24 Ago, 2017

A época das Selecções Nacionais de XV – Coluna de Opinião de Bernardo Rosmaninho

Francisco IsaacJunho 18, 201711min0

A época das Selecções Nacionais de XV – Coluna de Opinião de Bernardo Rosmaninho

Francisco IsaacJunho 18, 201711min0

Placagem Fora de Tempo de Bernardo Rosmaninho, é a 4ª coluna de convidados do Fair Play para falar sobre rugby. Um resumo com questões sobre a época das selecções Nacionais de rugby de XV

NOTA PRÉVIA – Uma placagem fora de tempo é, como o nome indica, uma acção faltosa, feita regra geral quando um jogador é derrubado e já não tem em sua posse a bola. Esta rúbrica pretende abordar de forma crítica, construtiva e bem-disposta algumas temáticas que, tal como certas placagens, podem não ser muito simpáticas ou virem na melhor altura, mas também fazem parte do jogo.

Foi com prazer que aceitei o convite do Francisco Isaac para, de forma esporádica, contribuir com esta coluna para o bom trabalho que Fair Play tem feito. Aceitei-o também porque, se existe algo que a última década do rugby nacional e internacional me mostrou, seja primeiro ao serviço do Rugby Portugal, como cronista ou fotógrafo, ou posteriormente (e actualmente) como comentador desportivo no Eurosport, na RTP e na Benfica TV, foi de que existe um gigantesco vazio nos media, no que ao rugby diz respeito. Informações e uma análise construtiva feitas de forma humilde e sem vaidades são tão raras e necessárias quanto um árbitro, uma bola e proteções de dentes para a prática da modalidade. Importa trabalhar no sentido de suprir esta lacuna do rugby português.

Primeiras Impressões (Foto: Foto Jump)

PRIMEIRAS IMPRESSÕES – É impossível escrever sobre a época das Selecções Nacionais de XV sem sentir o travo amargo causado por aquilo que foram os resultados, sobretudo os últimos dois, da Selecção sénior. A derrota em Bruxelas com a Bélgica, que ditou a nossa permanência por mais um ano na 3ª divisão europeia; e a vitória surpresa em São Paulo do Brasil sobre os Lobos encerraram uma época 16/17 das selecções nacionais que nos seniores não poderia ter sido pior. Comecemos então por eles esta análise.

Resultados Oficiais em 2016/2017

POR v BEL – 26-21 | 12/11/16 – Jogo Teste em Setúbal

SUI v POR – 10-28 | 19/11/16 – 1ª Jornada do Rugby Europe Trophy

POR v BRA – 21-17 | 01/12/16 – Jogo Teste em Coimbra

POR v POL – 35-10 | 18/02/17 – 2ª Jornada do Rugby Europe Trophy

HOL v POR – 10-26 | 04/03/17 – 3ª Jornada do Rugby Europe Trophy

POR v MOL – 59-00 | 11/03/17 – 4ª Jornada do Rugby Europe Trophy

UCR v POR – 07-31 | 01/04/17 – 5ª Jornada do Rugby Europe Trophy

BEL v POR – 29-18 | 20/05/17 – Playoff do Rugby Europe Championship

BRA v POR – 25-21 | 10/06/17 – Jogo Teste em São Paulo

A tarefa do seleccionador Martim Aguiar não poderia ter sido mais difícil: proceder a uma renovação geracional, motivar a “velha guarda” dos Lobos a continuar a representar Portugal, implementar um novo modelo de jogo e assegurar o regresso via playoff ao Rugby Europe Championship, o antigo 6 Nações ‘B’.

Resumir a época a um jogo (Foto: sportkipik_be)

RESUMIR UMA ÉPOCA A UM JOGO – Importa conceder que são os dois últimos jogos, em especial a derrota contra a Bélgica, que fazem da época dos Lobos uma temporada a esquecer. Ironicamente, os dois primeiros testes dos Lobos em 16/17 foram exactamente contra os mesmos adversários que, 6 meses depois, deram cabo da temporada da nossa selecção. Desde cedo foi-se notando alguma evolução no jogo da nossa principal selecção, cujo ponto alto aparenta ter sido a vitória contra a Holanda no país das túlipas. O ‘Grand Slam’ numa 3ª Divisão da Rugby Europe não só era esperado como se impunha, ficando tudo por decidir apenas num jogo, em Bruxelas, contra o último classificado do Rugby Europe Championship 2017, a Bélgica.

Infelizmente, a preparação daquilo que era um jogo onde se decidia toda uma época, foi marcada pela decisão ignóbil de realizar uma semana antes a final da Divisão de Honra, sobretudo quando esta nem transmitida foi, negando a oportunidade promocional / ‘raison d’être’ que num campeonato interno o jogo decisivo representa, e pela utilização condicionada dos jogadores portugueses a actuar no estrangeiro, algo que aliado à fraca competitividade do nosso campeonato e ao desgaste dos convocados que nele jogam, deixava o quinze nacional dependente de uma excelente exibição nossa e de um mau dia dos belgas para garantirmos o regresso ao nosso torneio na Europa, prova que até hoje, relembremos, para além da Geórgia e Roménia, apenas Portugal venceu e de onde, até 2016, nunca tínhamos saído.

Como sabemos hoje, tal não sucedeu e, por entre críticas mais ou menos fundamentadas ou genuínos atentados na imprensa, pedindo-se a demissão da actual liderança federativa, ignora-se o enorme esforço que os nossos atletas fizeram, o monumental desinvestimento a que se procedeu no caso dos adversários com quem jogamos e dos jogadores convocados à Selecção. Em suma, acreditámos que podíamos continuar a jogar contra equipas mais fortes sem sequer tentarmos maximizar as nossas hipóteses de entrar em campo de igual para igual com estas.

Diz-me contra quem jogas, dir-te-ei quem és (Foto: Crocodilo Azul)

DIZ-ME CONTRA QUEM JOGAS, DIR-TE-EI QUEM ÉS – Nas últimas épocas, substituímos adversários contra quem Portugal se testava do primeiro ou segundo nível da modalidade a nível mundial por selecções do terceiro escalão do rugby internacional. Deixámos de jogar, a nível oficial, contra o Canadá (2008, 2010 e 2013), Tonga (2009), Namíbia (2009, 2010 e 2014), Estados Unidos (2010), Uruguai (2011 e 2012) e Ilhas Fiji (2013), e progressivamente fomos substituindo esses adversários por outros bem mais fracos como o Chile (2012), o Quénia (2015), o Hong Kong (2015), o Zimbabué (2015) e o Brasil (2013, 2016 e 2017).

Mesmo a nível de jogos de preparação, substituímos as selecções ‘B’ da Inglaterra (2009), da Argentina (2009, 2011 e 2012) e da Itália (2012), equipas de renome como o Connacht e o Ulster da Irlanda (2008), a Universidade de Oxford (2010) e os Kings da África do Sul (2011) pelas Selecções Universitárias da Inglaterra (2010 a 2015) e da França (2013) e, mais recentemente, pela equipa ‘B’ da Bélgica (2016) e pelo conjunto de convites Crawshays Welsh (2017).

Competimos e preparamo-nos a um nível cada vez inferior contra selecções que têm comparativamente cada vez mais meios e que jogam contra as selecções com quem nós deixámos de jogar e estranhamos que depois os nossos resultados sejam negativos?

A evolução dos nossos adversários (Foto: Foto Jump)

A EVOLUÇÃO DOS NOSSOS ADVERSÁRIOS – Perdido no meio desta discussão está o facto de alguns dos nossos adversários directos a nível do rugby mundial – Espanha, Bélgica, Alemanha, Uruguai, Brasil, Namíbia, Quénia e Hong Kong – estarem a evoluir bem mais do que nós e terem mais condições, humanas ou materiais (ou ambas), do que a actualmente amadora selecção nacional tem. Criticar jogadores e equipas técnicas enquanto se ignora que algumas das nações acima evoluíram imenso nos últimos anos é o primeiro sinal do sensacionalismo e crítica politizada importa descartar quanto antes. O desenvolvimento dos nossos adversários é uma das principais razões para a série negativa de resultados que os Lobos tiveram nos últimos anos contra a Bélgica, a Alemanha, a Espanha e o Brasil. Vejam os resultados recentes e vitórias dos últimos dois anos destas selecções e tudo torna-se um pouco mais claro.

Onde estão a jogar os nossos jogadores? (Foto: sportkipik_be)

ONDE ESTÃO A JOGAR OS NOSSOS JOGADORES? – Se excluirmos o preconceito absolutamente caduco, de quem olha para os jogadores portugueses a jogar no estrangeiro, luso-descendentes ou não, como mercenários ou atletas que na Selecção ocupam o lugar dos nossos jovens, ou acha que, à partida, um atleta a jogar na Pro D2 francesa ou no Championship inglês não vai estar a um nível superior ao dos atletas que jogam na Divisão de Honra, quando (nem sempre mas) regra geral está; facilmente se percebe que uma estratégia semelhante à das outras nações do 2º patamar do rugby europeu, em especial da Geórgia e da Roménia, de enviar para França, Inglaterra ou até mesmo Itália os seus melhores jogadores, só vai contribuir para uma melhor e maior base a partir da qual um seleccionador nacional pode convocar atletas. Mais uma vez, basta comparar os clubes e respectivos campeonatos dos convocados da Bélgica com os de Portugal e, de súbito, constatamos que os nossos atletas são quase todos amadores e que do outro lado estamos a jogar contra uma equipa quase toda profissional.

Mesmo sem que no rugby português tenhamos, como acontece com os dois exemplos dados, o georgiano e romeno, indivíduos para quem a prática no estrangeiro desta modalidade seja uma fuga à pobreza, é essencial compreender que se não se encorajar os nossos melhores jovens a irem para o estrangeiro, a jogarem em países e campeonatos mais competitivos que o nosso, dificilmente teremos capacidade para, numa modalidade que ao mais alto nível é cada vez mais profissional e exigente, voltar a comparecer num Mundial de Rugby, seja ele em XV ou em Sevens.

Uma identidade renovada (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

UMA IDENTIDADE RENOVADA – Por fim, ficam abaixo considerações deveras positivas e alguns aspectos do rugby dos Lobos a melhorar em 2017/2018, elementos de uma identidade que não só já vimos anteriormente, como voltámos a ver nas novas gerações de internacionais do rugby lusitano, os Sub-18 e os Sub-20.

Uma nova atitude defensiva como a base do rugby dos Lobos, marcada pelo recurso a placagens mais efectivas e agressivas, e pela constante pressão sobre os adversários quando a defender, dificultando o offload e a continuidade no jogo ofensivo do adversário, algo que os Lobos tiveram imensa dificuldade em fazer contra a Bélgica mas que deve estar sempre na base do seu jogo, como esteve na dos Campeões Europeus de Sub20.

Uma maior disponibilidade mental, sacrifício e foco nos objectivos da Selecção, algo que, numa época a competir contra Suíça, Polónia, Moldávia, Ucrânia e Holanda, me pareceu existir sempre em todo o grupo, em especial nos Lobos mais velhos como por exemplo Adérito Esteves, Gonçalo Uva, Gonçalo Foro e o capitão Francisco Pinto Magalhães, que estiveram sempre disponíveis e vão assegurando a passagem do testemunho aos mais novos na era mais difícil de sempre do rugby nacional.

Uma avançada mais móvel e participativa no jogo atacante dos Lobos, algo que mesmo quando contra um pack bem mais forte, como foi o caso do da Bélgica, tivemos imensas dificuldades, se tornava visível quando Portugal acelerava o ritmo, mostrando que tem elementos e capacidade para fazer bem melhor no playoff de 2018, não cometendo tantos turnovers, tantas faltas no chão e, tão ou mais importante, tendo opções para um novo passe durante o ataque ou simplesmente para o offload após o contacto, duas falhas do rugby português que não são jogos no Trophy que vão remediar.

NOTAS FINAIS – Para 2017/2018 ficam também os jogos da ronda europeia e da repescagem da qualificação para o Mundial de 2019, do qual ainda não estamos afastados, e com o qual continuamos a sonhar; e um novo playoff em casa da Bélgica pela promoção ao Rugby Europe Championship, isto caso repitamos a vitória no Rugby Europe Trophy.

Fica por fazer, de 2016/2017, a análise à época dos Lobinhos Sub-18 e Sub-20 e falar dos jogadores que, dos mais novos aos já Seniores, compõem o futuro do rugby nacional. Esses são, no entanto, assuntos para a 2ª parte deste artigo.


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