da água já o medalha de bronze do Rio, Henri Schoeman e o russo Igor Polyanskiy tinham conseguido recolar ao francês.

No entanto, os estragos estavam feitos e o pelotão seguiu para o ciclismo completamente fragmentado. Na frente seguia um grupo composto por 10 elementos, onde seguia Gomez mas não seguia nem Mola, nem Alarza, nem Murray, o que começava, desde logo, a abrir expectativas animadoras para o espanhol, que passava a ter em Henri Schoeman e Vincent Luis os seus potenciais maiores adversários na corrida (se é que há adversários à altura do espanhol na corrida).

No entanto, na última volta do ciclismo, o grupo perseguidor, liderado por Murray, Mola e Alarza conseguiu inverter o que já parecia definitivo, recuperando o minuto de desvantagem que tinha para o grupo da frente, vindo baralhar as contas da prova.

Nem se pode considerar que os perseguidores estavam com um desgaste superior a Gomez, já que o espanhol assumiu muitas das despesas na imposição do ritmo, na frente da prova.

Mas como Javier não sabe correr de outra forma, veio para a frente ao km 0 do último segmento e com ele só levou o britânico Thomas Bishop e o sul-africano Henri Schoeman (que só aguentou 3 km ao ritmo de Gomez – 3 min/km).

Mais atrás, vinha-se formando um grupo perseguidor de luxo: Murray, Mola, Alarza e o português João Pereira, quatro excelentes corredores que vinham paulatinamente a recuperar posições.

A três quilómetros do fim, Gomez cansou-se da companhia de Bishop e desferiu o ataque final, que o levou tranquilamente até à sua 13ª vitória em etapas do Mundial de Triatlo.

Thomas Bishop chegou 14 segundos depois e Vincent Luis conseguiu chegar ao bronze, resistindo à aproximação de Fernando Alarza, que foi o mais rápido em prova no segmento de corrida.

Veja o resumo da prova masculina:

A prova dos portugueses

Abu Dhabi foi a prova de melhor memória para as cores nacionais em 2016, já que foi a única onde Portugal conquistou um pódio, por intermédio do 3º lugar de João Silva.

Este ano o feito não foi repetido, mas houve bons apontamentos por parte da comitiva portuguesa:

A primeira a entrar em acção foi Melanie Santos, que até começou bem no segmento da natação, saindo da água num segundo grupo, a 40 segundos do primeiro, lado a lado com as três triatletas que terminaram no pódio.

O problema veio no ciclismo. O forte ritmo do grupo onde seguia, que queria apanhar as fugitivas o mais rapidamente possível, obrigou-a a desistir por volta do 16º km. Não foi a estreia no circuito deste ano que Melanie desejaria, mas foi certamente uma etapa muito útil para a jovem do Benfica retirar ensinamentos tácticos para futuras etapas.

Foto: Unspot Design

Na prova masculina, João Pereira conseguiu um excelente 6º lugar. Ele que tinha perdido o comboio da frente na natação e seguiu no ciclismo no 2º grupo, mas mais uma vez fez um segmento de corrida em crescendo, tendo sido mesmo o quarto mais rápido em prova, nesse segmento, cumprindo os 10 km em 31 minutos e 25 segundos.

Ficou à frente de nomes como Mario Mola ou Henri Schoeman.

Foto: Triathlon.org

Já a João Silva a prova não correu da forma que tinha corrido em 2016. Foi ainda mais surpreendido na natação do que João Pereira e ficou num terceiro grupo do ciclismo, onde não rolavam grandes referências e a distância para a frente foi aumentando significativamente.

No entanto, na corrida, Silva puxou dos galões e imprimiu um ritmo muito forte (foi o sexto mais rápido na corrida). A diferença para os restantes grupos já era grande, o que não o permitiu fazer uma grande recuperação em termos de classificação. Quedou-se pelo 19º lugar final.

Pódio de 2016 com João Silva no 3º lugar | Foto: Triathlon.org

O terceiro português foi Miguel Arraiolos que seguiu no grupo de João Silva até ao início da corrida. Fez uma prova bastante regular, evidenciando que é já um triatleta mais maduro e experiente neste tipo de provas. A natação continua a ser o grande calcanhar de Aquiles de Arraiolos, ficando a expectativa sobre o que ele poderá fazer numa prova em que o ritmo imposto nesse segmento não seja tão alto.

Classificou-se no 27º lugar, subindo 6 pontos em relação à classificação nesta etapa em 2016, amealhando 105 pontos para o ranking WTS.

Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

O jovem David Luís, de apenas 21 anos de idade, tinha feito a sua estreia em etapas do Mundial no ano passado na Grande Final de Cozumel.

E nesta sua segunda participação quis mostrar serviço e começou a prova com um ritmo muito forte, conseguindo seguir no grupo da frente da natação, e na frente se manteve durante quase 8 km no ciclismo, mas o ritmo de 40 km/h em que o grupo da liderança seguia tornou-se insuportável para o português, que após estabilizar o seu ritmo, instalou-se no 33º lugar da classificação geral. Lugar que ocupou durante toda a corrida e onde acabou na classificação geral final. Uma estreia promissora para o jovem português.

Foto: Carlos Maia

Filipe Azevedo fechou o quinteto português. À semelhança de David Luís, também se tinha estreado em etapas da Mundial em Cozumel, sendo este o primeiro circuito integral que cumpre.

Nos Emirados Árabes Unidos o azar foi parceiro de Azevedo que no final da primeira volta do ciclismo se viu envolvido numa queda que o forçou a abandonar.

Foto: Clarisse Henriques

As World Triathlon Series seguem agora para a Gold Coast australiana, disputando-se a segunda etapa nos dias 8 e 9 de Abril.

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João BastosFevereiro 27, 20172min0

O Mundial de Triatlo começa já no próximo fim-de-semana na capital dos Emirados Árabes Unidos. Depois do ano olímpico, este ano as atenções dos melhores triatletas mundiais voltam-se para o circuito composto por 9 etapas

As ITU World Triathlon Series estão de volta!

Depois de 2016 ter consagrado o espanhol Mário Mola e a triatleta das Bermudas, Flora Duffy, como campeões do circuito, este ano os motivos de interesse do Mundial são mais que muitos.

Se no ano passado os Jogos Olímpicos levaram muitos triatletas a optar por disputar menos etapas, ou fizeram-no longe da sua melhor forma, este ano o circuito mundial será a grande aposta de todos os que tiverem hipóteses de o vencer.

Alistair Brownlee (GBR) e Gwen Jorgensen (USA) partem com o estatuto de campeões olímpicos e têm de ser encarados como favoritos. Mas atenção ao regresso do espanhol Javier Gomez Noya que falhou os JO por lesão.

Do lado português, há vários pontos de interesse. Nos homens, a participação olímpica de João Pereira leva a crer que o caldense está, ano após ano, mais próximo do topo da hierarquia mundial; João Silva foi o único português a alcançar o pódio de uma etapa na Taça do Mundo em 2016 mas abdicou da competição assim que assegurou a qualificação para o Rio; Miguel Arraiolos continua a sua escalada no ranking Columbia Threadneedle – o ranking mundial do Triatlo. (Revisite a entrevista do triatleta alpiarcence ao Fair Playhttps://goo.gl/N79yQr)

Já em femininos, espera-se muito da jovem sub-23 Melanie Santos que já no ano passado deu boa conta de si, acabando na 39º posição entre as melhores do mundo. Mas o grande destaque é o regresso de Vanessa Fernandes, que anunciou hoje que estava de volta à competição.

Apesar de não prometer resultados, as expectativas em torno da maior ganhadora de etapas do Mundial (19 na sua carreira) são sempre elevadas.

Conhece os 9 palcos da maior disputa do triatlo mundial em 2017:

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João BastosJaneiro 14, 201717min0

Miguel Arraiolos é um dos representantes da geração de ouro do triatlo português. Olímpico desde o Rio de Janeiro, anda há já vários anos no circuito da elite mundial. Conheça o trajecto deste super atleta na entrevista exclusiva dada ao Fair Play

Perfil


Nome: Miguel da Cunha Arraiolos
Idade: 28 anos
Clube: Sport Lisboa e Benfica
Treinador: Lino Barruncho


fp: Como iniciaste a prática do Triatlo?

MA: No desporto escolar havia as provas de corta-mato onde costumava participar. Numa dessas provas, convidaram-me para experimentar o duatlo, que é uma variante do triatlo. Na primeira prova de duatlo que fiz, o “prémio” para os primeiros classificados era um estágio com a selecção nacional de triatlo, para o qual eu consegui ser seleccionado.

Na altura praticava futebol, mas comecei-me a interessar pelo triatlo e começar a treinar as disciplinas do triatlo foi uma coisa natural, também por culpa do meu treinador da altura, Miguel Jourdan.

fp: Ou seja, tu não começaste por praticar primeiro uma das três disciplinas do triatlo e depois evoluíste para as três. Começaste logo a nadar, pedalar e correr, certo?

MA: Andei na natação em criança, mas na altura não me interessei. Só mesmo a partir dos corta-matos escolares é que nasceu o interesse numa vertente mais competitiva de praticar desporto.

fp: Já falaste do Professor Miguel Jourdan. Não só teve uma grande influência na tua decisão de abraçar o triatlo, mas também teve uma grande influência naquilo que é hoje o triatlo nacional?

MA: Toda! Apesar de eu também ter tido a influência da minha irmã que já praticava triatlo, foi ele que me levou a experimentar de forma mais séria. Foi o meu primeiro treinador (em Alpiarça), levou-me para Lisboa e ficou comigo até se iniciar o projecto do Centro de Alto Rendimento do Jamor. Como ele estava ligado à selecção nacional, continuou a estar ligado também à minha preparação.

Quanto à influência que ele teve no triatlo nacional, basta dizer que foi ele um dos treinadores da Vanessa Fernandes. Por isso, o Miguel Jourdan está na génese de uma das maiores desportistas portuguesa de todos os tempos.

fp: Para quem nos lê e não esteja tão a par da modalidade, o Professor Miguel Jourdan faleceu prematuramente aos 41 anos. O triatlo e muitos dos melhores triatletas nacionais acabam por ser um grande legado que ele deixa?

MA: Sem dúvida. O Sérgio (Santos) era o Director Técnico Nacional, mas a equipa técnica eram os dois. Foram os dois grandes pilares da primeira grande geração de triatletas portugueses, e particularmente da Vanessa Fernandes.

fp: Como é que se treina triatlo? Descreve-nos o teu dia-a-dia.

MA: No início há muitas dificuldades nas transições, ou seja, na mudança entre cada uma das disciplinas do triatlo porque em cada segmento há a utilização de diferentes grupos musculares. No início é importante treinar as transições e o atleta familiarizar-se com essa questão para não ser surpreendido em prova.

Foto: Comité Olímpico de Portugal

fp: Ou seja, numa prova composta por três segmentos com cargas aeróbias bastante exigentes, é o intervalo que dura cerca de um minuto entre cada um desses segmentos que tu destacas como o ponto mais crítico no triatlo.

MA: Não são as transições em si, é essencialmente o choque de iniciar uma nova disciplina e a activação repentina de diferentes grupos musculares que constituem um grande desafio no triatlo. Há pessoas que correm muito bem mas fazem dois, três, quatro triatlos e sentem sempre muita dificuldade em imprimir o ritmo de corrida que conseguem facilmente em treino.

É por conta dessa complexidade que o triatlo é um desporto e não a soma de três.

fp: Treinas no CAR do Jamor integrado na Selecção Nacional de Triatlo. Que importância dás ao grupo de treino na tua preparação?

MA: Eu faço alta competição há 12 anos e posso afirmar que é impossível treinar triatlo sozinho. Treinamos sempre em altas intensidades, há momentos da época em que temos de treinar muito e se o fizermos sozinhos, vamos abaixo física e mentalmente. Se tivermos um grupo, há uma motivação extra mesmo nos piores momentos. Há muita solidariedade e ajudamo-nos uns aos outros a evoluir e a continuar a treinar, mesmo quando a vontade é parar.

Depois houve um aspecto fundamental na minha formação que foi, no início, poder aprender com os mais velhos e mais fortes. Quando integrei o grupo da selecção nacional, existia a Vanessa Fernandes e o Bruno Pais que já eram atletas de grande experiência e de grande estatuto a nível mundial. Eles ensinaram-me o que é estar num grupo e o que é a superação diária.

Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Foste campeão europeu sub-23 de duatlo em 2011, vice-campeão sub-23 de triatlo em 2008, terceiro classificado na Taça Pan-Americana de Triatlo em 2013, para além dos vários títulos nacionais. Há alguma prova que te tenha ficado marcada de maneira especial na tua memória?

MA: Os nossos melhores resultados ficam sempre mais marcados. Mas eu destaco as minhas primeiras provas da qualificação olímpica porque foi quando percebi que era possível alcançar uma coisa que até então não passava de um sonho.

Sempre achei possível a qualificação, mas quando iniciei esse período tinha a consciência que ia ser muito, muito difícil, mas os resultados que obtive no primeiro ano da qualificação olímpica (2014) fizeram-me acreditar, não só que era possível, mas que os Jogos estavam perfeitamente ao meu alcance.

E essas provas marcaram-me muito. Fiz top-12 na etapa da Taça do Mundo de Chicago em 2014 e fui 5º classificado na etapa de Alicante. Foi um excelente arranque do período de qualificação que me motivou para o resto.

fp: 2016 é um ano que certamente fica marcado na tua carreira: fizeste a tua estreia olímpica. Antes de falarmos dessa participação, conta-nos como se processa a qualificação para essa prova?

MA: A qualificação é feita em dois anos. Decorreu de Maio de 2014 a Maio de 2016. O apuramento é pelo ranking mundial e são apurados os 55 melhores do mundo, havendo um limite de vagas por país.

Portugal é um dos oito países que apura 3 triatletas no sector masculino, fomos precisamente o oitavo país do ranking.

Para me apurar contavam as 7 melhores provas na época 2014/2015 e as 7 melhores provas em 2015/2016, o que leva a que se tenha de se competir muitas vezes nos anos de qualificação.

João Silva, Miguel Arraiolos, João Pereira e o director técnico nacional Lino Barruncho de partida para o Rio de Janeiro | Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Ou seja, chegaste aos JO já com muitos km de competição nas pernas. Conseguiste chegar ao Rio de Janeiro na tua melhor forma?

MA: Entrei no ano de 2016 sem a qualificação assegurada. Tinha duas provas onde tinha de fazer pontos e mais duas onde iria tentar melhorar o conjunto das 7 melhores, “limpando” as duas piores.

Assim, fiz uma pausa muito curta entre as épocas 14/15 e 15/16 para estar no meu melhor o mais rapidamente possível.

Fui para a Austrália, onde fiz 4 provas, voltei, fui à África do Sul,…percorri quatro continentes nos meses de Maio e Junho.

Consegui, mas fiquei muito desgastado e por isso tive de tirar uns dias de férias mesmo antes dos Jogos porque o corpo já não respondia como devia à carga dos treinos.

A prova (nos Jogos) não correu bem, mas não vou atribuir nenhuma razão. Simplesmente não correu. Pode ter sido por desgaste de outras provas, mas eu prefiro olhar mais para os factos e menos para as desculpas.

fp: Independentemente da forma como a prova correu, a sensação ao chegar à meta foi diferente de outras provas?

MA: Claramente. Nós competimos muito e, como competimos num circuito mundial, os nossos adversários dos Jogos são os mesmos de todas as provas, mas o espírito e o ambiente envolvente daquela competição tornam-na diferente.

Até à prova não cheguei a estar com a comitiva olímpica, mas enquanto competia consegui sentir o tal “espírito olímpico”.

E isso ajudou-me porque a meio da prova, mesmo quando já percebia que ela me estava a correr mal, o sentimento que tinha era de dever cumprido. O meu objectivo era estar ali a competir e isso só por si era suficientemente recompensador. Estava satisfeito e feliz por ali estar!

Antes do tiro de partida, o meu treinador apenas me pediu que desse o meu melhor, que não pensasse em resultados e que fizesse a prova com a felicidade de estar a competir no maior palco desportivo do mundo. Foi nessas palavras que eu pensei durante a prova e foi esse sentimento que eu tive quando cruzei a meta.

Arraiolos a cruzar a meta do Rio | Foto: Facebook Miguel Arraiolos – Triatleta

fp: Com certeza que reviste a prova, agora achas que se cumpriu a máxima do triatlo que “não se ganham provas na natação, mas podem-se perder provas na natação”?

MA: Sem dúvida. Veja-se como foi a prova do João Pereira, saiu bastante atrás da água e ainda conseguiu acabar em 5º lugar. O normal no triatlo é que no segmento de ciclismo os atletas se agrupem e formem um grande grupo que acaba a discutir a vitória na corrida. Tenho a certeza que se isso tivesse acontecido na prova do Rio, tínhamos conseguido uma medalha pelo João Pereira.

No meu caso, a natação já é o segmento mais fraco, mas perdi demasiado tempo porque houve um grupo que desde o início teve interesse em fazer com que a natação fosse rápida para impedir a criação de um grande grupo no ciclismo. No primeiro km do ciclismo já estava completamente fora de prova.

fp: Os JO é uma prova diferente de todas as outras em termos de exposição mediática. Sentiste que essa exposição te motivou, pelas mensagens de apoio que foste recebendo ou, pelo contrário, transmitiu-te maior pressão?

MA: Eu sou um atleta muito relaxado, por vezes até de mais (risos) e não costumo sentir pressão antes das provas. E senti aquela como “mais uma prova”. Não tinha de provar nada a ninguém. O que tinha de provar era a mim mesmo e já o tinha feito: que conseguia estar nos Jogos Olímpicos.

O que senti muito foi o apoio…mais do que esperava. A quantidade de mensagens que recebi e a quantidade de pessoas que nos apoiaram durante a prova foi surpreendente porque não esperava tanto e isso fez-me ficar ainda mais feliz por estar lá.

Miguel Arraiolos e o Presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, Mário Pereira | Fonte: noticiasdealpiarca.blogspot.com

fp: Depois do memorável ano de 2016, começaste 2017 a renovar com o teu clube – Benfica – até 2020. Colocava-te duas perguntas: em primeiro lugar, o que significa para ti esse voto de confiança e em segundo lugar que importância tem esta estabilidade na tua preparação para Tóquio?

MA: Tenho de fazer um esclarecimento. Eu renovei contrato até 2018, com mais 2 de opção. Saíram várias notícias que davam conta da renovação até 2020, mas o que é certo é que o contrato é válido até 2018 e depois poder-se-ão rever as cláusulas e, então prolongar até 2020.

O Benfica é o clube com o melhor projecto olímpico para o triatlo. Tem um grupo de elite e de jovens promessas muito bom e a aposta é muito forte.

No Benfica tenho tudo o que preciso para me preparar devidamente. Tenho gabinete médico, fisioterapia, piscinas, etc…tudo o que preciso do Benfica, eu tenho de um dia para o outro e isso é muito importante na minha preparação.

E depois é o Benfica, o maior clube de Portugal e do mundo, como sempre ouvi dizer (risos). Mesmo para obtenção de patrocínios, é muito vantajoso estar associado ao Benfica e a relação é muito boa.

E já que falo em patrocinadores, aproveito para agradecer à PROZIS, Under Armour e Zone3 a confiança que também eles depositaram em mim, continuando a apoiar-me.

Miguel Arraiolos renovou com o Benfica a 4 de Janeiro de 2017 | Foto: SL Benfica

fp: Percebendo já, claramente, quais são os teus objectivos daqui a 3 anos e meio. Quais são os teus objectivos mais imediatos, nessa tua caminhada para Tóquio?

MA: Um passo de cada vez. Primeiro há que garantir a qualificação olímpica, mas desta vez de forma mais confortável, se possível.

Não gostava de voltar a entrar no ano dos JO ainda com a qualificação em dúvida e ter de voltar a fazer muitas provas. Espero que em 2020 o meu foco seja única e exclusivamente a prova nos JO.

Depois há a participação em mundiais e europeus e atingir os meus melhores resultados em Taças do Mundo e ir subindo consistentemente nos rankings mundiais.

fp: Tu já referiste a Vanessa Fernandes, uma triatleta que é também uma grande referência do desporto nacional. Sentes que os sucessos dela abriram portas para ti e todos os que surgiram na cena internacional depois dela? E sobretudo, se a nível nacional ajudou a atrair mais praticantes para o triatlo (o número quase que quadriplicou nos últimos 10 anos)?

MA: Claramente! A maior parte das pessoas que hoje praticam triatlo, começaram por causa dela. Ela fez do triatlo uma modalidade conhecida em Portugal. O triatlo tem um antes e um depois da Vanessa.

Ela não é só uma referência para os jovens triatletas que estão agora a começar a competir no triatlo. Há muita gente que experimenta a modalidade de forma amadora por causa da Vanessa Fernandes.

E depois os sucessos da Vanessa também beneficiaram financeiramente a Federação. As suas vitórias fizeram aumentar bastante o número de federados, fazendo aumentar o financiamento da Federação via Instituto Português do Desporto e Juventude e via Comité Olímpico de Portugal.

fp: E tu, gostavas que daqui a uns anos os novos campeões de triatlo dissessem que escolheram o triatlo por causa do Miguel Arraiolos?

MA: Na minha rua já toda a gente pratica triatlo por causa de mim (risos).

O que eu gostava mesmo é que em Portugal houvesse pelo menos mais uma Vanessa Fernandes. A modalidade precisa de outra Vanessa para a ajudar a crescer ainda mais. O objectivo de todos os que estão envolvidos no triatlo é precisamente esse: contribuir, um bocadinho que seja, para o prestígio da modalidade.

fp: Há FairPlay no Triatlo?

MA: Há atletas um bocado malandros! Na natação em águas abertas há muito contacto e muitas vezes há um ou outro murro que aparece sem se perceber de onde veio, mas tudo isso é normal quando há muitos atletas à procura da melhor posição.

No final acaba por haver fairplay, porque sem adversários não havia competições. Eu gosto de chegar à meta e cumprimentar os adversários e sinto que toda a gente gosta de comunicar e partilhar os momentos, muitas vezes comuns, que se têm durante uma prova.

fp: Deixa-nos uma mensagem para os leitores do Fair Play e particularmente para os mais novos que te estão a ler e a ficar com vontade de começar a praticar triatlo.

MA: Quando se pensa em começar a praticar um desporto, por vezes há a indecisão se se vai experimentar o atletismo, a natação ou o ciclismo. No triatlo não é preciso decidir porque praticam as três. Por isso, venham para o triatlo que não se vão arrepender!

O triatlo é uma modalidade muito desafiante e quem experimenta gosta. Até pode não gostar muito de uma das disciplinas, mas em conjunto acaba por se divertir porque é um desafio terminar essa disciplina e iniciar a próxima. É como uma corrida de obstáculos.

Para a equipa do FairPlay, espero que venham todos experimentar o triatlo, pelo menos já têm quem faça a parte da natação (risos).


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