McLaren escolheu Norris – e nunca tentou o esconder
Na Fórmula 1, a igualdade entre pilotos é quase sempre um conceito mais teórico do que real. As equipas insistem na retórica da “competição limpa”, mas a história do desporto mostra que, quando o campeonato aperta, as hierarquias acabam inevitavelmente por emergir. Em 2025, a McLaren não foi excepção — e, apesar do discurso oficial, tornou-se evidente que Lando Norris foi o piloto preferencial em detrimento de Oscar Piastri.
E antes de entrar na crítica em si, quero apenas deixar explícito de que não entro na narrativa que tem circulado de que Norris é o pior Campeão do Mundo da história da F1. Se essa categoria existe, certamente que não deverá ser atribuída ao piloto que venceu sete corridas na temporada.
A opção não surgiu de forma abrupta nem através de ordens de equipa explícitas, mas antes por uma sucessão de decisões estratégicas que, no seu conjunto, desenharam uma narrativa clara. A McLaren escolheu Norris porque quis escolher Norris. E fê-lo por conveniência competitiva, por conforto interno e, sobretudo, por falta de coragem para gerir um verdadeiro duelo em igualdade.
Desde o início da época, Norris partiu com uma vantagem estrutural impossível de ignorar. É o piloto “da casa”, moldado dentro do projecto, profundamente integrado nos processos técnicos e com uma relação de confiança construída ao longo de anos. Piastri, apesar do talento indiscutível, continua a ser visto como alguém que ainda está “a chegar”, mesmo quando os resultados desmentem essa ideia. Na Fórmula 1, a percepção interna pesa tantas vezes quanto o cronómetro.
À medida que a temporada avançou, a McLaren entrou numa lógica cada vez mais conservadora. Sempre que houve uma decisão marginal — uma estratégia alternativa, uma chamada de box arriscada, uma abordagem mais agressiva em pista — o benefício da dúvida caiu quase sempre para o lado de Norris. Não porque Piastri fosse mais lento ou menos consistente, mas porque representava uma incógnita maior num campeonato onde a equipa queria controlar todas as variáveis possíveis.
Há, também, uma dimensão política difícil de ignorar. Norris é mais mediático, mais reconhecível, mais facilmente vendável. É o rosto da McLaren moderna, o símbolo do seu regresso à competitividade. Num desporto profundamente dependente de patrocinadores, imagem e narrativa, essa condição não é irrelevante. Apostar em Norris é, para a McLaren, uma decisão que transcende a pista.
O problema não está na escolha em si — todas as equipas escolhem — mas na forma como a McLaren tentou manter uma aparência de neutralidade que raramente se confirmou na prática. Ao evitar assumir publicamente uma hierarquia, a equipa expôs Piastri a uma situação ingrata: competir teoricamente em igualdade, mas estrategicamente em desvantagem. É a pior posição possível para um piloto jovem e ambicioso.
Piastri mostrou, ao longo da época, maturidade, frieza e velocidade suficientes para justificar uma aposta mais firme. Ainda assim, foi frequentemente o primeiro a ser sacrificado em nome do resultado da equipa, as “papaya rules”, uma expressão que, na F1, costuma ser código para proteger quem está mais bem posicionado no campeonato — neste caso, Norris.
A McLaren optou pela segurança. Escolheu o caminho que lhe parecia menos disruptivo, menos conflituoso e mais controlável. Mas essa escolha diz mais sobre a equipa do que sobre os seus pilotos. Revela uma estrutura que prefere gerir talentos do que deixá-los resolver as diferenças em pista, e que ainda não está totalmente confortável com a ideia de dois candidatos reais dentro da mesma garagem.
Em 2025, Norris foi o piloto beneficiado. Não por favoritismo descarado, mas por uma sucessão de decisões calculadas que, somadas, inclinaram a balança. Resta saber se, a médio prazo, a McLaren conseguirá manter Piastri motivado e alinhado com um projecto que, quando teve de escolher, já mostrou de que lado está.



