19 Ago, 2017

A Bela e o Ténis

André Dias PereiraJaneiro 8, 20174min0

A Bela e o Ténis

André Dias PereiraJaneiro 8, 20174min0

Ana Ivanovic foi uma campeã improvável que só a tenacidade, espírito de sacrifício e persistência tornou possível. Cresceu a ver a compatriota Monica Seles levar a Jugoslávia aos píncaros do ténis, sucedendo-lhe, em 2008, já como Sérvia. Pelo caminho, cresceu a treinar em plena guerra e enfrentou lesões que, agora, precipitaram o final de carreira, aos 29 anos. Estrela dentro e fora dos courts, o que Ana Ivanovic nunca será é ser recordada como uma tenista comum. Embaixadora da Unicef, a sérvia quer agora virar uma nova página na sua vida.

No final de 2016 o ténis mundial ficou mais pobre e porque não dizê-lo, menos estético. Ana Ivanovic, ex-número um mundial, disse adeus aos courts, não conseguindo recuperar de uma lesão que a levou, em Setembro último, a fazer uma pausa na carreira.

Foram ao todo 13 anos de profissionalismo e um título de Grand Slam. Foi em 2008, em Roland Garros, altura em que estava no auge da sua carreira. Era, então, líder da hierarquia mundial. Agora, na hora do adeus, ocupava um modesto 63º lugar. “Foi uma decisão difícil, mas há muito o que celebrar. Atingi altos com os quais eu nunca havia sonhado. Ganhei 15 títulos WTA, disputei três finais de Grand Slam. Não posso mais jogar ao mesmo nível que antes. É tempo de mudar”, anunciou a sérvia nas redes sociais.

No início da década de 90 Mónica Seles exibia talento nos courts e no pequeno ecrã. Ivanovic, então com 5 anos de idade, apaixonou-se pelo seu ténis e ficou determinada a seguir-lhe as pisadas. Ficou longe dos títulos Major da compatriota (nove Grand Slams) mas ainda assim conseguiu alguns troféus importantes. Para além de Roland Garros, em 2008, ganhou outros 14 títulos desde que se estreou em 2003, para além de ter sido finalista vencida em outro Roland Garros.

Mas o início esteve longe de ser fácil. Em plena guerra dos Balcãs, Ivanovic só podia treinar pela manhã, para evitar o período dos bombardeamentos. A dificuldade para encontrar um espaço para treinar era tal que chegou a admitir fazê-lo em cima de uma piscina congelada. Mas Ivanovic era determinada e estava focada em ser profissional. Essa estreia teve lugar em 2004, ano em que foi finalista vencida do torneio de juniores de Wimbledon. Os primeiros títulos vieram no ano seguinte, o primeiro dos quais em Camberra, na Austrália. A sua ascensão teve lugar depois de vencer, ainda nesse ano, adversárias poderosas como Svetlana Kuznetsova, Nadia Petrova e Vera Zvonareva. As primeiras lesões começaram a surgir logo nesse ano travando a evolução no ranking.

Dura em court, bela fora dele

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A sérvia conquistou Roland Garros e foi nº1 mundial

Com um estilo de jogo agressivo no fundo do court e a profundidade dos seus golpes de direita, Ivanovic foi consolidando o seu lugar no ténis e em 2007 chegou ao top-5 mundial. Nesse ano venceu em Tóquio e Berlim e chegou, pela primeira vez, à final de um Grand Slam. Foi em Roland Garros. No entanto, acabou por perder para a favorita Justin Henin. Ainda nesse ano, outra lesão, causada em Wimbledon, impediu que jogasse a Fed Cup. Só que em 2008, provavelmente o ano mais profícuo da sua carreira, a menina sérvia que cresceu na guerra, conquistou o mundo. Venceu, finalmente, Roland Garros, derrotando na final a francesa Amélie Mauresmo, foi finalista vencida do Australian Open, e a 9 de Junho chegou a número um mundial.

Ao seu lado, a sua mãe nunca deixou de acompanhar todos os seus jogos. A sérvia caiu de rendimento, depois, e só em 2012, ano em que conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos, voltou a entrar no top-20 mundial e em 2014, no top-5.

Mas Ivanovic não brilhou só em court. A sua beleza não passou despercebida e tornou-se o rosto de várias campanhas e disputada pelas maiores marcas de desporto. Mas Ivanovic é muito mais do que um rosto bonito. Em 2007 foi nomeada embaixadora da boa vontade da UNICEF, tendo um importante papel nas áreas de educação e defesa dos direitos das crianças, sendo habitual visitar várias escolas na sérvia. O seu casamento com a estrela de futebol alemã Bastian Schweinsteiger voltou a chamar a atenção do mundo.

Mas Ivanovic é, acima de tudo, alguém que sempre soube o que quer e para onde quer ir. Na hora da despedida não poderia ser diferente. “Não tenho qualquer ambição de voltar, nem como treinadora. Estou muito feliz com a carreira que tive. Agora é momento de tentar outra coisa”.


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