28 Mai, 2018

Manuel Picão. “O rugby faz parte da pessoa que sou hoje!”

Francisco IsaacAgosto 9, 201710min0

Manuel Picão. “O rugby faz parte da pessoa que sou hoje!”

Francisco IsaacAgosto 9, 201710min0
2017 marcou um ano em cheio para Manuel Picão, com a estreia nos Lobos, a conquista de um Europeu de sub-20 e a ida ao Mundial da especialidade... a Entrevista em Exclusivo para o Fair Play

Aos 20 anos, Manuel Picão já conquistou um Europeu de sub-20, fez parte da Selecção sénior que levantou o Grand Slam Trophy e está a preparar-se para participar no Mundial Trophy Sub-20 da World Rugby. Um atleta imenso da Académica de Coimbra que marca pela sua humildade, paixão e entrega prestou “provas” no Fair Play


Em 12 meses muito aconteceu… campeão europeu sub-20, estreia nos Lobos (onde até marcaste um ensaio) e algum renascimento na Académica.  Até onde podes chegar? E quais são os teus objectivos para 2018?

MP. De facto, foi um dos meus melhores anos, chego ao final com o sentimento de dever cumprido e orgulhoso do que atingi. Para a próxima época espero ajudar a Académica a garantir o lugar na parte de cima da tabela, manter-me na seleção de XV e acima de tudo não ter lesões que é algo que um jogador de rugby está sempre sujeito, sendo uma modalidade de confronto físico.

Jogar na Académica é um orgulho e a confirmação de uma paixão? Como começou a tua ligação aos Estudantes?

MP.É um verdadeiro orgulho, foi sempre o clube em que quis jogar e chegar a jogador sénior. Quando me estreei pela primeira vez pela equipa principal, é que me apercebi da enorme história que a camisola carrega e de todo o trabalho e determinação dos mais velhos para tornar no clube que é hoje.

A minha ligação à Académica era quase inevitável quando tenho um pai tão apaixonado pela modalidade e pelo clube. Pisei a primeira vez um campo de rugby com 4 anos, mas veio a revelar-se  muito cedo para começar uma vez que era bastante reguila e os meus pais acharam por bem deixar passar um tempo para amadurecer. Passaram-se uns anos e voltei com 8 anos. Entretanto, nesse tempo que estive afastado, experimentei outras modalidades como o ténis e futebol, mas nenhuma me dava o bichinho que o rugby me dava.

O que representa o rugby para ti? Conta-nos um momento que foi importante para ti na tua carreira.

MP.O rugby por estar tão presente na minha vida, fez parte da pessoa que sou hoje. O rugby trouxe para a minha vida o verdadeiro sentimento de amizade e companheirismo, “de dar tudo pelo colega do lado”.

Como momentos mais altos da minha carreira destacaria a vitória à Escócia no campeonato de Europa sub18 por ser das maiores potências do rugby Mundial, a vitória do campeonato de Europa sub20 por se calhar era algo que ninguém estava à espera, mas que trabalhámos muito por atingir e a minha estreia pela seleção de XV porque foi algo que sempre sonhei desde que comecei a jogar rugby.

Outro momento que também destacaria, por não ter sido fácil de ultrapassar, foi a minha operação ao pé pois nem os próprios médicos acreditavam que voltaria a jogar mas com a ajuda dos meus pais que sempre me apoiaram e com muito trabalho, consegui recuperar

És um jogador que prima muito pela qualidade defensiva, com uma placagem que muitas vezes permite aos teus colegas irem buscar à bola no breakdown. Sempre foste um defesa “agressivo” ou foi  uma aprendizagem demorada?

MP.Sempre gostei muito de defender, ainda mais na posição em que jogo esse é um fator muito importante. Desde pequeno que tenho essa “agressividade” que aplico na placagem, mas em termos técnicos acho que ainda posso melhorar.

Um verdadeiro Estudante! (Foto: Nana Photo)

Melhor ensaio da tua carreira? E recordas-te de alguma placagem importante?

MP. Como melhor ensaio acho que foi mesmo o da minha estreia pela seleção sénior, porque marca um dia muito feliz na minha carreira. Placagens importantes, sinceramente não consigo escolher uma específica, mas marcam-me sempre aquelas que acontecem perto da nossa área de validação e permite recuperar a bola, são sempre momentos importantes que podem mudar o jogo.

Esta geração dos sub-20 de Portugal (que conquistou o Campeonato da Europa) vem de trás, correcto? Como chegaram até este ponto?

MP. A nossa geração já joga junta há muitos anos, maior parte já nos conhecemos desde as seleções regionais sub14, o que neste momento se revela muito importante em momentos decisivos dos jogos. Quase todos os jogadores que integram a convocatória de preparação para o trophy passaram pelo processo de desenvolvimentos das seleções jovens (sub 14, sub16, sub 17 e sub18), o que é meritório para todos os treinadores, managers, preparadores físicos e fisioterapeutas que nos acompanharam neste processo.  A principal vantagem deste processo de desenvolvimento é que um jogador dos sub 18 que integre a seleção de sub 20, sente-se a vontade com o plano de jogo e não demora a adaptar-se. O mesmo se passa com os jogadores sub20 que integram a seleção sénior.

Além de jogarmos juntos há muitos, neste momento também já somos grandes amigos, o que torna o nosso grupo ainda mais coeso.

Qual é o vosso objectivo para o Campeonato do Mundo Trophy a realizar agora em Agosto/Setembro?

MP. Acho que o principal objectivo é levar para o campeonato do Mundo um bom grupo que eleve o rugby português lá fora. Queremos que esta geração ser torne um exemplo para os mais jovens. Em termos de objectivos concretos, tal como no campeonato de europa, vamos enfrentar seleções contra as quais nunca jogámos, claro que temos acesso a vídeos e sabemos onde derrota-las, mas em campo é sempre diferente, vamos ter de pensar jogo a jogo, foi assim que conseguimos ser campeões de europa.

Quem é o Rei da Companhia nos sub-20? E o que trabalha mais? E já agora, o que exige mais da equipa?

MP. Temos vários “reis da companhia”, somos um grupo muito bem-humorado, mas se calhar o Caetano Castelo-Branco e o José Sarmento na altura de descomprimir são os que sacam mais risadas. Como mais trabalhadores, neste momento é difícil escolher um, porque acho que todo o grupo está a trabalhar muito forte e com foco no objetivo, o que é óptimo. Os mais exigentes, sem dúvida os capitães João Bernardo e António Vidinha.

Em relação aos Lobos, como foi ouvir o Hino no Estádio do Jamor? Sentiste um grande apoio do público?

MP. Ouvir o hino é sempre muito especial, ainda mais no Jamor perto de todos os portugueses, mas claro que no dia da estreia as emoções estão todas à flôr da pele e foi um momento muito bom.

Acreditas na subida de divisão na próxima temporada? E o que temos de fazer mais para nos nivelarmos com a Bélgica, Alemanha ou Espanha?

MP. Acredito, mas temos ainda um caminho duro a percorrer. Acho que o principal problema em Portugal é a forma amadora como vemos o alto rendimento no rugby e como tratamos os problemas à volta da modalidade. Bélgica, Alemanha e Espanha são bons exemplos de nações que deram um grande salto e acho que só fazemos bem em ser humildes e olhar para o processo deles. Mas estou confiantes que unidos vamos voltar ao lugar que nos pertence.

Como foi jogar com o Gonçalo Uva, uma das lendas modernas da 2ª linha de Portugal?

MP. Ainda me lembro do meu primeiro treino na seleção de XV, olhar para o lado e ver todas aqueles que foram os meus ídolos quando era pequeno e agora partilhar o relvado com eles. O Gonçalo Uva, foi um dos que mais marcou, pois lembro-me quando ainda corria pelo Estádio Universitário à procura dele para me dar um autógrafo, e agora convivo lado a lado com ele e sem dúvida que foi das pessoas que melhor me integrou. Um verdadeiro exemplo dentro e fora de campo, um jogador que dá tudo pela camisola.

Ao lado de Foro frente ao Crawshays (Foto: Pai Conde Fotografia)

Achas que a combinação destas novas gerações pode levar Portugal a sonhar com uma nova ida a um Mundial?

MP. Se houver apoio e com muito trabalho talvez seja possível. Continuamos a ter muitos talentos, mas se não forem trabalhados e bem motivados, acabam por se perder.

Tens conseguido conciliar os estudos e a carreira de jogador? Queres chegar a profissional da modalidade?

MP. Não é fácil como é óbvio, principalmente vivendo em Coimbra e passando muitas semanas em Lisboa em que não vou às aulas. Mas, desistir de um dos dois não é opção, por isso vou continuar a organizar o meu tempo para estar bem nos dois lados.

O rugby na região de Coimbra tem sido bem desenvolvido? Como é que os séniores da Académica ajudam nas camadas jovens?

MP. Os séniores têm um papel muito importante na construção da imagem da Académica, somo nós que transmitimos o que é pertencer à família dos “pretos”, para isso  temos vários jogadores a treinar os mais jovens, fazendo com eles desde muito cedo tenham um contacto permanente com os atletas séniores.

Preparado para umas perguntas rápidas: David Pocock, Sean O’Brien ou James Haskell?

MP. Pocock!

Jogador mais rápido da Académica? E o melhor tecnicamente?

MP. Serginho ou Rodrigo Barradas; melhor tecnicamente Manuel Queirós

Com quem é que não queres ficar no mesmo quarto nos sub-20?

MP. Alguém que ressone muito, vão ser dias em que o descanso vai ser importantíssimo.

Seis Nações ou Rugby Championship?

MP. Rugby Championship

Jogar no Oyonnax de José Lima ou nos Sale Sharks do Diogo Ferreira?

MP. Sale Sharks, não sou muito fã de rugby francês

Fazer 5 séries de 20 burpees ou uma sessão de treino de velocidade?

MP. Treino de velocidade, porque é algo que tenho de melhorar

Uma mensagem especial para os adeptos do rugby português?

MP. Que estejam atentos ao nosso Campeonato Do Mundo e que nos apoiem, pois todo apoio vai ser necessários nos jogos difíceis que temos pela frente. É bom receber o calor dos adeptos, mesmo estando tão longe.

A nova força da avançada lusa (Foto: Nana Photos)


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