19 Ago, 2017

European Champions Cup 16/17 – Balanço

Francisco IsaacMaio 17, 201711min0

European Champions Cup 16/17 – Balanço

Francisco IsaacMaio 17, 201711min0

A Europa foi tomada pelos “sarracenos” de Londres, o Munster voltou a “acordar”, o Racing desiludiu e uma série de outros acontecimentos que marcaram a competição. Este é o balanço da competição de 2016/2017 pelo Fairplay

Temos bicampeão europeu, os Saracens, com Owen Farrell, Chris Ashton, Billy Vunipola e entre outros, a levantarem o “caneco” após um encontro sufocante ante o ASM Clermont.

Infelizmente para equipa francesa foi “só” a 3ª vez que ficaram a escassos pontos de conquistar uma competição que lhes foge desde 2012. Estão predestinados a terminar como vice-campeões?

Foi uma competição intensa, esgotante com algumas surpresas e desilusões, com ensaios de levantar os estádios (e porque não, também, o banco de suplentes?) e com alguma tristeza.

Este é o balanço do Fair Play à European Champions Cup.

CAMPEÕES – SARACENS

Stats
Ensaios Marcados: 29;
Ensaios Sofridos: 11;
Jogador c/ mais pontos: Owen Farrell (126);
Sequência de Jogos: 17 vitórias e um empate (bicampeões invictos)

Não há dúvida alguma que os Saracens de Londres são a equipa a “abater”, com um rugby que transita do puramente físico (fulcral para aguentarem aqueles minutos em que o Clermont tentou subir a “bitola” de jogo e recuperar da desvantagem) para o tecnicamente bem construído com uma série de fases dinâmicas (Brad Barritt, Alex Goode, Chris Ashton, Owen Farrell e Richard Wigglesworth ou Chris Wyles fazem a diferença em termos de skills e construção de jogo), permitindo-lhes uma adaptação mais rápida, mais eficaz a qualquer adversário.

Mike McCall, o director técnico dos sarries, dispõe de uma super-equipa com vários atletas a pertencerem à Rosa de Eddie Jones, como os irmãos Vunipola, Maro Itoje, George Kruis, Jamie George ou Owen Farrell (126 pontos dos pés e mãos do abertura/centro). Para além disso, tem uma lenda Springbok chamada de Schalk Burger, um asa destemido e que vale a pena seguir chamado de Michael Rhodes e um Puma que garante metros, ensaios e virtuosismo, o grande Marcelo Bosch.

Os Sarracens foram objectivos a garantir o seu lugar na competição, não deram mínima hipótese quer na fase de grupos (o maior susto aconteceu ante os Scarlets no País de Gales, com um empate de 22-22, “salvo” na bola de jogo) ou na fase a eliminar, saindo directos e sem contestação para o título europeu.

Rapidamente vamos explicar aonde e como os Sarracens sobrepuseram as adversidades durante a campanha de 16/17: fases estáticas 95% conquistadas (mérito para o excelente trabalho de Kruis e Itoje, para além da assertividade da 1ª linha com Vunipola, George e Vincent Koch); trabalho exemplar no contacto e velocidade no ataque ao 1º e 2º canal (Michael Rhodes e Billy Vunipola foram os carriers de serviço, seguindo-se Marcelo Bosch) e aproveitamento do espaço para quebras-de-linha (Chris Wyles e Chris Ashton sempre com a bomba nas pernas em direcção à linha de ensaio). Um rugby muito simples, mas extremamente dinâmico, com uma carga física alta e uma resistência que garantia os 80 minutos sem “quebrar”.

Esta onda dos Saracens é para continuar? Se o plantel não sofrer grandes alterações (um par de jogadores vão “pendurar as botas”), receber mais dois ou três reforços de luxo (Liam Williams, Christopher Tolofua e Dominic Day já estão confirmados) vai ser muito complicado “bloquear” a máquina de McCall.

A DESILUSÃO – RACING METRÓ

Se não há dúvidas que os Saracens mereceram erguer o título de campeões da Europa, também não há em relação à escolha para equipa desilusão em 2016/2017: Racing Metró 92′.

A equipa parisiense terminou em último lugar da fase-de-grupos conquistando só 5 pontos em 30 possíveis. Nem Dan Carter (entre jogos fenomenais a exibições de “apagão” total) ou Juan Imhoff conseguiram salvar a “honra” do Racing, que apresentou um rugby tão desapontante que deixou várias reticências para o que virá aí no futuro.

Um dos principais problemas foi a intensidade de jogo e a capacidade de dar sequência a uma série de fases, com a equipa francesa a não possuir “arcabouço” para aguentar com a insistência “irritante” do Munster ou a eletricidade do Glasgow Warriors.

Em 2015/2016 tinham ido até à final da competição, caindo ante os Saracens… nesta temporada nem do último lugar do seu grupo conseguiram passar.

Uns “magros” 12 ensaios marcados provam que algo se passou nas hostes do Racing Metró que precisa se revitalizar e reencontrar aquela classe e charme demonstrada na época anterior.

O RECORDISTA – CHRIS ASHTON

Quem é que disse que os bad boys não podem vingar no desporto? Chris Ashton, o ponta que conseguiu tirar Eddie Jones, Warren Gatland, Martin Johnson e vários outros seleccionadores nacionais ou dos Lions do sério, bateu o recorde de ensaios das competições europeias.

O ponta inglês de 30 anos (não representa a selecção da Inglaterra desde 2014, apesar de ter conseguido 25 ensaios em 53 internacionalizações) atingiu os 37 ensaios em 50 jogos na Champions/Heyneken Cup, ultrapassando Vincent Clerc (36) ou Brian O’Driscoll (33).

Este foi o “adeus” de Ashton aos Saracens já que vai para o RC Toulon, onde poderá tentar chegar aos 40, uma meta formidável para um dos grandes finishers ingleses dos últimos 20 anos. Para além de estar munido de uma bela velocidade, o ponta tem uma boa noção do jogo ofensivo, tem capacidade de perfuração e tenta entrar no espaço “X” para partir a linha de vantagem e criar uma boa situação ofensiva.

Seis ensaios em cinco jogos (Isa Nacewa do Leinster acabou com 7), decisivo frente ao Clermont (3 quebras de linhas e 5 pontos saídos das suas mãos) ou Scarlets (aquele ensaio no último segundo de jogo que garantiu um empate precioso), Ashton merece um lugar no patamar das “lendas da Champions Cup”.

A SURPRESA – MUNSTER RUGBY

Revivalismo… é uma conceito que se pode “afixar” na European Champions Cup desta temporada, com os regressos em força do Leinster, Munster ou ASM Clermont. Especialmente o regresso às boas exibições das equipas irlandesas, que durante os últimos dois anos andaram bem longe dos grandes palcos (o Leinster chegou em 2014/2015 às meias finais da competição).

Essencialmente, o Munster voltou à “chama” que outrora os galgou para as grandes conquistas europeias, muito pela capacidade de Anthony Foley em transformar o rugby “sonolento” irlandês para uma aceleração constante de jogo e um ritmo de alto “quilate”.

O falecimento do treinador, na noite antes do encontro frente ao Racing Metró 92′, foi uma “dor” total na Red Army que se viu privada do seu comandante, de uma lenda do clube e do país… mas a “dor” foi convertida em uma dose ainda maior de “paixão” e entrega, que levou o Munster até às meias-finais da competição sucumbindo à maior pressão e dinamismo dos Saracens.

Mas foi uma época essencial para o futuro da equipa de Rassie Erasmus (o director técnico que assumiu o papel de treinador do Munster após a morte de Foley), com CJ Stander a comandar os avançados (um placador exímio e um autêntico “tanque” com motor de porsche no ataque) e Tyler Bleyendaal a despontar como um “maestro” com capacidade de elevar o jogo da sua equipa.

O Munster está a “refazer” a sua vontade de conquistar títulos e prova disso foram os apuramentos quer para as meias-finais da Champions Cup quer para a PRO12 (frente aos Ospreys). Para o rugby europeu é necessário termos de volta a energia irlandesa, a magia de Zebo (o jogador com mais erros próprios de toda a competição com 15 no total) e a liderança de Peter O’Mahony.

O MVP – CJ STANDER

CJ Stander, que nº8 “monstruoso” foi o rugby irlandês “resgatar” às planícies da África do Sul. O asa da selecção da Irlanda (um dos melhores jogadores nas duas últimas Seis Nações pelo Trevo) fez uma campanha “deliciosa” na European Champions Cup.

O ensaio marcado frente ao Racing Metró 92′ é um tipo de cartão de visita que deixa qualquer adepto com vontade de conhecê-lo mais e melhor. Com três ensaios na competição de 16/17, Stander sobressaiu-se na hora de reorganizar a avançada, nas saídas com potência (133 carries no total com 292 metros conquistados), no breakdown (8 penalidades conquistadas, 8 turnovers conseguidos), na “agressividade” da placagem (59 placagens no total, está no top-15 de melhores placadores da época) e dotado de uma leitura de jogo que merece destaque.

Stander é o protótipo de jogador que qualquer treinador gostaria de ter: leal, trabalhador, enérgico, “mágico”/criativo e que se impulsiona para a frente dando o exemplo aos seus colegas.

Owen Farrell foi até à final, marcou ensaios, colocou pontos entre os postes, foi decisivo em vários momentos…tudo verdade. Mas Stander fez o Munster respirar rugby, deu outros “contornos” à avançada da Red Army e foi o melhor 8 de toda a competição.

AS NOVAS ESTRELAS – GARRY RINGROSE, ZANDER FAGERSON E THOMAS YOUNG

Garry Ringrose – Ensaio de antologia em casa do Clermont; Zander Fagerson – pôs as primeiras-linhas do Munster e Racing Metró em “fúria”; e Thomas Young – o tackling machine dos Wasps. Foram três protagonistas “jovens” que deixaram uma marca profunda na competição.

Ringrose é aos 22 anos o novo Brian O’Driscoll, de acordo com alguns comentadores e fãs. É preciso ter um cuidado extremo a etiquetar os jogadores, mas na verdade Ringrose foi surpreendente. Um jogador nato em explorar o erro defensivo do adversário, tem um pace e um ritmo de jogo muito diferente do que estamos habituados a ver em Henshaw ou Payne, para além dos “truques” na hora de tirar o defesa da frente. As excelentes prestações pelo Leinster podem ainda valer um “cartão de viagem” até à Nova Zelândia.

Zander Fagerson, o pilarão dos Glasgow Warriors, foi um “rochedo” autêntico. Com 21 anos, o nº1 escocês tem tudo para se afirmar como um dos melhores pilares do Hemisfério Norte, muito pela sua excelente postura e trabalho na formação ordenada (Mako Vunipola teve uma autêntica “guerra” com o escocês), a forma como gosta de “comer” metros, o ritmo que impõe nas entradas curtas ou a “agressividade” que apresenta na placagem (55 placagens) são alguns pontos fortes do pilar.

Por fim, Thomas Young, asa dos London Wasps pode ser um novo James Haskell (pode parecer uma blasfémia) tanto pela sua qualidade como placador (um rácio de 95% de placagens efectivas, terminou com 76 placagens em 7 jogos), na disponibilização para ganhar metros (106 no total, não é por onde passa a estratégia de jogo de Dai Young) e na fisicalidade que apresenta no contacto seja no ataque ou defesa. Com 24 anos, o galês tem tudo para seguir os trilhos quer de Haskell ou Warburton.

O 23 DO ANO

Suplentes: 16 – Vincent Koch; 17 – Benjamin Kaiser; 18 –  Tadgh Furlong; 19 – Sean O’Brien; 20 – Richard Wigglesworth; 21 – Finn Russell; 22 – Alex Goode; 23 – Nemani Nadolo;

EM MEMÓRIA – ANTHONY FOLEY

Anthony Foley deixou o mundo do rugby mais pobre ao “partir” cedo. Uma das grandes referências do Munster e da Irlanda, conseguiu em 2014 assumir o lugar de treinador principal da equipa da região.

Foley foi sempre uma presença assídua desde novo entre o Munster, seguiu as pisadas do pai, carregou a Irlanda às “costas” em alguns momentos e acabou por conquistar uma Heyneken Cup por duas ocasiões (05/06 e 07/08) como jogador.

O Munster de 2016/2017 existiu graças a “Axel” Foley e Rassie Erasmus, uma parelha que iria fazer estremecer não só a PRO12 mas também a European Champions Cup.

A saudade vai apertar… Foley tinha um jeito característico de sentir o rugby, uma paixão única, um envolvimento com os adeptos e jogadores inesquecível, sempre com um sorriso brilhante e simpático.

A memória de Foley, os valores que ele defendia e a forma como lutou pela Irlanda dentro e fora do campo são marcas únicas para esta modalidade.

Foto: RTE

Stand Up and Fight em memória de Foley

 


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