21 Ago, 2017

Surpresas no Mundo do Rugby Olímpico

Francisco IsaacAgosto 11, 20168min0

Surpresas no Mundo do Rugby Olímpico

Francisco IsaacAgosto 11, 20168min0

Japão e Grã-Bretanha marcam encontro com Ilhas Fiji e África do Sul na busca pelas Medalhas. Dia “gordo” de rugby, com momentos de outro Universo, a queda de um “Gigante”, a afirmação da Classe e uma Espanha diferente… este foi o 2º dia do rugby nos JO.

A Confirmação: OURO RIMA COM BLITZBOKKE?

A selecção da África do Sul vai “abrindo” caminho na busca pela final que tanto deseja… será a subida ao pódio de um conjunto de gerações de rugby fenomenais de 7’s que não têm tido a sorte de serem coroados campeões da World Series. O dia até começou mal para os Blitzbokke, com uma derrota frente a uma Austrália diferente, que decidiu “estragar”, em parte, o apuramento imaculado dos sul-africanos. Com Afrika a começar no banco, Senatla teve de assumir o papel de principal “fustigador” da fúria dos sul-africanos, que sempre que chegavam ao último terço eram parados e bloqueados, perdendo a bola. A Austrália fez um jogo a roçar o perfeito, com uma série de turnovers (9) que “dizimaram” a estratégia da equipa de Senatla, Kolbe ou Afrika para o último encontro da fase de grupos. Porém, a derrota serviu de lição para o que viria a seguir, já que nos quartos-de-final se deu a reedição desse jogo. Aí nem a defesa “aguerrida” e bem montada dos Wallabies dos 7’s serviu de algo, uma vez que a equipa sul-africana demonstrou uma tremenda qualidade no pace de jogo, com Senatla a fazer sentir o seu ímpeto (2 ensaios e 2 assistências), onde Snyman e Specman foram dois “cães de guerra”, provocando turnovers ou avants premeditados dos australianos. Segue-se uma meia-final contra a equipa da Grã-Bretanha… será que a “turma” de Sua Majestade tem o que é preciso para parar a estratégia de ataque rápido, das quebras de velocidade despropositadas (para depois entrar a “matar” na linha de vantagem) e da calma/paciência fora do comum?

O Jogador do Dia: LEMEKI INTERROMPE O CANTO DO “GALO”

Desde o 1º dia do rugby nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 que temos estado com atenção a um atleta do Japão: Lomano Lemeki. Nascido em Auckland, o neozelandês viajou em 2009 para o Japão, de onde nunca mais saiu, naturalizando-se. Tem sido um dos raios da equipa do Sol Nascente, com uma versatilidade fora do normal. Transita de um atacante com uma técnica individual “curiosa” (não é tanto um offloader ou um criativo tipo Afrika), onde os desequilíbrios que cria com aquela troca de pés a “afundarem” uma defesa inteira; para um defesa enorme, com uma série de placagens às pernas que obrigam a erros múltiplos dos seus adversários (frente à Grã-Bretanha foi buscar Mark Bennett à ponta). Não é um expoente máximo do que é os 7’s em termos de classe e “magia”, mas é epíteto e sinónimo de um jogador útil, inteligente e que sabe o que a equipa precisa, para além de quando e como. Foi um gosto vê-lo no jogo com a França, a espalhar o “pânico”, perseguindo Vakatawa ou Lakafia durante os momentos que defendia. Estão nas meias-finais de forma merecida e devem muito à forma como Lemeki se entregou à causa japonesa.

Lemeki steals the Show | BBC
Lemeki steals the Show (Foto: BBC)

O momento: O QUE VALE UMA PLACAGEM?

Podíamos destacar aqui alguns episódios do dia nº2 do rugby nos JO: o ensaio de última hora do Japão frente à França (uma “aula” de acreditar sempre no impossível); o pragmatismo inglês e qualidade de defesa de Rodwell que garantiu uma vitória “escaldante” (os hinchas argentinos nem queriam acreditar); ou quando a Espanha “abateu” o Quénia e demonstrou que os 7’s vai muito mais além do que um jogo de corrida e fugida e um par de “brincadeiras” com a oval; Mas não…. o momento do dia vai para os últimos segundos das Ilhas Fiji no jogo contra a Nova Zelândia nos quartos-de-final. Os All Blacks tiveram um 2º dia complicado, com uma derrota pela margem mínima frente à team Great Britain (saíram a perder ao intervalo por 21-00) e um apuramento “às últimas”, muito pelo facto dos EUA terem tido um point average mais baixo (1 ponto só!). A passagem para os quartos punha frente-a-frente neozelandeses e fijianos… um confronto total e bem típico dos World Series. Aqui não havia favoritos, apesar das Fiji terem sido os únicos a passar com 100% de vitórias na fase-de-grupos (a par da Grã-Bretanha) com um flare ao seu jeito. Mas a equipa dos irmãos Ioane, do all-time captain DJ Forbes e do inconformado Sam Dickinson bateram “com o pé” e aguentaram até quase ao fim com um resultado de 7-5. Uma combinação “brutal” entre as linhas dos fijianos, que conseguiram prender 3 defesas All Blacks entre si, permitiu chegar ao 12-07. A Nova Zelândia dispôs de uma última oportunidade para chegar ao empate ou vitória… foram dos seus 10 metros até aos 22 dos fijianos… o público não respirava, a tensão aumentava e os jogadores das Fiji… estavam calmos, como tivessem noção que o caminho tinha sido “pavimentado” para eles. Uma entrada mais desapoiada de Pulu, permitiu a Rawaca placar e Ravouvou meter as mãos à bola de imediato… Akira Iona e Mikkelson ainda foram ao ruck, mas a falta já estava apitada. O momento em que as Fiji defendiam com tudo, sem exagerar no número de jogadores a “entregar” a essa missão e que Rawaca (acabado de entrar… mal jogou nestes dois jogos) aplica uma excelente placagem às pernas que obriga a Pulu a cair no chão em décimos de segundo, garantiu as meias-finais e uma “porta” para a final que tanto “sonham”.

O prémio Fair Play: ESPANHA À BUSCA DOS DESCOBRIMENTOS DO RUGBY

Espanha… que esperavam 99% dos adeptos de uma equipa que nem fará parte dos World Series na próxima temporada? Nada. Talvez, o último lugar de toda a competição. Um erro, em absoluto, diga-se. Nós próprios duvidávamos da capacidade dos Leões até ao início dos JO (com todo o respeito que merecem) mas após o 1º dia vimos o vislumbre de dois pormenores: uma verdadeira equipa e uma fome em acreditar. Sim, houve um bom investimento nesta selecção Olímpica espanhola, que há 2-3 anos vive, praticamente, junta com a ideia de chegarem aos torneios de repescagem mais fortes psicologicamente que os seus adversários. Sim, há um estatuto semi-profissional nestes jogadores. Porém, a Espanha nunca foi de estar em 7’s ou de mostrar um interesse amplo na variante e, por isso, o investimento deverá estar, no máximo, em paridade com o XV. Mas não há dinheiro no Mundo que faça uma equipa de amadores/semi-profissionais demonstrar tanta vontade em aprender, capacidade de luta e de sonhar bem alto. No 2º dia, os Nuestros Hermanos decidiram brindar ao público dos 7’s com uma bela surpresa: vitória por 14-12 frente ao Quénia de Injera, uma das lendas vivas dos 7’s. Com um rugby ousado, de um querer enorme (os espanhóis salvaram 3 ensaios encima da linha da área de validação) e uma “loucura” em provar que eram algo mais que a pior selecção presente, deram o volte-face e agora podem ficar bem entre o 9º ao 10º lugar. No 1º dia tinham feito a vida difícil à Austrália (26-12), obrigaram Afrika a dar 110% (24-00) e “irritaram” os Les Bleus (26-05). Uma lição que mesmo sendo “pequenino” dá para subir e sonhar.

Nota Final: CURTO, RÁPIDO E CONCISO

A nota final pode ser encarado com o Rant do Dia: não poderiam ter ido mais selecções? O rugby dos Olímpicos ficaram reservados para 12 equipas, num Universo muito maior (só nas World Series estão 20) e que poderia ter tido um “fartote” de equipas a competir. Tinha sido “esmagador” para a modalidade ter entre 18 a 30 equipas a competir pelas medalhas e, mais importante, para conquistar um lugar especial entre o céu dos Olímpicos. Ao jeito do que aconteceu no Ténis de Mesa ou em outros desportos, os melhores só entraram numa fase mais adiantada do torneio, dando espaço a eliminatórias aos jogadores de ranking mais inferior. Isto permite conhecer outros jogadores, novas realidades e saber qual a extensão real da modalidade. Estamos contentes com 12, correcto… mas não poderiam ser mais? Não ficaríamos todos a ganhar com a presença de outros jogadores e equipas icónicas dos 7’s (puxando para o lado português, não deveríamos estar nos JO, a melhor equipa de 7’s dos últimos 15 anos a nível do Campeonato da Europa?)? Dia 11 não marca o fim do rugby nos Jogos Olímpicos… marca sim o dia do início da “luta” pelos próximos 4 anos.

At the last moment | BBC
At the last moment (Foto: BBC)


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