Arquivo de Campeonato de Portugal Prio - Fair Play

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Marcelo BritoJunho 21, 20176min0

A queda da União Desportiva Oliveirense da Ledman LigaPro, na época 2015/16, suscitou o interesse dos verdadeiros adeptos do desporto rei no que aconteceria, nos seguintes anos ao gigante de Oliveira de Azeméis. Houve quem projectasse uma queda, a pique, para os distritais, mas houve também quem guardasse no silêncio a esperança de ver os unionistas regressarem aos campeonatos profissionais. Pois bem, bastou uma época para a Oliveirense dar um murro na mesa e voltar ao segundo principal escalão do futebol nacional.

Iniciado o Campeonato de Portugal Prio, o percurso da União Desportiva Oliveirense mostrou-se aquém do espectado. Na primeira metade da fase regular, Série C, o clube apenas venceu três jogos – Sousense, Moimenta da Beira e Salgueiros – tendo empatado por duas vezes e perdido por quatro. Até então, a esperança dos mais fiéis seguidores fraquejava. Iniciada a segunda volta, o clube de Oliveira de Azeméis acordou e arrasou toda a concorrência.

Nos restantes nove encontros, empatou duas vezes e somou sete triunfos – seis consecutivos. Garantiu o primeiro lugar da Série em igualdade pontual com o Salgueiros e, assim, a título de curiosidade, atirou o eterno rival Sanjoanense para fora na luta pela ascensão à Segunda Liga.

Como consequência de um apuramento ‘tremido’, nem todos colocavam a Oliveirense como principal candidato à subida, tendo em conta as equipas presentes na fase de promoção da Zona Norte. Clubes com igual e forte capacidade financeira como Merelinense, Salgueiros, Gafanha ou até o próprio Marítimo ‘B’, não conseguiram destronar uma caminhada sólida, concisa e objectiva dos pupilos de Luís Miguel.

Oito vitórias em 14 partidas, mais três empates e outros tantos desaires garantiram à Oliveirense o regresso à Ledman LigaPro. Aqui, destaque para a última jornada. A União perdeu com o Salgueiros e, mas o Merelinense não aproveitou, tendo empatado a dois em Viseu frente ao Lusitano.

Na luta pelo título de campeão do CPP, a Oliveirense não conseguiu colocar a cereja no topo do bolo ao perder frente à formação que mais consistência apresentou durante a temporada, Real, tendo perdido por 2-0.

O homem por trás do sucesso

Até aqui, apenas dados estatísticos que abrilhantaram, mais, a história oliveirense. Mas afinal, a quem devemos atirar as culpas pelo sucesso do clube? Pessoalmente, e tudo bem que os treinadores não jogam, mas arriscaria no timoneiro Pedro Miguel.

Um ‘velho’ conhecido de um emblema que orientou durante oito épocas consecutivas – entre 2004 e 2012 – e que não teve receio de assumir e unir, com sucesso, uma equipa psicologicamente abalada pelos problemas causados pela ‘Operação Jogo Duplo’, investigação sobre resultados combinados e apostas ilegais na Segunda Liga, proveniente de uma denúncia da Federação Portuguesa de Futebol. É público que Hélder Godinho, Luís Martins, Ansumané e Pedro Oliveira, ex-jogadores do plantel unionista, chegaram a ser detidos para interrogatório.

O plantel levou uma ‘lavagem’ e Pedro Miguel contou apenas com um leque de atletas que disponibilizaram-se em trabalhar única e exclusivamente em prol do emblema que carregaram ao peito. Salienta-se a lealdade do central formado no clube, Sérgio Silva, a quem propostas, de divisões com maior dimensão, não faltaram.

A este, juntou-se a experiência dos defensores Zé Pedro e Raúl, da dupla de médios da ‘casa’ Oliveira e Godinho e ainda de Gabi, proveniente do Estarreja. Na frente, nota para a irreverência dos estrangeiros Edivândio, Cuero e Alemão e ainda da jovem promessa do futebol nacional Serginho, também ele formado localmente. Estes quatro jogadores contribuíram, no total, com 24 golos. A Oliveirense marcou, em toda a época, 44…

Como reforços do clube para a temporada transacta, Ricardo Tavares (Sanjoanense), João Mendes (Operário Lagoa), Clayton (Académico de Viseu), Leozão (Madureira, Brasil) e Kiki (Mafra) mostraram-se cruciais para completar o puzzle de Pedro Miguel.

A Oliveirense está de volta aos campeonatos profissionais, mas volta a pairar a dúvida da consistência do emblema. Voltará a integrar o lote de candidatos à ascensão ao principal escalão nacional de futebol? O futebol aveirense está exclusivamente representado por Feirense, sendo que Beira-Mar não consegue sair dos distritais e Arouca desceu ao segundo escalão na última temporada, na… última jornada.

O clube não deve sonhar demasiado alto para a realidade financeira. Urge cimentar-se na Ledman LigaPro e, diria, com os apoios e estrutura necessária e imprescindível, almejar a subida à elite do futebol nacional num prazo de dez anos. O passo não deve ser maior do que a perna.

Foto: Orgulho Oliveirense

Nova casa para a nova temporada

Certo é que passos estão a ser dados para contrariar as já conhecidas adversidades da Oliveirense. As condições do Estádio Carlos Osório, ou melhor, a falta delas originaram uma decisão da direcção. A União competirá, em 2016/17, no Estádio Municipal de Aveiro, antiga casa do Beira-Mar que, devido a problemas financeiros, actua no ‘velhinho’ Mário Duarte.

Esperam-se ainda conclusões da ‘Operação Ajuste Secreto’, realizada esta semana em Oliveira de Azeméis, na qual Hermínio Loureiro e Isidro Figueiredo – antigo e actual presidente da Câmara local, respectivamente – são encarados como principais arguidos pela Polícia Judiciária.

Em causa está a adjudicação de obras relacionadas com clubes do concelho, entre os quais a União Desportiva Oliveirense. Ainda não são conhecidos detalhes da investigação e, assim não é possível afirmar se o clube sairá ou não prejudicado.

Problemas que não parecem afectar a direcção do clube que, apesar de estarmos numa fase embrionária da época de contratações, já prepara a próxima temporada desportiva a todo o gás. Depois da derrota frente ao Real, o clube não perdeu tempo em anunciar as saídas de Raphael Mello, Tiago Melo, Fazenda, Diogo Silva, Leozão, Zé Pedro Sousa, Kiki e Edivândio. Certas estão as renovações de Oliveira, Gabi, Cuero, Raúl, Rafa e Serginho. Até à publicação deste artigo, o único reforço oficializado é Júlio Coelho, antigo guarda-redes do Penafiel.

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Marcelo BritoJunho 21, 20176min0

A queda da União Desportiva Oliveirense da Ledman LigaPro, na época 2015/16, suscitou o interesse dos verdadeiros adeptos do desporto rei no que aconteceria, nos seguintes anos ao gigante de Oliveira de Azeméis. Houve quem projectasse uma queda, a pique, para os distritais, mas houve também quem guardasse no silêncio a esperança de ver os unionistas regressarem aos campeonatos profissionais. Pois bem, bastou uma época para a Oliveirense dar um murro na mesa e voltar ao segundo principal escalão do futebol nacional.

Iniciado o Campeonato de Portugal Prio, o percurso da União Desportiva Oliveirense mostrou-se aquém do espectado. Na primeira metade da fase regular, Série C, o clube apenas venceu três jogos – Sousense, Moimenta da Beira e Salgueiros – tendo empatado por duas vezes e perdido por quatro. Até então, a esperança dos mais fiéis seguidores fraquejava. Iniciada a segunda volta, o clube de Oliveira de Azeméis acordou e arrasou toda a concorrência.

Nos restantes nove encontros, empatou duas vezes e somou sete triunfos – seis consecutivos. Garantiu o primeiro lugar da Série em igualdade pontual com o Salgueiros e, assim, a título de curiosidade, atirou o eterno rival Sanjoanense para fora na luta pela ascensão à Segunda Liga.

Como consequência de um apuramento ‘tremido’, nem todos colocavam a Oliveirense como principal candidato à subida, tendo em conta as equipas presentes na fase de promoção da Zona Norte. Clubes com igual e forte capacidade financeira como Merelinense, Salgueiros, Gafanha ou até o próprio Marítimo ‘B’, não conseguiram destronar uma caminhada sólida, concisa e objectiva dos pupilos de Pedro Miguel.

Oito vitórias em 14 partidas, mais três empates e outros tantos desaires garantiram à Oliveirense o regresso à Ledman LigaPro. Aqui, destaque para a última jornada. A União perdeu com o Salgueiros e, mas o Merelinense não aproveitou, tendo empatado a dois em Viseu frente ao Lusitano.

Na luta pelo título de campeão do CPP, a Oliveirense não conseguiu colocar a cereja no topo do bolo ao perder frente à formação que mais consistência apresentou durante a temporada, Real, tendo perdido por 2-0.

O homem por trás do sucesso

Até aqui, apenas dados estatísticos que abrilhantaram, mais, a história oliveirense. Mas afinal, a quem devemos atirar as culpas pelo sucesso do clube? Pessoalmente, e tudo bem que os treinadores não jogam, mas arriscaria no timoneiro Pedro Miguel.

Um ‘velho’ conhecido de um emblema que orientou durante oito épocas consecutivas – entre 2004 e 2012 – e que não teve receio de assumir e unir, com sucesso, uma equipa psicologicamente abalada pelos problemas causados pela ‘Operação Jogo Duplo’, investigação sobre resultados combinados e apostas ilegais na Segunda Liga, proveniente de uma denúncia da Federação Portuguesa de Futebol. É público que Hélder Godinho, Luís Martins, Ansumané e Pedro Oliveira, ex-jogadores do plantel unionista, chegaram a ser detidos para interrogatório.

O plantel levou uma ‘lavagem’ e Pedro Miguel contou apenas com um leque de atletas que disponibilizaram-se em trabalhar única e exclusivamente em prol do emblema que carregaram ao peito. Salienta-se a lealdade do central formado no clube, Sérgio Silva, a quem propostas, de divisões com maior dimensão, não faltaram.

A este, juntou-se a experiência dos defensores Zé Pedro e Raúl, da dupla de médios da ‘casa’ Oliveira e Godinho e ainda de Gabi, proveniente do Estarreja. Na frente, nota para a irreverência dos estrangeiros Edivândio, Cuero e Alemão e ainda da jovem promessa do futebol nacional Serginho, também ele formado localmente. Estes quatro jogadores contribuíram, no total, com 24 golos. A Oliveirense marcou, em toda a época, 44…

Como reforços do clube para a temporada transacta, Ricardo Tavares (Sanjoanense), João Mendes (Operário Lagoa), Clayton (Académico de Viseu), Leozão (Madureira, Brasil) e Kiki (Mafra) mostraram-se cruciais para completar o puzzle de Pedro Miguel.

A Oliveirense está de volta aos campeonatos profissionais, mas volta a pairar a dúvida da consistência do emblema. Voltará a integrar o lote de candidatos à ascensão ao principal escalão nacional de futebol? O futebol aveirense está exclusivamente representado por Feirense, sendo que Beira-Mar não consegue sair dos distritais e Arouca desceu ao segundo escalão na última temporada, na… última jornada.

O clube não deve sonhar demasiado alto para a realidade financeira. Urge cimentar-se na Ledman LigaPro e, diria, com os apoios e estrutura necessária e imprescindível, almejar a subida à elite do futebol nacional num prazo de dez anos. O passo não deve ser maior do que a perna.

Foto: Orgulho Oliveirense

Nova casa para a nova temporada

Certo é que passos estão a ser dados para contrariar as já conhecidas adversidades da Oliveirense. As condições do Estádio Carlos Osório, ou melhor, a falta delas originaram uma decisão da direcção. A União competirá, em 2016/17, no Estádio Municipal de Aveiro, antiga casa do Beira-Mar que, devido a problemas financeiros, actua no ‘velhinho’ Mário Duarte.

Esperam-se ainda conclusões da ‘Operação Ajuste Secreto’, realizada esta semana em Oliveira de Azeméis, na qual Hermínio Loureiro e Isidro Figueiredo – antigo e actual presidente da Câmara local, respectivamente – são encarados como principais arguidos pela Polícia Judiciária.

Em causa está a adjudicação de obras relacionadas com clubes do concelho, entre os quais a União Desportiva Oliveirense. Ainda não são conhecidos detalhes da investigação e, assim não é possível afirmar se o clube sairá ou não prejudicado.

Problemas que não parecem afectar a direcção do clube que, apesar de estarmos numa fase embrionária da época de contratações, já prepara a próxima temporada desportiva a todo o gás. Depois da derrota frente ao Real, o clube não perdeu tempo em anunciar as saídas de Raphael Mello, Tiago Melo, Fazenda, Diogo Silva, Leozão, Zé Pedro Sousa, Kiki e Edivândio. Certas estão as renovações de Oliveira, Gabi, Cuero, Raúl, Rafa e Serginho. Até à publicação deste artigo, o único reforço oficializado é Júlio Coelho, antigo guarda-redes do Penafiel.

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Fair PlayMaio 10, 20175min0

Luís Cristóvão, comentador do Eurosport Portugal e sócio do Sport Clube União Torreense, aproveita o centenário do emblema de Torres Vedras para revisitar o passado, e apontar caminhos para o futuro.

O movimento desportivo popular em Portugal, no início do Século XX, gerou por cidades e vilas uma série de associações, clubes e agremiações que estariam longe de imaginar que, cem anos depois, se configurariam em embaixadores locais, tornando o desporto, como tantas vezes é repetido, a mais impactante forma de tornar esses locais mencionados na comunicação social nacional. O poder, obviamente, associa-se a essa tendência, tal como se pode comprovar com a recente visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Torres Vedras. A razão? Os cem anos do Sport Clube União Torreense.

Quem festeja um aniversário fá-lo, sobretudo, para relembrar as glórias e os feitos de uma instituição. No entanto, aquilo que hoje se marca é, acima de tudo, a sobrevivência. Porque dos muitos e variados clubes nascidos nesses longínquos anos, poucos ficaram para contar a história. No caso do nascido como Sport União Torreense, conforme registo de 1917, essa sobrevivência foi-se fazendo dos simbolismos criados em seu redor. Olhando para a história dos presidentes do clube ao longo destes cem anos, conforme pode ser confirmado no mural instalado na Exposição do Centenário, percebe-se que o clube é uma espécie de “Quem é quem” de nomes incontornáveis da história do Concelho de Torres Vedras.

CURRÍCULO EM DIFERENTES MODALIDADES

O clube foi fundamental para o desenvolvimento de um sem-número de modalidades na vila de Torres Vedras, tendo sido uma das equipas que fundou a Associação de Basquetebol de Torres Vedras em 1933. Mas foi o futebol, em conjunto com o Atletismo e o Ciclismo, aquele que lhe terá permitido mais conquistas. O Atletismo ainda hoje perdura no clube, enquanto o Ciclismo permitiu vitórias na Volta a Portugal e até a participação na Volta a Espanha, nos anos 80, como Sicasal-Torreense.

Ao futebol ficam reservadas as glórias de uma presença na final da Taça de Portugal em 1956, um título da 2ª Divisão Nacional em 1955 e seis presenças na 1ª Divisão, a última das quais em 1991/92. A história mais recente terá, como ponto alto, a vitória no Estádio das Antas, em Fevereiro de 1999, em jogo da Taça de Portugal, numa temporada em que a equipa atingiu os quartos-de-final. Actualmente, a equipa sénior encontra-se a disputar o Campeonato de Portugal, na Fase de Subida, apesar de, matematicamente, já não lhe ser possível sonhar com a Segunda Liga.

CEM ANOS E DEPOIS?

Aos clubes centenários, a principal questão que se coloca é a do seu futuro. O Sport Clube União Torreense é, hoje em dia, uma associação sem dívidas fiscais, situação ultrapassada na presente temporada, depois de anos a gerir uma dívida que lhe fez, inclusive, perder os terrenos onde se encontra o seu estádio, actualmente propriedade da Câmara Municipal. Tem, no entanto, uma dívida bancária que exige, ainda assim, muitos cuidados, como tem relembrado o Presidente António Vicente, também conhecido como Toinha, dos tempos em que foi jogador do clube. Esta tomada do poder por um antigo atleta é, sem dúvida, um dos maiores sinais de esperança, entrando em clara dissonância com a história das últimas décadas. O clube nas mãos daqueles que são o clube é uma novidade que se saúda.

Ainda que a equipa sénior seja gerida por uma SAD de maioria chinesa, os jogos do Torreense na presente temporada impõem essa visão de um regresso ao movimento popular que terá estado na génese de tantos clubes por todo o país. Novas gerações de adeptos retomaram o hábito de marcar presença no Estádio, vivendo-se em muitos jogos um autêntico ambiente de festa que sempre caracterizou o clube nos seus melhores momentos. O reconhecimento entre adeptos, jogadores e equipa técnica é outra das riquezas da situação actual do Torreense, que será tanto mais positiva se se verificar que se trata, realmente, de um novo começo.

A perspectiva de crescimento do parque desportivo municipal, com a construção de novos campos onde as camadas jovens do clube possam evoluir, junto ao Estádio, é outro dos pontos positivos da actualidade do clube. O passo mais seguro para esta retomada do clube pelas pessoas do clube passará, sem dúvida, por alargar a proximidade às equipas de formação, um costume do passado (“ir ver os miúdos do Torreense”) que se perdeu com a passagem dessas equipas para outras localidades do concelho.

Mas o futuro do Sport Clube União Torreense não pode ficar por aqui, porque a sua missão de unir e desenvolver o desporto no concelho de Torres Vedras exige um rasgo de quem o dirige para que se possa concretizar em pleno. A um modo de jogar futebol “à Torreense” que sempre se reconheceu na forma exigente como as bancadas do Manuel Marques apoiaram o seu clube, é preciso associar o desenvolvimento da modalidade num caminho que aproveite todas as potencialidades da região.

O Sport Clube União Torreense continua a ser o clube com mais história e maior potencial na Região Oeste. Afirmá-lo, não apenas em termos de passado, mas sobretudo através de uma marca distintiva na formação de jogadores, com capacidade de influenciar os clubes em seu redor e apresentando-se como símbolo de um projecto desportivo global é o passo que se exige.

No fundo, ver o clube como um marco regional fundamental pela sua capacidade transformadora e não pela sua capacidade mediática. Existirão sempre Presidentes da República prontos a visitar a cidade em dias de festa. Aquilo que se exige e espera é que o Sport Clube União Torreense possa ser um transmissor de evolução pessoal e comunitária no seu quotidiano. Haverão mais cem anos para o conseguir.

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Marcelo BritoFevereiro 13, 20179min0

O sonho da Associação Desportiva Sanjoanense, clube que milita no Campeonato de Portugal Prio, caiu por terra. Depois da saída com sabor amargo da Taça de Portugal, a esperança em continuar a lutar pela subida à Ledman Liga Pro viu-se extinta. A montra, a formação, está esquecida e não se avizinham anos prósperos. A actual estruturação do CPP beneficia quem investe de meio em meio ano. Algo deve mudar.

Há largos anos que o histórico emblema de São João da Madeira não consegue colocar-se na elite do futebol nacional. A crise financeira, outrora acentuada e que quase cravou o último prego do caixão do clube, atirou a Associação Desportiva Sanjoanense para fora dos nacionais, mas os campeonatos distritais não são o aquário de um emblema que na presente temporada sonhou, e bem, com feitos extraordinários na Taça de Portugal e com a subida à Ledman Liga Pro.

Mas não convém avançar capítulos. Foi neste clube, de uma cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, que jogadores como António Sousa, Ricardo Sousa, Vermelhinho, Secretário, Rui Correia, Veloso ou Litos – e outros –, começaram a despontar. O auge do clube alvinegro deu-se na época de 1965/66 quando conquista a segunda divisão nacional conseguido manter-se entre a elite portuguesa.

A nível distrital, é vasto o legado deixado pela Sanjoanense. Três, anteriormente denominados, Campeonatos de Aveiro (1936/37, 1939/40, 1946/47), sete títulos da primeira divisão (1936/37, 1939/40, 1946/47, 1952/53, 1988/89, 2010/11, 2013/14), um da segunda (1987/88), uma Taça (2012/13) e duas Supertaças (2010/11, 2013/14), segundo dados do portal informativo desportivo, zerozero.pt.

Estrangeiros ofuscam formação

Conhecida pela sua consistente formação, a Associação Desportiva Sanjoanense decidiu mudar de rumo e começar a pescar no mercado sul-americano. Recentemente, e como exemplo, de São João da Madeira saíram jogadores como Gil Dias, agradável surpresa da Liga NOS, actualmente titular indiscutível no Rio Ave com passagens por Braga e Varzim, ainda vinculado ao Mónaco de Leonardo Jardim. Esta é apenas uma das muitas provas da qualidade existente (ou que existira) nos escalões não profissionais do emblema nortenho.

Segundo os dados apresentados pelo portal informativo zerozero.pt, o actual plantel sanjoanense é composto por apenas 12 portugueses, tendo nove estrangeiros (sete brasileiros, um colombiano e um nigeriano), mas atenção: em nada esta comparação objectiva retirar valor a qualquer um deles! A qualidade não está em causa. Em causa está uma mudança repentina do paradigma sanjoanense que, consequentemente, arruinou com a formação do clube.

Os juniores, que nem há meia dúzia de anos competiam na primeira divisão nacional, lutam agora pela manutenção na segunda; os Juvenis, que outrora militavam no campeonato nacional, nada fazem além da manutenção na primeira divisão distrital; e os Iniciados, habituadíssimos ao ritmo de uma competição nacional, desceram no ano transacto aos distritais e dificilmente conseguirão, já este ano, a promoção. A Sanjoanense está refém de empresários e isso não está certo quando nunca o foi nem nunca precisou (pelo menos para debater-se na categoria que o faz actualmente).

Mas a Sanjoanense não é caso único. Muitos são os clubes que centram as atenções para a montra do emblema – o plantel sénior – e deixam esquecida aquela que devia ser a sua fonte de alimentação. Muitos desculpam-se da falta de qualidade nos plantéis jovens dos clubes para contratar fora, mas, garantidamente, esse nunca foi o problema da Sanjoanense.

Os adolescentes deixaram de querer representar a Sanjoanense e passaram a escolher outros clubes da região e, diga-se, de menor dimensão. E admire-se… esses detêm agora uma formação próspera, com escalões nos campeonatos nacionais com o objectivo de potenciar os jovens e elevá-los ao plantel sénior. Tudo o que fizeram foi seguir o exemplo utilizado anteriormente pela Sanjoanense. Este, um clube que deixou de investir na formação e onde os jovens deixaram de acreditar. Claro que para apostar numa subida aos escalões profissionais é preciso adquirir valências que só a experiência traz, mas a irreverência e o amor ao clube, esse ninguém o traz de fora.

Um exemplo a não seguir

Não quero com isto dizer que os clubes deviam ser expressamente proibidos em apostar nos mercados estrangeiros, mas que deviam ser impostos limites, começando, desde logo, pelos profissionais. Esses, não o fazem.

As direcções de clubes como a Sanjoanense não devem reger-se por reportagens que vêem ou por histórias que ouvem. Devem analisar a sua realidade desportiva e financeira e traçar um plano a, sejamos sinceros, longo prazo para conseguir adquirir valências competitivas adequadas à sua realidade e não dar o tradicional ‘passo maior que a perna’. A não ser que tenham definitivamente orçamentos irreais. O que não acontece.

Para já, muitos clubes – aqueles que os tenham – vão mantendo os problemas submersos com alguns bons resultados que exaltam a paixão do fiel adepto, mas quando eles emergirem, o descalabro vai ser inquestionável.

Sem capitão (e mais), manutenção compromete-se?

No caso específico da Sanjoanense, e puxando a cassete atrás, o esquecimento pela formação é tal que a direcção continua a fazer chegar jovens jogadores do continente sul-americano para colmatar os – calculo – bons negócios que o clube tem feito.

E falo em bons negócios porque vender o capitão de equipa, Rúben Neves ao Salgueiros, rival directo que inclusive ficou na posição ambicionada pela Sanjoanense, só pode acarretar números compensatórios. Não é só a saída de Rúben Neves que pode comprometer a manutenção do clube alvinegro. Zé Pedro, vinculado ao FC Porto rumou ao Gafanha; Vasco Nogueira ingressou no Maia Lidador; Samuel Teles, ex-Sp. Braga, assinou pelo Lourosa; André Pereira foi contratado pelo FC Porto; Gradíssimo e o argentino Kevin Wolf (que chegou, disputou apenas uma partida) também chegaram a acordo para deixar o clube.

Para colmatar essas vagas? Mais dois estrangeiros, neste caso, brasileiros: Davi Ferrari, ex-Angra dos Reis e Zé Lucas, ex-Corinthians. O investimento em contratar no Sul da América, seja ele muito ou pouco, existe e neste caso particular, torna-se deveras acentuado. A Sanjoanense alvejava voos altos na presente época desportiva, mas tudo virou do avesso. Vai encarar, sem três habituais titulares (Rúben Neves, André Pereira e Zé Pedro) a manutenção.

Analisando o que foi a primeira fase, a manutenção não se avizinha uma tarefa árdua. A qualidade do plantel sanjoanense é melhor e, nas condições normais, não vai ceder.

Foto: Facebook @ADSanjoanense.oficial

O sonho da Taça de Portugal que saiu caro

Qual a melhor competição para surpreender o país? Exacto, a Taça de Portugal. É nessa competição que os clubes com menor poderio financeiro e capacidade de investimento sonha em ‘fazer Taça’ e tombar o maior número de equipas de divisões superiores possível. A Sanjoanense não tombou nenhum Sporting, Benfica ou FC Porto, mas fez das suas.

Eliminou o Salgueiros na primeira eliminatória num jogo com direito a prolongamento (4-2); cilindrou o Pedras Salgadas (6-1); bateu o Lusitano de Vila Real de Santo António (2-1); deixou por terra o Gil Vicente (1-0); e nos oitavos de final caiu, já no prolongamento e após estar a vencer por duas vezes, perante o Estoril (2-4).

Para quem viu o jogo entre o Estoril e a Sanjoanense, facilmente consegue perceber que estávamos a ver duas equipas equilibradas e a jogar de igual para igual, apesar dos argumentos de diferente nível. Claro que fisicamente o clube de São João da Madeira quebrou muito cedo e isso afectou as investidas ofensivas. Defensivamente, alguns erros individuais, potenciados pela falta de maturidade do jovem plantel alvinegro, pesaram nos momentos cruciais.

O Estoril atirou a Sanjoanense para fora da competição com dois golos de Bazelyuk e outros dois de Bruno Gomes e deixou a formação orientada por Flávio das Neves a disputar apenas o CPP e a possibilidade de integrar a fase de apuramento de campeão.

Antes do embate com o Estoril, a Sanjoanense ocupava o primeiro lugar da Série C do CPP. Depois de um jogo que afectou fisica e psicologicamente os jovens atletas alvinegros, os maus resultados apareceram repentinamente. Aí, dá-se conta e percebe-se os custos de querer disputar de igual para igual, com um clube de primeira categoria, uma eliminatória da Taça de Portugal.

Derrota pela margem mínima com o Sousense (1-2); derrota com a UD Oliveirense (0-2); triunfo com o lanterna-vermelha Cesarense (1-0); derrota expressiva no derradeiro jogo com o Salgueiros (0-3); e vitória na última jornada perante o Cinfães (1-0). Leque de resultados que ofuscou a possibilidade da Sanjoanense lutar pela ambicionada subida à Ledman Liga Pro.

Quem beneficia com a estruturação do Campeonato Portugal Prio?

Para todos os clubes que não disputarão a fase de subida ao segundo escalão português, como é o caso da Sanjoanense, os pontos conquistados na primeira fase dividem-se a… 25%. Ou seja, um clube que conquiste, digamos, 20 pontos, inicia a árdua tarefa da manutenção com cinco. Um clube que tenha conquistado 10 pontos, inicia com, arredondando, três.

Relança a competitividade entre clubes que alvejam a manutenção? Sim, mas não há bela sem senão. Uma equipa prepara e investe para uma época desportiva. No mínimo. É assim que as coisas devem ser feitas. Seja o objectivo subir de divisão ou apenas não descer.

Agora surge a teoria que, cada vez mais, existem equipas a prepararem e investirem de meia em meia época. Os critérios matemáticos da fase de manutenção do Campeonato de Portugal Prio deveriam ser repensados. Dividir os pontos em quatro, acção alienada ao mercado de transferências de Inverno que provoca falhas nos plantéis, vai continuar a ser pejorativo para a Federação Portuguesa de Futebol e para o CPP.

Foto: Facebook @ADSanjoanense.oficial

Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


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