21 Ago, 2017

6 pontos sobre a 3ª Jornada do Rugby Championship

Francisco IsaacSetembro 11, 201616min0

6 pontos sobre a 3ª Jornada do Rugby Championship

Francisco IsaacSetembro 11, 201616min0

De regresso após uma semana de paragem, o Rugby Championship seguiu-se com grandes ensaios, placagens brutais e alguma discussão: Barrett e Savea terminaram com o espectáculo dos Pumas; David Pocock e Michael Hooper voltaram a “acordar” para infligir uma derrota crítica nos Springboks. Toda a jornada em 6 pontos

O Colectivo: UM WALLABY FERIDO “RESSUSCITA” EM BRISBANE

Podíamos falar dos primeiros 50 minutos da Argentina, que colocaram os All Blacks sempre em check e não fosse a queda abrupta física, por um lado, e a qualidade técnica e força mental dos All Blacks, por outra, a Argentina poderia ter saído da Nova Zelândia com um resultado muito interessante. Mas o destaque tem de ir para a selecção da Austrália, que ao fim de 4800 minutos (6 jogos) voltou a saborear a textura e contornos de uma vitória e nada melhor do que contra a África do Sul, uma selecção que também precisava de uma vitória para animar as hostes. Num jogo sempre muito “quente”, com uma “luta” em cada metro, em cada fagulha de espaço, foram os Wallabies a saltar para a vitória fruto de um excelente ensaio de Bernard Foley (61′) e de uma tremenda defesa colectiva, da qual sentíamos saudades, que impediu a África do Sul de chegar à área de validação contrária na 2ª parte. O score final ditou um 23-17, num jogo em que os Springboks de Coetzee chegaram a liderar por 14-03 ainda antes dos primeiros 20 minutos de jogo, mas acabaram por quebrar em todos os sentidos perante uma Austrália decidida em ganhar os seus primeiros pontos neste Rugby Championship. Efectivamente, podemos discutir se há mais mérito aussie na vitória ou mais desmérito da África do Sul em perder o jogo, uma vez que tiveram duas situações claras de ensaio nos últimos 10 minutos de jogo perdidas pelo terrível handling de alguns jogadores e da falta de velocidade do seu par de médios. É verdade, Faf de Klerk e Elton Jantjies, aquela dupla fantástica de médios dos Lions, quebraram neste jogo e voltaram a ficar debaixo de uma “chuva” de críticas, com o nº9 a revelar um ritmo elevado, boa velocidade mas peca na voz de comando (natural, uma vez que só tem 24 anos) ou nas decisões que toma, enquanto que Jantjies só surge no jogo em raros momentos o que tira a importância do nº10 do jogo. Todavia, o que queremos destacar é o incrível jogo de colectivo dos Wallabies, que voltaram a ser uma Equipa perante aquela que poderia ser a derrota número 7. Se os avants/knock-on’s dos Springboks são erros ofensivos, podemos dizer que a placagem imposta ou a pressão bem “agressiva” colocada no ataque por parte da defensiva australiana ajudaram a que os visitantes cometessem tantos erros ofensivos (20). A entrada de Dean Mumm para asa foi providencial, com 3 das suas 10 placagens terem sido realizadas quando Hougaard, de Klerk e Whiteley estavam à beira de quebrar a linha e de conseguir criar uma situação de vantagem ofensiva para os sul-africanos. Ao lado de Mumm, Michael Hooper e David Pocock regressaram à “Terra”, com jogos bem conseguidos, ainda que longe do que conseguem fazer. Pocock realizou 2 turnovers, os mesmos que Hooper, com ambos a completarem 23 placagens (na soma total de ambos) num jogo em que tiveram bastante trabalho. A nota de destaque da noite vai para Samu Kerevi, o 2º centro, que correu mais de 120 metros com a oval em seu poder, quebrando a linha por três vezes e assumindo um papel providencial, uma vez que tinha de “bater e bater” para moer a defesa dos Springboks. O jogador dos Queensland Reds voltou a demonstrar que é a grande solução para a má forma de Tevita Kuridrani, patenteado o papel que pode ter no desgaste da defesa contrária (de Jongh e Jesse Kriel realizaram 18 placagens no total, 8 delas foram só para Kerevi). Michael Cheika precisava de que a sua equipa seguisse o plano e demonstrasse que a “sua” Austrália não era “fracasso” algum no que toca à leitura defensiva, à placagem e à reacção perante uma quebra de linha dos seus adversários. Ainda estão longe do seu melhor em termos ofensivos, todavia a 2ª parte foi uma prova que há vida nestes Wallabies, onde uma incrível defesa garantiu a sua 1ª vitória em 2016. Vale a pena prestarem atenção à forma como a Austrália – especialmente o bloco dos avançados – impôs uma pressão alta, quando a África do Sul decidia abrir o jogo para as alas, “amarrando”, por completo, potenciais entradas de Bryan Habana, François Hougaard e Johan Goosen, que só conseguiram realizar três quebras-de-linha no jogo.

Wallabies with the Jump (Foto: Rugby World Magazine)
Wallabies with the Jump (Foto: Rugby World Magazine)

Más decisões: EARTH TO COETZEE, WE HAVE A KLERK-JANTJIES PROBLEM

É um ponto extremamente polémico, ao nomear Faf de Klerk e Elton Jantjies como as desilusões da última noite The Rugby Championship em Brisbane. O surpreendente formação e o “mago” médio de abertura, ambos dos Lions, caíram a pique no jogo frente à Austrália. Já com a Argentina realizaram uma exibição q.b., longe do seu melhor e com uma participação intermitente nesse jogo frente aos Pumas. Mas o 1º encontro frente à Austrália deste torneio, foi quase um show de horrores para o par de médios da África do Sul. O número 9 esteve longe de conseguir organizar os seus 8 avançados e nem a ajuda do seu 8, Warren Whiteley, serviu para de Klerk ganhar força e voz para pôr os “monstros” dos Springboks a andarem em rotação alta. Sentiu-se uma desorganização, por vezes bem clara, dos 8 avançados que não conseguiam manter um ritmo bom (que transitasse entre esse nível e o alto) e coerente, que permitisse a equipa ganhar metros, estabelecer-se, com eficácia, em zonas mais avançadas do terreno e garantisse mais pontos, já que Elton Jantjies só teve direito a dois pontapés de penalidade (50% de eficácia) durante todo o encontro (das 8 penalidades que conquistaram, apenas 3 foram do meio-campo para a frente). Ainda por mais, o Gold Flash dos Springboks somou três avants um deles já nos últimos metros da Austrália, deitando a perder aquele podia ter sido o momento da reviravolta final (faltavam menos de 8 minutos para o fim do encontro) para a equipa de Coetzee neste Rugby Championship. Mas de Klerk não ouve as críticas sozinho, já que Jantjies voltou a realizar um jogo tremido, nervoso e quase inconsequente, não fosse a assistência para o ensaio de Goosen. Jantjies desde do último jogo do Super Rugby está a léguas do que pode conseguir de melhor e a resposta ao porquê dessa queda de rendimento, tem a ver com a confiança e segurança que o abertura não sente nos Springboks. Não é que a 3ª linha tenha estado mal, só que Louw não teve participação no encontro, Mohoje revela-se demasiado pesado para acompanhar a velocidade de formações excêntricos e Warren Whiteley precisa de mais jogos para continuar controlar, por completo, os avançados dos boks’. Por isso, Jantjies tem de encontrar motivação para melhorar e solidificar a sua posição, apesar da comunidade do rugby sul-africano contar os dias para o retorno de Handré Pollard ou mesmo de Pat Lambie. E Faf de Klerk, apesar de ter toda aquela velocidade, de ser um jogador que se entrega à equipa e que defende com brilhantismo, devia perder o lugar para Rudy Paige, para voltar a ganhar alguma estabilidade e calma para regressar mais forte e capaz de liderar um jogo que passa, quase sempre, por ele. Sem um “moto” é difícil que o panzer dos Springboks consiga avançar no terreno, marcar ensaios e, mais importante que tudo, ganhar jogos. Este é um ano de redefinição de objectivos, Coetzee está a construir o melhor elenco possível e será fundamental que os fãs do rugby da África do Sul tenham paciência… Roma não se fez num dia.

Faf de Klerk (Foto: Scrum)
Faf de Klerk (Foto: Scrum)

O AstroKIDS STEP ASIDE, BEAUDEN BARRETT IS GOING IN

É impossível não destacar o médio de abertura dos All Blacks… falha pontapés aos postes, mas compensa com um jogo soberbo de pés, uma finta e velocidade vertiginosa e uma visão de jogo de “paralisar” qualquer adepto do Mundo da Oval. No 57-22, Barrett teve ligação directa em 22 pontos, com o seu ensaio (assistência de Ben Smith, com um grubber espectacular), 6 conversões e uma assistência para o ensaio de Ryan Crotty (o 1º do centro, com o número 10 a entrar bem no espaço e a realizar um offload característico dos neozelandeses). No entanto, isto não foi só o que Barrett fez em todo o encontro… quando a Argentina estava mais perto de conseguir uma reviravolta no início da 2ª parte, que seria altamente perigosa para os All Blacks, Barrett começou o seu show privado de “destruição” das linhas atrasadas dos Pumas, com uma série de fugas e trocas de pés que deixaram Sanchez, Moroni ou Landajo pregados ao chão e que perante as formidáveis entradas de Julian Savea (jogo gigante do The Bus), pouco conseguiram fazer nos últimos 35 minutos. No ensaio de Faumina, Barrett tem uma incrível e estonteante entrada na defesa argentina, fazendo os Pumas dançarem um tango ao som da Nova Zelândia, abrindo espaços e brechas na defesa dos visitantes para o 5º ensaio da sua equipa. Quando Ben Smith (outro jogo impressionante do defesa, merecerá, a este ponto, conquistar o título de melhor jogador do Mundo em 2016) realiza um jogo tremendo (o segundo ensaio vale a pena verem e reverem para notarem a qualidade do step do nº15), quando Julian Savea volta ao seu normal e desgasta a defesa contrária, quando Kieran Read diverte-se a jogar (outro jogo incrível do nº8) é impossível a Nova Zelândia perder jogos e o Rugby Championship está praticamente no “bolso”. Quando nos lembramos dos “medos” dos neozelandeses em Junho deste ano, perante o “adeus” de Daniel Carter, Beauden Barrett decidiu estabelecer uma nova era na camisola nº10 dos All Blacks. Em 3 jogos, já conquistou 43 pontos, com dois ensaios, 4 assistências e 33 pontos em pontapés (falhou 10, 5 penalidades e 5 conversões)… é possível parar o pace, o step e a “electricidade” do médio de abertura que almeja em se afirmar como uma das novas lendas do rugby neozelandês… pelo menos já pode ser considerado como um Astro no Mundo do rugby.

A Comparação: MISTER JOUBERT LEARN FROM PROFESSOR OWENS

Nunca é bom falar de arbitragens, mas há que arriscar em falar deste ponto: a diferença entre Craig Joubert e Nigel Owens nesta jornada de rugby. Joubert ficou destacado para o jogo entre a Nova Zelândia e Argentina, enquanto que Nigel Owens ganhou o “direito” de mediar o encontro entre Austrália e África do Sul. O 1º acabou por fracassar na sua missão de controlar o jogo, permitindo um rugby quezilento e confuso no chão (a Argentina abusou das faltas no ruck e do anti-jogo no chão) e acabou por ser demasiado rígido (por mais de duas vezes sem razão) na formação ordenada, caindo sempre encima do bloco avançado dos Pumas. A vitória por 57-22 não deixou espaço para questionarem a exibição do árbitro sul-africano, porém Joubert assume um papel arrogante dentro do jogo, evitando explicar e conversar com os jogadores (teve um momento de aplaudir, quando ajudou Creevy a levantar-se do chão quando o capitão argentino tinha cometido uma penalidade), perdendo o equilíbrio que é obrigatório o juiz de jogo ter durante os 80 minutos. A força física e maior capacidade para aguentar o mesmo ritmo de jogo criou um gap entre a Nova Zelândia e Argentina e nem as potenciais faltas no chão estragaram a bela vitória dos All Blacks. Passado umas horas e não muito longe, a Austrália-África do Sul foram ajuizadas por Nigel Owens, o Professor da arbitragem do rugby. O juiz de jogo galês fez uma exibição de qualidade, revelando um carácter quase educacional perante alguns erros e penalidades de alguns jogadores. Neste encontro em que existiram algumas escaramuças entre Wallabies e Springboks (Etzbeth ficou mesmo sem camisola a certo ponto), Owens soube manter a calma, impor o respeito e ordem e relançar o jogo quando foi necessário. Houve um momento que abriu espaço para debate e dúvida: o não ensaio de Kerevi. Aos 46′ com um 16-14 a favorecer a equipa da casa, Kerevi consegue entrar na área de validação sul-africana e enrola-se com Goosen para marcar um ensaio que foi anulado por Owens depois de consultarem o TMO. Uns bons 5 minutos de conversa e análise da repetição do ensaio, deixaram ainda algumas dúvidas se Kerevi conseguiu “enterrar” a bola legalmente ou se acabou por perdê-la ou por tocar na linha antes de conseguir fazer os seus 5 pontos. Owens considera no-try, apesar de parecer duvidar da decisão que acabou de tomar. Mesmo assim, Owens soube dosear jogo, quando teve de dar um cartão amarelo deu (a Etzebeth, que fez o seu jogo 50 pela África do Sul, tornando-se o mais jovem de sempre a atingir esta meta nos Springboks) e garantiu um jogo bem disputado, sem erros e com a postura que o Mundo da Oval precisa de ver e aprender. Joubert, de 38 anos, tem muito que aprender com o seu colega Owens, com 45 anos… aliás tem todos que aprender com a postura e o nível que Nigel Owens obriga jogadores e técnicos a ter dentro e fora de campo.

A placagemKAINO WITH A SHOW STOPPER

Foi um fim-de-semana carregado de placagens e de reacções defensivas de grande qualidade, seja pela grande placagem de Kerevi a Goosen, de du Toit a Ginea, de Moroni a Retallick… mas a placagem que fica para a memória, foi a de Jerome Kaino a Moroni na 1ª parte do encontro entre Nova Zelândia e Argentina. Notem que não é uma placagem perfeita, nem como “está nos livros”, já que Kaino placa bem acima da cintura, ficando no limiar da falta, sem cair no erro de placar em falta, uma vez que a força e impacto com que “ataca” Moroni poderia resultar num cartão amarelo. Kaino soube esperar pelo momento perfeito para atacar Moroni que fica de peito aberto para o ataque do asa dos Blues. O impacto pode causar uma perda de bola ou, pior, uma lesão para o jogador que sofre esta placagem… todavia, Moroni demonstrou raça para aguentar com o “ataque” de Kaino e manter a oval em segurança. Pouco depois, vamos ter o 2º ensaio, que provem de uma excelente entrada de Julian Savea… se não fosse uma placagem de Matías Moroni às pernas do The Bus, tínhamos tido um bis do ponta dos Hurricanes. O ponta argentino dos Jaguares, demonstrou, mais uma vez, o porquê de ele ser um dos futuros dos Pumas… aguentar com Kaino, para depois “atacar” as pernas de Savea, só está ao alcance dos melhores deste desporto. Para Kaino, só basta dizer que com a idade parece estar melhor, sendo uma peça fundamental para estes All Blacks que estão a um pequeno passo de conquistar o Rugby Championship.

Detalhes: RUGBY, A GAME OF DETAILS

Vamos observar duas situações, uma de cada jogo da 3ª jornada do Rugby Championship: a saída de formação ordenada da Nova Zelândia e a forma como de uma defesa hábil se pode ganhar um ataque eficaz. Os All Blacks conseguiram 8 ensaios, dois deles tiveram o seu “berço” na formação ordenada. O 1º foi uma bola jogada entre Read e Aaron Smith, com Israel Dagg a realizar um falso, para Julian Savea receber a bola no espaço entre Sanchez e Hernandez. Mais tarde, aos 63′, Ryan Crotty vai receber de TJ Perenara, que tinha esperado pela saída e passe rápido de Kieran Read, para entrar no meio dos postes. É possível de analisarmos, que nesse momento a defesa argentina estava mais preocupada com a movimentação de Barrett ou as possíveis entradas/falsos de Savea ou Dagg, esquecendo-se do 1º centro dos All Blacks, que teve todo o espaço e tempo do Mundo para fazer o seu segundo ensaio do jogo. A Nova Zelândia é uma selecção que aperfeiçoou o básico, trabalha o máximo do impossível para atingir aquilo que chamaríamos perfeição, que para eles não passa da normalidade. A formação ordenada não falha, com 100% em três jogos, enquanto que o alinhamento só quebrou por 2 vezes em mais de 23 nesse sector. É aqui que os neozelandeses vão buscar o seu princípio de jogo, para depois atacarem nos outros sectores que tanto gostam, com os tais pormenores que fazem da Nova Zelândia a selecção mais entusiasmante de ver jogar. No outro jogo, houve um detalhe que “ensina” que uma defesa hábil, pressão intensa e inteligente pode converter um situação de risco num ensaio rápido. O 2º ensaio da África do Sul, de J. Goosen, nasceu dessa situação: a Austrália estava a escassos 10 metros de ir à linha de ensaio e encontravam-se todas as condições para que isso acontecesse, com uma superioridade crescente na linha (8 atacantes para 4 defesas) e com a África do Sul, aparentemente, perdida na defesa. Foley recebe a bola de Will Genia e quando devia ter a solto logo no imediato, opta por correr com a mesma e já encima da defesa atira um passe sem dinâmica, que Strauss, o talonador sul-africano, intercepta e joga para Jantjies, para o médio-de-abertura atirar um grubber para a corrida imparável de Goosen. Ensaio que nasceu numa situação defensiva bem trabalhada, que esperou pelo erro australiano para converter uma situação de perigo num momento de festejo, naquele que foi o 3º ensaio de intercepção em 6 jogos. Pena que não tenham conseguido manter o nível ao longo dos 80 minutos.


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