Arquivo de 2.Bundesliga - Fair Play

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Pedro CouñagoMaio 13, 20199min0

Normalmente quando as equipas sobem de divisão na Alemanha, não é particularmente fácil a adaptação à Bundesliga e ter logo resultados positivos à partida, isto tirando alguns exemplos como o do RB Leipzig, por motivos sobejamente conhecidos. Neste caso, o Fortuna Düsseldorf é uma equipa que tem passado mais anos nas divisões secundárias que na Bundesliga neste século, tendo esta temporada regressado ao convívio dos grandes, e a verdade é que conseguiu fazer uma época bem tranquila, sem sobressaltos e conseguindo alguns resultados bastante animadores para o futuro.

Deixamos aqui os nossos destaques.

Dupla de extremos prolífica

Dois dos elementos mais avançados da equipa, Dodi Lukebakio e Benito Raman, levam 10 golos cada, com os reais pontas de lança da equipa a levarem mais 10 todos juntos. O congolês e o belga complementam-se bem, um mais corpulento e outro mais franzino, um mais fixo e outro mais multidimensional, com maior amplitude de movimentos.

Para uma equipa da dimensão do Düsseldorf, 20 golos dos 44 foram marcados por estes dois jogadores, um impacto de quase 50% para uma equipa que não é tremendamente concretizadora. Assim se vê a importância absoluta de ambos. A partirem da ala para o meio, desconcertando as defensivas adversárias, parece que encontraram uma mina de ouro que foi muito bem explorada.

Raman acaba por ser mais versátil porque, além de conseguir jogar nas alas e no eixo atacante, tem um sprint acima da média e é muito perigoso no contra-ataque, modo preferido de atuar do Fortuna. Já tendo sido o destaque do clube na temporada passada, estando ainda emprestado, Raman foi contratado a título definitivo e as comparações a Timo Werner, com as devidas diferenças, têm sido bastantes. Tem-se falado numa mudança para Inglaterra, com clubes como o Burnley, Southampton, Everton e até o Arsenal à espreita. Vejamos como decorre este verão.

Raman tem estado em destaque, estando envolvido em praticamente um terço dos golos do Fortuna no campeonato (Foto: firstorderhistorians.com)

Kaan Ayhan é o líder da defesa, fazendo uso da sua escola de Bundesliga

O turco era uma grande promessa na altura em que saiu da formação do Schalke 04, sendo visto como um possível substituto do eterno Naldo a longo prazo. Para lhe dar ritmo, o jogador foi até emprestado ao Eintracht Frankfurt, mas sem sucesso, e em 2016 saía a preço de saldo para o Fortuna Düsseldorf. Desde aí, tem sido dono e senhor do lugar no centro da defesa, sendo também um dos titulares no centro da defesa da sua seleção.

Pode fazer várias posições na zona defensiva da equipa, é bastante ágil e de boa capacidade física, ainda que por vezes impetuoso, como mostram as suas três expulsões em 17/18. Ainda assim, o seu registo melhorou esta época, sem nenhuma expulsão, mas com nove amarelos, não tendo o medo de recorrer a faltas táticas/inteligentes que, por vezes, são feitas com a intenção de melhorar as chances de uma equipa ganhar um jogo.

Além dos atributos físicos, tem boa capacidade de passe para sair a jogar e é um central goleador, tendo já quatro golos marcados na Bundesliga esta temporada, graças ao seu bom jogo de cabeça e a um forte remate. O turco é um jogador à medida deste Düsseldorf, e veremos se continua por este histórico alemão para o guiar a mais uma temporada segura.

A mescla de trabalho e qualidade no meio campo

No centro do campo, é essencialmente a capacidade de trabalho que é valorizada, conjuntamente com capacidade de leitura de jogo. É isso que trazem Adam Bodzek e Oliver Fink, com muitos anos de futebol nas pernas, este último capitão de equipa. Marcel Sobottka era talvez o principal destaque deste meio campo mas lesionou-se gravemente, dando lugar a um Bodzek que cumpriu com o que lhe era pedido.

Depois, as adições de Kevin Stöger e Alfredo Morales trouxeram uma qualidade com bola e de marcar o ritmo de jogo que a equipa precisava para disputar um campeonato como a Bundesliga, que não pode ser apenas à base de capacidade física, sendo também precisa qualidade de jogo.

É só através de uma equipa ligada em todos os setores do campo que é possível ter sucesso e a verdade é que o meio campo faz bem a ligação entre os dois extremos do campo, deixando depois a quem está mais à frente e livre nas desmarcações/diagonais para decidir.

Friedhelm Funkel coloca a equipa onde merece

Tem sido notória a subida de nível da Bundesliga, com equipas mais competitivas e equilibradas entre si, existindo mais dificuldades para garantirem os seus objetivos. Fica, assim, bem patente o enorme trabalho que Funkel está a fazer ao serviço do Düsseldorf.

Há já três anos no comando técnico, Friedhelm Funkel chegou ao clube numa altura em que o mesmo lutava para não descer à terceira divisão mais uma vez, conseguindo esse objetivo em 2015/2016 e fazendo um campeonato mais tranquilo em 16/17, estabilizando assim um barco que estava a passar por demasiadas tormentas. O que se seguiu foi uma caminhada imparável para a conquista da 2.Bundesliga, algo absolutamente improvável face a equipas como o Nuremberga, o Bochum, Ingolstadt ou Darmstadt, entre outras.

Façamos um ponto de comparação com o Eintracht Braunchweig, por exemplo, que terminou 16/17 na terceira posição da 2.Bundesliga, não subindo à principal divisão após derrota no playoff. Essa mesma equipa desceu à terceira divisão em 17/18, um trajeto quase oposto ao do Fortuna, revelando-se aqui a imprevisibilidade de uma segunda divisão onde se joga bom futebol.

Graças à experiência de Funkel, que está a conseguir possivelmente os seus melhores resultados da carreira de treinador aos 65 anos, o Fortuna vai de vento em popa, com os jogadores a adquirirem excelentes níveis de confiança. Variando entre um 4-4-2 com duplo pivot, que, na verdade, é mais um 4-2-4, e um 4-1-4-1 que resguarda mais a equipa em jogos de alto risco, os jogadores adaptam-se bem ao estilo que o treinador pede e dão resultados, notando-se também a vontade de dar o seu melhor a uma massa associativa apaixonada.

Friedhelm Funkel é uma figura bastante querida da massa adepta do Fortuna, veja-se como foi festejado o título do ano passado na 2.Bundesliga (Foto: Tagesspiegel)

Mérito para o treinador alemão que ficará responsável por conseguir continuar a levar este projeto avante e, quem sabe, depois sair rumo ao paraíso da reforma.

Primeira vez em 20 anos que o Fortuna fica dois anos consecutivos na Bundesliga

A vida não tem sido fácil para a equipa de uma das principais cidades alemãs, já tendo estado na quarta divisão e, agora, desfrutando dos frutos de uma época bem conseguida, conseguirá disputar uma temporada com maiores recursos e maior segurança, até maiores expectativas de, pelo menos, repetir a classificação tranquila desta edição do campeonato alemão.

Em 12/13, o Fortuna não resistiu à pressão de voltar à principal liga, ficando no penúltimo lugar. Esta época, consegue melhorar (e de que maneira) o seu registo, não tendo dificuldades nem sobressaltos para garantir a manutenção mesmo depois de um início mau de campeonato. Tal como o Fair Play analisou em tempo oportuno, Nuremberga e Hannover não iam ter grandes chances de sobreviver face às adversidades e estão já confirmados na 2.Bundesliga, falta ver o que irá fazer o Estugarda no playoff, outro histórico alemão.

Uma coisa é certa: 19/20 já é uma espécie de época bónus para o Fortuna. Vejamos se consegue manter as principais pérolas e se consegue consolidar-se na Bundesliga, algo que seria verdadeiramente fantástico face a um clube que há 15 anos tinha dificuldades financeiras para se inscrever na terceira divisão.

Equipa de altos e baixos que consegue sempre voltar às vitórias

A equipa tem uma capacidade de luta acima do normal. Afinal de contas, foram já nove os jogos que a equipa perdeu, sofrendo três ou mais golos, conseguindo, ainda assim, ter a confiança de voltar aos resultados pretendidos nos jogos seguintes. Destaque-se, por outro lado, o empate que a equipa conseguiu fora de casa frente ao todo poderoso Bayern (3-3), talvez um dos seus melhores resultados da história recente.

Esta foi uma equipa que, ao fim de 10 jornadas, tinha apenas 5 pontos conquistados, registando uma série de 6 derrotas consecutivas, perdendo 3 dos jogos por 3-0 e um deles por 7-1. Nas restantes 23 jornadas, conquistou 36 pontos, resultado de 11 vitórias, ganhando assim praticamente metade dos jogos desde a décima jornada. Registo absolutamente notável, tornando uma equipa que se pensava condenada ao retorno à 2.Bundesliga em uma bastante competitiva e capaz de dar alegrias aos adeptos.

Entre a décima quinta e a vigésima quarta jornada, foi o grande período do conjunto de Düsseldorf, com 7 vitórias em 10 jogos, incluindo uma série de 4 vitórias consecutivas, incluindo uma frente ao Borussia Dortmund. Outro grande resultado foi a goleada por 4-0 fora de casa frente a um Schalke 04 aterrador (a principal desilusão desta Bundesliga).

Um dos jogos mais marcantes da época e que apenas mostram o que o Fortuna conseguiu fazer esta temporada (Foto: Schalke 04)

A temporada que termina no próximo domingo para os comandados de Finkel foi uma que deixa os seus adeptos orgulhosos. Já havíamos destacado esta como uma das principais equipas em destaque na época de 18/19 na Bundesliga, mas é de salientar e explorar o êxito alcançado por uma equipa com o orçamento mais baixo do campeonato e a quem se apontaria como favoritos à descida de divisão.

Que lhes reserva 19/20? Com muitos jogadores com contratos a curto prazo, mas maior capacidade de investimento, teremos um Fortuna forte na próxima época?

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Pedro CouñagoJunho 9, 20178min0

Por essa Europa fora, existem ligas e países com paixão pelo futebol que nos fascinam de sobremaneira. Neste artigo vamos nos focar na Bundesliga e o futebol germânico. Desde o futebol atrativo e os jogadores/treinadores de qualidade, o ambiente nos estádios, a classe dos intervenientes e como ela se reflete nas seleções, passando pelo domínio do Bayern de Munique, esta é uma liga que tem um pouco de tudo.

O futebol atrativo

O futebol alemão é reconhecido por ser um espetáculo garantido em todos os jogos, com a presença de uma mentalidade ofensiva por parte das equipas na maioria dos jogos (ressalve-se, aqui, algumas das equipas pequenas contra o Bayern de Munique). São muitos os golos que tipicamente acontecem nestes jogos. Na nossa opinião, não se trata de desorganização tática, como muitos podem pensar, mas sim de uma abordagem ultra-competitiva de todas as equipas em todos os jogos.

Na Bundesliga, todas as formações acabam por ter jogadores entusiasmantes, como o Bayern com o seu Lewandowski, o Dortmund com o seu Aubameyang, o Schalke com o seu Max Meyer ou Goretzka, o Leverkusen com Brandt ou Bellarabi, o Leipzig com Forsberg ou Werner ou o Hoffenheim com Sule (transferido entretanto para o poderoso Bayern). Não há como não ver esta liga.

As duas estrelas maiores da Bundesliga frente a frente (Foto: GettyImages)

Falando em técnicos, além dos conceituados Ancelotti e Tuchel (veremos qual será o seu próximo destino), há que destacar, de forma bem breve, os trabalhos de Ralph Hasenhüttl no Leipzig, o trabalho do muito jovem Julian Nagelsmann ao serviço do Hoffenheim e ainda Christian Streich, no Friburgo, três equipas que tiveram notáveis prestações no campeonato em 2016/2017. Com três autênticos mestres da tática e da paixão pelo futebol, esperamos que não sejam “one season wonders”.

Raramente existe um jogo de difícil acompanhamento nesta liga. Ninguém desiste de lutar pela bola, não se vêem perdas de tempo, observa-se, sobretudo, a classe e a inteligência dos jogadores. Vêem-se mentalidades ganhadoras e guerreiras, que permitem que os jogos durem, muitas vezes, até ao último segundo, e onde existe uma constante emoção que é um privilégio para quem assiste.

O ambiente nos estádios

Pegando no ponto do espectador, e face a aquilo que descrevemos, não é difícil imaginar a razão pela qual os estádios estão sempre cheios e isto não é apenas na primeira liga. Em grande parte da Alemanha, as bancadas estão sempre com uma lotação acima de 90%. Vejamos a média de assistências da Bundesliga, que rondou os 41 mil espectadores por jogo na passada temporada, a maior da Europa, estando mesmo à frente da Premier League.

Neste campo, destacamos, pois claro, o Borussia de Dortmund, que consegue ter lotação completamente esgotada, acima dos 81 mil espectadores em mais de metade dos jogos. Não é para qualquer clube.

Uma das fantásticas coreografias da apaixonada claque do Borussia de Dortmund (Foto: talkSPORT)

Veja-se que o campeão da 2.Bundesliga, o Estugarda, um clube que, nos últimos anos tem estado em declínio (algo que se traduziu na sua descida em 2015-2016) tem um estádio com capacidade para 60 mil espectadores e a lotação média na época rondou os 95%, algo que demonstra o compromisso dos adeptos deste clube com a equipa, sendo um belo exemplo do que acontece em tantos outros casos.

Escusado será então referir o domínio da liga nos rankings de assistência média em toda a Europa (10 equipas neste ranking em 40), algo que reflete bem o poder da liga a nível europeu. Óbvio que existem determinados fatores que levam a que isto seja possível, tal como o maior poder de compra e os maiores incentivos por parte dos organizadores para que se possa ir ao futebol com regularidade. Não obstante isto não deixa de ser absolutamente notável que isto aconteça, era tão bom que se existisse 1/4 desta paixão em Portugal.

Como a competitividade do futebol alemão se demonstra na seleção

Quando se olha para a seleção alemã, o primeiro sentimento de muitas congéneres europeias será sentir algum medo. São poucas aquelas que conseguem ter o poderio da Maanschaft , em qualquer competição que esteja presente. É assustador a quantidade de talento nela existente, e muito disto deriva do viveiro de jogadores feitos (Neuer, Thomas Muller, Hummels), potenciais grandes jogadores (Max Meyer, Julian Weigl, Timo Werner) e grandes promessas (Brandt, Gnabry) que se encontram constantemente a despontar na Bundesliga.

O melhor guarda redes do mundo (Foto: GettyImages)

Sim, porque são raríssimos os exemplos de jogadores que não jogam na Alemanha, especialmente na última década, como Ozil, Podolski e Schweinsteiger (ambos já abandonaram a seleção). Podemos falar de Emre Can, de Rudiger e de Ter Stegen, mas não são jogadores de uma influência extrema como os atrás mencionados, pelo menos por enquanto. Os jogadores optam por ficar na sua liga nativa, sabem que existe uma competitividade que lhes permite estar sempre a um alto nível.

Não é por acaso que se diz o ditado: “11 para 11 e no fim ganha a Alemanha”, é uma seleção sempre que prepara com excelência cada desafio. Todo este trabalho é feito desde as camadas jovens, passando pelos técnicos que incutem aos jogadores uma mentalidade competitiva e vencedora desde muito cedo.

O monopólio de Munique

O único corrente “senão” na liga alemã tem sido a hegemonia do conjunto de Munique nos últimos anos. Jürgen Klopp, nos seus tempos áureos no Borussia de Dortmund, ainda conseguiu dar uma intensa luta aos bávaros, algo que já não acontece nos últimos cinco anos.

Já vêm sendo recorrentes estes festejos (Foto: Bayern Central)

Nesta temporada, em que o Bayern teve apenas concorrência até ao final da primeira volta por parte do surpreendente RB Leipzig (que acabou, naturalmente, por acusar a pressão e perder gás) que acabou por garantir um notável segundo lugar. As mesmas aspirações com que o Borussia de Dortmund procura entrar, porque fez um campeonato sempre no limiar dos lugares de Champions, garantindo apenas na última jornada. Para o Dortmund há que fazer muito mais na próxima época já sem Tuchel e agora com Bosz. Será fundamental que Leipzig e Dortmund regressem em “força” para pôr fim ao domínio do Bayern.

Ainda assim, não se afigura fácil a tarefa, pois quando se comparam os plantéis, a profundidade dos mesmos e a capacidade de reter estrelas, o Bayern está muitos furos acima da concorrência, algo que deriva do astronómico poderio financeiro que possui. Os principais fatores revelam-se no número de sócios mais elevado a nível mundial, que acaba por se refletir no elevado valor recebido pelas suas transmissões televisivas e, por fim, os patrocínios provenientes da notoriedade que o clube tem a nível mundial.

A diferença financeira é estratosférica, e não será fácil para as equipas germânicas contrariá-la. No entanto, acreditamos nas equipas que mencionámos acima possam fazer algo. A somar elas ainda podem surgir o Bayer Leverkusen ou Schalke 04, que têm equipa e obrigação para fazer muito mais que as medíocres épocas feitas nos últimos anos.

O futebol alemão é, sem dúvida, um fascínio. Poderíamos perder horas, dias, semanas e meses a falar sobre o mesmo que os elogios não se esgotariam. Deixámos aquilo que pensamos ser as principais ideias sobre aquilo que são as virtudes deste país do futebol, que são muito mais que estas apenas. O principal fator a mudar é a hegemonia do Bayern de Munique, mas isto já  dependerá da capacidade de arranjar alternativas ao poderio financeiro dos bávaros. A garra e a massa adepta certamente podem fazer a diferença.


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