19 Ago, 2017

Lesões no CrossFit e o sensacionalismo da imprensa

Cláudia Espirito-SantoJunho 21, 20174min1

Lesões no CrossFit e o sensacionalismo da imprensa

Cláudia Espirito-SantoJunho 21, 20174min1

Técnicas mal executadas são perigosas. Maus treinadores são perigosos. Atletas com ego excessivo são perigosos. CrossFit NÃO é perigoso nem merece o estigma de ser uma modalidade que provoca lesões.

Acordar de manhã e ver que a Visão publicou um artigo, esta semana, espectacularmente intitulado:

“Um em cada 5 praticantes de CrossFit contrai lesões, especialmente na coluna”

http://visao.sapo.pt/atualidade/estudo-do-dia/2017-04-06-Um-em-cada-5praticantes-de-CrossFit-contrai-lesoes-especialmente-na-coluna

NOT OK.

Digo espectacular, porque o título de facto é só para dar espetáculo. O próprio artigo começa por dizer “Apesar da modalidade ser apoiada pelos médicos e fisioterapeutas, a execução errada dos movimentos pode levar a lesões no aparelho musculo-esquelético…”. Uma afirmação correcta, que salvo erro aplica-se a qualquer tipo de movimento mal executado ou posição menos correcta, que adoptemos nas nossas actividades recreativas, hobbies ou mesmo a dormir (aquele torcicolo?).

De facto, se lermos o artigo na integra, percebemos que o título absurdamente sensacionalista resume incorrectamente todas as informações, que são expostas nos 7 curtos parágrafos escritos para fundamentar tal parvoíce.

O problema é precisamente esse. Grande parte dos leitores não vai ler o artigo. Vai assimilar a informação do título e segregar uma modalidade cujo foco é saúde e bem estar, através de movimentos funcionais, variância e intensidade para o universo dos desportos que são apenas para pessoas “especiais” (e acreditem que neste estereótipo o “especiais” não é uma categoria favorável).

[Imagem: Crossfit Chicester]
 

Esquecendo de facto o título incorrecto e altamente inflamatório, é importante notar que o artigo da Visão remete para o estudo de Incidência de lesões e tendências entre atletas de CrossFit do Orthopeaedic Journal of Sports Medicine de 2014 – leia o estudo aqui – , saliento 2014 (estamos apenas em 2017). O estudo, quando lido do princípio ao fim, é na realidade extremamente interessante e começa precisamente por citar estudos que comprovam a eficácia e os excelentes resultados a nível de Fitness que o CrossFit tem. São ainda expostas as limitações do estudo e talvez seja importante extrair a informação MAIS pertinente da conclusão:

“Injury rates in CrossFit are comparable with established injury rates for other recreational or competitive athletes, with an injury profile resembling that of gymnasts, Olympic weight lifters, and power lifters. The increasing involvement of CrossFit trainers in coaching participants corresponds to a decreasing injury rate.”

Ou seja, a incidência de lesões no CrossFit não é superior à de outras actividades físicas. Atrevo-me a dizer: qualquer desporto, qualquer actividade que implique esforço físico ou tire o nosso corpo dos movimentos, que ele está habituado a executar, pode provocar lesões. Quantas hérnias não surgiram naquela mudança do sofá da sala do lado da televisão para perto da lareira, ou a pegar em crianças pequenas? Contudo não há artigos a dizer “1 em cada 5 mães tem lesões por causa dos filhos” – atenção que neste caso desconfio que os dados seriam mais 4 em cada 5 mães – tenho 3 filhos, falo com conhecimento de causa -.

Importante é avaliar as lesões no CrossFit comparativamente a outras modalidades desportivas e não ao sedentarismo carinhosamente apelidado de “mapling”, “jiboianço” ou “um dia bem passado no sofá”.

E de repente tudo muda de figura. Se pegarmos no gráfico do Especialista em Medicina Desportiva e praticante de CrossFit, Dr. Robert Oh, percebemos que na realidade é exactamente o contrário.  A incidência de lesões na prática de CrossFit é INFERIOR à do futebol, ténis, ginástica e mesmo a corrida.

Fonte: Dr. Robert Oh

Jornalismo tendencioso. NOT OK

Títulos sensacionalistas que põem em causa uma modalidade. NOT OK
Não saber escrever o nome da pessoa cuja modalidade estão a colocar em causa, escreve-se Glassman. NOT OK

Maus treinadores são perigosos. Artigos mal escritos também.


One comment

  • Pedro Mexias

    Abril 8, 2017 at 4:02 pm

    Artigo tendencioso com claros conflitos de interesse da autora. NOT OK.

    Reply

Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter