22 Mai, 2018

Guilherme Pina. “Sinto que os mundiais me vão correr bem”

João BastosJulho 6, 201711min0

Guilherme Pina. “Sinto que os mundiais me vão correr bem”

João BastosJulho 6, 201711min0

A menos de três semanas de se estrear num Campeonato do Mundo, o Fair Play conversou com o nadador masculino português mais jovem presente na Hungria. O nadador do Sporting, Guilherme Pina, contou-nos como está o seu estado de espírito antes da grande competição do ano

Guilherme, há 4 anos ingressaste no CAR de Rio Maior. Como foi essa mudança na tua vida com apenas 14 anos?

GP: Foi boa. Foi uma oportunidade única que consegui agarrar. Tinha sido campeão juvenil nesse ano e tinha ido à Taça Comen. Achei que podia apostar na natação mais a sério.

No CAR tive a possibilidade de conciliar o treino de alto rendimento com os estudos na Escola Superior de Rio Maior. Por isso, acho que foi uma óptima decisão.

Como também não estava muito longe de casa e já conhecia as instalações, a adaptação foi fácil. Para mim e para os meus pais que iam ter comigo sempre quisessem.

Lá encontraste um grupo de treino muito forte. Tem sido um dos principais factores da tua evolução?

GP: Sem dúvida. Tenho vindo a treinar com nadadores de alto nível e isso fez-me elevar o meu nível de treino. Por isso, é óbvio que foi um factor de evolução muito importante para mim.

Tens tido uma evolução notável. Há 3 anos nadavas os 1500 metros num tempo 1 minuto superior ao que fazes hoje. Com apenas 19 anos, como projectas o teu futuro? Até onde queres chegar? E qual é o teu maior objectivo de carreira?

GP: O maior objectivo são os Jogos Olímpicos em 2020. Até lá é subir um degrau de cada vez.

Agora tenho os mundiais, para o próximo ano tenho de continuar a evoluir e o processo tem de se fazer época a época.

Mas é um facto que ainda há pouco tempo comentava com o Aurélien [Gabert – treinador do CAR], quando entrei no centro fazia 16 minutos e 16 segundos e agora tenho 15 minutos e 15 segundos. Retirei 1 minuto e 1 segundo desde o escalão de juvenis. Se continuar assim…era óptimo!

Claro que cada vez é mais difícil melhorar os meus tempos, mas tenho de ir pouco a pouco.

Foto: Luís Filipe Nunes

Este ano chegaste ao Sporting e foste fundamental na obtenção do 6º título de clubes consecutivo. O que pesou nesta tua decisão de trocar o Benedita pelo Sporting?

GP: Houve alguns factores que me fizeram tomar essa decisão. A primeira foi a saída do Bruno Dias [antigo treinador do Benedita Sport Clube], que era a principal razão para eu representar o Benedita. Tenho uma relação muito forte com ele.

Da mesma forma, também alguns colegas meus saíram da Benedita, sobretudo os da minha idade e, ali, ia sentir-me um pouco sozinho.

O Sporting é um clube com o qual me identifico e gosto. O meu irmão nadou lá alguns e, para além disso sou sportinguista!

Como referiste, o Bruno Dias saiu da Benedita para ir precisamente para o CAR. Foi uma circunstância feliz para ti?

GP: Sim. Ele informou-nos antes do final da última época e agora treina os juniores no Centro de Alto Rendimento. Para mim é óptimo, porque como já disse, sempre tivemos uma excelente relação.

Para ele também significa uma progressão na carreira e para mim é muito bom poder continuar a contar com a proximidade dele.

Para além do acompanhamento do teu treinador, ainda tens outra pessoa importante que te acompanha de perto que é o teu irmão. É um apoio importante para ti?

GP: Sempre foi uma referência para mim. Ele também fez natação e sempre me orientou no início da minha carreira.

A natação sempre foi uma paixão que desenvolvemos em conjunto e ele sempre me deu dicas como devia nadar melhor e agora continua a ajudar-me também na vertente profissional dele, uma vez que exerce fisioterapia e está associado à natação.

Foto: Arquivo Pessoal

Já és destacadamente o melhor nadador português dos 1500 metros, mas esta época já vimos 7 nadadores portugueses a baixar dos 16 minutos (nunca tantos nadadores baixaram dessa barreira numa só época). Sentes que o nível em Portugal, nas provas de fundo, está a aumentar?

GP: Sem dúvida. Em Portugal há uma geração que está a vir que está fazer evoluir as provas de fundo. Se calhar com o nível que eu tinha juvenil, agora não ia conseguir ser campeão nacional como fui.

E é muito bom ver a competitividade das provas de fundo a aumentar.

Daqui a dois/três anos vou ter mais dificuldades em ser campeão nacional. Vamos ver…

Este ano bateste o record nacional dos 1500 metros, que já durava há 10 anos. Como foi a sensação de saberes que nunca um português nadou mais rápido que tu as 30 piscinas?

GP: Foi óptima. Foi o meu primeiro record nacional absoluto. Foi uma experiência que nem consigo descrever.

Já tinha esse objectivo. Com os tempos da época passada, já tinha em mente que esta época podia conseguir, mas nunca quis criar a ilusão, até porque comecei mal a época. Tive muitas vezes doente e os treinos não estavam a correr tão bem.

Depois dessa fase comecei a melhorar e aí comecei a ver que podia lá chegar. Nos nacionais tudo correu bem e no final, ao ver o tempo, foi uma sensação única. Foi uma prova bem gerida e no final consegui.

Foto: Luís Filipe Nunes

Desde essa fase menos boa da época até ao record nacional só passaram 3 meses. Dá-te confiança para o que falta da temporada, certamente.

GP: Sim, em Novembro não estava muito bem, mas a partir de Janeiro rapidamente comecei a sentir-me melhor nos treinos e sempre acreditei no processo.

A partir do momento em que senti que estava a progredir bastante no treino comecei a sentir-me muito motivado e a confiança subiu bastante até chegar aos nacionais. Desde esse momento, parece que tudo ficou muito mais fácil.

Em Coimbra sabia que tinha de fazer a prova perfeita para obter o 2 em 1: mínimo para os mundiais e record nacional. Tudo saiu conforme planeado.

Mas não vais, certamente, ficar por aqui. A barreira psicológica dos 15 minutos é das mais míticas da natação e foi quebrada pela primeira vez há 37 anos. É um objectivo teu a curto prazo?

GP: Penso às vezes. Se agora fiz 1:01 certinho de média, porque não poderei nadar em 1:00 certinho?

Acho que é possível. Mas claro que sonhar é fácil, a concretização nem tanto, mas eu acredito que vou conseguir lá chegar.

Ainda antes dessa barreira, os 8 minutos aos 800 metros é algo que já estará ao teu alcance, já que o teu RP é de 8:06, na passagem para os 1500. Esperas ter a oportunidade de nadar a prova nos mundiais?

GP: Essa é mais difícil de prever. Para mim é mais difícil nadar os 800 do que os 1500 porque é uma prova mais técnica e um bom nadador de 800 metros tem de ser também um bom nadador de 400 metros e os meus 400 não são muito fortes.

É uma prova mais exigente do ponto de vista muscular, mas o meu objectivo é melhorar o meu tempo. O meu melhor tempo é na passagem dos 1500, mas nos nacionais fiz pior na prova de 800. Também porque foi depois dos 1500 e estava muito cansado, mas acho que consigo, pelo menos, baixar dos 8:05, que é o meu objectivo para já.

8:00 já seria um tempo fabuloso.

Por falar em Mundiais, como está a correr a preparação para os primeiros campeonatos do mundo da tua carreira?

GP: Está a correr bem. Tirei uns dias de férias depois do Open de Espanha para “atacar” este último macro.

Comecei muito motivado, pelos resultados que tive. Pelo meio algum cansaço, mas nada de anormal. Sinto que os mundiais vão correr bem. Estou bastante optimista.

Quais são os objectivos?

GP: Os objectivos são bater os recordes pessoais nas duas provas. Nadar os 1500 metros abaixo dos 15:15 e assim bater de novo o record nacional e nadar os 800 abaixo de 8:05, o que também seria record nacional.

A nível de treino estou preparado para isso, mas vai ser a minha primeira prova internacional em sénior. Não sei o que vou encontrar nem sei como vou reagir, mas espero que corra tudo e consiga fazer as marcas que ambiciono.

Mas tu até tens um bom histórico a nível internacional. Já estiveste presente nos campeonatos do mundo de juniores, jogos europeus e europeus de juniores. Em todas essas competições respondeste com recordes pessoais. És um nadador que se transcende nos grandes momentos?

GP: É verdade, nos momentos certos sempre tive a concentração e a preparação para me conseguir superar, mas esta é uma nova realidade.

Quer em júnior, quer em juvenil, sempre melhorei os tempos na minha prova principal, mas agora são os campeonatos do mundo de absolutos. O nível é maior, vou ter atletas de topo ao meu lado e é a minha primeira participação a este nível. Por isso também vai ser um bom teste para mim, perceber se consigo reagir da mesma forma numa competição com esta envolvência.

Da minha parte, vou com a concentração e o foco com que sempre foi.

Foto: Arquivo Pessoal

E a pergunta inevitável: ainda faltam 3 anos para os JO de Tóquio, mas já sentes que a presença no Japão é um sonho que a cada dia se torna mais real?

GP: O mínimo baixou muito de Londres para o Rio e o nível da prova aumentou bastante no mundo inteiro. Já é bastante vulgar ver nadadores a fazer abaixo dos 15:10. Ainda agora nos Europeus de Juniores, três nadadores nadaram abaixo desse tempo.

Por isso, para estar em Tóquio sei que tenho de fazer melhor, mas penso nisso como uma escada. Agora atingi o degrau de uns Campeonatos do Mundo, tenho de continuar a subir degrau a degrau até chegar a Tóquio.

Esse é o meu objectivo e penso que se tudo correr bem, vou lá estar.

Há uma pergunta que parece óbvia fazer a um fundista mas nem é tanto assim: pensas experimentar as águas abertas?

GP: Eu já experimentei, mas não sei se seria bem sucedido porque sou muito magrinho e iria sofrer muito com o frio. Mas gostava de experimentar mais a sério, até porque já fui campeão nacional dos 5km indoor.

Os 10 km nunca fiz, mas talvez vá apostar para o ano no campeonato nacional de águas abertas, na prova de 5 km.

Quando fizeram essa pergunta à Katie Ledecky, ela disse que não era capaz de nadar AA porque ela é uma velocista dos 1500. Também vês as coisas dessa forma?

GP: [risos] Penso que quem treina para 1500 metros, consegue fazer, pelo menos, os 5 km.

Para terminar, a nossa pergunta da praxe: Achas que há Fair Play na natação?

GP: Eu acho que sim. Na natação portuguesa, sem dúvida nenhuma. Aqui na selecção somos todos muito amigos, e eu tenho um bom exemplo de Fair Play que foi quando nadei os 1500 nos últimos nacionais. Depois da prova vi o vídeo e nos últimos 200 metros vi toda a piscina a puxar por mim e esse é um sentimento muito bom, de fazer parte de uma família.

Na natação portuguesa sinto que há muito Fair Play, e sinto que todos queremos contribuir para a evolução da natação, daí que não interessa qual é o clube de quem está a nadar. Se quem está na piscina percebe que vai sair dali um bom tempo, todos apoiamos e vibramos muito com as provas uns dos outros.

Muito obrigado em nome do Fair Play e votos de muito sucesso!

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