21 Ago, 2017

Brasil Campeão em Carcavelos: O Mundialito em Análise

André CoroadoAgosto 4, 201625min0

Brasil Campeão em Carcavelos: O Mundialito em Análise

André CoroadoAgosto 4, 201625min0

O Mundialito animou a Praia de Carcavelos com a festa do futebol de praia. China, EUA e Brasil juntaram-se a Portugal no quadrangular realizado no fim-de-semana. Chineses sem ritmo e norte-americanos em crescimento ficaram longe das contas do título. Já o Brasil venceu Portugal num duelo épico, fazendo lembrar outros tempos.

Em pleno Verão no hemisfério norte, a época europeia de futebol de praia atinge o seu auge um pouco por todo o continente, multiplicando-se as competições domésticas e internacionais num número sempre crescente de países! Todavia, como em qualquer desporto, existem tradições que devem ser cultivadas pela preponderância histórica que apresentam enquanto agentes da projecção da modalidade. É o caso do Mundialito de Futebol de Praia, competição emblemática do panorama internacional que desde 1997 tem vindo a animar as praias lusitanas, gerando uma onda de entusiasmo por todo o país que esteve na génese da paixão pela modalidade em Portugal. Após um interregno de um ano devido à realização do Campeonato do Mundo FIFA 2015 em Espinho, a Federação Portuguesa de Futebol tornou a assumir a organização do evento, concretizando a 20ª edição do Mundialito entre 29 e 31 de Julho num local inédito: a mítica Praia de Carcavelos, que apesar de nunca ter recebido a prova representa o berço da modalidade em Portugal, tendo albergado durante mais de uma década os trabalhos da selecção nacional.

O Mundialito de Futebol de Praia 2016 afirmou-se, portanto, como uma grandiosa celebração da modalidade em Portugal, pautada por uma enorme emotividade no seio da família do futebol de praia luso e vivida de forma especialmente intensa pelos seus membros. Foi também um evento marcado por regressos, não apenas pelo retorno das competições internacionais a Carcavelos, mas também pela participação do Brasil, selecção com mais títulos na prova que estivera ausente nas 3 edições anteriores. Além dos dois rivais lusófonos, o lote de quatro equipas ficou completo pelas formações norte-americana e chinesa, que assim repetiram as presenças em edições anteriores. Paralelamente, foi disputada a primeira edição da Taça da Europa Feminina de Futebol de Praia, com a participação de 6 selecções europeias: Portugal, Espanha, Suíça, Inglaterra, Holanda e Grécia. Estavam reunidos todos os ingredientes para um espectáculo de proporções épicas na arena montada na Praia de Carcavelos!

Estádio do Mundialito na Praia de Carcavelos durante o Portugal vs Brasil [Foto: cascais.pt]
Estádio do Mundialito na Praia de Carcavelos durante o Portugal vs Brasil [Foto: cascais.pt]

Resultados

1ª JORNADA

Brasil 8-1 EUA

China 0-14 Portugal

2ª JORNADA

Brasil 16-0 China

Portugal 6-5 EUA

3ª JORNADA 

EUA 8-2 China

Portugal 4-6 Brasil

Portugal e Brasil confirmam favoritismo perante China e EUA

Os dois primeiros dias de competição viram as selecções de Portugal e Brasil, com maior ou menor dificuldade, suplantar a resistência chinesa e norte-americana. Lusos e canarinhos alcançaram, desta forma, os 6 pontos possíveis nas duas primeiras jornadas, transformando assim o duelo de Domingo numa verdadeira final do Mundialito. Neste ponto, se os jogos evidenciaram o desnível entre as equipas lusófonas e os adversários menos cotados, é igualmente pertinente situar as prestações de EUA e China em níveis diferentes, cabendo o lugar de destaque à turma americana.

De facto, os comandados de Eddie Soto demonstraram uma evolução táctica muito significativa em relação a eventos anteriores e apresentaram-se em boa forma física em Carcavelos, manifestando sinais de evolução rumo a um aproveitamento mais eficaz do potencial norte-americano. Por oposição, a China desiludiu desde o primeiro dia de prova, mostrando debilidades físicas que condicionaram muito o seu jogo, além de uma notória inépcia ofensiva. A nação oriental tentaria equilibrar as partidas com base no assinalável rigor táctico defensivo, que se provou manifestamente insuficiente para uma prova da natureza do Mundialito. Analisando os resultados e a história das partidas nos jogos frente a Portugal e Brasil, estas conclusões emergem de forma natural.

China esforçada sem estofo físico para o calor

A China mostrou-se claramente sem argumentos para responder ao poderio dos colossos Portugal e Brasil. Incapazes de resistir ao calor intenso que se fazia sentir na Praia de Carcavelos, os jogadores chineses até entravam razoavelmente nas partidas, demonstrando uma notável disciplina defensiva no 1º período, mas rapidamente se tornavam muito permeáveis defensivamente, sendo a goleada uma realidade inevitável. No caso de Portugal, a resistência chinesa foi quebrada por intermédio da marcação de dois pontapés de canto, em que as movimentações lusas desorientaram completamente a defensiva oriental. Portugal ainda chegaria ao 3-0 no decorrer do 1º período, sem impor um ritmo muito alto na partida, e continuaria a dominar o encontro a seu bel-prazer, deixando o resultado dilatar-se com naturalidade até ao 14-0 final. A classe dos jogadores portugueses tornou-se evidente, construindo jogadas de belo efeito, numa partida em que o maior destaque coube ao colectivo – só os guardiões Elinton Andrade e Tiago Petrony ficaram em branco.

Madjer bisou na partida frente à China [Foto: José Sena Goulão/EPA]
Madjer bisou na partida frente à China [Foto: José Sena Goulão/EPA]
 

Diante do Brasil, a China pareceu demonstrar uma evolução significativa, protagonizando uma exibição personalizada no 1º período, em que aliou a consistência defensiva a uma admirável força de vontade de construir algo. De facto, o resultado de 2-0 verificado no final dos primeiros 12 minutos e a escassez de oportunidades de golo para o Brasil denotava a qualidade do trabalho chinês, mas uma sucessão de erros defensivos crassos e a quebra física dos asiáticos no 2º período abriria caminho à goleada, perante um Brasil impiedoso. A expulsão de Liu no minuto 22, já com 7-0 no marcador, agravaria as dificuldades para a China, vergada por uns esmagadores 16-0 após 36 minutos de jogo. Lucão foi a estrela de serviço, revelando-se completamente implacável no aproveitamento das chances de golo de que dispôs, assinando 6 tentos. Do lado chinês, mais do que as falhas defensivas motivadas pelo cansaço, vale a pena realçar que os chineses não apontaram qualquer golo em dois jogos disputados. Ainda que tenham tido algumas oportunidades para tal em cada jogo, este registo não é coincidência, relacionando-se antes com a falta de opções de ataque. Incapazes de segurar a bola e baixar o ritmo de jogo, reféns de um sistema 3:1 muito rudimentar e sempre dependentes da reposição de bola por parte do seu guarda-redes, os chineses limitavam-se praticamente a tentar fazer a bola chegar ao seu pivô, que tentava encontrar um espaço para rematar à baliza.

Revolução táctica dos EUA pressiona Portugal

Os EUA, por seu turno, iniciaram a competição com uma prova de fogo diante do Brasil, num jogo em que nunca conseguiram verdadeiramente discutir o resultado e acabariam goleados. Todavia, os Beach Boys entraram bem em campo, equilibrando a partida durante o 1º período graças a uma consistência defensiva assinalável, fechando eficazmente os espaços para a sua baliza e anulando a velocidade dos alas brasileiros com base na entreajuda e na força física. Não obstante, a timidez dos americanos no plano ofensivo impedia-os de discutir o jogo de igual para igual, tendo o Brasil construído uma vantagem de 2 golos fruto da qualidade individual dos seus jogadores, sem qualquer resposta norte-americana. A machadada final chegaria no 2º período, quando a resistência das Stars and Stripes foi quebrada pela acção desequilibradora de Datinha: o número 10 brasileiro demonstrou porque é considerado um dos melhores do mundo da actualidade ao assinar 3 golos no espaço de 1 minuto, sentenciando a partida. Foi notória a desorganização defensiva dos EUA nesta fase do encontro, reflexo de uma queda anímica em face do avolumar do resultado, que por sua vez conduziu a novos erros defensivos, o último dos quais resultaria no 6-0 registado no final do período. Ainda assim, há que reconhecer o mérito dos norte-americanos, que não se desmembraram nos derradeiros 12 minutos, mantendo recuperando os índices de concentração no processo defensivo e tornando-se um pouco mais atrevidos no ataque, sendo o resultado final de 8-1 uma punição pelo terrível desempenho no 2º período e pela improdutividade ofensiva.

A partida contra Portugal trouxe uma equipa norte-americana com uma atitude muito distinta perante o jogo. Mantendo a coesão defensiva da partida anterior, os homens de Eddie Soto assumiram desde o primeiro minuto o objectivo de discutir a partida, mostrando-se ousados no ataque e visando constantemente a baliza de Andrade. Atacando geralmente em 3:1, o que constitui uma novidade recente na formação americana, mas recorrendo por vezes ao 5×4, os EUA demonstraram uma evolução táctica e uma postura pragmática na forma de encarar o ataque. Ao mesmo tempo, fizeram acompanhar o seu poderio físico de uma dose avultada de agressividade, por vezes excessiva, que utilizaram para travar a todo o custo as investidas dos atletas lusos, suscitando algumas situações indesejáveis que nem sempre foram geridas da forma mais conveniente pela equipa de arbitragem. Em todo o caso, a estratégia norte-americana produziu resultados, uma vez que a equipa dos EUA esteve na frente do marcador por 3 ocasiões, graças a uma assinalável rapidez de processos no ataque, acompanhada por uma eficácia notável. O capitão Nick Perera assumiu-se como o jogador chave da sua selecção, desequilibrando individualmente e distribuindo jogo no ataque, numa partida em que Santos também deixou boas indicações. O ciclo de vantagens americanas durou até ao 2º período, quando a eficácia se aliou à qualidade dos jogadores portugueses, possibilitando a inversão de um desfavorável 2-3 para um 5-3 mais condizente com a realidade da partida, tendo Belchior e Bê Martins desempenhado um papel fundamental. Seria expectável que a equipa das quinas aproveitasse esta boa fase no jogo para se impor na partida e assegurar imediatamente a vitória, deitando por terra as esperanças de uma meritória selecção americana.

Bruno Novo numa tentativa de remate acrobático frente aos EUA [Foto: Nuno Fox/Lusa]
Bruno Novo numa tentativa de remate acrobático frente aos EUA [Foto: Nuno Fox/Lusa]
 

No entanto, Portugal nunca conseguiu espelhar plenamente a supremacia do seu jogo, parecendo que a estratégia de desestabilização empreendida pelos jogadores norte-americanos prejudicara de alguma maneira a clareza de ideias da equipa portuguesa. Deste modo, os campeões do mundo acabariam por desperdiçar algumas oportunidades e nunca alcançaram uma vantagem mais confortável no marcador, mantendo vivas as aspirações dos EUA. A convergência destes factores, associada às carências supracitadas da arbitragem, levou a que o 3º período se revelasse mais equilibrado do que o esperado, tendo as hostes americanas forçado os pupilos de Mário Narciso a trabalhar arduamente para segurar uma vitória magra por 6-5. Ainda assim, os jogadores lusitanos, conscientes de que não estavam a conseguir colocar em campo a habitual fluidez do ataque e os níveis de acerto ofensivo desejados, souberam manter a concentração e definir as prioridades adequadas, mantendo a solidez defensiva graças à qual Portugal nunca perdeu o controlo do jogo.

Brasil vitorioso recupera Mundialito

Domingo, 31 de Julho de 2016. Chegava o dia da grande final Portugal vs Brasil, o jogo pelo qual jogadores, técnicos, organização e adeptos mais aguardavam, o clássico do futebol de praia mundial que decidiria o campeão do XX Mundialito de Futebol de Praia! Antes disso, tempo ainda para os EUA confirmarem a boa fase de crescimento na modalidade, protagonizando um triunfo consistente sobre a China por 8-2. Nick Perera foi o homem do jogo, ao apontar 5 golos (incluindo um chapéu perfeito na conversão de um livre), afirmando-se cada vez mais como a referência desta formação americana que finalmente parece ter encontrado o caminho certo rumo aos palcos mais altos do futebol de praia internacional. Acima de tudo, vale a pena destacar o rigor defensivo e a inteligência táctica que começam a marcar presença na equipa de Eddie Soto, ficando a expectativa para observar se darão seguimento à evolução apresentada. Os EUA seriam ainda premiados com a atribuição do prémio de melhor guarda-redes a Chris Toth. Do outro lado, a China tornou a protagonizar uma exibição decrescente, contendo o ímpeto americano nas etapas iniciais da partida e discutindo o resultado até ao início do 2º período (2-2, golos de Wan e Cai), mas acabando massacrada no 2º período de jogo, fisicamente impotente perante a intensidade imprimida pelos EUA na partida.

Já o embate entre Portugal e Brasil ofereceu um verdadeiro espectáculo de futebol de praia aos cerca de 2000 espectadores presentes nas bancadas da praia de Carcavelos, não sem antes o público brindar a selecção nacional com uma portentosa demonstração de apoio na cerimónia dos hinos, entoando o refrão d’ A Portuguesa num coro a capella, quando a música cessou prematuramente. Dentro de campo, as equipas corresponderam, protagonizando desde o primeiro instante um combate equilibrado, onde a qualidade do futebol de praia praticado foi nota dominante e o vencedor foi decidido nos detalhes. Nesse sentido, o Brasil alcançou com justiça a vitória e o título no mundialito, tendo sido a equipa que, no 2º e no 3º períodos, não cometeu erros defensivos, foi mais eficaz na concretização das oportunidades de que dispôs e, consequentemente, logrou traduzir em golos a superioridade que granjeou em determinadas fases do jogo.

Jogadores brasileiros festejam um golo na final contra Portugal [Foto: Lusa]
Jogadores brasileiros festejam um golo na final contra Portugal [Foto: Lusa]

Os momentos que definiram o jogo

Antes de mais, será pertinente lançar um olhar ao 1º período do encontro: jogadas de belo efeito de parte a parte, média de 1 golo a cada 2 minutos num verdadeiro jogo de parada e resposta, imprevisibilidade do marcador e toda a emotividade de um Portugal vs Brasil que deixara saudades entre os adeptos do mundialito. Conforme seria expectável atendendo às diferenças entre as duas selecções, o Brasil entrou mais pressionante, com mais posse de bola e procurando espaços que pudessem ser aproveitados pela velocidade das suas unidades mais desequilibradoras. Portugal implementou uma estratégia defensiva bem-sucedida, mantendo um bloco compacto e conferindo especial atenção às dobras por forma a encurtar o raio de acção da Canarinha. As iniciativas de ataque dos sul-americanos eram correspondidas de forma eficaz pelas rápidas saídas para o ataque da selecção lusa, que respondia à pressão alta dos homens de Gilberto Costa com um jogo mais directo do que o habitual: utilizando frequentemente os lançamentos de Andrade e procurando visar a baliza de Mão por via de um pequeno número de acções. Do outro lado estava uma equipa que sofrera apenas 1 golo na competição até ao momento e dava sinais de ter recuperado a disciplina defensiva do Brasil de outros tempos, mas nem isso impediu Portugal de chegar à liderança do marcador por 3 vezes ao longo do 1º período.

Vale a pena destacar o papel de Bê Martins, autor os 2 primeiros tentos lusos, que com a sua rapidez fulgurante furou a defensiva brasileira, correspondendo da melhor forma às assistências de Belchior, primeiro numa jogada de ataque rápido e depois na sequência de um pontapé de saída. Bruno Novo seria o autor do outro golo, obtido na sequência de uma pressão intensa na primeira fase de construção do Brasil. Por seu turno, os golos do Escrete chegavam sempre como uma rápida resposta à vantagem lusa. Não obstante o evidente mérito associado, surgiram quase sempre associados a erros portugueses que mancharam a prestação defensiva dos pupilos de Mário Narciso. Foi o caso do golo de Datinha, que surgiu livre de marcação em frente a Elinton Andrade; do pontapé de saída concretizado por Catarino, com a bola a embater na barreira e a entrar na zona central da baliza; e ainda do desvio de Bruno Xavier ao remate extraordinário de Mão no último segundo do período, punindo a ausência da pressão ao guardião brasileiro. Estas pequenas falhas justificavam o empate num jogo em que Portugal poderia ter chegado ao intervalo em vantagem, mas acima de tudo demonstravam a diferença entre as duas selecções que acabaria por ditar os sul-americanos como vencedores: o Brasil, cometendo menos erros e aproveitando melhor os do adversário, precisava de trabalhar menos para marcar o mesmo número de golos que Portugal.

Bê Martins e Belchior celebram um golo frente ao Brasil [Foto: Nuno Fox/Lusa]
Bê Martins e Belchior celebram um golo frente ao Brasil [Foto: Nuno Fox/Lusa]
 

A entrada no 2º período acabaria por se constituir como um dos momentos-chave do jogo, concedendo ao Brasil uma vantagem que nunca seria anulada por Portugal. A selecção Canarinha entrou bastante pressionante, enquanto Portugal corria mais riscos na saída de bola, o que acabou por culminar no lance do golo de Lucão. Tratou-se de um lance dúbio, em que deveria ter sido assinalada a infracção de “bola presa” ao ataque brasileiro, de acordo com o critério da arbitragem no 1º período. Porém, o golo foi um reflexo de uma reentrada algo intranquila de Portugal na partida e confirmou Lucão como melhor marcador do Mundialito, com 8 golos. E se é verdade que Portugal não perdeu a coesão defensiva após o quarto golo brasileiro, é justo reconhecer que a selecção das quinas sentiu algumas dificuldades na tentativa de desbravar caminho rumo à baliza de Mão, perante uma defensiva brasileira bem organizada que teve o mérito de segurar a vantagem.

Portugal procurava insistir nas combinações rápidas de Belchior e Bê Martins, que já haviam produzido resultados anteriormente, mas carecia do elemento de surpresa; já a outra equipa tentava tirar partido da visão de Alan e Bruno Novo, buscando muitas vezes Zé Maria, mas sem sucesso. Também o guardião Andrade se mostrou particularmente desinspirado, não só ao nível do lançamento mas principalmente na hora de montar o 5×4, através do qual Portugal foi sempre inofensivo. O Brasil, sem impor um ritmo muito elevado, ia tentando apanhar a defensiva lusa em contrapé. Ainda assim, num 2º período morno, foram algumas as oportunidades de parte a parte, sem qualquer influência no marcador.

Num 3º período jogado ao mesmo ritmo, com o Brasil em vantagem por 4-3, parecia que apenas um novo golo para um dos lados poderia voltar a animar a partida. Foi assim que, após Coimbra ter ficado muito perto do empate na conversão de um livre, Filipe assinou o quinto golo do Brasil, numa jogada em que a velocidade do número 5 canarinho levou a melhor sobre a defensiva lusa. Como seria de esperar, o golo reavivou a partida, acabando por despertar a equipa portuguesa para aquele que seria o seu melhor período no jogo em termos de produtividade ofensiva. Recorrendo novamente a um estilo de jogo mais directo, Portugal chegaria rapidamente ao 5-4, num imponente pontapé de bicicleta de Zé Maria. Sucederam-se então várias oportunidades para Portugal chegar ao empate, das quais se destacam novas acrobacias de Zé Maria e Madjer e os livres de Bê Martins e Belchior, cuja magia lhe valeu o prémio de melhor jogador do torneio.

Todavia, do outro lado o Brasil resistia heroicamente, defendendo de forma quase perfeita e mantendo-se à espreita, aguardando o deslize português para recuperar a vantagem de 2 golos. Esse momento acabaria por chegar, tendo Bruno Xavier apontado o 6º golo brasileiro num remate de muito longe após perda de bola lusa. Portugal era assim punido pela falta de eficácia e pelos riscos que corria num momento em que estava por cima do jogo. Até final, o Brasil soube gerir a vantagem de 2 golos, ameaçada apenas esporadicamente por Coimbra na sequência da marcação de pontapés de canto, sem qualquer efeito ao nível do 6-4 final.

Brasil e Portugal: Conclusões

Terminado o jogo, há que reconhecer com Fair Play o mérito da vitória do Brasil, pela forma como soube gerir os momentos do jogo e ser mais forte nos detalhes defensivos/ofensivos que definiram o jogo. A prestação defensiva do Brasil não só neste jogo, mas também em todo o mundialito, é digna de menção, com apenas 5 golos sofridos em 3 jogos, registo que constitui a face mais visível de um progresso notório em relação ao ano passado. Sob o comando técnico de Gilberto Costa, o Escrete revela disciplina ao nível dos posicionamentos defensivos, tanto em jogo corrido como em bola parada, sendo notórios o trabalho dos mecanismos de entreajuda entre os jogadores. A prioridade de pensar o jogo a partir da defesa esteve, portanto, bem evidente, assim como a tentativa de extrair o melhor de cada jogador com base em processos simples executados na perfeição. No comando técnico da selecção desde janeiro, o objectivo de Gilberto Costa (e da estrutura sólida que finalmente parece ter sido montada para o futebol de praia brasileiro) é claro: recuperar o Brasil dominador do passado para tentar o assalto ao título mundial nas Bahamas no próximo ano.

5 anos depois, o Brasil regressou ao Mundialito e venceu a prova [Foto: BSWW]
5 anos depois, o Brasil regressou ao Mundialito e venceu a prova [Foto: BSWW]
 

Por seu turno, Portugal perdeu em Carcavelos o segundo jogo e o segundo torneio consecutivo durante o ano de 2016, na sequência da derrota por 2-1 diante da Suíça na etapa espanhola da Liga Europeia disputada em Sanxenxo. Tratam-se de derrotas frente a duas das melhores selecções mundiais, que em nada envergonham os actuais campeões da Europa e do Mundo. Particularmente acerca do jogo do Mundialito diante do Brasil, existem muitos dados positivos a reter, mas também vários aspectos que estiveram na génese da derrota e que deverão ser rectificados futuramente para que Portugal cumpra os seus próximos objectivos.

Jordan lesionado: que soluções?

Aliado a todos os factores já referidos ao longo da análise do jogo, existe um dado pertinente que se relaciona com todos os outros: a ausência de Jordan. De facto, o jovem jogador nazareno, ausente por lesão, tem-se constituído cada vez mais como uma peça fundamental na manobra da equipa portuguesa, não só pelo seu contributo enquanto desequilibrador nato e portador de uma técnica fenomenal, mas também pelo seu papel na dinâmica defensiva da equipa, enquanto agente fundamental nas compensações e coberturas que assume no apoio aos colegas.

A ausência de Jordan foi colmatada por Mário Narciso de uma forma eficaz dentro do universo de possibilidades existentes, deslocando Bê Martins para o lugar de Jordan no cinco inicial a par de Torres, Madjer e Belchior e juntando os visionários Bruno Novo e Alan no apoio ao pivô Zé Maria na segunda equipa, que contava ainda com Coimbra. Se é verdade que Bê Martins cumpriu eximiamente as tarefas ofensivas de que ficara incumbido, apontando 5 golos naquela que foi provavelmente a sua melhor competição da época, deve também ser reconhecido que a primeira equipa não alcançou os níveis de segurança defensiva apresentados quando Jordan está presente. Com efeito, 4 dos 6 golos do Brasil foram apontados enquanto o cinco inicial estava em campo, estando praticamente todos associados a erros defensivos evitáveis. A segunda equipa, por seu turno, mostrou-se de um modo geral mais coesa do ponto de vista defensivo, salvo excepções pontuais, mas perdeu alguma capacidade de explosão no ataque, mercê da saída de Bê Martins. Decerto a capacidade de leitura de Bruno Novo e Alan, conjugada com a pujança física de Coimbra e o talento acrobático de Zé Maria, trouxe alguma imprevisibilidade ao jogo de Portugal, mas que a meu ver se provou insuficiente, por lhe faltar um elemento surpresa.

Jordan Santos falhou o Mundialito 2016 por lesão [Foto: Diogo Pinto/FPF]
Jordan Santos falhou o Mundialito 2016 por lesão [Foto: Diogo Pinto/FPF]
 

Com esta discussão não pretendo desculpar a derrota lusa exclusivamente com base na ausência de um membro da equipa, mas antes demonstrar que a indisponibilidade de um jogador por lesão prejudicou de um modo muito evidente o equilíbrio da equipa de Portugal, algo impensável para uma selecção campeã europeia e mundial. A qualidade dos 10 jogadores escolhidos para representar o país no Mundialito permanece inquestionável, inclusivamente pelas provas dadas nesta prova, sendo até mesmo difícil imaginar uma convocatória diferente. Esta representa uma parte importante do problema: a crónica falta de opções de jogadores selecionáveis para torneios internacionais de topo.

Quem são os outros seleccionáveis?

De facto, exceptuando Léo Martins, que integrou a comitiva dos 12 campeões mundiais e europeus, parece improvável neste momento a convocatória de outros jogadores. Note-se que as opções seguintes correspondem a Pedro Silva e Ricardo Baptista, que se estrearam recentemente ao serviço da selecção na Sal Beach Soccer Cup, onde contabilizaram alguns minutos, insuficientes, no entanto, para que possam ser vistos como potenciais seleccionáveis. A lista continua com Tiago Batalha, integrante da selecção que conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos Europeus, o guardião Bruno Henriques, presente na Copa Intercontinental 2014, e finalmente os experientes internacionais Lúcio Carmo e Duarte Vivo, que ultimamente não têm constado nas escolhas do seleccionador. A lista continuaria com outros jogadores presentes em estágios ao longo dos últimos anos que ainda não tiveram a sua oportunidade. Porém, mesmo aqueles que já vestiram a camisola de Portugal em campo parecem não constituir uma opção válida para as escolhas de Mário Narciso, não por falta de qualidade, mas por falta de experiência internacional e/ou competição ao serviço da selecção.

Esta realidade conduz à antecipação de problemas como a temática da renovação da selecção aquando das saídas de jogadores nucleares na equipa ou as carências provenientes da indisponibilidade de um jogador por lesão, como foi o caso. A solução não pode ser encontrada no imediato e tem de ser trabalhada ao longo do tempo, numa perspectiva de longo prazo, privilegiando a criação de condições para que os novos valores nacionais possam ser chamados mais frequentemente aos trabalhos da selecção e integrados num contexto competitivo. Só desta forma se prepara eficazmente o futuro e se antecipam soluções para imprevistos no presente.

Em todo o caso, a derrota perante o Brasil não é preocupante, uma vez que Portugal se bateu de igual para igual com o campeão sul-americano, perdendo a partida em detalhes que podem perfeitamente ser corrigidos durante as próximas semanas. Urge, isso sim, extrair as devidas ilações relativamente aos pontos débeis da prestação lusa para que a revalidação do título europeu e, principalmente, a qualificação para o campeonato do mundo do próximo ano sejam uma realidade.


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