19 Ago, 2017

A Europa do Futebol de Praia: Competitividade e Incerteza – Parte I

André CoroadoOutubro 19, 20169min0

A Europa do Futebol de Praia: Competitividade e Incerteza – Parte I

André CoroadoOutubro 19, 20169min0

Uma vez chegado o Outono no continente europeu, vale a pena parar para reflectir um pouco acerca do estado actual do futebol de praia no Velho Mundo, à luz da prestação das suas selecções nos sucessivos eventos que marcaram a época estival. Portugal, Rússia e Suíça serão os nossos primeiros “convidados”. Na Parte II debruçamo-nos sobre as restantes selecções europeias de topo.

Poderia afigurar-se-nos, como um bom ponto de partida, a tentativa de eleger a equipa mais forte da temporada europeia, ou pelo menos um par de selecções que pudessem merecer tal distinção. Todavia, se existe uma certeza que possamos recolher dos últimos 4 meses de competição, será o acentuado equilíbrio entre equipas de elite que pautou a disputa dos torneios, que culminou na completa imprevisibilidade do seu desfecho. Efectivamente, a hegemonia do continente encontra-se neste momento repartida, como nunca, entre um grupo cada vez menos restrito de selecções de elite, sendo o desnível entre elas muito escasso e altamente dependente de flutuações de forma ao longo do Verão.

Tal deve-se, em grande medida, à inexistência de uma selecção dominadora, que se destaque das demais ao ponto de afirmar sistematicamente a sua superioridade dentro de campo, traduzindo-a em vitórias e troféus. Desta vez, as duas grandes superpotências europeias da última década não conseguiram subjugar os rivais à sua lei. Refiro-me inequivocamente a Rússia e Portugal, que venceram os 3 últimos campeonatos do mundo. O domínio do futebol de praia europeu por estas nações entre 2007 e 2015 torna-se evidente ao constatar-se que, das 9 edições da Liga Europeia disputadas nesse período, 8 foram conquistadas por lusos ou russos, pendendo 4 taças de campeão europeu para cada lado.

Portugal

A selecção das quinas até iniciou da melhor forma a sua caminhada em 2016, mostrando-se resoluta a renovar o seu estatuto de líder da modalidade no velho continente quando, em meados de Junho, ergueu a Taça da Europa. Três vitórias sobre Espanha, Rússia e Itália constituíram uma manifestação clara de força dos campeões europeus e mundiais que, no entanto, não conseguiriam confirmar o novo ano de sucesso que o êxito inaugural augurava. Após uma prestação tímida na fase regular da Liga Europeia (7º lugar na classificação geral), uma nova dinâmica renasceria nos comandados de Mário Narciso na ponta decisiva da época, revelando consistência e qualidade exibicional notáveis na Superfinal Europeia e na qualificação para o campeonato do mundo. No final, o principal objectivo da época foi alcançado: sobrevivendo às batalhas dramáticas testemunhadas pelas areias venezianas de Jesolo, Portugal carimbou o passaporte para o mundial das Bahamas, onde terá a oportunidade de defender o ceptro global alcançado em Espinho no ano passado. Para o sucesso na recta final da temporada contribuiu em grande medida o regresso de Jordan, ausente a meio da época por lesão, a fenomenal dupla fraterna formada por Bê e Léo Martins, um momento fantástico de forma de Coimbra e a veia goleadora que permitiu a Madjer ultrapassar os 1000 golos com a camisola das quinas.

Madjer assinou o golo 1000 diante da Inglaterra. [Foto: BSWW]
Madjer assinou o golo 1000 diante da Inglaterra. [Foto: BSWW]
 

Ainda assim, os heróis das praias de Portugal não lograram a glória continental em nenhuma das competições. Os cinco escudos azuis acabaram por falhar a revalidação do título na Liga Europeia ao perder na final diante da Ucrânia e caíram aos pés da Suíça nas meias finais do torneio de apuramento para o mundial. Um dado estatístico relevante: em cada uma dessas partidas, Portugal marcou apenas 1 golo. De facto, não obstante a elevadíssima qualidade de jogo apresentada, patente na diversidade de soluções e na variabilidade táctica, a equipa lusa tem por vezes esbarrado na soberba organização defensiva dos adversários europeus. O conhecimento profundo da equipa portuguesa por parte destas equipas resulta num bloqueio eficaz das suas armas do ataque luso, que sente então dificuldades para contrariar tais estratégias defensivas.

Contas feitas, o balanço da prestação portuguesa é claramente positivo, constituindo-se como a selecção mais regular da Europa: a única que se manteve nos três primeiros lugares nas três competições europeias mais importantes, tendo nelas experimentado todos os patamares do pódio.

Rússia

A Rússia, por seu turno, viveu no Verão de 2016 a pior época da sua história, principalmente por ter falhado a qualificação para o campeonato do mundo – algo que não acontecia desde a estreia dos czares em mundiais, que remonta a Copacabana 2007. A eliminação do mundial veio coroar uma época de insucessos da selecção russa, apenas terceira classificada na Taça da Europa e na Liga Europeia. Não são maus resultados por si só, dir-se-ia mesmo que constituem uma prova da regularidade da selecção russa, arredada das finais por deslizes pontuais em duas partidas decisivas. No entanto, a última vez que os russos haviam falhado a conquista de todas as provas europeias fora em 2008, ainda sob o comando do antigo seleccionador Nikolay Pisarev, pelo que este triplo falhanço não pode deixar de causar alguma estranheza. Na qualificação para o mundial, os russos venceram todos os jogos excepto um: o embate diante da surpreendente Polónia. Os homens do Báltico têm causado muitos problemas aos homens de Mikhail Likhatchev nos últimos anos e desta vez cumpriram mesmo a ameaça, travando de forma enfática as aspirações imperiais dos soldados russos. Perante este contexto, poderiam colocar-se duas questões: Que causas motivaram este atípico desaire russo em todas as frentes de combate? Poder-se-á extrair daqui ilações sobre uma eventual quebra do futebol de praia russo?

A Rússia foi menos implacável em 2016 do que em anos anteriores. [Foto: InfoOggi.it]
A Rússia foi menos implacável em 2016 do que em anos anteriores. [Foto: InfoOggi.it]
 

Em relação à primeira, relembremos os antecedentes. Após a ascensão dourada do futebol de praia russo em 2011, ano em que o planeta se curvou perante a equipa capitaneada por Ilya Leonov, a equipa russa perdeu gradualmente o ímpeto quasi-invencível que a tinha propulsionado rumo ao trono mundial. Quando se poderia pensar que a hegemonia estaria em risco, a Rússia provou o contrário, vencendo sucessivamente novos troféus e revalidando o título mundial no Taiti 2013, para ser destronada enquanto superpotência por Portugal em 2015. O segredo russo para a manutenção da hegemonia baseou-se na disciplina e frieza patentes na abordagem ao jogo, possibilitando que uma equipa de processos simples e conhecidos por todos os adversários estivesse sempre mais perto da vitória, mercê da quase perfeita solidez defensiva, inteligência emocional exemplar e dinâmica colectiva sem precedentes.

Em 2016, a receita parece ter funcionado apenas pela metade, uma vez que, em jogos decisivos, a máquina não funcionou como se esperaria. Uma possível explicação poderá basear-se em alguma falta de ligação entre jogadores mais antigos e os jovens talentos que surgiram, uns e outros de qualidade técnica excepcional, mas sem que os níveis colectivos tenham mantido os padrões de outrora. Também a ausência de Bukhlistkiy, o mítico guardião russo, terá contribuído para uma maior vulnerabilidade dos russos. Apesar disso, desenganemo-nos: a nação do leste europeu mantém um papel preponderante no futebol de praia europeu, como se compreende analisando a regularidade das exibições e dos resultados ao longo da época. Os czares mantêm-se numa primeira linha de superpotências europeias juntamente com Portugal e, cada vez mais, a Suíça.

Suíça

Decerto surpreenderei muitos leitores ao destacar pela positiva uma equipa de classe mundial que se classificou em 6ª lugar na Taça da Europa e não ultrapassou a 7ª posição na Liga Europeia. No entanto, em termos de qualidade de jogo, evolução táctica, e maturidade competitiva, a Suíça constitui um excelente exemplo das boas práticas de trabalho do futebol de praia a nível europeu. Guiados pelo icónico Angelo Schrinzi, que nos tempos livres ainda consegue ser seleccionador do Taiti e dar um apoio especial às Bahamas, os helvéticos apresentaram-se em 2016 dispostos a fazer esquecer os maus resultados de 2015 e as saídas de jogadores como Leu ou Borer.

Misev, Ott, Spacca e Stankovic celebram um golo helvético. [Foto: Schweizerischer Fussballverband]
Misev, Ott, Spacca e Stankovic celebram um golo helvético. [Foto: Schweizerischer Fussballverband]
 

Capitalizando inteligentemente os seus recursos, a selecção suíça apostou fortemente no 2:2 enquanto seu principal sistema de jogo, do qual Stankovic emergiu novamente como goleador por excelência, secundado pela jovem revelação Glenn Hodel. Noel Ott, outro dos nomes sonantes da formação alpina, manteve um papel preponderante e cada vez mais polivalente, deixando o papel de pivô para desempenhar funções nas carenciadas alas e chegando até a experimentar – com sucesso – a posição de guarda-redes. A confirmação do ala Mickael Misev enquanto atleta de primeira linha completou a lista de ingredientes necessários ao sucesso da estratégia de Schirinzi, que viu a sua equipa crescer muito ao longo da época. Após um mau início de época na Taça da Europa (situação típica na equipa suíça), os helvéticos alcançaram a 2ª posição no ranking da fase regular da liga europeia. Na Superfinal em Catania (Itália), já em finais de Agosto, os suíços foram surpreendidos pela entrada fulgurante da selecção de Mário Narciso e por uma Itália muito combativa. No entanto, reergueram-se depois para derrotar a Rússia, iniciando um ciclo de 9 vitórias consecutivas que lhes valeria a concretização do sumo objectivo: o apuramento para o mundial, como vice-campeã da zona europeia.

Em conclusão, devemos reconhecer muito os méritos de uma equipa que, numa época, vence a Rússia, a Espanha e Portugal por duas vezes, crescendo ao longo da época e classificando-se em 2º lugar no maior evento do futebol de praia europeu.

Poderá encontrar a continuação deste artigo aqui.


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter