Arquivo de Cocu - Fair Play

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Filipe CoelhoFevereiro 7, 201710min0

Oito meses depois da conquista do bicampeonato, são também oito os (muito) pontos de distância face ao líder Feyenoord. Sem outra competição para disputar que não a Eredivisie, a época ameaça ser amarga para Cocu e companhia. As causas da crise são várias mas a porta não está totalmente fechada – como pode ainda reerguer-se o PSV?

Depois de diagnosticadas as causas para uma campanha bastante abaixo do expectável, é altura de perceber por onde pode o PSV crescer para encurtar as distâncias para os dois primeiros – 8 pontos face a Feyenoord e 3 relativamente a Ajax – e, assim, sonhar com a intromissão na luta pelo título.

Balança de mercado

O mercado de inverno trouxe duas noticias relevantes. Por um lado, o retorno de Marco van Ginkel, emprestado pelo Chelsea, tal e qual como havia sucedido há um ano atrás. O médio holandês traz outra capacidade de chegada à área adversária, destacando-se pela notável veia goleadora.

Por outro lado, o PSV deixou partir Narsingh (Swansea) e Jozefzoon (Brentford). Ambos extremos, se o segundo pouca relevância e minutos apresentava na equipa principal, já o primeiro era figura constante e importante no onze titular. Estranha-se, por isso, que os Boeren, tendendo a canalizar uma importante fatia do seu jogo pelos corredores laterais, tenham deixado sair dois elementos que actuam nessa zona do terreno. Ainda mais porque Locadia continua a recuperar de uma grave lesão, não havendo ainda uma data definitiva para o seu regresso.

Da nuance ao dilema

Em virtude destas saídas, o próprio modelo do PSV tem sofrido, nas últimas semanas, algumas nuances. Se era relativamente expectável que fosse Steven Bergwijn – um jovem extremo puro de 19 anos, ainda mais rápido e imprevisível do que Narsingh, mas com notórios e naturais problemas ao nível da decisão, sobretudo no momento (ou não) de finalização – a assumir o papel interpretado, até então, pelo agora jogador do Swansea, Cocu tem optado por colocar Ramselaar na ala esquerda (com Pereiro na direita).

E isto apresenta implicações claras na forma como o PSV se predispõe a jogar. Contratado ao Utrecht no inicio desta temporada, Ramselaar tem sido, possivelmente, o jogador mais constante e consistente da turma de Eindhoven, destacando-se no centro do terreno pela forma como é capaz de acelerar o jogo com e sem bola, e quase sempre pelo chão. Um autêntico dínamo, que busca, dá, acelera e volta para dar linha de passe.

Colocar o pequeno médio holandês na ala e esperar que ele apareça em velocidade (à semelhança do que fazia Narsingh) é contra-producente. E é o próprio jogador que, pela sua intuição, procura o espaço central, não se deixando fixar na ala. Isto leva a que o PSV acabe por viver um dilema. Não pode estar tão dependente de um jogo directo, ainda para mais quando não tem extremos puros para ganhar as costas das defesas em profundidade.

Ramselaar a perceber as dificuldades da equipa e a ter sensibilidade para recuar. É neste espaço que pode realmente fazer a diferença.

Por outro lado, cambiar uma matriz de jogo tão enraizada não é fácil. Ainda para mais quando Luuk de Jong é o ocupante do espaço #9, destacando-se pela sua imponência física e pela forma elogiável como vence praticamente todos os duelos aéreos. Há, pois, um instinto natural de colocar a bola na frente de forma rápida e pelo ar, não se promovendo um jogo de conexões e apoios.

Isto leva a situações algo discutíveis em termos de eficácia. Tomando por referência a partida do Heerenveen, e numa altura em que o PSV se encontrava em desvantagem (2-3), a partir do minuto 79, os Boeren despejaram autenticamente 8 bolas directamente da defesa para o ataque, em menos de 10 minutos! Uma enormidade de passes longos, com um critério pouco racional, num momento em que não havia grande capacidade de largura no jogo da equipa, já que, depois de mexer, Cocu deixou Ramselaar e Van Ginkel nas alas. É certo que o conjunto de Eindhoven ainda consumou a reviravolta, mas não como consequência directa da opção por esse estilo de jogo mais primitivo.

Vejamos alguns lances que ilustram plenamente a forma como o PSV tenta atacar.

Sem grandes linhas de passe, Daniel Schwaab vai fazer um passe mal medido. O Heerenveen recuperará a bola e terá espaço e capacidade para ‘meter’ o ataque rápido.
Um minuto depois, idêntica situação: na zona central do terreno, onde há 4 jogadores do Heerenveen, um vazio de elementos do PSV.
Jogada-tipo do PSV. Passe longo (aqui de Moreno), disputa aérea, (neste caso de Pereiro), e recuperação para remate de Luuk de Jong (sinalizado a amarelo, tal como Propper). Situação de 3×2 em função de um mau posicionamento dos homens do Heerenveen.
Mais um lance da mesma estirpe, que acabará por redundar em golo. Passe longo de Moreno, três homens a atacar a profundidade e vai ser Propper a cabecear a bola na linha limite da grande área do Heerenveen (aproveitando um erro do keeper Mulder).
A circunstância do costume. Aqui haverá passe de Ginkel com a bola a perder-se pela linha de fundo.

De facto, muitas das dificuldades sentidas pelo PSV nesta temporada decorrem desse perfil de jogar. Perante blocos recuados e relativamente coesos, a reiterada opção pelo passe longo e directo tem uma eficácia tremendamente discutível. Assim, se os Boeren não pretendem uma mudança na forma preferencial como atacam, é pelo menos evidente que a 2ª linha tenha de estar mais avançada e mais junta, mais preparada para a recuperação da 2ª bola, não permitindo que o esférico ‘fuja’ do último terço ofensivo.

Por outro lado, e recuperando uma ideia atrás expressa, o recente arrastamento de Ramselaar para a esquerda – em Almelo, até começou à esquerda e acabou à direita – e a afirmação de Pereiro na direita, ambos com pés trocados em relação à faixa ocupada, acaba por levar a que aconteçam com mais assiduidade movimentos interiores destes dois elementos, o que, inadvertidamente ou não, torna a equipa mais ligada entre si.  

Comportamento e conexões estabelecidas entre os jogadores do PSV em três partidas recentes. Da esquerda para a direita, do mais recente para o menos recente, nota-se uma evolução, com os jogadores mais próximos entre si e suscitando, assim, maior número de ligações. (Fonte: 11tegen11)

A rectaguarda

Finalmente, o PSV, habitualmente uma equipa que sofre poucos golos, tem, nas últimas semanas, visto a sua baliza ser violada de forma reiterada. São 6 golos sofridos nos últimos 3 jogos, e ainda a sensação de que a equipa de Cocu é facilmente desmontável, pela frequência com que surgem espaços no corredor central (diante do Heerenveen isso foi recorrente).

No fundo, nota-se uma equipa que, em organização defensiva, tem problemas na coordenação na linha defensiva mais recuada, com distância excessiva entre os elementos que a compõem e um controlo nem sempre competente da profundidade. Por outro lado, até pela opção de fazer de Guardado médio-defensivo, vários são os momentos em que a cobertura do espaço central do terreno não é feita da melhor forma, surgindo clareiras evidentes. O mexicano é elemento fundamental na forma como inicia o processo ofensivo dos de Eindhoven, mas a amplitude da sua acção em termos defensivos está longe de ser o garante de noites tranquilas ao reduto mais recuado.

Evidentes duas situações. A fraca cobertura do espaço central, bem como uma distância desmesurada entre os elementos da linha mais recuada (sobretudo entre Arías, defesa direito, e Schwaab).
Uma equipa pouco fechada em si para melhor controlar os movimentos do adversário. Mais gritante ainda: o controlo deficiente da profundidade por parte da última linha defensiva, dando possibilidade ao jogador do AZ Alkmaar de surgir isolado diante da baliza.

Para diante

Em suma, a chegada de Van Ginkel aporta consigo mais um elemento de inegável qualidade ao meio-campo do PSV, hoje com maior capacidade de fogo e de … golo. Tem ainda o condão de possibilitar a derivação de Ramselaar para a ala esquerda. E aqui pode estar o maior dilema para Cocu. Tornar a equipa mais versátil e ligada no seu jogo, com outra capacidade de se espraiar em campo através de um jogo posicional mais evidente ou manter a opção pelo chamamento de Guardado como primeiro homem de potenciação de um jogo mais directo e de apelo à disputa aérea, mas já sem a velocidade de Narsingh para explorar. E finalmente o acerto dos mecanismos defensivos colectivos, algo que pode sofrer um input com a ansiada total recuperação de Jorrit Hendrix.

Os oito pontos de atraso face ao Feyenoord podem parecer uma distância demasiado longínqua, mas são ainda recuperáveis. Até porque o PSV terá de visitar a Banheira de Roterdão ainda este mês, tendo a oportunidade de relançar todo o campeonato. Para aquele que é possivelmente o plantel mais robusto da Eredivisie, ainda há tempo. Mas Cocu tem de fazer por potenciar algum talento que, por motivos vários, tem estado oculto ou negligenciado.

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Filipe CoelhoJaneiro 27, 20176min0

Oito meses depois da conquista do bicampeonato, são também oito os (muito) pontos de distância face ao líder Feyenoord. Sem outra competição para disputar que não a Eredivisie, a época ameaça ser amarga para Cocu e companhia. As causas da crise são várias mas a porta não está totalmente fechada – como pode ainda reerguer-se o PSV?

Era pouco expectável que, à entrada para o inicio da 2ª volta, e ultrapassado o interregno invernal, oito pontos separassem PSV de Feyenoord. Pelo menos da forma como a tabela está montada, com o bicampeão tão atrás do rival de Roterdão.

Mas vários factores parecem contribuir para uma época perfeitamente abaixo das expectativas. Com efeito, para além da distância a separar da liderança, o conjunto de Eindhoven está já fora da Liga dos Campeões (e não conseguiu sequer a repescagem para a Liga Europa, quedando-se pelo último lugar do grupo D da Champions, com apenas 2 pontos) e viu-se afastado da Taça da Holanda às mãos do Sparta de Roterdão (derrota contundente por 3-1 em Outubro passado).

A performance do PSV na actual Eredivisie. (Fonte: statoo.com)

A culpa certamente se poderá repartir por várias aldeias. É certo que o bicampeão holandês, mesmo ostentando tal estatuto, nunca foi o protótipo de equipa apaixonante, com um jogo ofensivo, dominador, agressivo ou enleante. Pelo contrário, a sua coesão, pragmatismo, versatilidade e profundidade do plantel foram fulcrais para o sucesso das temporadas transactas.

As coisas parecem ter-se alterado em Eindhoven. Não em termos tácticos – de sistema, princípios ou modelo de jogo. Cocu continua fiel às suas ideias, optando invariavelmente por um 433 com jogo tendencial pelas alas, com ataques lestos e sem privilegiar uma posse de bola muito elaborada (diferentemente do Ajax).

Assim, ainda que, da espinha dorsal, apenas Jeffrey Bruma tenha deixado Eindhoven – rumo ao Wofsburgo da Alemanha –, o PSV tem sofrido imenso com uma dupla incapacidade num duo relevantíssimo. A saber, Andrés Guardado – hoje em dia a jogar no espaço #6 à frente da defesa – tem sido propenso a lesões, apresentando, ainda, um rendimento bastante inferior ao que lhe é habitual nas vezes em que tem sido opção. De grande municiador do ataque dos de Eindhoven, o mexicano apresenta-se hoje mais lento na execução e aparentemente com mais dúvidas na hora da decisão, com efeitos imediatos na sua principal arma: o passe.

Por outro lado, outro dos elementos com uma queda abrupta no seu rendimento é Luuk de Jong. O capitão de equipa e melhor marcador da Eredivisie em 2015/2016 mantém intactas as valências ao nível do jogo aéreo (é fortíssimo na impulsão). Contudo, apenas conheceu o doce sabor do festejo por 5 ocasiões esta época, atravessando uma grave crise de confiança e com uma nítida incapacidade em ser o serial killer que a sua equipa tanto necessitava. E que estava habituada, diga-se. Está é, aliás, a principal pecha do PSV na actual temporada. Se os Boeren continuam a ter capacidade de criar oportunidades de golo – ainda que em menor número do que em 2015/2016 –, têm sido gritantes as lacunas na finalização.

E é a partir daqui que se conseguem explicar empates poucos admissíveis, como os cedidos diante de Groningen (em casa), Willem II e Roda – todas estas partidas terminaram 0-0 (número ‘assustador’, se pensarmos que, nas anteriores cinco temporadas, o PSV apenas tinha concedido um 0-0). E tal trauma adensa-se, que nem mesmo as grandes penalidades escapam. Nas últimas 21 ocasiões em que pôde converter um penalty, o PSV desperdiçou 13, num problema que, em abono da verdade, se arrasta já desde a última temporada.

Por outro lado, para além de Guardado, elementos importantes na caminhada para o bicampeonato têm também sido alvo de infortúnios ao nível das lesões, como são os casos de Jorrit Hendrix (unidade relevante no meio-campo) e Jürgen Locadia (veloz extremo esquerdo). Ao que se pode aliar, ainda, os nomes de Siem de Jong e Oleksandr Zinchenko – ambos centrocampistas, emprestados por Newcastle e Manchester City, respectivamente, mas também eles atrapalhados por lesões sem conseguirem, até ver, afirmar-se como verdadeiros reforços na nova temporada.

Quanto a Siem, aliás, a expectativa era grande, pela forma como o médio poderia vir a interligar-se com o seu irmão Luuk. Todavia, tal conexão tem-se ficado sobretudo pelos intentos. Uma das raras excepções viu-se na partida da Arena de Amesterdão, frente ao Ajax (1-1), em que a entrada do jogador do Newcastle a meio da segunda parte foi fundamental para a equipa capitalizar um estilo de jogo mais directo. Com ele em campo, o PSV forjou uma aproximação a um 442 clássico, com maior presença na área e, por conseguinte, maior perigo. E Siem marcou mesmo, num lance em que a reconhecida visão de jogo de Pereiro foi essencial.

A forma como o PSV se comportou em campo diante do Ajax. (Fonte: 11tegen11)

Seja como for, as dificuldades do PSV esta temporada têm sido recorrentes. Poucas são as vitórias inequívocas, e as perdas de pontos sucedem-se. Dentro do terreno de jogo, perante blocos baixos, compactos e minimamente organizados, os pupilos de Cocu revelam uma imensa imperícia, optando grosso modo por um jogo carrilado pelas bandas laterais e/ou através de passes por alto na busca da profundidade. É raro ver os Boeren com um jogo mais ligado, através de um futebol mais apoiado, com soluções entre linhas e com uma maior dose de racionalidade.

Não obstante, o timoneiro Cocu não atira a toalha ao chão. Ainda há dias referiu-se à experiência que o PSV tem na disputa e conquista por títulos, por comparação com o Feyenoord, há muito tempo arredado das grandes decisões. E não teve papas na língua ao afirmar que a não conquista do título significará o falhanço da época desportiva.

A porta não está totalmente fechada para a equipa de Eindhoven. Mas para que o tricampeonato seja uma realidade há um claro upgrade a fazer no jogo da equipa, com várias unidades que podem dar mais de si e com outras a poderem surgir, encaminhando o conjunto para uma maior consistência, fiabilidade e qualidade ao nível exibicional. É esse o objecto da parte II.

Odds actuais relativamente à conquista da Eredivisie (Fonte: 11tegen11)
Evolução das odds relativamente à conquista da Eredivisie. (Fonte: 11tegen11)

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