Rodrigo Zacca, Author at Fair Play

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Rodrigo ZaccaMaio 28, 201711min0

Na terceira entrevista da série com nadadores de águas abertas convidamos o atual Tri-Campeão Nacional dos 10k Rafael Gil (Sport Lisboa e Benfica), que é treinado pelo Técnico Mário Madeira. Ele conversou com Rodrigo Zacca, nosso colunista de águas abertas, e contou um pouco sobre seu passado, presente e futuro no desporto.

fpRafael, o que leva um recordista nacional absoluto de natação pura à decisão de apostar na vertente de águas abertas?

RG: Antes de ser recordista nacional absoluto de NP sempre fui um “apaixonado” desta disciplina. Tudo começou com provas do circuito de mar do Algarve durante as férias. Desde sempre que adorei praticar AA. O espírito das AA e único! Os nadadores criam ligações, como família. Esta vertente tem muito mais a haver comigo. Gosto de me sentir livre a nadar, em sítios incríveis. Se me perguntassem há um ano atrás qual preferia, respondia que eram diferentes, mas que adorava as duas. Neste momento, esta é a minha disciplina, amo o que faço.

Rafael Gil, atual Tricampeão Nacional absoluto nos 10 Km | Foto: Arquivo Pessoal

fp: É possível conciliar a vertente de natação pura com as águas abertas, mantendo o nível competitivo?

RG: Todos os nadadores de AA têm que saber nadar bem em piscina. A época de AA é curta e torna-se difícil fazer apenas mar. A piscina é fundamental. O nível competitivo tem que ser forte em ambos. Como é óbvio, há alturas de piscina que servem apenas para treino. Nós procuramos ser sempre competitivos e fazer as melhores marcas pessoais mas temos que optar pela melhor preparação para a nossa disciplina. Os modelos de competição moldam os modelos de preparação.

fp: Como é ser nadador do Benfica? Estrutura, Treinos, Grupo…

RG: É tudo diferente. É o 4º clube que represento, depois de Clube MonteGes, Naval Amorense e SFUAP. A nível de estrutura acho que num ano não consegui perceber bem. É enorme. O SLB estruturalmente é gigante. É um clube que oferece condições perfeitas para o alto-rendimento.

A nível de treino, estou super satisfeito. Sinto falta de muito volume que fazia anos passados, mas não tenho tempo para o fazer. Cometi um erro ao pensar que conseguia conciliar a faculdade com os treinos, mas é muito difícil. Matriculei-me em todas as cadeiras possíveis, o que acabou por causar menos tempo para treinar.

Para o ano certamente será diferente e terei que fazer escolhas diferentes, mais equilibradas. O meu grupo de treino é óptimo. Tenho duas pessoas que me ajudam imenso no treino (João Mota Correia e João Duarte Santos). São uma mais valia para o meu trabalho e certamente os resultados que tenho obtido, devo-lhes pela ajuda. A equipa técnica está cheia de pessoas que adorei conhecer. Muito capazes e profissionais. Estou muito feliz no SLB e farei aqui o meu ciclo olímpico para 2020.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: É conhecido que o Benfica está a desenvolver um ambicioso projecto nas modalidades, para este ciclo olímpico. Esse projecto passa pelas águas abertas?

RG: O SLB até ao final do ciclo olímpico, vai trazer novidades incríveis. O projecto 2020 é mesmo muito ambicioso, assim como os atletas que integram este projecto. Neste momento eu sou o único nadador no projecto que faz águas abertas. Espero com o tempo conseguir “arrastar” mais nadadores comigo. Mas com toda a certeza, a aposta do projecto passa pelas AA.

fp: Em relação ao mundial da Hungria, qual é o objetivo?

RG: O objetivo é Setúbal. A presença no Mundial Ainda não é certa. Depende da taça do mundo. Caso consiga o apuramento, a meta é bater a minha classificação pessoal, 41º feito em Kazan2015. Espero conseguir entrar no TOP30 nos 10km.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: Vamos falar um pouco de treino. Qual série costumas realizar como referência para verificar seu estado de treinamento?

RG: Há várias séries que faço para “testar”. Muito diferentes do ano passado mas 2x(2×400+4×200+8×100) ou 16x(100 + 2×50) são as que mais tento baixar de mês para mês. Os registos são cada vez melhor.

fp: De maneira geral, como é organizado o teu treino em seco visando a performance em águas abertas?

RG: Neste momento faço ginásio (máquinas) 2/3x semana + 3x treino funcional (CrossFit/CORE). Nunca estive tão forte no treino seco como estou neste momento. Tento fazer treino específico de águas abertas em mar 2x semana. Para além disto, faço nado amarrado 2x semana durante 1 hora.

fp: Como organizas a tua alimentação e hidratação diária?

RG: Há dias que são complicados com a alimentação. Faço refeições ricas em Carbohidratos (cerca de 40% da ingestão diária). Tenho experimentado vários métodos, varias dietas, vários tipos de refeição. A que notei uma diferença enorme e que controlei muito bem foi a Super Compensação de carbohidratos. 3 dias antes da competição principal, subo aquele valor de 40% para 70%. As minhas reservas tornam-se maiores. O que para 10km me ajuda bastante. Hidratação é muito fácil. Eu bebo muita água diariamente. Quer no treino quer no dia a dia. Uma garrafa de 1.5l de água fresca, faz parte do meu dia.

fp: Quem são os nadadores e nadadoras do futuro das águas abertas de Portugal? Alguma aposta?

RG: Há grandes nadadores que vão dando os seus primeiros grandes passos. Admiro o Diogo Marques do Cantanhede. Acho que ele tem o perfil para nadador de AA. Gosto do trabalho dele, gosto da forma como ele pratica a disciplina. Tem muita margem de progressão e um futuro brilhante. Espero poder vir a partilhar grandes momentos com ele. Vejo-me certamente no futuro das AA com mais duas meninas, as duas referências nacionais. (Vânia Neves e Angélica André). Tiago Campos começa a dar uns passos interessantes e o futuro vai passar por ele também.

fpÉs sem dúvida uma referência dentro e fora de água para estes jovens. Como trabalhas isto na tua rotina diária?

RG: Eu trabalho para ser uma referencia. Assim como já tive as minhas e sou o que sou hoje devido a essas pessoas. Arseniy, Vasco Gaspar e Mario Bonança ensinaram-me muito desta disciplina. Devo-lhes muito tudo o que conquistei até hoje. Eles passaram-me o legado das AA, assim como eu espero vir um dia a passar. As AA transmite-nos energias positivas. Espero conseguir passar essas energias e ensinamentos para dentro da disciplina e do meu clube sempre. Todos os nadadores nacionais de águas abertas vêm-se como família. Eu tento passar para o clube.

Foto: Arquivo Pessoal

fpNa tua opinião, como vês a atenção dedicada por clubes e treinadores portugueses para as águas abertas?

RG: Vejo poucos clubes a investir nas AA, também por falta de atletas com interesse em experimentar a disciplina. Poucos clubes = poucos treinadores. Há 3 grandes potências nacionais nas AA que realmente apostam. (Cantanhede, Fluvial Portuense e SFUAP). É difícil conseguir exposição Social nas AA. Em Portugal temos grandes técnicos de AA, com vontade e motivação de saber mais e procurar mais. Mas falta muito para se tornar uma disciplina respeitada e valorizada.

fp: Mesmo sem ter conquistado a vaga para RIO2016, o que funcionou durante a tua preparação? E o que precisa funcionar para carimbar o passaporte para Tokyo2020?

RG: Houve muitas coisas que funcionaram bem, mas também houve coisas que não funcionaram tão bem. O passaporte para Tokyo pode ser garantido ao melhorar tudo o que funcionou menos bem. Tenho muito ainda que aprender, evoluir e treinar. As AA estão a evoluir muito. Preciso de mais experiência.

fp: Conta-nos um pouco de como é treinar em alto nível, estudar e se for o caso, trabalhar… Tens patrocinadores e/ou apoios?

RG: É difícil. O ano passado foi fácil treinar. Eu apenas treinava. Parei de estudar durante dois anos para tentar os jogos olímpicos. Este ano está a ser muito difícil. Estudar e treinar é compatível. Temos o exemplo do Vasco Gaspar. Dos melhores internacionais de sempre e um médico com um futuro brilhante. Apenas o tempo é diferente. Em vez de 4 horas para treinar só tenho 2. Faz toda a diferença na preparação. Tenho um patrocinador no momento, a MyProtein. Sem este apoio não conseguia estar a competir ao nível que estou. A MyProtein tem garantido tudo o que preciso a nível de nutrição e suplementação. É sem duvida outra equipa que adoro representar e de que tenho um orgulho imenso de poder fazer parte.

fp: O que é necessário para Portugal se tornar uma referência mundial nas águas abertas?

RG: Muita coisa tem que mudar nas AA. Mas como dizia uma grande pessoa com quem tive o prazer de treinar, o David Ferro, “há dois anos nadávamos no fim do grupo. O ano passado nadávamos no meio da tabela. Este ano lutamos no segundo grupo. Para o ano, quem sabe, podemos nadar nos primeiros lugares”. Nós temos as condições perfeitas para avançar na corrida. Técnicos excelentes. Faz-nos apenas falta mais experiência competitiva. Nós fazemos 3-5 competições internacionais durante uma época. Outros países fazem o dobro ou o triplo. A nível de experiência conta muito. Mas a evolução é notória. Cada vez nadamos mais rápido, em distâncias maiores, com os melhores do mundo.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: Há Fair Play nas águas abertas?

RG: Claro que sim! As águas abertas é uma disciplina em que o contacto físico é permitido. Mas não é por isso que tem que haver medo. É normal o contacto físico. Para além disto, é uma disciplina muito tática e estratégica. Todos os nadadores fazem o possível para assegurar e fazer valer a tática escolhida. O FairPlay existe. Mais presente em alguns nadadores do que em outros. Mas sem duvida que é uma disciplina que devia ter mais exposição. É um desporto bonito, em sítios lindos. E por todas estas razões que eu amo AA e cada vez faz mais parte de mim.

Muito obrigado e votos de sucesso Rafael!

Twitter oficial Rafael Gil

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Rodrigo ZaccaMaio 9, 20178min0

Na segunda entrevista da série com nadadores de águas abertas convidamos Angélica André (Clube Fluvial Portuense), que é treinada pelo Técnico Rui Borges. Ela teve um bate papo com Rodrigo Zacca, nosso colunista de águas abertas, e contou um pouco sobre seu passado, presente e futuro no desporto.

 fp: Angélica, como surgiu o teu interesse pela vertente de águas abertas?

AA. No início tinha muito medo das águas abertas, tanto que acabei por desistir das duas primeiras provas que fiz, entretanto tive a oportunidade de nadar a prova aberta em Setúbal de 2km, onde no aquecimento o Rui teve que entrar comigo dentro de água, tamanho era o medo. Essa prova correu bem, ganhei com uma grande vantagem e por aí é que começou a surgir a ideia de fazer provas de águas abertas.

 fp: E qual foi a competição que mais te marcou até hoje?

AA. O Europeu de 2016 na Holanda, pois depois de Setúbal eu queria mostrar a mim mesma que era capaz de fazer novamente uma boa prova.

 fp: Fizemos a mesma pergunta à Vânia. Qual é a importância de teres como tua companheira de treino a tua maior adversária em Portugal?

AA. É sempre ótimo ajudamos-nos uma à outra, e conseguimos elevar o nível do treino.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Ao contrário da piscina onde o ambiente é controlado, muitos são os fatores (como por exemplo, temperatura, correntes marítimas, etc.) que tornam cada prova de águas abertas única e muitas vezes imprevisível. Nesse sentido, como é a tua preparação nas semanas que antecedem cada prova? Estudas as características do local da prova e procuras saber detalhes sobre as adversárias?

AA. Esta é uma questão que eu estou pensando em melhorar, pois realmente é muito importante. Eu não tenho por hábito estudar pré prova com tantos detalhes, mas costumo ver o clima, ondas, temperatura da água… tenho que trabalhar mais neste sentido.

 fp: Setúbal 2016, quais as lições que ficam?

AA. Setúbal era completamente diferente de todas as provas que fizemos. Mentalizei muito o final da prova e não no percurso todo. A lição que tiro desta prova é manter o foco do início ao fim, mas principalmente ouvir o treinador.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Qual era a tua estratégia de prova para esta qualificação? O que funcionou e o que não funcionou?

AA. Eu pensei em ir para a frente e depois ficar no grupo e no final tentar um lugar para garantir a qualificação. O que funcionou foi o pré prova, pois até Setúbal eu tinha muita dificuldade em alimentar-me e isto correu muito bem. O que não funcionou foi a prova em si.

 fp: A pouco mais de dois meses para o Mundial da Hungria, como avalias a tua preparação até agora?

AA. Na parte física, os treinos estão a correr muito bem. Na parte mental, falta mais experiência competitiva. As provas até o mundial servirão para afinar isso.

 fp: E quais são os teus objectivos para este mundial?

AA. Ainda não delineamos os objetivos, pois ainda dependemos da definição das nossas adversárias.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Quais os principais aspetos que precisam ser ajustados na tua preparação para Tokyo2020?

AA. Esta época iniciou de uma forma diferente, tive vários fatores que me limitaram nos treinos (lesões, etc.). O ciclo até setúbal foi muito produtivo, pois tive a oportunidade de realizar diversos estágios, nomeadamente EUA, Itália e Serra Nevada e evoluí muito fisicamente. Era nítido durante as séries na piscina.

 fp: Vou ser direto, consegues dedicar-te aos treinos para Tokyo2020 com tranquilidade do ponto de vista financeiro? Tens algum apoio ou patrocínio?

AA. Tranquila nunca estou, pois nem sempre posso contar com apoio da família. Tenho bolsa atleta da federação que dura apenas um ano, mas tentarei renovar no mundial com uma boa classificação. Sou muito grata ao apoio de todos que seguem comigo, o Dr. Jaime Milheiro da CMEP, que me dá todo suporte nas questões multidisciplinares, a AQUALOJA que me tem fornecido material de treino e a ESCOLA EDUARDO CIRÍLIO MÉTODO DEROSE que me tem me ajudado muito a aprimorar a minha concentração, foco e mentalização.

 fp: Como vês o desenvolvimento das águas abertas em Portugal?

AA. Acho que está a evoluir. Tivemos marcas muito boas no último indoor… Já aparece um número maior de nadadores e nadadoras, muito evoluídos tecnicamente. Mas será possível verificar isso mesmo na próxima competição já este mês.

 fp: Há cada vez mais jovens nadadores a optar pela variante de águas abertas. És sem dúvida uma referência dentro e fora d’água para estes jovens. Como vês isso?

AA. Eu tento fazer o meu melhor. No ano passado não faltei uma única vez aos treinos. Raramente saio à noite. Acredito que aqueles que treinam comigo diariamente veem em mim uma boa referência.

Foto: Arquivo Pessoal

 fp: Que conselhos darias para os nadadores de piscina que se querem iniciar nas águas abertas?

AA. Eu sugiro experimentar as provas mais curtas e informarem-se com a organização da prova e conversarem com seus treinadores. Existem muitas em Lisboa e Algarve.

 fp: Quem são os nadadores e nadadoras de futuro das águas abertas em Portugal?

AA. Talentos existem muitos, mas ainda estão a optar pela natação pura. 

 fp: Há Fair Play nas águas abertas?

AA. Por vezes não existe fair play nas águas abertas, mas muita porrada (risos). A maior parte das nadadoras tem fair play. Nas águas abertas somos todos muito mais simpáticos, talvez por ser um grupo mais restrito, todos se conhecem. Em Portugal somos uma família, e mesmo lá fora nos damos todos muito bem, até entrarmos na água.

Foto: Arquivo Pessoal

Muito obrigado Angélica André e votos de sucesso para o futuro!

Perfil Oficial de Angélica André no Twitter

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Rodrigo ZaccaMaio 2, 201711min0

Para dar início à uma série de entrevistas com nadadores de águas abertas, nada mais justo o Fair Play com a nadadora Olímpica Vânia Neves (Clube Fluvial Portuense). Treinada pelo Técnico Rui Borges, ela teve um bate papo com nosso colunista de águas abertas Rodrigo Zacca, e contou um pouco sobre Treinos, Clube, Rio2016, Mundial, Tokyo2020.

 fp: Vânia, como descreverias a tua transição da natação pura para as águas abertas?

VN. No meu ponto de vista foi uma transição natural, pois sendo uma nadadora de fundo e gostando bastante desse tipo de distâncias, o mais natural era mesmo passar por uma experiência em águas abertas que acabou por se tornar bem mais que uma experiência.

fp: Hoje ainda te vemos competindo nas piscinas, mas obviamente tua preparação é focada na época de águas abertas. O que as competições em piscina agregam para seu foco principal, as águas abertas?

VN. Neste momento as competições em piscina têm tido dois objetivos: analisar o estado de forma e a preparação que está a ser feita, mas também servem como treinos com intensidades mais elevadas.

fp: E como se prepara um nadador de águas abertas? Fazes muitos treinos em mar?

VN. O mais correto e aquilo que seria esperado era um nadador de águas abertas associar os treinos de piscina a treinos de mar, mas, infelizmente não é o que acontece na minha realidade. 99% da minha preparação é feita em piscina e sinto que isso é uma desvantagem depois em competição, pois adversárias que diariamente estão perante situações de ondulação, correntes, água salgada etc. estão muito mais preparadas para todas as adversidades que nos vão aparecendo em competição.

fp: Como é a tua preparação em seco?

VN. Neste momento estou a fazer 4 treinos em seco, dois treinos com carga e dois treinos mais focados em prevenção de lesões e trabalho de core. Temos tido imenso cuidado no que toca à prevenção de lesões pois devido à agressividade das nossas provas e o desgaste a que estamos sujeitos isso é essencial para evitar surpresas desagradáveis em fases cruciais da época.

fpE em piscina, diz-nos uma série de referência que seja habitual fazeres?

VN. Uma série que fazemos habitualmente antes das competições em natação pura (piscina) é 8×100 + 8×50 a ritmo de prova de 800. Antes de uma prova de águas abertas o ritual é um treino de reconhecimento do percurso e retirar as máximas referências possíveis no mar e uma séria de 30×50 em piscina progredindo a cada 10.

fpNa época passada transitaste para o Clube Fluvial Portuense onde reencontraste uma antiga companheira de treino e, simultaneamente, a tua maior adversária em Portugal, a Angélica André. Quais as vantagens de ter uma companheira de treino como ela? Existem desvantagens?

VN. Uma das principais vantagens é a competitividade em treino, penso que isso foi uma mais valia não só para mim como para ela. Claro que em algum momento uma estar muito melhor que a outra poderia trazer aspetos menos bons, mas tal não se verificou pois sempre houve muita entreajuda entre as duas.

fp: E em relação ao CFP, um clube de referência no treino das águas abertas em Portugal, é de facto um clube vocacionado para esta vertente? O que se faz diferente no clube para alcançar estes resultados?

VN. O CFP não é um clube só vocacionado para as águas abertas pois tem também excelentes nadadores de natação pura, com resultados bastante interessantes. Mas penso que o facto de ter duas referências da disciplina a treinar incentiva os mais novos a quererem experimentar e a olhar com outros olhos para a mesma. E o número elevado de nadadores que praticam águas abertas ajuda a que se possa fazer um treino mais diferenciado, pois evita estarem apenas 2 ou 3 nadadores a fazerem um treino diferente da restante equipa. As condições da infraestrutura também facilitam bastante esta gestão, pois como existe imenso espaço até treino de contorno de boias nos é possível fazer.

Foto: Arquivo Pessoal

fp: Quem são os nadadores e nadadoras do futuro das águas abertas de Portugal?

VN. Essa é uma pergunta difícil. Penso que existem muitos talentos em Portugal para a disciplina, mas infelizmente, esta não é tão apoiada quanto deveria o que acaba por levar a que os nadadores optem pelo caminho com mais apoio, ou seja, a natação pura.

fp: Na tua opinião, como vês a atenção dedicada por clubes e treinadores portugueses para as águas abertas?

VN. As águas abertas continuam a ser um campo cinzento para muita gente no nosso país. Já temos alguns treinadores a fazerem um trabalho interessante, clubes que até apoiam, mas no geral ainda há muito a melhorar.

fp: Logo no primeiro ano a treinar no CFP chegaste aos Jogos Olímpicos. Estava no teu horizonte conseguires essa participação? Se sim, quando percebeste que a vaga era possível?

VN. Sendo o mais sincera possível eu sabia que iria nadar a qualificação Olímpica e que logo aí teria uma hipótese, mas para mim era apenas isso. Eu estava a nadar para 1 hipótese contra 1 milhão de contrariedades. Encarei a prova da melhor forma possível, mas sem grandes pressões ou ansiedades. E só me apercebi verdadeiramente que a vaga estava mesmo ali quando terminei a prova e vi a posição em que tinha ficado.

fp: Uma prova de águas abertas tem sempre muita história, como nos relatarias a história da prova realizada no RIO2016?

VN. Por mais que tente expressar tudo que senti e vivi durante aquelas duas horas penso que nunca o conseguirei fazer. Foi uma experiência única! O mar estava com uma temperatura ótima (23º), ondulação dentro dos padrões que eu me sinto confortável e o ambiente na praia era surreal. Centenas de pessoas a ver a prova, bandeiras de todos os pais entre a multidão… e a prova em si foi única. Ritmos bons onde me senti confortável (sabia que estava bem preparada) e depois de ter sofrido um “confronto” onde descolei do grupo e fiquei sozinha continuei a sentir-me bem, feliz. Resumidamente essa é a palavra que descreve tudo… eu fui muito FELIZ.

Fotos: Arquivo Pessoal

fp: Esse apuramento surgiu no seguimento da prova praticamente perfeita que fizeste em Setúbal no ano passado, onde ficaste à frente de nomes como Mireia Belmonte e Kristel Kobrich, mas ainda tiveste de esperar pela confirmação. Como viveste esse mês entre a prova de Setúbal e a certeza que ias estar no Rio?

VN. Foi um mês tranquilo. Como sabia que era uma decisão que não iria depender de mim em parte alguma foquei-me na minha preparação para o Europeu e deixei o destino tomar conta dessa decisão.

fpE quais são os objectivos para a Hungria?

VN. Será o meu primeiro Campeonato do Mundo pelo que não dá para traçar objetivos muito concretos. Mas claro que meus objectivos passam por uma prova de 10Km feita no grupo da frente e ainda estamos a analisar uma possível loucura e participar na prova de 25km. Quero mesmo ser capaz de fazer uma prova destas para provar a mim mesma as minhas capacidades. É uma prova onde mais que a preparação física o psicológico manda e acredito que depois de ultrapassar uma barreira como esta serei uma nadadora mais completa e mais forte psicologicamente.

fpO que funcionou na preparação para RIO2016 e o que precisa funcionar para Tokyo2020?

VN. Não se pode dizer que tenha tido propriamente uma preparação focada nos Jogos do Rio pois não tive qualquer tipo de apoio a nível federativo nesse aspeto. A minha “preparação” foi feita sem competições internacionais e sem estágios em ano olímpico. Para Tokyo 2020 há ainda muita coisa a melhorar: preparação mais especifica em águas abertas com treinos de mar mais frequentes e estágios em que isso nos seja possível; apoios a um leque mais alargado de nadadores pois as surpresas acontecem sempre. Enfim, os erros que se verificaram em preparações olímpicas anteriores continuam presentes nos dias de hoje.

fpTens os anéis olímpicos no currículo e tatuados na pele… Mas afinal, o que estes anéis lhe trouxeram de bom do ponto de vista financeiro? O que significa para um atleta ter estes anéis olímpicos em Portugal? Consegues dedicar-se aos treinos para tokyo com uma certa tranquilidade ou segues na luta para conciliar treinos, estudo e trabalho?

VN. Pergunta muito pertinente. Do ponto de vista financeiro NADA mudou, continuo sem apoios por parte de Federação, clube ou qualquer entidade. O único apoio que tenho tido é por parte da Aqualoja que me tem fornecido material de treino e procura ajudar em tudo que é possível. Ter estes anéis no currículo de pouco ou nada me tem servido o que é triste pois depois de ter conseguido atingir o lugar onde muitos querem estar sem qualquer apoio merecia um pouco mais de respeito. Ou seja, para Tokyo neste momento continuo na luta “sozinha” (tendo sempre apoio da família como é obvio) e procurando conciliar a vida académica, com o trabalho e com os estudos pois quero continuar a fazer aquilo que gosto, mas infelizmente as contas não se pagam sozinhas.

fp: Há Fair Play nas águas abertas?

VN. Mais do que na natação pura, mas há muita coisa a ser trabalhada ainda.

Muito obrigado Vânia Neves e votos de sucesso para o futuro!

Twitter oficial de Vânia Neves: @VniaNeves

 

 

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Rodrigo ZaccaAbril 3, 20174min0

O circuito europeu de águas abertas ganhou mais um motivo de interesse, o recordista europeu dos 1500 metros nado livre, Gregorio Paltrinieri estreou-se no circuito com um promissor 4º lugar, mas actualmente, será que basta ser muito bom nas provas de fundo em piscina para ter sucesso nas águas abertas?

Já se somam alguns atletas que tentam uma extensão de sua carreira, saindo das piscinas para as águas abertas. Recentemente tivemos a presença do Campeão mundial e olímpico dos 1500 metros nado livre, Gregorio Paltrinieri (ITA), na primeira etapa da Copa Europeia de Águas Abertas, circuito de cinco etapas que se iniciou no dia 26 de março em Eilat, Israel.

Paltrinieri, apelidado de “Greg”, teve seu primeiro contato com a natação aos três meses de idade, quando seus pais o matricularam em uma aula de natação para bebês. A carreira de Greg começou no nado peito, sua especialidade até os 12 anos. Posteriormente, graças ao desenvolvimento físico e estatura considerável, passou para o nado livre.

“Eu gostei da prova apesar de tudo, consegui acompanhar os outros durante a maior parte do tempo”(…) “Na última volta senti como se estivesse perdendo a energia necessária para ir com os líderes e eu fiquei para trás. Ainda assim, foi uma boa experiência, totalmente diferente da piscina, mas aprendi muito aqui. ” (…) “competir nos 10 km é um desejo de muito tempo ” … “A água é a minha eterna paixão. Quando comecei a treinar em Ostia quando ainda criança, tinha práticas tanto na piscina como no mar, competia nas duas disciplinas e naquela época eu não tinha idéia de qual escolheria ” (…)”Aos 17 era uma escolha óbvia concentrar-me na natação da associação e não arriscar meus preparativos com qualquer outra coisa, entretanto eu nunca desisti da possibilidade de testar meus limites no futuro.”(…) “Agora eu sinto que o tempo chegou para tentar algo novo. O 1500-m preparou-me bem para as distâncias mais longas e eu não quero perder qualquer oportunidade na minha carreira. Porém eu tenho que admitir que, embora eu esteja muito curioso e entusiasmado neste momento, estou também preocupado um pouco como a equipe italiana de águas abertas que é muito forte, assim como os outros rivais, vai ser uma grande competição, grande rivalidade, mas estou ansioso para isso! ” (Gregorio Paltrinieri)

Gregorio Paltrinieri almeja o que David Davies (GBR) e Oussama Mellouli (TUN) já alcançaram, ambos sagraram-se medalhados em piscina e águas abertas. Além destes, diversos nadadores tentaram e ainda tentam prolongar a carreira por meio das águas abertas como Jan Micka (CZE), Mateusz Sawrymowvicz (POL), Richard Nagy (SVK), Mireia Belmonte (ESP) e Stephanie Horner (CAN). O fato é que, ao contrário da piscina onde o ambiente é controlado e claramente observado nas palavras de Gregorio, muitos são os fatores que tornam a maratona aquática imprevisível, como por exemplo, temperatura, correntes marítimas, etc. Estratégias de hidratação, suplementação são também fatores muito relevantes. Da mesma forma que na piscina, o nadador também pode mudar a sua estratégia de uma prova dependendo de quem são seus concorrentes e quais são seus objetivos. Enfim, é uma ramificação da natação constituída de características muito peculiares.

Fonte: Rodrigo Zacca

Embora seja um nadador que vivenciou a natação fora da piscina desde cedo, é difícil prever se Paltrinieri terá sucesso neste novo desafio da sua carreira. O sucesso na piscina ajuda muito, mas não é tudo. E para a próxima etapa do mundial em Setúbal a maratona aquática terá mais uma peculiaridade, relacionada as novas regras relativas ao uso fato isotérmico. O fato é que a maratona aquática é sem dúvida um caminho que deve ser explorado desde a base pelos treinadores, para que o maior número possível de jovens nadadores possa vivenciar a natação em águas abertas de forma precoce.


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