Arquivo de SLB - Fair Play

Diana-Duraes5.jpg?fit=1020%2C680&ssl=1
João BastosJulho 12, 20179min0

O Fair Play entrevistou a recordista nacional absoluta dos 200 e 400 metros livres. A dias de nadar o seu primeiro mundial de piscina longa, Diana Durães falou sobre o seu percurso até este que é o ponto mais alto da sua carreira até agora

Diana, há 4 anos tomaste a decisão de, ainda muito nova, ir sozinha para Rio Maior. Como foi esta transição na tua vida?

DD: Essa decisão já foi tomada há 6 anos, quando fui para Coimbra. Depois fui para o CAR de Montemor. Quando fui para Rio Maior já estava mais que habituada, uma vez que saí de casa aos 14 anos. Por isso, não foi uma decisão muito difícil.

Foi algo que eu sempre quis. Sempre achei que para chegar onde quero, não chega treinar só num clube e eu quis apostar em treinar num sítio como o que estou hoje.

Agora sou a única rapariga no meu grupo de treino e isso é muito bom porque aumenta o meu nível de treino, uma vez que as referências que tenho são rapazes.

Sacrificaste muito da tua vida pessoal quando tomaste essa decisão?

DD: Não considero que tenha sido um sacrifício. Aconteceu porque quis. Claro que custou, e ao longo do tempo ainda me custa mais, mas foi a vida que eu escolhi, por isso não posso dizer que foi um sacrifício.

As metas que traçaste na altura, estão-se a cumprir agora?

DD: Sim, na altura não pensava em Europeus e Mundiais. Era juvenil, o meu objectivo da altura era progredir aos poucos. Ir aos Campeonatos da Europa de Juniores, Mundiais de Juniores,…e todos os objectivos que foi pondo ao longo das épocas foram sendo cumpridos.

Fui conseguindo ir a todas essas competições e agora cheguei ao segundo patamar mais elevado, que é o Campeonato do Mundo, falta apenas o primeiro patamar que são os Jogos Olímpicos.

Os teus colegas de treino dizem que tu és sempre a primeira a chegar à piscina. Isso define muito da tua determinação em relação à tua carreira?

DD: Não gosto de chegar atrasada a lado nenhum. Sou sempre a primeira a chegar e quase sempre a última a sair.

No ano passado estiveste até 15 dias antes dos JO na expectativa de saber se irias ser convocada. Foi uma desilusão quando soubeste que não ias ao Rio?

DD: Não foi uma desilusão. Claro que custou, mas no ano passado nem pensava em Jogos Olímpicos porque os mínimos de acesso ainda eram muito exigentes para mim. Mas depois de ter feito 4:13 fiquei sempre com esperança.

Claro que custou quando soube que não ia, mas não foi uma desilusão porque tudo o que fiz no ano passado foi excelente.

No início desta época, trocaste o FCP pelo SLB. É um clube que permite que continues a apostar na tua carreira, pelo menos, até Tóquio 2020?

DD: Sim, claro. Sempre tive tudo o que precisei no FCPorto, mas neste momento o Benfica dava-me melhores condições e daqui para a frente é o clube que eu vou representar. Estou muito bem lá.

Foto: Luís Filipe Nunes
Este ano abriste logo a época com um verdadeiro tempo canhão nos 400 livres em piscina curta. Estavas à espera de fazer um tempo daqueles logo no início da época?

DD: Não estava nada à espera. Eu queria fazer o mínimo para o Mundial de Piscina Curta, mas não estava nada à espera de fazer 4:05.

Ainda esta semana estivemos em estágio no Algarve e cheguei à piscina de Vila Real de Santo António e fiquei a pensar como é que eu fiz 4:05?!

E se fizeres o equivalente em piscina longa, vais bater o teu record nacional absoluto por larga margem. Acreditas que esse tempo virá agora em Budapeste?

DD: 4:05 em piscina longa é um absurdo e mesmo o equivalente em longa, ou seja 4:09/4:10, é bem abaixo do que tenho. Se fizer a minha melhor marca já fico muito contente.

Apesar de serem os teus primeiros mundiais de piscina longa, nos últimos dois anos adquiriste muita experiência internacional nos Europeus de Londres e nos Mundiais de Piscina Curta em Windsor. Os factores externos inerentes a uma prova desta dimensão já não te perturbam?

DD: Cada vez estou a ficar melhor no aspecto de não sentir a pressão de uma prova desse nível. Quando era mais nova ficava muito nervosa e muito ansiosa e as provas internacionais acabavam por não correr bem.

As últimas provas que fiz, como por exemplo agora em Canet, fiquei em terceiro, a 4 segundos do meu melhor aos 800. Acho que estou a ficar bem melhor nesse aspecto e o facto de treinar com rapazes e ter sempre gente à frente também me ajuda para agora no mundial isso também não me influenciar.

Foto: FPN
E quais são os teus objectivos?

DD: Em primeiro lugar quero fazer as minhas melhores marcas. Ficar entre as 16 primeiras seria um óptimo objectivo.

Eu fiz a mesma pergunta à Tamila Holub quando a entrevistei. Ter uma adversária como ela em Portugal é muito importante para que o nível competitivo também seja elevado nas provas internas?

DD: Sim, é muito bom termos alguém com quem competir. Tanto eu como ela, se não tivéssemos a competição uma da outra, se calhar não tínhamos os tempos que temos.

É sempre bom ir ao Meeting de Coimbra ou a um campeonato nacional e ter ali alguém que nos obriga a ir no máximo.

Pelo menos numa prova de 800 metros, porque quanto mais longa é a prova, melhor é ter alguém ao lado para manter o ritmo sempre elevado. Nadar sozinha uma prova longa é mais difícil.

Vais sentir a falta dela a partir do próximo ano?

DD: Sim, mas vai ser muito bom para ela e eu fico muito contente por ela. Quando regressar eu vou estar aqui para lhe dar luta na mesma. [risos]

Foto: Luís Filipe Nunes
De entre as tuas provas (200, 400 e 800) qual delas preferes nadar?

DD: Sem dúvida os 400. Sempre fui nadadora de 400 metros, só nestas últimas duas épocas é que comecei a nadar os 800 também, mas tudo aquilo que eu faço é tendo em vista a melhoria nos 400.

Mas sei que é nos 800 que tenho melhores resultados e, ao mesmo tempo, é a prova onde posso evoluir mais, apesar de ser a que gosto menos de nadar.

E é precisamente nos 800 que tens mínimo para o Mundial. A tua preparação está a ser mais vocacionada para esta prova?

DD: Pois…é a prova onde eu estou mais perto dos mínimos olímpicos e é a prova que eu nado melhor. Mas é a que eu gosto menos de nadar [risos].

Não é por isso que deixo de dar o meu melhor quando a nado.

Quanto à preparação, só os 200 é que é uma prova que exige uma preparação à parte das outras duas. A preparação é a mesma para nadar 400 ou 800.

Por outro lado, quem nada 400 e 800 também sabe nadar 200, e como esta é a prova onde tenho o nível mais fraco em termos internacionais, o meu treino é mais direccionado para as provas mais longas.

Mais a longo prazo, já só pensas nos JO 2020 e em garantir a presença de forma confortável para não repetires a experiência do ano passado?

DD: Faltam três anos e eu estou a três segundos do mínimo aos 800 metros. Numa prova longa, tirar três segundos não é nada, por isso, nestes três anos, se continuar a trabalhar como tenho trabalhado, com certeza vou tirar, pelo menos, esses três segundos.

No último ciclo olímpico [2012-2016] evoluíste de 2:03 para 2:01, de 4:30 para 4:13 e de 9:24 para 8:43. Estes indicadores dão-te confiança no teu trabalho e mostram-te que ainda tens margem para evoluir bastante?

DD: Sim, desde que cheguei ao CAR em Rio Maior que tenho evoluído a pouco e pouco.

Em cada prova que nado, consigo quase sempre tirar mais um bocadinho de tempo, por isso em três anos, a continuar assim, de certeza que vou lá chegar.

Para terminar, a nossa pergunta da praxe: Achas que há Fair Play na natação?

DD: Acho que sim. Isso vê-se nas competições mais importantes, quer nas competições internacionais, onde nós portugueses somos muito unidos, quer nas competições nacionais, quando há alguém que vai para fazer mínimos ou recordes nacionais, há sempre muito Fair Play de toda a gente puxar por esse nadador, independentemente do clube.

E tu já sentiste várias vezes a piscina toda a puxar por ti, quando vais a nadar para record nacional.

DD: Muitas vezes não dá para ouvir, mas ouvimos sempre o ruído de fundo, quando respiramos…dá sempre mais uma forcinha.

Muito obrigado em nome do Fair Play e votos de muito sucesso!

Siga a Diana Durães na sua página de facebook

Miguel-Nascimento.jpg?fit=960%2C960&ssl=1
João BastosJulho 10, 20179min0

O nadador do Sport Lisboa e Benfica, Miguel Nascimento, está a ultimar a sua estreia em mundiais de piscina longa. O Fair Play foi conversar com o internacional português sobre a sua carreira e planos para o futuro

Miguel, em júnior eras o melhor especialista nacional em provas de velocidade. Ainda és o recordista nacional dos 50 livres (PC), 50 costas e 100 mariposa (PL). Nessa altura pensavas que ias chegar a esta fase da tua carreira e ser o melhor ou dos melhores nadadores em provas como 200 mariposa, 200 e 400 livres?

MN: Nunca pensei. Foi uma grande viragem na minha carreira de nadador. Nunca pensei vir a nadar essas provas e, muito menos, fazer os tempos que faço hoje.

O ano passado quase fiz mínimo para os Jogos nos 200 mariposa, uma prova que nunca pensei que se tornasse na minha melhor prova.

Sabia que tinha mais características de nadador de provas de 200 metros, do que propriamente de 50 e 100, mas como o meu treino sempre foi orientado para provas mais curtas, adaptei-me bem à velocidade.

Como se deu esse processo? Viram em ti características indicadas para nadar essas provas e trabalharam nelas? Ou foi um processo que se foi dando naturalmente?

MN: Tive um ano de adaptação ao qual reagi bem. No Centro de Alto Rendimento, a base do treino é igual para todos os atletas e consiste em nadar muitos metros por treino.

Passei de um treino de séries curtas de alta intensidade para um treino de séries mais longas. Só no final desse ano de adaptação é que me comecei a especializar mais nas provas que nado agora.

Não foi bem um treino adaptado às minhas características de nadador de provas de 200 metros. Foi mais um processo natural de resposta ao tipo de treino que fui tendo.

De qualquer forma, tu continuas a ser um nadador muito rápido. Prova disso é teres feito mínimo A para os mundiais nos 200 mariposa e nos 50 livres. Como é que te preparas para provas tão diferentes?

MN: Ainda tenho a costela de velocista [risos]. Como treinei a minha vida toda para provas curtas, foi algo que ficou.

Claro que não é fácil preparar provas que não têm nada a ver uma com a outra, uma é velocidade, outra é mais exigente do ponto de vista muscular. Lá fora, sempre que me perguntam o que eu nado e eu respondo que são os 50 livres e os 200 mariposa, começam-se logo a rir e a pergunta seguinte é precisamente como é que eu faço a preparação para um mundial nessas duas provas.

Mas a minha primeira opção é sempre os 200 mariposa. Os 50 livres é um bónus. Os 200 mariposa é mesmo a minha prova principal e aquela que eu mais trabalho para melhorar. Se conseguir fazê-lo também nas outras provas que nado, é um bónus.

Eu vejo os 50 livres como uma prova de futuro, para uma fase mais adiantada da minha carreira.

Foto: FPN
E foi precisamente com os 200 mariposa que estiveste com os dois pés no Rio de Janeiro, o ano passado. Quando já estavas pré-convocado para os JO foste desconvocado. Foi a maior frustração da tua carreira?

MN: Foi a situação mais difícil, mas a minha carreira também nunca foi fácil. Fiquei sempre à porta dos mínimos por centésimos. No meu primeiro ano de sénior não cheguei lá por 3 ou 4 centésimos e nessa altura não havia mínimos sub-23. Tinha de fazer o mínimo A.

Para o Europeu de Curta também fiquei à porta por 1 centésimo. Nunca foi fácil, mas obviamente por ser os Jogos Olímpicos foi a mais difícil, mas não me afectou muito porque eu nunca dei por garantida a minha presença.

Quem me conhece sabe que eu nunca disse que ia aos Jogos. Parecia que tinha a sensação que não ia. Por isso custou-me menos por me ter defendido e resguardado dessa maneira, para mim nunca foi um dado adquirido, mesmo quando estava pré-convocado.

Teve o impacto do momento, mas rapidamente passou e segui para outra, para continuar a perseguir os meus objectivos.

Mas não te deixou a pensar como seria teres estado lá?

MN: Sim, claro que pensei nisso. A participação nos Jogos seria uma experiência inacreditável. É uma competição onde estás numa aldeia olímpica, onde tens de andar até à piscina e sentir todo o ambiente dos Jogos, cansas-te bastante e tens várias distracções. Seria essencialmente uma experiência de preparação para os Jogos Olímpicos seguintes.

Dar-me-ia uma bagagem muito importante e ficaria a conhecer “os cantos à casa”. Mas eu sou muito positivo e penso que se não foi desta vez, será na próxima. Agora tenho é de trabalhar para o mínimo A e ter a segurança que vou mesmo lá chegar.

O virar de página deu-se em Windsor, onde fizeste uns excelentes mundiais de piscina curta. Foi uma competição importante para te lançar para a boa época que estás a realizar?

MN: Foi importante. Primeiro porque foi apenas a minha segunda prova internacional de absolutos, depois do Europeu de Londres. Foi bom para conhecer os adversários e conhecer a organização de provas deste nível.

Estava à espera de melhores resultados em todas as provas. No início da temporada treinei mais para as provas de crawl porque era nessas provas que queria fazer melhores resultados em piscina curta.

Mas cada prova é uma experiência importante para que em próximas não se cometam os mesmos erros e, certamente, cresci com essa participação em Windsor.

Este ano mudaste para o Benfica, um clube que está a apostar forte nas modalidades neste ciclo olímpico. Essa forte aposta também inclui a natação e também te inclui a ti?

MN: Sem dúvida. O Benfica é um grande clube em todas as modalidades. Este ano criou um grande projecto, também à volta da natação. Faz parte dos planos crescer o nome da natação no Benfica. Isso vê-se pelos atletas que vieram agora para o clube e eu também vim para ajudar a fazer crescer o projecto.

Foto: Luís Filipe Nunes
Isso significa que tens melhores condições para preparar Tóquio do que tiveste para preparar o Rio?

MN: Exactamente. O objectivo é sempre procurar melhores condições para poder render ao meu máximo e ano após ano ir cada vez mais me aproximando do nível necessário para assegurar a presença em Tóquio.

Ainda não tens nenhum record nacional absoluto individual mas estás muito perto em várias provas, quer em piscina curta, quer em piscina longa. Sentes que para ti os recordes são como a analogia do Ronaldo sobre os golos e ketchup, depois de vir o primeiro, muitos outros se seguirão?

MN: É verdade, estou perto em várias provas, mas não penso se bato um ou vários recordes. Trabalho diariamente para melhorar os meus tempos, se algum dia isso significar que bati um record nacional ou vários de uma vez, fico contente, mas o trabalho continuará a ser feito da mesma forma.

Mas podendo escolher, qual é a prova onde mais gostarias de bater o primeiro record?

MN: O dos 200 mariposa. Sem desprezo com os 50 e 100 livres que eu também gosto muito de nadar, mas os 200 mariposa é a minha prova de eleição, aquela para a qual eu trabalho e aquela onde quero deixar a minha marca na natação portuguesa.

Claro que se vier outro primeiro, fico contente na mesma, mas irei continuar a privilegiar os 200 mariposa porque é a minha melhor prova e é onde posso conseguir melhores classificações a nível internacional.

Este ano já te mostraste no teu melhor nos nacionais em Coimbra. A duas semanas do mundial, consegues dizer se agora estás ainda melhor que em Abril?

MN: É difícil fazer essa comparação, até porque cada prova é uma prova. Depois dos nacionais o foco da preparação foi o mundial e as coisas estão a correr de acordo com os objectivos que são chegar lá e melhorar os meus tempos.

Mas claro que é muito mais imprevisível o que irei encontrar nuns mundiais do que aquilo que sei que encontro nuns nacionais, por isso é difícil dizer se vou estar melhor em Budapeste do que tesive em Coimbra.

Como tens visto o desempenho dos teus adversários internacionais nos 200 mariposa? Há uma nova geração muito forte…

MN: É verdade. Este ano está mais forte do que ano passado que foi ano olímpico, por isso prevejo que os tempos de acesso a meias finais e finais vão ser mais baixos do que no ano passado no Rio.

Mas isso é bom para a competitividade da prova e faz com que tenhamos de nos superar.

Foto: Arquivo Pessoal
Tens expectativas relativamente às tuas classificações no mundial? Ou o teu foco é melhoria dos tempos?

MN: O meu foco é exclusivamente melhorar os meus tempos. As contas da classificação fazem-se depois.

Não vou a pensar em meias-finais. Apenas em fazer o meu melhor, se der para melhorar os meus tempos e ao mesmo tempo conseguir uma boa classificação, melhor ainda.

Para terminar, a nossa pergunta da praxe: Achas que há Fair Play na natação?

MN: Não creio que haja muito Fair Play na natação. A natação é um desporto individual, onde temos de nos preocupar com a nossa evolução individual. Não é como um desporto colectivo onde o meu sucesso depende do sucesso dos meus colegas de equipa. Por isso acho que as características deste desporto fazem com que sejamos demasiado individualistas e que leve a que haja pouco Fair Play.

Muito obrigado em nome do Fair Play e votos de muito sucesso!

Siga o Miguel Nascimento na sua página de Facebook


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS